sábado, 30 de março de 2013

PARTICIPEI COMO PENETRA


UMA FESTA DE MILIONÁRIOS
 
- A tudo assisti, quase na condição de penetra.

- De fato?

- Esqueceram de cancelar uma aula de Inglês que eu daria para o caçula da Valéria. Compareci, sem saber da festa, mas insistiram para que eu permanecesse.

- Você é um cara de sorte... 

- Primeiro, um divertido torneio de mágicas, e até hoje não sei explicar como a dama de copas, picadinha, foi parar na bolsa da Maria Castegliani, toda reconstituída.  Ângela Soares, no segundo evento,  declamou uma poesia de Manoel de Barros:

“Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.
O dia vai morrer aberto em mim.”

- Essa poesia é de Manoel de Barros?  Onde?

- No "Livro das ignorãnças". No evento final, os líricos Beniamino Prior e Katia Ricciarelli, que então visitavam o Rio de Janeiro, cantaram, à capela, “Parigi, o cara, noi lasceremo”, do terceiro ato da Traviata.

 - E então?

- Essas festas existem, e a gente não sabe...

quarta-feira, 27 de março de 2013

DEUS NÃO JOGA DADOS

Joga ou não joga?


 
- Vamos jogar dados?

 Inconformado com a incompatibilidade entre a relatividade e a física quântica, pois não aceitava que os fenômenos quânticos pudessem ser regidos pelo acaso, Einstein passou as últimas décadas de sua vida buscando uma teoria, a teoria do tudo ou teoria das teorias, que unisse as quatro forças fundamentais da natureza, a saber, gravidade, eletromagnetismo, força forte e força fraca.

- Deus não joga dados, protestou ele, ao perceber as reais implicações do caminho que ele indicara em 1905, no momento da constatação da natureza dual da luz. 
 
Einstein tinha a esperança de fazer prevalecer sua visão de mundo, que comporta realismo local e determinismo, e não um sistema quântico dual e regido pelas probabilidades. Não conseguiu construir essa teoria das teorias, e a tarefa ainda hoje mobiliza milhares de físicos no mundo inteiro. 

A unificação das quatro forças da natureza, que tanto se busca, parece ser um exercício restrito à teoria, sem possibilidade de demonstrações práticas, uma vez que as pressões e temperaturas necessárias à pretendida unificação, próximas daquelas que prevaleceram logo após o Big Bang, exigiriam um acelerador de partículas de dimensões inimagináveis, talvez maior do que a própria Terra.


sábado, 23 de março de 2013

NOSSAS CERTEZAS FUNDAMENTAIS


 
Lorde Kelvin: tudo!

Até o início do século XX os físicos tinham um método, a observação, e um conjunto de leis, a mecânica clássica de Newton, que segundo se supôs eram capazes de explicar perfeitamente o Universo. Tanto que em 27 de abril de 1900 o físico escocês Lorde Kelvin, muito conhecido por haver introduzido o conceito de temperatura absoluta, comunicou às autoridades britânicas que a Física já conhecia praticamente tudo o que havia de importante no Universo. Aos físicos do futuro caberia, de fato, descobrir os pormenores complementares de uma estrutura conhecida, não mais que isso. 
 
- A ciência já descobriu o quê? 

 
- Tudo!


- Tudo?
Se não tivesse falecido logo depois, em 1907, o bravo Lorde Kelvin iria se decepcionar muito com o que se descobriu a seguir, quando se demonstrou de maneira impiedosa a fragilidade do seu enunciado e das suas convicções. 

Einstein, com sua relatividade especial, já em 1905, provou que somos enganados pelos sentidos, o que coloca em cheque as nossas observações, e, com a relatividade geral, em 1915, reformou a teoria newtoniana, cuja lei da gravitação apenas quantifica corretamente o que Newton percebera de modo incorreto, pois a matéria não atrai matéria. Newton acertava nas contas, mas errava na interpretação, pois o que ocorre é que a matéria deforma o espaço, que, assim deformado, indica o caminho a ser seguido pela própria matéria.
 
Ainda em 1905, Einstein, ele de novo, reconheceu a natureza dual da luz, que é ao mesmo tempo onda e partícula, sem saber que estava inaugurando o caminho da mecânica quântica, a qual se rege pela indeterminação e pela complementaridade. 
 
- Ou seja, não há objetividade nos fenômenos físicos... 

 
Baqueavam, de uma só vez, o dogma da infalibilidade da mecânica newtoniana e o poder absoluto das nossas observações.



quarta-feira, 20 de março de 2013

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS

BOLA DE SEBO


Guy de Maupassant foi autor de três centenas de contos, a seu tempo o autor mais lido em todo o mundo. Morreu com apenas quarenta e três anos, vitimado pela sífilis. Algumas de suas obras-primas são “O Colar de Esmeraldas”, “Mademoiselle Fifi”, “A Pensão Tellier” e, certamente, “Bola de Sebo”. 

Na carruagem francesa, uma prostituta, que atende pelo nome pejorativo de Bola de Sebo, é hostilizada pelos demais passageiros, que são senhoras e senhores burgueses, de muita hierarquia e nenhum valor. Em certo instante da viagem um oficial do exército invasor detém a carruagem e ameaça retê-la indefinidamente, a não ser que Bola de Sebo concorde em passar uma noite com ele. Isto não está nos planos da prostituta, que, entretanto, é pressionada a ceder àquele desígnio pelos demais passageiros, que nesse mister recorrem a expedientes de persuasão e hipocrisia. Após muito relutar, Bola de Sebo percebe que não tem saída, entrega-se ao comandante, que, uma vez atendido, autoriza o prosseguimento da viagem. Como se nada tivesse ocorrido, no restante do percurso os passageiros retomam a atitude superior e hostil, desprezando, como antes, a pecadora vulgar.

"Bola de Sebo" é o conto do trocadilho entre “Loiseau vole” e “l’oiseau vole”, que Maupassant construiu porque havia um Loiseau entre os passageiros. Pois em francês “voler” significa tanto voar como roubar.

- O senhor Loiseau rouba?

- Isso eu não sei, não, senhor. Eu apenas disse que o pássaro voa. 

"Bola de Sebo", na verdade uma lenda urbana, inspirou muitas narrativas, entre elas o filme "No Tempo das Diligências" (“Stagecoach”), de John Ford, de 1939, com John Wayne e Claire Trevor.

- Fez sucesso?

- Muito sucesso, como todos os filmes de John Ford. "Stagecoach" foi visto quarenta vezes por Orson Welles, que o considerou a síntese de todos os “westerns”.

 
 Claire Trevor
 

sábado, 16 de março de 2013

DE ONDE VEIO A PALAVRA "QUARK"?


  MESTRE PRÓTON E MESTRE NÊUTRON



Três quarks para a moça bonita

O físico novaiorquino Murray Gell-Mann, que é um dos homens mais cultos da atualidade, descobriu em 1963 que tanto o próton quanto o nêutron são constituídos de três partículas elementares, a que deu o nome de “quarks”.  A façanha lhe proporcionou o Nobel de Física de 1969.

- Murray, de onde veio essa palavra, "quark"?
 
- Li no Finnegans Wake, de James Joyce, a frase “three quarks for Muster Mark”, dirigida a um garçom. A palavra “quark” significa “pio da gaivota”, mas, no contexto de Joyce, pode-se admitir que tenha sido usada com o sentido de “quart”, uma medida para líquidos, em cujo caso a frase tem o significado de “três quartos (de bebida) para Mestre Mark”. Decidi chamar a partícula descoberta por mim de “quark” porque tanto o próton quanto o nêutron são sempre formados por três quarks. Então, nas minhas aulas posso dar a receita dos prótons e nêutrons.

- E qual é essa receita? 

- Três quarks para Mestre Próton e três quarks para Mestre  Nêutron.

Ou seja, Gell-Mann situou James Joyce no coração do átomo.


quarta-feira, 13 de março de 2013

MAYER VERSUS JOULE





O  médico alemão Julius-Robert von Mayer (1814-1878), um dos pais da termodinâmica, foi o primeiro a perceber que a energia nunca é criada nem destruída, mas transformada de uma forma para outra.

O Universo é um sistema fechado e de energia constante, distribuída na luz do sol, no petróleo, nas plantas, nas barragens - energia  nuclear, energia mecânica, energia química, energia elétrica... Energia por toda parte,  mudando de forma, mas conservando-se durante o processo. 

Mayer nasceu no distrito de Heilbronn, no estado de Wurttemberg, na Alemanha. Foi também o autor dos estudos que permitiram estabelecer uma equivalência entre trabalho mecânico e calor.  Quase se matou quando soube que o crédito pelas suas descobertas fora conferido ao físico britânico e fabricante de cerveja James Prescott Joule.  

 Mayer foi realmente preterido, e isto se deveu ao preconceito contra a Naturphilosophie, pois se dizia então, mais do que agora, que os alemães só pensavam na unidade fundamental da natureza, “esse romantismo metafísico de Goethe”.