sexta-feira, 11 de maio de 2007

OBRA E TRAGÉDIA DE LAVOISIER

Uma obra fundamental

Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794) foi o fundador da Química moderna. Seus feitos científicos são numerosos: criou os conceitos de substância pura, elemento químico e equação química; fez os primeiros estudos da Química Orgânica; propôs uma nomenclatura científica para os elementos e substâncias; publicou uma tabela com 32 elementos químicos, dos 92 que hoje se sabe existirem em estado natural; criou os termos oxigênio, hidrogênio e azoto; descobriu a composição da água, do ar e do gás carbônico; provou, em colaboração com Pierre-Simon de Laplace, que a respiração animal é uma forma de combustão interna sob a ação do oxigênio; obteve o hidrogênio por ação do ferro em vapor de água; inventou, ainda em colaboração com Laplace, o calorímetro de gelo; eliminou da Química a teoria do flogisto ou flogístico, um fluido hipotético que, segundo se acreditava, era liberado pelos corpos durante o processo da combustão; intuiu de forma genial sobre a reação básica que ocorre na fotossíntese da matéria vegetal; e estabeleceu o Princípio da Conservação da Matéria.
Lavoisier, que era muito rico, herdeiro de uma grande fortuna tanto quanto sua mulher Anne-Marie Pierrete Paulze, despendia grandes quantias na construção de aparelhos de laboratório, entre os quais pelicanos e balanças de alta precisão, que ainda hoje se encontram nos museus da França.
Após a queda da Bastilha, a Assembléia Nacional instituiu uma comissão para estabelecer um sistema internacional de pesos e medidas, integrada por Lavoisier, Condorcet, Borda, Lagrange, Tillet, Laplace e Monge; foi essa comissão que criou o metro, correspondente à décima milionésima parte do quadrante terrestre, e o quilograma-massa, construído para ser equivalente à massa, à temperatura de 18 graus Celsius, de um litro de água destilada.
Em 1789, o ano da Tomada da Bastilha, Lavoisier publicou o seu extraordinário Tratado de Química Elementar, no qual se contêm as bases de toda a Química moderna; nele Lavoisier explica o seu Princípio da Conservação da Matéria, que lhe valeu enorme prestígio mundial, sendo certo que pouca gente não terá ouvido alguma vez que

na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”.

Lavoisier foi também proprietário rural, com mais de mil hectares de glebas em Freschines, perto da cidade de Blois, onde desenvolveu experiências agrícolas com o mesmo zelo que usava nos trabalhos de laboratório. Como político, foi suplente de deputado dos Estados Gerais e secretário do Tesouro.
Um amigo e discípulo de Lavoisier, Eleuthère Irénée Dupont de Nemours, tendo emigrado em 1800 para os Estados Unidos da América, fundou no Estado de Delaware a Du Pont de Nemours & Co, hoje um dos maiores conglomerados industriais do mundo.

Uma tragédia para a ciência

Lavoisier morreu guilhotinado, vítima do regime do Terror, que se instalou na França entre 1793 e 1794, ao tempo de Robespierre. Por ser cobrador oficial de impostos de Luiz XVI, uma função tornada mais impopular porque o clero e a nobreza gozavam do privilégio da isenção, Lavoisier acabou sendo injustamente acusado de peculato. A esse respeito, um antigo funcionário da Receita, Mollien, relatou na ocasião que não havia nenhuma dúvida quanto à inocência de Lavoisier, que não deixou "uma única objeção sem resposta, um único cálculo sem refutação, uma única justificativa sem prova."
De fato, as alegações contra Lavoisier eram irrelevantes, configurando um revanchismo dos que se viram prejudicados por sua atuação como coletor de impostos ou a sanha dos que lhe tinham inveja por sua fortuna e seus êxitos pessoais.

Tinha também contra si o ódio de Jean Paul Marat, que era médico e cientista, antes de se tornar o panfletário da Revolução Francesa. Em 1780, ou seja, antes do Terror, Marat submetera à Academia Real das Ciências um trabalho científico, pretensioso e equivocado, a que deu o nome de "Pesquisas Físicas sobre o Fogo"; nele Marat defendia ingenuamente que o fogo era a manifestação de um fluido especial, o fluido ígneo, cujas sombras produziriam as formas trêmulas das chamas. "Uma vela, defendia ele, confinada num espaço limitado, apaga-se porque o ar, dilatado pela chama, comprime-a e a abafa."
Esse trabalho foi recusado por orientação de Lavoisier. Embora corriqueiro, o fato foi decisivo para levar Lavoisier à guilhotina. Pois Marat assumiu o papel de principal acusador, com seus artigos raivosos e desproporcionais.
Para além de outros textos injustos e grosseiros sobre Lavoisier, eis o que Marat escreveu no seu jornal “L’Ami du Peuple”, em setembro de 1791:

“Denuncio-lhes o corifeu dos charlatães, o senhor Lavoisier, filho de um sovina, aprendiz de químico, aluno do agiota genebrino, coletor-geral de impostos, diretor da pólvora e do salitre, administrador da Caixa de Descontos, secretário do Rei, membro da Academia de Ciências, íntimo de Vauvilliers, administrador infiel da subsistência e o maior intrigante do século.”

O grande cientista foi condenado, e sua execução ocorreu em 8 de maio de 1794. “A república não precisa de gênios”, disse o juiz que o condenou.
Lavoisier não recebeu nenhuma solidariedade de antigos colaboradores e colegas acadêmicos, com a honrosa exceção do matemático Joseph Louis de Lagrange. No dia seguinte à execução, Lagrange expressou a sua mágoa com as seguintes palavras, que se tornariam famosas:

Bastaram alguns instantes para cortar a sua cabeça; mas cem anos talvez não sejam bastantes para produzir outra igual.”

Um comentário:

Elisabete disse...

Parabéns pelo artigo, muito esclarecedor e de certa forma um alento para quem é adepto da justiça pela vida, pois Lavoisier sempre será lembrado como um grande homem e Marat como um pequeno invejoso e rancoroso.