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sábado, 20 de julho de 2013

PERO VAZ DE CAMINHA

A "VERGONHA" DAS ÍNDIAS BRASILEIRAS



 Em diferentes passagens da sua carta ao rei de Portugal, Pero Vaz de Caminha não esconde sua fixação nas “vergonhas” das moças índias, com seus bem-humorados trocadilhos com a palavra "vergonha":

(...) "Entre eles, andavam também três ou quatro moças, bem novas e graciosas, com cabelos muito pretos, pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas que não tínhamos nenhuma vergonha de as olhar muito bem.”

(...) "E uma daquelas moças era toda pintada de baixo acima daquela tintura; e de fato era tão bem-feita e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhes tais feições, sentiriam vergonha por não serem como ela."

(...) "Outra trazia os joelhos com as curvas assim pintadas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência descobertas, que nisto não havia vergonha alguma."

sábado, 6 de julho de 2013

A DISCIPLINA MILITAR PRESTANTE

ANÍBAL VERSUS FORMIÃO


- Não se aprende, senhor, na fantasia...
 Certa vez o filósofo Formião, um teórico atrevido e pretensioso, decidiu discutir arte militar com Aníbal (*). Nos Lusíadas, Camões nos dá a versão poética da resposta que, segundo Cícero, Aníbal teria dado a Formião:

A disciplina militar prestante 
Não se aprende, senhor, na fantasia,
Sonhando, imaginando ou estudando,
Senão vendo, tratando e pelejando.


Camões, Os Lusíadas, Canto X, 153.


(*) Aníbal, que viveu no século terceiro antes de Cristo, foi um grande general cartaginês. Partindo da Espanha, nos episódios da Segunda Guerra Púnica, Anibal e seu exército, depois de atravessar os Pireneus e os Alpes, derrotaram os romanos nas célebres batalhas de Canas e do Lago Trasimeno. 

 

quarta-feira, 11 de abril de 2012

CRISTO REDENTOR, QUEM ILUMINOU?

Foi Marconi, afirmam uns...

O Cristo Redentor foi inaugurado no dia 12 de outubro de 1931. Suas luzes foram acesas exatamente às 19 horas e 15 minutos, para grande alegria da população do Rio de Janeiro, numa cerimônia que teve a presença do cardeal Dom Sebastião Leme e do Presidente Getúlio Vargas.
Por iniciativa do jornalista Assis Chateaubriand, o cientista italiano Guglielmo Marconi, inventor do rádio, foi solicitado a ativar a iluminação do monumento no seu dia inaugural, por intermédio de um sinal elétrico enviado de algum ponto da Itália.

Marconi

Na biografia de Marconi, de autoria de Filippo Garozzo, a proeza de Marconi foi assim relatada:

"Então todos ficaram olhando para o morro, esperando o milagre a ser produzido por um homem. E o milagre, pontualmente, aconteceu. O Papa e Marconi, em Roma, apertaram uma chave de transmissor; e um impulso rápido partiu da Cidade Eterna, deslizou sobre o Atlântico mais velozmente que o relâmpago, e atingiu o Cristo Redentor, construído sobre o Morro do Corcovado, na Baía de São Sebastião do Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa. E o Cristo, de repente, ficou tão resplandecente e brilhante de luz que mais se assemelhava a uma festa! Parecia até outro Cristo, risonho e mais bonito, agora que estava iluminado e inaugurado pela mão do Santo Padre e pelo gênio de Marconi."

Alguns dos que atribuem a façanha a Marconi costumam mencionar que o grande cientista acionou o transmissor não de Roma, nem na presença do Papa, mas a bordo do seu iate Electra, que estaria ancorado na Baía de Nápoles.

Não foi Marconi, garantem outros...

Há, todavia, uma segunda versão, geralmente apontada como a verdadeira. Realmente estava previsto que Marconi comandaria da Itália a inauguração das luzes do Cristo Redentor. Emitido do Electra, um iate ancorado na Baía de Nápoles, o sinal elétrico seria captado em Dorchester, na Inglaterra, e retransmitido para uma antena instalada em Jacarepaguá, de onde se acenderiam as luzes do Corcovado. O mau tempo, porém, teria impedido essa operação, e o monumento teve de ser iluminado do próprio Rio de Janeiro.

A maravilha


Situa-se no Morro do Corcovado, 710 metros acima do nível do mar
, e tem 30 metros de altura, assentado sobre um pedastal de oito metros adicionais. O monumento foi sugerido à Princesa Isabel em 1859 pelo padre Pedro Maria Boss, mas a ideia só se materializou a partir de 1921, quando dos preparativos para as comemorações do centenário da Independência. O projeto teve a autoria do arquiteto francês Paul Landowski e a construção, que demorou cerca de cinco anos, ficou a cargo do engenheiro brasileiro Heitor da Silva Costa.

sábado, 31 de julho de 2010

TRÁFICO DE ESCRAVOS

BILL ABERDEEEN


Desde o início do século XIX os ingleses defendiam a extinção do tráfico internacional de escravos, sobretudo por causa da concorrência que o açúcar brasileiro fazia ao açúcar das Antilhas inglesas, pois era usado para aquisição de negros africanos.
Em 1845, o Parlamento Britânico aprovou uma lei, o Bill Aberdeen, que dava à armada inglesa o poder de capturar navios negreiros em alto mar, qualquer que fosse sua
nacionalidade, confiscar sua carga, prender a tripulação e submeter os tripulantes a julgamentos pelas leis britânicas. Navios brasileiros suspeitos de tráfico negreiro passaram a ser interceptados em águas internacionais e levados a julgamento nos tribunais ingleses.

Essa política tornou-se mais agressiva em 1850, quando Lord Palmerston, ministro das relações exteriores do governo do primeiro-ministro John Russell, determinou que a Lei Aberdeen fosse estendida à costa brasileira, não mais se limitando às interceptações internacionais. A Inglaterra se autoconcedia o direito de invadir águas territoriais brasileiras, inspecionar e rebocar navios suspeitos, mesmos aqueles já ancorados nos portos brasileiros.
A armada britânica entrou em ação imediatamente, atuando nas costas da Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e, especialmente, no Porto de Paranaguá, onde o navio britânico HMS Cormorant aprisionou os navios brasileiros Dona Ana, Serea, Astro e a galera Campeadora.
Consta que o Cormorant foi hostilizado por um grupo de civis que acorreram à Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, na Ilha do Mel, em Paranaguá, sem estarem informados de que o forte se encontrava abandonado. Mesmo assim, usando armas e petardos improvisados, conseguiram atingir e danificar o Cormorant, cuja tripulação, surpreendida, afundou dois dos navios que haviam sido aprisionados e fez o Cormorant retirar-se de águas brasileiras, com destino a Serra Leoa, na África.
A lei Eusébio de Queiroz, ainda no ano de 1850, foi uma consequência direta e quase imediata da radicalização dos ingleses, estabelecendo, pelo texto aprovado, o fim do tráfico de negros da África para o Brasil, sendo certo que alguns traficantes insistiram por algum tempo em atuar clandestinamente, até que houve a cessação total dessas atividades.


Eusébio de Queirós

João Hermes Pereira de Araújo, em sua "História da Diplomacia Brasileira", afirma que o Brasil importou:

em 1845: 19.453 escravos;

em 1846: 50.324;

em 1847: 56.172;

em 1848: 60.000;

em 1849: 54.000;

em 1850 (ano da Lei Eusébio de Queiroz): 23.000;

em 1851: 3.287; e

em 1852: 700.
A partir daí o cativeiro no Brasil ficaria limitado aos negros anteriormente escravizados, cuja libertação lamentavelmente ainda tardaria quase 40 anos.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

UM TERRÍVEL PARADOXO

ANCHIETA

O padre José de Anchieta (1534 - 1597) é uma das personagens mais interessantes da História do Brasil. Natural da Ilha das Canárias e tendo estudado filosofia em Coimbra, Anchieta chegou ao Brasil em 1553, com menos de 20 anos. Vítima de um problema na espinha dorsal, o jovem sofria de dores agonizantes, caminhava apoiando-se sobre um bastão e envolvia o tronco em faixas que lhe disfarçavam a corcunda.

Obra

Anchieta era fluente em espanhol, português e latim; para além de suas atividades religiosas, destacou-se como gramático, poeta, teatrólogo e historiador. No Brasil, estudou imediatamente a língua indígena e logo escreveu uma gramática e um vocabulário tupi, bem como manuais em tupi, para utilização dos confessores e para assistência aos moribundos. Manejava a língua dos nativos para compor canções, poemas e peças teatrais, de caráter sacro, com o que procurava atrair os índios para o Catolicismo. José de Anchieta foi beatificado, em junho de 1980, pelo Papa João Paulo II.

Seu primeiro livro, "De Gestis Mendi de Saa", em latim e em versos, foi impresso em Coimbra em 1563, narrando a luta entre os portugueses de Mem de Sá e os franceses de Villegaignon, na cidade do Rio de Janeiro.

- Trata-se do primeiro poema épico de toda a América e é anterior à edição de "Os Lusíadas" (1572), de Luís de Camões.

Seu segundo texto impresso foi a "Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil”, com os fundamentos da língua tupi, publicada em Coimbra, em 1595.
Foi também autor de poesias em verso medieval, como o poema "De Beata Virgine Dei Matre Maria", mais conhecido como "Poema à Virgem", com 4.172 versos em latim, e de cantos piedosos, diálogos e autos, segundo o estilo de Gil Vicente, e, por isso, é considerado o iniciador do teatro e da poesia no Brasil. São também importantes as suas cartas para Portugal e Roma, com ricas informações sobre a flora e a fauna, particularmente os peixes encontrados no Brasil.


Como pode?

No livro “O Povo Brasileiro”, Darcy Ribeiro menciona a guerra sem quartel entre os portugueses, com seus canhões e arcabuzes, e os indígenas brasileiros, que dispunham apenas de tacapes, zarabatanas, arcos e flechas. Uma guerra desigual, desumana até. Darcy estranha o gosto dos cronistas da época em exaltar o heroísmo lusitano nessa empreitada de massacrar índios covardemente. Entre esses cronistas, está José de Anchieta. Escreve Darcy Ribeiro:

“Anchieta, descuidado da cordura que corresponderia à sua futura santidade, louva assim o bravo governador (Mem de Sá):


Quem poderá contar os gestos heroicos do Chefe
À frente dos soldados, na imensa mata:
Cento e sessenta as aldeias incendiadas,
Mil casas arruinadas pela chama devoradora,
Assolados os campos, com suas riquezas,
Passado tudo ao fio da espada.

Estes são alguns dos dois mil versos de louvação escritos em latim por José de Anchieta no poema “De Gestis Mendi Saa”.

Mem de Sá, o "Chefe", comandou um programa "civilizador" que destruiu cerca de trezentas aldeias indígenas na costa brasileira do século XVI.





quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

CHAMPOLLION E A PEDRA DE ROSETA

Hieróglifos
Pedra de Roseta

A escrita hieroglífica do antigo Egito foi decifrada pelo exame da pedra de Roseta, na qual se encontrava um texto grafado em três versões, hieróglifos, demótico e grego. Essa pedra foi descoberta num local situado a 30 quilômetros de Alexandria, em 1799, por Boussard, um dos sábios franceses que acompanharam Napoleão ao Egito.
A escrita demótica, que era uma forma simplificada de hieróglifos, tinha sido adotada em torno do ano 700 a. C. e vigorou até a chegada dos romanos ao Egito. O texto reproduz um decreto do corpo sacerdotal do Egito, de 196 a.C., atribuindo honras ao rei Ptolomeu V Epifânio (205 a 180 a.C.), como retribuição por benefícios recebidos.

Disputa


Champollion

Muitos pesquisadores tentaram decifrar os hieróglifos tomando por base a pedra de Roseta. O mais bem-sucedido foi Jean-François Champollion (1790 - 1832), um genial linguista francês que conhecia pelo menos 12 línguas, incluindo o copta, que sucedeu o egípcio antigo. Comparando, na pedra de Roseta, as escritas demótica e hieroglífica com sua versão em grego, Champollion decifrou os hieróglifos em 1822.
Numa verdadeira disputa com Champollion, o médico britânico Thomas Young
propôs em 1823 um novo sistema, e alternativo, para a escrita hieroglífica.

Thomas Young

Defensores de uma e de outra solução enfrentaram-se durante quatro décadas. A questão se definiu em 1866, quando um novo texto hieroglífico foi encontrado, o Decreto de Canopus, de autoria de Ptolomeu III Evergeta, de 237 a. C. O decreto, que impunha uma reforma do calendário para introduzir o ano bissexto, foi decifrado de maneira conclusiva com o auxílio do sistema de Champollion, não remanescendo desde então nenhum espaço para dúvidas ou contestações. Champollion já estava morto, desde 4 de março de 1832.

Onde está a pedra

Com a derrota de Napoleão no Egito, a pedra de Roseta tornou-se propriedade da Inglaterra, nos termos do Tratado de Alexandria, de 1801, bem como outras antiguidades que os franceses haviam localizado naquele país.

Museu Britânico

Desde 1802 a pedra de Roseta encontra-se no Museu Britânico, em Londres, que existe desde 7 de junho de 1753 e é o mais antigo museu público do mundo.

sábado, 14 de novembro de 2009

LAMPIÃO E O PREFEITO

O ATAQUE A MOSSORÓ


No dia 13 de junho de 1927, Lampião (1897 ou 1898 - 1938), que havia dias assediava a cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, enviou uma carta ao prefeito Rodolfo Fernandes, exigindo quatrocentos contos de réis para não atacar a cidade. Como o prefeito recusou a proposta, igualmente por carta, Lampião e seu bando invadiram a cidade.
Seu objetivo era receber o resgate ou saquear a indústria, o comércio, as residências e as instalações do Banco do Brasil.

Carta de Lampião ao prefeito

“Coronel Rodolfo:
Estando eu aqui, o que pretendo é dinheiro. Já foi um aviso para o senhor aí. Se por acaso resolver mandar-me a importância que nós lhe pedimos, evito a entrada aí; não vindo essa importância, eu entrarei até aí. Penso que, a Deus querer, eu entro, e vai haver muito estrago. Por isso, se vier o dinheiro, eu não entro aí. Mas mande resposta logo. Virgulino Ferreira, Capitão Lampião.”

Resposta do Prefeito a Lampião

“Virgulino Lampi
ão: Recebi o seu bilhete e respondo que não tenho a importância que pede; o comércio também não tem. O banco está fechado, pois os seus funcionários se retiraram daqui. Estamos dispostos a suportar tudo que o senhor quiser fazer contra nós. A cidade confia na defesa que organizou. Rodolfo Fernandes, prefeito.”

Praça Rodolfo Fernandes, Mossoró

O ataque

Nesse mesmo 13 de junho deu-se o ataque de Lampião a Mossoró, de acordo com um plano
idealizado pelo cangaceiro potiguar Massilon Leite Benevides, conhecedor da região. Massilon confiou na negligência da população, que não acreditava num ataque de Lampião. Ele não sabia, porém, da determinação do prefeito e dos cidadãos que se dispuseram a defender a cidade contra os marginais, que foram rechaçados e bateram em retirada, deixando para trás um companheiro morto e outro ferido. Nunca mais Lampião se atreveu contra nenhuma cidade do Rio Grande do Norte, ele que, referindo-se à resistência de Mossoró, chegou a fazer o seguinte comentário: “da torre da igreja, até o santo atirava na gente.”

Fim de carreira
Maria Bonita

Lampião continuou sua carreira de invasões e arruaças até ser morto por um grupamento da Polícia Militar alagoana em 28 de julho de 1938, na fazenda de Angicos, no município de Poço Redondo, Sergipe. Com ele morreram sua mulher, Maria Bonita, e os cangaceiros Luís Pedro, Mergulhão, Elétrico, Quinta-Feira, Caixa de Fósforo, Adília, Cajarana e Diferente, e outros 23 cangaceiros se entregaram à volante comandada pelo tenente João Bezerra. Os mortos foram decapitados e suas cabeças ficaram expostas nas escadarias da igreja matriz de Santana do Ipanema, no sertão de Alagoas. De lá foram conduzidas para Maceió e depois para Salvador, onde foram mantidas como "objetos de pesquisa científica", no Instituto Médico Legal de Salvador (Instituto Nina Rodrigues), até a década de 1970.

Diabo Louro

Uma semana depois do massacre da fazenda de Angicos, o cangaceiro Corisco, que carregava o apelido de "Diabo Louro", amigo de Lampião e ex-integrante do seu bando, desfechou violentos ataques retaliatórios contra cidades à margem do Rio São Francisco. Chegou a enviar algumas cabeças cortadas ao prefeito do povoado de Piranhas, Alagoas, com um bilhete audacioso: "se o negócio é de cabeças, vou mandar em quantidade".
Corisco foi morto pela polícia em julho de 1940, na região de Brotas de Macaúbas, no Estado da Bahia.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

RAINHA MORTA

INÊS DE CASTRO

Dom Pedro (1320-1367), filho de Afonso IV e príncipe herdeiro do trono de Portugal, casou-se secretamente com a dama espanhola Inês de Castro, após ficar viúvo de Constância de Aragão, falecida em 1349. Pedro e Inês viveram seus amores no Paço de Santa Clara, às margens do rio Mondego, em Coimbra.

Paço de Santa Clara

Rio Mondego

Afonso IV, o Rei Benigno, aconselhado por cortesãos, que temiam uma influência espanhola sobre o trono de Portugal, determinou a morte de Inês, em 1355, aproveitando-se do fato de que o filho Pedro estava ausente, ou lutando pelo Reino de Castilha, segundo uns, ou numa estação de caça, segundo outros.

- Benigno e pusilâmine.

Três cortesãos, Pero Coelho, Diego Lopes Pacheco e Álvaro Gonçalves, foram encarregados de executar a pobre dama, missão que teriam cumprido com requintes de crueldade, degolando Inês sem nenhuma piedade. Segundo a tradição popular, o sangue de Inês ficou gravado numa rocha e nela permanecerá para sempre.


Morte de Inês (óleo sobre tela, de Columbano Bordalo Pinheiro)

Rei Cruel

Desvairado com o ocorrido, Dom Pedro insurgiu-se contra o pai, derrotou-o, corou-se rei de Portugal e perseguiu os carrascos de Inês, torturando dois deles até a morte, Pero Coelho e Álvaro Gonçalves. Isso ocorreu em 1358.
O cronista Fernão Peres fez um relato da vingança, consumada nos Paços de Santarém:

- D. Pedro mandou amarrar as vítimas, cada uma a seu poste de suplício, enquanto os cozinheiros de sua Corte preparavam um lauto banquete de cerimônia. O rei
não poupou requintes de horror no castigo implacável. Mandou o carrasco tirar a um o coração pelas costas e a outro, o coração pelo peito. Por fim, como sentisse que não bastava a tortura tremenda, ainda teve coragem para trincar aqueles corações que, para ele, seriam malditos para sempre.

Pedro, considerado como Pedro I em Portugal, passou à história com os epítetos de Rei Justiceiro e de Rei Cruel. Reza uma das versões que em 1361 mandou exumar o cadáver de Inês, coroando-a rainha depois de morta e obrigou a nobreza a beijar-lhe a mão de rainha.

Mosteiro de Alcobaça

Os restos mortais de Pedro e Inês estão em túmulos suntuosos no Mosteiro de Alcobaça, cidade que fica a 109 quilômetros de Lisboa.


Mosteiro de Alcobaça

Inês nos Lusíadas

Inês de Castro é o tema das estrofes de 118 a 135 do Canto III dos Lusíadas, o qual reproduz a história de Portugal como narrada por Vasco da Gama ao rei de Melinde (uma cidade que hoje pertence ao Quênia, na costa do Índico). Abaixo, quatro estrofes do Canto III alusivas ao episódio de Inês:

Estrofe 120

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.



Camões

Estrofe 127

Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar uma donzela
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.

Inês e o Rei Justiceiro

Estrofe 129

Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.
Ali, com o amor intrínseco e vontade
Naquele por quem morro, criarei
Estas relíquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.

Estrofe 135

As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram;
O nome lhe puseram, que inda dura,
"Dos amores de Inês", que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água, e o nome Amores!

Universidade de Coimbra

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

INÊS DE CASTRO

A RAINHA MORTA

O episódio de Inês de Castro ocorreu
em Coimbra, no século XIV. Consta que Dom Pedro, quando ainda príncipe herdeiro do trono de Portugal, casou-se secretamente com a dama espanhola Inês de Castro, após ficar viúvo de Constância de Aragão, falecida em 1345. O casal viveu seus amores no Paço de Santa Clara, às margens do rio Mondego, em Coimbra.

Afonso IV, o Rei Benigno, aconselhado por cortesãos que temiam uma influência espanhola sobre o trono de Portugal, decretou a morte de Inês, em 1355, aproveitando-se do fato de que seu filho Pedro estava ausente, ou lutando pelo Reino de Castilha, segundo uns, ou numa estação de caça, segundo outros.
Três cortesãos, Pero Coelho, Diego Lopes Pacheco e Álvaro Gonçalves, foram encarregados de executar a pobre dama, missão que teriam cumprido com requintes de crueldade, degolando Inês sem nenhuma piedade. Segundo a tradição popular o sangue de Inês ficou gravado numa rocha e nela permanecerá para sempre.

Rei Cruel

Desvairado com o ocorrido, Dom Pedro insurgiu-se contra o pai, derrotou-o, corou-se rei de Portugal e perseguiu os carrascos de Inês, torturando dois deles até a morte, Pero Coelho e Álvaro Gonçalves. Por tal motivo passou à história com os epítetos de Rei Justiceiro e Rei Cruel. Reza uma das versões que em 1361 Dom Pedro mandou exumar o cadáver de Inês, coroando-a rainha depois de morta. Os restos mortais de Pedro e Inês estão em túmulos suntuosos no Mosteiro de Alcobaça, cidade que fica a 109 quilômetros de Lisboa.

Mosteiro de Alcobaça

Inês nos Lusíadas

Inês de Castro é o tema das estrofes de 118 a 135 do Canto III dos Lusíadas, reproduzindo a história de Portugal como narrada por Vasco da Gama ao rei de Melinde (uma cidade que hoje pertence ao Quênia, na costa do Índico). Abaixo, duas estrofes de Camões alusivas ao episódio:

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.


Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito,
Se de humano é matar uma donzela
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la,
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

BARÃO DE MAUÁ, PIONEIRO DA INDÚSTRIA NO BRASIL

Fortuna, sabotagem e falência

Irineu Evangelista de Souza (1813-1889), o barão de Mauá, nasceu em Arroio Grande, no Rio Grande do Sul. Órfão de pai, veio para o Rio de Janeiro com a idade de nove anos, onde começou a trabalhar numa importadora da rua Direita, atual Primeiro de Março, como caixeiro e menino de recados.
Por seu talento, Irineu foi galgando posições dentro da firma, a ponto de se tornar o seu proprietário, e nessa condição construir um grande império comercial, financeiro e industrial, graças à sua extraordinária capacidade para antecipar oportunidades de lucro.

Percebendo a importância da Revolução Industrial, fundou o Estaleiro Mauá, no qual empregou mais de mil operários, que foi o responsável pela construção de 76 navios e pelos canhões que o Brasil usou na Guerra do Paraguai, para além de produzir caldeiras para máquinas a vapor, engenhos de açúcar, guindastes, prensas, armas e tubos para encanamentos de água.

Mauá criou companhias de navegação a vapor no Rio Grande do Sul e no Amazonas; em 1852 implantou a primeira ferrovia brasileira, entre Petrópolis e Rio de Janeiro, uma das primeiras ferrovias, no mundo, fora da Inglaterra. Executou também o trecho inicial da União e Indústria, entre Petrópolis e Juiz de Fora, a primeira rodovia pavimentada do Brasil.
Mauá lançou os cabos que dotaram o Brasil de telégrafo internacional e em 1854 implantou a iluminação pública a gás do Rio de Janeiro, cidade que também dotou de água e de gás canalizados.



Melhor do que Londres


O contrato para iluminação a gás do Rio de Janeiro, cujos lampiões antes queimavam óleo de cachalote ou de mamona, foi celebrado em 11 de Março de 1851 e tinha como exigência que a iluminação fosse melhor do que a da cidade de Londres.
No dia 25 de Março de 1854, os lampiões a gás iluminaram a Praça XV e as Ruas Primeiro de Março, Ouvidor, Rosário, Hospício, Alfândega, General Câmara e São Pedro.
Dois meses depois, todo o centro estava igualmente iluminado, com filas de lampiões que se estendiam até o Mangue.
Mauá achava que o dinheiro devia ser investido na produção, e não na especulação. Tinha muitos inimigos, por ser contra a escravidão, que proporcionava grandes lucros aos que investiam no tráfico e no comércio de negros, sendo também hostilizado pelos que viviam às custas dos juros bancados pelo Império. Como o contrato dos lampiões a gás falava em “iluminação melhor do que a da cidade de Londres”, os adversários fizeram uma campanha para denigrir o projeto, sendo exemplo o bolodório qualitativo e provinciano do jornal “A Ilustração Brasileira”, de 3 de abril de 1854:

“ninguém haverá que já tenha estado na capital da Inglaterra, que não conheça que nossos bicos de gás em vez de dar uma luz mais forte dão uma sensivelmente mais fraca.”


Falência

Mauá foi vítima de perseguições, calotes e sabotagens, que incluíram o incêndio criminoso do estaleiro, de ações governamentais deletérias e de perseguição dos tribunais. Tudo isso levou-o à falência em 1875.
Em sua “Exposição aos credores e ao público” (1878), Mauá atribuiu sua falência principalmente à hostilidade dos governantes uruguaios e brasileiros, que lhe teriam criado embaraços intransponíveis. Outra causa apontada foi a estranha decisão do Supremo Tribunal de Justiça, em 1877, que reconheceu o foro de Londres como o único competente para julgar sua ação contra a empresa inglesa S. Paulo Railway, por dívidas
não honradas, contraídas no Brasil, para construção da estrada de ferro Santos-Jundiaí.
A justiça inglesa, sem se fazer de rogada, considerou prescrita a dívida, favorecendo a S. Paulo Railway e levando Mauá à falência.