sábado, 13 de janeiro de 2018

GIORDANOBRUNO (II)



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 Quando o advertiam de que suas ideias opunham-se ao que se preconizava nas Escrituras, Giordano Bruno respondia que os textos religiosos não eram referências infalíveis ou obrigatórias, tanto que neles se omitiam completamente as Américas e seus povos, cuja existência dizia ser incompatível com o relato bíblico da Arca de Noé.              

             -  A Biblia deve ser observada por seus ensinamentos religiosos, não por suas declarações sobre astronomia

Com pensamentos assim ousados, Giordano Bruno iria pagar um preço elevado, sobretudo porque, excelente orador, atraía e convencia multidões. Regressou à Itália com o propósito de instalar-se em Veneza, convidado que fora por um nobre chamado Giovanni Moncenigo, sem perceber que se tratava de uma armadilha. Foi preso e encarcerado pelo Santo Ofício, permanecendo sete anos sob humilhação e tortura, até ser levado a julgamento perante o Tribunal da Inquisição. Em sua defesa, apelou para sua condição de filósofo, assim como  Aristóteles e Platão, cujas ideias nem sempre coincidiam com o que se estabelece nos textos sagrados. O cardeal Roberto Bellarmino, consultor do Santo Ofício, o mesmo que anos mais tarde atuaria no caso de Galileu, propôs-lhe que se retratasse, de maneira a livrar-se de uma condenação rigorosa. Audaciosamente, Bruno respondeu:

          -  Não tenho motivos para retratar-me.

          O papa Clemente VIII não se conteve diante dessas palavras e determinou que as autoridades seculares cuidassem do seu caso, tratando-o de "forma tão misericordiosa quanto possível, evitando derramamento de sangue." 

          -  Uma senha cheia de eufemismo, perversa e irônica, que significava morte na fogueira.
 
Alguns dias antes da execução, Giordano Bruno teria dito a seus carrascos:

         -  Essa sentença, pronunciada em nome do Deus da misericórdia, assusta mais a vocês do que a mim!

            Queimado vivo, aos 52 anos de idade, no Campo das Flores, em Roma, no ano de 1600, com a boca amordaçada para que não pudesse dirigir-se à multidão, Giordano Bruno deixou-se imolar, como herói e mártir do livre-pensamento. Com ele, a filosofia começaria a libertar-se da religião, favorecendo o nascimento da ciência Moderna.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

GIORDANOBRUNO (I)

 
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A primeira voz discordante em relação às imposições científicas da Igreja foi a do franciscano Roger Bacon (1214-1294), de Oxford, que não aceitava as ideias de Aristóteles, nem o modelo científico construído para adaptá-las ao cristianismo. Para ele, era necessário obter respostas pelo método científico, que se fundamenta na observação, hipótese, experimentação e necessidade de verificação independente. 

            - Se dependesse de mim, queimaria todos os livros de Aristóteles, cuja leitura é pura perda de tempo e só nos leva ao erro e à ignorância.

            Acreditava Roger Bacon que a ciência, utilizando as leis matemáticas, poderia servir aos interesses do homem, que, no futuro, seria capaz de deslocar-se em carros motorizados e, quem sabe, até voasse. Seus argumentos contra as ideias de Aristótoles foram reunidos nos livros Opus Majus, Opus Minor e Opus Tertium, que ingenuamente enviou ao papa Nicolau IV, encadernados à perfeição. Deu-se muito mal, pois, em vez de elogiado, Roger Bacon foi acusado de fabricar "novidades perigosas" e condenado a doze anos de prisão. 

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            Sorte pior estava reservada, três séculos depois, para Giordano Bruno (1548-1600), um intelectual italiano que nasceu em Nola, no sul da Itália, e estudou no Convento Dominicano de Nápoles, ordenando-se padre em 1572. Bruno foi influenciado tanto pelas ideias de Lucrécio, que defendia o atomismo de Leucipo e Demóstenes, contra os quatro elementos, de Empédocles, como pelas ideias de Nicolau de Cusa (1401-1464), um cardeal da Igreja Católica Romana, autor da obra Da Douta Ignorância, que, como Roger Bacon, opunha-se ao sistema geocêntrico e defendia o uso dos cálculos matemáticos na descrição dos fenômenos físicos.     
           Depois de formado, Bruno perambulou pela França, Inglaterra, Suíça, Alemanha e Tchecoeslováquia, dando aulas de filosofia e contestando as ideias de Aristóteles, o que o expunha a reações exacerbadas que sempre o obrigavam a fugir em busca de novos abrigos. Um dos primeiros copernicanos da Itália, Bruno rejeitou a teoria geocêntrica e pelas suas ideias avançadas colocou-se à frente de Copérnico, que, ao tirar a Terra do centro do Universo, continuou, não obstante, a admitir que o Universo era limitado por uma esfera de estrelas fixas, segundo o modelo preconizado por Aristóteles.
 Nas concepções de Giordano, o Universo seria infinito e povoado por milhares de sistemas solares, ou seja, outras estrelas também teriam seus planetas, muitos dos quais com vida inteligente.

-  Deus e o Universo são uma única e mesma coisa. Tudo é Deus, e Deus está em todas as coisas.  
             
Por sua intuição extraordinária, Bruno estava adiante de seu tempo e é considerado um pioneiro da filosofia moderna, tendo influenciado Descartes, Espinosa e Leibniz. Tinha a ambição de construir um embasamento filosófico que se coadunasse com as grandes descobertas científicas de seu tempo. Aos que estranhavam suas opiniões, o filósofo perguntava: 

-  Quais são os fundamentos da certeza?