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sábado, 18 de fevereiro de 2012

WALT WITHMAN

O Me! O Life!

O Me! O life!... of the questions of these recurring;
Of the endless trains of the faithless, of cities fill’d with the foolish;
Of myself forever reproaching myself, (for who more foolish than I, and who more faithless?)

Of eyes that vainly crave the light, of the objects mean, of the struggle ever renew’d;

Of the poor results of all, of the plodding and sordid crowds I see around me;

Of the empty and useless years of the rest, with the rest me intertwined;
The question (O me!) so sad, recurring:


What good amid these, O me, O life?

Answer:


That you are here—that life exists, and identity;
That the powerful play goes on, and you will contribute a verse.


Ó Eu! Ó Vida!

Ó eu! Ó vida!... das questões que sempre reaparecem;
Das legiões sem conta dos que não têm fé, das cidades repletas de tolos;

De mim próprio sempre a me censurar (pois, quem seria mais tolo que eu e quem teria menos fé?)

Dos olhos que inutilmente anseiam pela luz, das coisas ordinárias, do esforço sempre renovado;

Dos medíocres resultados de tudo, das multidões trôpegas e sórdidas que vejo no meu entorno;

Dos anos vazios e inúteis de todo o resto, eu integrado nesse resto;

Vem a questão (ó eu!) tão triste, recorrente:

O que há de bom no meio de tudo isso, ó eu, ó vida?

Resposta:


Você está aqui - a vida existe, e existe a identidade;
O poderoso espetáculo vai continuar, e você pode
contribuir com um verso.

Walt Whitman (1819-1892)

sábado, 23 de abril de 2011

Cora Coralina

ORAÇÃO DO MILHO

-Sou o milho.


(Fui o angu pesado e constante do escravo na escuridão do eito.)
...

Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.
Sou a farinha econômica do proletário.

Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha.

Alimento dos porcos e do triste mu de carga.

O que me planta não levanta comércio, nem avantaja dinheiro.

Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.

Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.

Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal, agradecida a Vós, Senhor, que me fizestes necessário e humilde.
Sou o milho.


Milharal


As bandeiras altaneiras

vão-se abrindo em formação.
Pendões ao vento.
Extravasão da libido vegetal.
Procissão fálica, pagã.
Um sentido genésico domina o milharal.
Flor masculina erótica, libidinosa,
polinizando, fecundando
a florada adolescente das bonecas.
...
(Bonecas verdes, vestidas de noiva, afrodisíacas, nupciais...)



Cora Coralina (1889-1985)

terça-feira, 8 de março de 2011

MANUEL BANDEIRA


VULGÍVAGA


Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

Não sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocência.
Antes da minha pubescência
Sabia todos os segredos...

Fui de um... Fui de outro... Este era médico...
Um, poeta... Outro, nem sei mais!
Tive em meu leito enciclopédico
Todas as artes liberais.

Aos velhos dou o meu engulho.
Aos férvidos o que os esfrie.
A artistas, a coquetterie
Que inspira... E aos tímidos - o orgulho.

A estes, caçoo-os e depeno-os:
A canga fez-se para o boi...
Meu claro ventre nunca foi
De sonhadores e de ingênuos!

E, todavia, se o primeiro
Que encontro fere toda a lira,
Amanso. Tudo se me tira.
Dou tudo. E mesmo... dou dinheiro...

Se bate, então como o estremeço!
Oh, a volúpia da pancada!
Dar-me entre lágrimas, quebrada
Do seu colério arremesso...

E o cio atroz se me não leva
A valhacoutos de canalhas...
É porque temo pela treva
O fio fino das navalhas...

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!


Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1886-1968)

sábado, 5 de março de 2011

DRUMMOND EM TEMPO DE MADUREZA

A Flor e a Náusea


Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado.


Campo de Flores


Deus me deu um amor no tempo de madureza, quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.


O Quarto em Desordem


Na curva perigosa dos cinquenta derrapei neste amor.


Apelo a Meus Dessemelhantes em Favor da Paz


Poupem-me, por favor ou desprezo, se não querem me poupar por amor.


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

POETÂNCIAS

"EU", POR ELES


('É porque nada sou que tudo sinto!' - Augusto Frederico Schmidt)



EU, que faço versos como quem morre...

EU, que perdi o bonde e a esperança...

Bandeira e Drummond

EU, que nada posso lhes prometer, a não ser sangue, suor e lágrimas...

EU, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas...

EU, que te peço perdão por te amar assim tão de repente...

EU, que te quero verde, verde vento, verdes ramas...

Federico García Lorca

EU, que te direi as grandes palavras...


EU, que ganhei (perdi) meu dia...

EU, que guardo no peito a imagem querida do mais verdadeiro, do mais santo amor...

EU, que trago-te flores - restos arrancados da terra que nos viu passar unidos e ora mortos nos deixa, e separados...


EU, uma educação pela pedra, por lições, para aprender da pedra, frequentá-la...

João Cabral de Melo Neto

EU, que serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História...

EU, palhaço das perdidas ilusões...
Orestes Barbosa
EU, que até morrer estarei enamorado de coisas impossíveis...

EU, que errei, fui homem...

EU, que na curva perigosa dos cinquenta derrapei neste amor...

EU, que comigo me desavim, não posso viver comigo, nem posso fugir de mim...

Sá de Miranda

EU, eunuco, reles, verme, incauto e sagaz...

EU, que comecei a morrer muito antes de ter vivido...

EU! Ai do que em mim me chamo EU!

EU? EU sou o Incriado de Deus, o demônio do bem e o destinado do mal, mas EU nada sou!

Vinícius


Observação do gozador,
no quadro-negro

- EU, filho do carbono e do amoníaco, já Bocage não sou!


C + CO(NH2)2


sábado, 1 de janeiro de 2011

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Um pouco do "Resíduo"
(muito pouco)

De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.

Dos gritos gagos.

Da rosa ficou um pouco.
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato se cobriu.

Ficaram poucas roupas, poucos véus rotos,
pouco, pouco, muito pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco do teu queixo no queixo de tua filha. De teu áspero silêncio um pouco ficou, um pouco nos muros zangados, nas folhas, mudas, que sobem.

Se de tudo fica um pouco, mas por que não ficaria um pouco de mim? No trem que leva ao norte,
no barco, nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
Na consoante? No poço?

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

sábado, 25 de dezembro de 2010

DRUMMOND


Cemitério de Bolso


Do lado esquerdo carrego meus mortos.
Por isso caminho um pouco de banda.


Carlos Drummond de Andrade, 1954

sábado, 18 de dezembro de 2010

CORA CORALINA E CABRAL

ORAÇÃO DO MILHO


Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.
Sou a farinha econômica do proletário.
Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha.
Alimento dos porcos e do triste mu de carga.
O que me planta não levanta comércio, nem avantaja dinheiro.
Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.
Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal agradecida a Vós, Senhor, que me fizestes necessário e humilde.
Sou o milho.

Cora Coralina (1889-1985)


A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;

captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria

ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:

lições de pedra (de fora para dentro,

cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).

No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;

lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.



João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999)

sábado, 3 de julho de 2010

DRUMMOND


CEMITÉRIO (DE BOLSO)


Do lado esquerdo carrego meus mortos.
Por isso caminho um pouco de banda.

(Carlos Drummond de Andrade(1902-1987),
em "Fazendeiro do Ar", José Olympio, 1954)

sábado, 12 de junho de 2010

Duas poesias de Dante Milano

Paragem


Só
Com os meus bois,
Os meus bois que mugem e comem o chão,
Os meus bois parados,
De olhos parados,

Chorando,

Olhando...

O boi da minha solidão,

O boi da minha tristeza,

O boi do meu cansaço,
O boi da minha humilhação.

E esta calma, esta canga, esta obediência.


Dante Milano

O amor de agora é o mesmo amor de outrora

O amor de agora é o mesmo amor de outrora

Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.


Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido

Que me causa a impressão de andar perdido

Em busca de outrem pela vida afora.

Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,

E em sua treva um ser de luz desperta.


E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,

Qualquer coisa de agora mas de eterno.

Dante Milano (1899-1991), em "Poesias"

quarta-feira, 14 de abril de 2010

ASCENSO FERREIRA

(1) Filosofia

Hora de comer - comer!
Hora de dormir - dormir!
Hora de vadiar - vadiar!


Hora de trabalhar?
- Pernas pro ar, que ninguém é de ferro!


(2) Predestinação
- Deus te ouça...
- Entra pra dentro, Chiquinha!
- Entra pra dentro, Chiquinha!
No caminho que você vai.
você acaba prostituta!

E ela:

- Deus te ouça, minha mãe...
Deus te ouça...


(3) Sucessão de São
Pedro


- Seu Vigário!
Está aqui esta galinha gorda
que eu trouxe pro mártir São Sebastião!

- Está falando com ele!

- Está falando com ele!



(4) O Gênio da Raça

Eu vi o Gênio da Raça!!!

(Aposto que vocês estão pensando que eu vou falar de Rui Barbosa.)
Qual! O Gênio da Raça que eu vi
foi aquela mulatinha chocolate
fazendo o passo do siricongado
na terça-feira de carnaval!


Ascenso Ferreira (1895 - 1965), em "Catimbó e Outros Poemas"

sábado, 13 de fevereiro de 2010

MÁRIO QUINTANA

O AUTORRETRATO

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...



às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...



e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!



(
Em Apontamentos de História Sobrenatural)

sábado, 26 de dezembro de 2009

DUAS POESIAS FUNDAMENTAIS

Argila

Raul de Leoni (1895 - 1926)


Nascemos um para o outro, dessa argila
De que são feitas as criaturas raras;

Tens legendas pagãs nas carnes claras

E eu tenho a alma dos faunos na pupila...


Às belezas heroicas te comparas

E em mim a luz olímpica cintila,

Gritam em nós todas as nobres taras

Daquela Grécia esplêndida e tranquila...


É tanta a glória que nos encaminha

Em nosso amor de seleção, profundo,

Que (ouço de longe o oráculo de Elêusis)


Se um dia eu fosse teu e fosses minha,

O nosso amor conceberia um mundo

E do teu ventre nasceriam deuses...


Preparação para a Morte

Manuel Bandeira (1886 - 1968)


A vida é um milagre.
Cada flor, com sua forma, sua cor, seu aroma,

Cada flor é um milagre.

Cada pássaro, com sua plumagem, seu voo, seu canto,

Cada pássaro é um milagre.


O espaço, infinito, o espaço é um milagre.

O tempo, infinito, o tempo é um milagre.

A memória é um milagre.

A consciência é um milagre.

Tudo é milagre.

Tudo, menos a morte.


— Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.


sábado, 19 de dezembro de 2009

Duas poesias de Adélia Prado

Amor Feinho

Eu quero amor feinho.

Amor feinho não olha um pro outro.

Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.

Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca, da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem e você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança: eu quero amor feinho.


Exausto

Eu quero uma licença de dormir,

perdão pra descansar horas a fio,

sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.

Semente.

Muito mais que raízes.


Adélia Prado (nascida em 1935), em "Bagagem"

sábado, 31 de outubro de 2009

Cora Coralina e João Cabral

ORAÇÃO DO MILHO

Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.
Sou a farinha econômica do proletário.
Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha.
Alimento dos porcos e do triste mu de carga.
O que me planta não levanta comércio, nem avantaja dinheiro.
Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.
Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal agradecida a Vós, Senhor, que me fizestes necessário e humilde.
Sou o milho.

Cora Coralina (1889-1985)


A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;

captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria

ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:

lições de pedra (de fora para dentro,

cartilha muda), para quem soletrá-la.

*
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).

No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;

lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.



João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

QUATRO POETAS DE NOME MANUEL

IDENTIFIQUE O MANUEL PELOS VERSOS


Manuel I

Para entender a poesia nós temos dois caminhos:
O da sensibilidade, que é o entendimento do corpo,
E o da inteligência, que é o entendimento do espírito.
Eu escrevo com o corpo;
Poesia não é para compreender, mas para incorporar.


Manuel II

- Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!


Manuel III

Íamos viver toda a vida juntos.
Íamos morrer toda a morte juntos.
Não sei se sabes o que significa a palavra adeus.
Adeus quer dizer já não olhar-se nunca mais,
Viver entre outras gentes,
Rir-se de outras coisas,
Morrer-se de outras penas.
Adeus é separar-se, entende?
Separar-se, esquecendo a juventude, como traje inútil.
Adeus.


Manuel IV

- Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fanático corria:
Outro Aretino fui... A santidade
Manchei! Oh!, se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!


Confira


I: Manoel de Barros


II: Manuel Bandeira


III: Manuel Scorza


IV: Manuel Maria Barbosa du Bocage