sábado, 2 de setembro de 2017



NICOLAU COPÉRNICO

 

            Na Idade Média, que a tradição estende de 476, ano da desintegração do Império Romano do Ocidente, até 1453, quando se deu a tomada de Constantinopla pelos turcos, prevaleceram o sistema de produção feudal, as relações de vassalagem e suserania e a supremacia espiritual da Igreja Católica, que, no interesse de preservar a integridade das Sagradas Escrituras, impunha o que deveria ser aceito em termos científicos, subordinando a ciência à interpretação dos textos sagrados. Uma atuação sem nenhum balizamento. Chegado,porém, o século XIII, a física de Aristóteles foi resgatada por São Tomás de Aquino (1227-1274) e Alberto Magno (1206-1280) e integrada à fé cristã com o nome de “escolástica”, que teve o cuidado de descartar as ideias aristotélicas conflitantes com os dogmas católicos, como a eternidade do mundo, contrária à doutrina da criação, e o fatalismo astrológico, contrário à doutrina da onipotência divina. Em termos de cosmologia, prevalecia o “modelo da perfeição”, que se caracterizava pelo tamanho reduzido do Universo, a distinção entre um mundo supralunar e um mundo sublunar, a esfera das fixas, a centralidade e fixidez da Terra e o movimento circular e uniforme dos astros, e se exprimia quantitativamente utilizando os artifícios matemáticos de Cláudio Ptolomeu. Esse modelo perfeito passou a ser contestado de modo frontal a partir de 1514, quando Nicolau Copérnico (1473-1543) fez circular entre seus amigos um manuscrito de 20 páginas, a que chamou de "Commentarioulus" ("Pequeno Comentário"), o qual revolucionou a astronomia, ao postular os pontos a seguir:

            - A Terra não é o centro do Universo.
                - O centro do Universo fica próximo do Sol.
                - A distância entre a Terra e o Sol é insignificante, se comparada com sua distância às estrelas.
                - O movimento diário das estrelas é apenas aparente, como resultado da rotação da Terra em torno do seu eixo.
                - Todos os planetas giram em torno do Sol.
- A sequência anual aparente dos movimentos do Sol é o resultado da revolução da Terra em torno dele.
                - O movimento retrógrado de alguns planetas é também aparente, pois resulta de nossa posição de observadores colocados numa Terra em movimento.
                - A Lua, somente ela, gira em torno da Terra.

            Quase despercebido, o manuscrito tirava a Terra, e consequentemente o homem, do centro do Universo, rebatendo-nos para a sua periferia. De acordo com o historiador Dick Teresi, em seu livro Descobertas Perdidas, foi esta a realização científica mais importante registrada na história ocidental.
Copérnico não publicou o "Commentariolus", por temer a reação da Igreja Católica, mas continuou aprimorando seus cálculos, de maneira a expandir o manuscrito para cerca de 250 páginas. Nos seus estudos, utilizou dois teoremas matemáticos que não eram então conhecidos, sem que se saiba se ele próprio os elaborou ou se os tomou dos árabes ou de alguma outra cultura não-grega.  O trabalho, concluído por volta de 1530, permaneceu inédito até o ano de sua morte, em 1543, quando foi à impressão, em Nuremberg, com o nome de “De Revolutionibus Orbium Coelestium”. Infelizmente, porém, a publicação incorporou um prefácio introduzido sub-repticiamente pelo encarregado da edição, Andreas Osiander, no qual a teoria que se publicava foi apresentada como um mero algoritmo para facilitar os cálculos das distâncias entre os astros.

- O modelo centrado no Sol não passa de um artifício matemático, que serve aos cálculos, mas não corresponde à realidade. A Terra é o centro do sistema planetário, não o Sol, dizia o prefácio traiçoeiro.

 
            Esse texto indevido afirma o contrário do que defendido durante a vida inteira por Copérnico, que recebeu um exemplar do livro em seu leito de morte e não deve ter percebido o que se continha no prefácio. Uma impostura que só foi reconhecida mais de sessenta anos depois, quando Johannes Kepler denunciou o fato em seu livro "Astronomia Nova", de 1609.