O prestígio de Marta rapidamente ultrapassou as fronteiras da redação, pois logo se espalhou que ela sabia tudo de cinema e da vida dos astros, de Greta Garbo a Al Pacino e de Clark Gable a Grace Kelly. Que podia falar sobre os carros verdes de Darryl Zanuck, as farras de Orson Welles e Grande Othelo, os filmes americanos que tiveram música de Ari Barroso, o orçamento de "Quando Voam as Cegonhas", de Michel Kalazotov. Todos a ouviam sobre as dificuldades de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" e os percalços de "Casablanca" ou como Stanley Cramer, que produziu "Matar ou Morrer", tornou-se o produtor que dirigia diretores.
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Marta explicou-lhes que o caso de Anthony Quinn era diferente, citando seus romances com Maureen O´Hara, Susan Ball, Irene Papas, Ingrid Bergman, Pia Lindstrom e Estelle Taylor, a mulher de Jack Dempsey, este, o temido campeão mundial dos pesos-pesados, sim, senhor.
- Mas Ingrid Bergman não era a mãe de Pia Lindstrom?
- Exatamente. Elas faziam uma espécie de revezamento no leito do mexicano...
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Marta, que fora contratada para trabalhar na internacional porque sabia inglês, era agora a responsável no jornal por tudo que se referisse a cinema. Cinema, a paixão assumida desde que vira "Ladrões de Bicicletas", não uma, mas vinte vezes. Vinte vezes chorara na cena da cartomante.
- Se non la trova subito, non la trova più.
O êxtase incontido diante de filmes como "Amarcord", "No Tempo das Diligências", "Milagre em Milão", "O Salário do Medo", "A Um Passo da Eternidade", "Sindicato dos Ladrões", "As Grandes Manobras", "Oito e Meio", "O Ano Passado em Marienbad", "A Grande Ilusão"... A irresistível compulsão de só estudar cinema, o mestrado na Califórnia, as biografias de tantos astros lidas na vigília impossível, as pesquisas sobre os divórcios escandalosos de Hollywood, tudo isso lhe valia agora, pois trabalhava cheia de alegria, ganhava bem e era admirada pelo que fazia.
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Claro, havia também pequenas e adoráveis gentilezas, o encanto de trabalhar com pessoas solidárias e gentis. Capazes de rosas vermelhas, que, lindas, falavam diretamente ao seu coração.
- Valeu, redação, valeu muito. Vocês são muito lisonjeiros, e as rosas, maravilhosas. Um dia me explicarão como souberam que eu hoje estaria vestida de azul.
Cartas amarelas
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Jorginho Estafa vivia apregoando que Marta só não recebia mais correspondência do que a seção de "Cartas dos Leitores". Pré-estréias, ingressos para festivais, convites, conferências, mesas-redondas, roteiros, tentativas de roteiros, congratulações, sugestões. No meio de tudo, quase junto das rosas, estava a carta amarela, protestando sobre o resultado de "Morangos Silvestres":
"Você deu um tratamento pífio à promoção, premiando alguém que entendeu muito pouco do filme de Bergman. Um amontoado de tolices, disparates, ridicularias e afirmações absolutamente desconexas. O leitor premiado deve ter visto as Mil e Uma Noites, de Pasolini, quem sabe o Mandarim, e não Morangos Silvestres. Praga domina setor.
Atenciosamente,
Heli Dutra Visconsi."
(continua)
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