sexta-feira, 6 de julho de 2007

ANCHIETA, UM TERRÍVEL PARADOXO

O APÓSTOLO DO BRASIL


O padre José de Anchieta (1534 - 1597) é uma das personagens mais interessantes da História do Brasil.
Natural da Ilha das Canárias e tendo estudado filosofia em Coimbra, Anchieta chegou ao Brasil em 1553, com menos de 20 anos. Vítima de um problema na espinha dorsal, o jovem sofria de dores agonizantes, caminhava apoiando-se sobre um bastão e envolvia o tronco em faixas que lhe disfarçavam a corcunda.


Obra

Anchieta era fluente em espanhol, português e latim; para além de suas atividades religiosas, destacou-se como gramático, poeta, teatrólogo e historiador.
No Brasil, estudou imediatamente a língua indígena e logo escreveu uma gramática e um vocabulário tupi, bem como manuais em tupi, para utilização dos confessores e para assistência aos moribundos. Manejava a língua dos nativos para compor canções, poemas e peças teatrais, de caráter sacro, com o que procurava atrair os índios para o Catolicismo.
Seu primeiro livro, "De gestis Mendi de Saa", em latim e em versos, foi impresso em Coimbra em 1563, narrando a luta entre os portugueses de Mem de Sá e os franceses de Villegaignon, na cidade do Rio de Janeiro. Trata-se do primeiro poema épico de toda a América e é anterior à edição de "Os Lusíadas" (1572), de Luís de Camões.
Seu segundo texto impresso foi a "Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil”, com os fundamentos da língua tupi, publicada em Coimbra, em 1595.
Foi também autor de poesias em verso medieval, como o poema "De Beata Virgine Dei Matre Maria", mais conhecido como "Poema à Virgem", com 4.172 versos em latim, e de cantos piedosos, diálogos e autos, segundo o estilo de Gil Vicente, e, por isso, é considerado o iniciador do teatro e da poesia no Brasil.
São também importantes as suas cartas para Portugal e Roma, com ricas informações sobre a flora e a fauna, particularmente os peixes encontrados no Brasil.


Como pode?


No livro “O Povo Brasileiro”, Darcy Ribeiro menciona a guerra sem quartel entre os portugueses, com seus canhões e arcabuzes, e os indígenas brasileiros, que dispunham
apenas de tacapes, zarabatanas, arcos e flechas.
Uma guerra desigual, desumana até.
Darcy estranha o gosto dos cronistas da época em exaltar o heroísmo lusitano nessa empreitada de massacrar índios covardemente. Entre esses cronistas, está o padre José de Anchieta.
Escreve Darcy Ribeiro:

“Anchieta, descuidado da cordura que corresponderia à sua futura santidade, louva assim o bravo governador (Mem de Sá):


Quem poderá contar os gestos heróicos do Chefe

À frente dos soldados, na imensa mata:

Cento e sessenta as aldeias incendiadas,

Mil casas arruinadas pela chama devoradora,

Assolados os campos, com suas riquezas,

Passado tudo ao fio da espada.


Estes são alguns dos dois mil versos de louvação escritos em latim por José de Anchieta no poema “De Gestis Mendi Saa”.

Mem de Sá, o "Chefe", comandou um programa "civilizador" que destruiu cerca de trezentas aldeias indígenas na costa brasileira do século XVI.


Beatificação


José de Anchieta foi beatificado, em junho de 1980, pelo Papa João Paulo II.

Um comentário:

Luiz Oest disse...

Lembrando, ainda, que o governador Mem de Sá, ao chegar a Salvador, tratou logo de lançar uma terrível ofensiva contra as tribos de índios, localizadas no Recôncavo Baiano, culminando com a morte de cerca de 6.000 mil indígenas. Este fato foi conhecido como a Guerra de Paraguaçu, ocorrida em setembro de 1558, uma espécie de preliminar do conflito deflagrado, tempos depois, contra os franceses instalados no Rio de Janeiro. Aliás, Mem de Sá, terceiro Governador-Geral, tornou-se um dos homens mais ricos do Brasil no século XVI, e também um dos mais acusados de corrupção.