segunda-feira, 7 de abril de 2008

A BUSCA DO PETRÓLEO (parte 1/4)

A sonda

Subitamente o sertão foi avassalado por homens que chegavam de jipe, à frente de grotescas máquinas transportadas por imensos caminhões amarelos. Durante muitos dias tratores especiais, muito ágeis, foram construindo acessos até o ponto do terreno onde seria perfurado o poço. Depois, a sonda. Num ritual impressionante, o guincho, que não passava de um pequeno guindaste, levantou o mastro, instalou as bombas de lama e posicionou o motor e o tanque de combustível. Seguiram-se as pequenas obras de ocupação, tudo feito com rapidez e cuidado, pois nada podia falhar. Por último, construiu-se a "casa do cachorro", de madeira sem pintura, mas sólida, para servir ao descanso dos sondadores.

Terminados os preparativos e vencidas todas as inspeções, começou o trabalho da perfuração. Lá em cima, o torrista, operário das alturas, fazia seu número de acrobacia, abraçando-se ao tubo mais elevado da coluna a cada evolução do bloco viageiro, que ali todos chamavam de "catarina". Errar o torrista não podia, pois, se caísse, não teria nenhuma salvação. Embaixo, sem acrobacia, os plataformistas depunham a força de seus músculos e de sua alma na conexão de cada tubo de perfuração à coluna sustentada pelas cunhas da mesa rotativa. Ao sondador, que tinha ascendência operacional sobre os outros, cabia manipular as alavancas, fazendo girar a coluna para regular o peso sobre a broca, que, sem opção, ia penetrando a terra de maneira inexorável. Cascalhos e detritos, que resultavam da ação trituradora da broca, eram trazidos pela lama de perfuração, examinados pelo geólogo e descartados na peneira vibratória.
Não se sabia exatamente quem era autoridade maior na sonda, se o engenheiro de perfuração ou o geólogo de poço. Ambos tinham muito poder. O engenheiro dava as ordens ao sondador e especificava o número de comandos, que são os tubos mais pesados que descem junto da broca, tanto quanto o peso da coluna, suas rotações por minuto e a densidade do fluido de perfuração. O engenheiro também administrava a disciplina: as brigas eram punidas com suspensão e redução de salário e os acidentes, se resultantes de negligência, com demissão por justa causa.
Havia, porém, o geólogo, uma espécie de eminência parda, sempre calado, a recolher na peneira da lama os cascalhos e fragmentos de rocha, que a sonda ia vomitando, para examiná-los cuidadosamente com auxílio de um microscópio. Para o geólogo, o importante era reconhecer os sedimentos penetrados, se folhelhos, arenitos ou calcáreos, confrontando a seqüência que se ia obtendo com os dados sísmicos recebidos do Rio de Janeiro. Os operários diziam divertidamente que ele lambia as amostras, pois nos seus relatórios, descrevendo cuidadosamente as formações perfuradas, nunca deixava de informar o sabor das rochas, "ácido", " sabor indefinido", "alcalino" e "neutro". Certa vez disse, de um siltito, que "tinha sabor de limão".
Em certas ocasiões, o geólogo chamava discretamente o engenheiro, murmurava-lhe algum recado, e a perfuração era interrompida:

- Vamos condicionar o poço para a perfilagem!

Ou então:

- Preparar para testemunhar!

Começava então a operação complicada de desconectar tubos em seções de três, até a última, que vinha com a broca. E, a seguir, conectá-los novamente, já com a broca de diamante e o barrilete na extremidade da coluna, para encamisar e trazer para a superfície um comprido cilindro da rocha testemunhada.

Broca e barrilete

Aquela gente engraçada, de jaquetas cinzentas e capacetes de aço, que dormia em barracos de lona, e de luz acesa por temer os barbeiros, entrou no sertão sem pedir licença, arrostando a miséria do alto dos seus imensos coturnos. Para fazer história. Era a busca do petróleo.

Para fazer história?

Tudo começou em 27 de agosto de 1859, quando o "Coronel" Drake descobriu petróleo na Pensilvânia. Um evento que iria revolucionar o mundo. Pois o querosene, que se obtém na destilação do petróleo, foi prontamente utilizado na iluminação noturna, substituindo tanto o canfeno, dos pobres, quanto o óleo de cachalote, que fazia a luz dos ricos.

Primeiro poço, 1859, Titusville, Pensilvânia

Nem mesmo a lâmpada elétrica, apresentada em 1892 por Thomas Alba Edison, conseguiu interromper a carreira do petróleo, pois a seguir Henry Ford apresentou o carro com motor de combustão interna, que utiliza gasolina, logo seguido do motor a diesel. Vieram depois, e progressivamente, as utilizações dos outros derivados, seja no consumo direto ou como insumo petroquímico.
O petróleo passou a definir quem podia preponderar e quem devia se submeter. A luta de homens, ao lado de outros homens, ou contra eles, por uma hegemonia. O armênio Calouste Gulbenkian, chamado de "Senhor Cinco Por Cento", afirmava que as companhias de petróleo eram como gatos:

- Pelo barulho nunca se pode saber se estão brigando ou se fazendo amor.

Brigando de forma encarniçada ou amando-se com ternura, as companhias assinaram acordos secretos, como o do castelo de Achnacarry, na Escócia, no ano de 1929, que repartiu entre elas as reservas de petróleo e o mercado consumidor mundial. Suas cláusulas neutralizaram por mais de um quarto de século a lei da procura e da oferta do petróleo, substituindo-a pela lei da impostura muito esperta do finório.
Desde o final do século XIX houve desmedido interesse das companhias de exploração pelos pólos petrolíferos privilegiados, como os dos Estados Unidos, Rússia, Sumatra e México, e, após, já no século XX, os do Irã, Venezuela, Iraque Arábia Saudita e Kuwait.

E o Brasil?

Ficava condenado a ser um consumidor de derivados de petróleo importados. Nenhum interesse houve dessas companhias pelo petróleo do subsolo brasileiro, de localização difícil naquela época.
Por isso:

(1) Das questões brasileiras, a do petróleo, era, na década de 1960, uma das não resolvidas.

(2) Os intrusos de botas militares e capacete de aço, que erravam então nos rasos de Sergipe, com suas máquinas barulhentas e desengonçadas, estavam, sim, fazendo história, muita, no Brasil.
(continua na quarta-feira, 9/4/2008))

segunda-feira, 31 de março de 2008

ENTROPIA

A Morte Térmica do Universo

Dar uma aula é uma arte, como representar num palco, e o professor,
se de fato competente, deveria ser aplaudido de pé, como na ópera profissional. Penso nisso por causa de um desconhecido, que, levado pelas peripécias da conversação, acabou ensinando logaritmos neperianos e cálculo diferencial para bibliotecárias e advogados, que não tinham com esses temas nenhuma familiaridade. Na mesa do bar! Depois, respondendo à perplexidade dos presentes, o fulano proclamou que todas as matérias podem ser rapidamente entendidas pelos alunos, independentemente de sua qualificação e prévios conhecimentos.

- Nada é difícil. O que há é a figura do assunto mal ensinado, entendeu o recado?

O calor recebido é igual

Tivesse a capacidade desse desconhecido, e um pouco da sua autoconfiança, eu poderia explicar a todas as torcidas que o crescimento inexorável da entropia causará a morte do Universo. De fato, se coloco um bolo quente dentro de um forno frio, ao fim de certo tempo o forno e o bolo estarão à mesma temperatura, situada necessariamente entre as temperaturas iniciais do bolo e do forno. O bolo cedeu uma determinada quantidade de calor, e o forno recebeu integralmente esse calor, sendo a quantidade de calor cedida pelo bolo rigorosamente igual à quantidade de calor recebida pelo forno, porque a passagem espontânea de calor de um corpo quente para um corpo frio não produz nenhum trabalho - eis como os físicos se expressam quando querem dizer que não há desperdício de energia no desenvolvimento do processo considerado. A doação de calor é irreversível, não sendo possível que o bolo e o forno, agora à mesma temperatura, revertam-se espontaneamente ao bolo quente e ao forno frio do início da nossa experiência.

Mas a entropia é maior...


Um alemão chamado Rudolf Clausius propôs em 1865 denominar de entropia o que se obtém dividindo a quantidade de calor de um corpo pela sua temperatura. A entropia cedida pelo bolo (penso na quantidade de calor fornecida dividida pela temperatura inicial do bolo) é menor que a entropia incorporada pelo forno (penso agora na quantidade de calor recebida dividida pela temperatua inicial do forno). A cessão de calor do bolo para o forno resultou, pois, num aumento de entropia, pois a entropia recebida pelo forno foi maior que a entropia cedida pelo bolo. Eis o milagre da geração espontânea de entropia!

- Não entendi, observa Magno Fricatore, o aluno mais atento e menos inteligente.

- É o seguinte, replico pacientemente. Quem cede calor, cede entropia, que é o calor cedido dividido pela temperatura grande. Quem recebe calor, recebe entropia, que é o calor recebido dividido pela temperatura pequena. O calor recebido é igual ao calor cedido. Logo...

- Logo, a entropia recebida é maior que a entropia cedida.

- Bingo!


Anotem, senhores alunos, anotem nos melhores cadernos: nas trocas de calor, irreversíveis, a entropia recebida é sempre maior que a entropia cedida. "Sempre" é "sempre" mesmo!

Fim da História

O Universo encontra-se em estado de desquilíbrio térmico, entre as estrelas, nas quais as temperaturas são extremamamente elevadas por causa das fusões de átomos que nelas se processam, e o formidável espaço ambiente, que é exageradamente frio. As trocas de calor, espontâneas e irreversíveis, pelas quais as estrelas vão perdendo calor para o conjunto do Universo, continuarão pelos séculos, e bota bilhões de séculos nisso. Gerando nesse processo entropia inexorável e superabundante. Quando a temperatura de todo o Universo tornar-se a mesma, cessará a produção de energia nas estrelas, e os processos ligados à ordem e à informação, como a vida, não serão mais possíveis.

- De fato?

- A História terá chegado ao fim. A entropia não crescerá mais, pois terá atingido o seu valor máximo, e o Universo, incapaz de qualquer atividade, estará morto. Morte irremediável, inarredável, inapelável e inescapável, por falta de fontes quentes (ou frias) ou trocas de energia. Como dirão os tablóides ingleses, a entropia é a morte térmica do Universo.

Maria Callas

Essa, a primeira versão da minha aula. Como o professor dá a mesma aula para várias turmas e tem de repeti-la ano após ano, minha explicação sobre a entropia seria cada vez mais elaborada e competente, desmoralizando todas as dúvidas. Assim seria, tenho certeza. Um dia, o aluno da primeira fila puxaria emocionadamente os primeiros aplausos, seria seguido por dois outros, e por outros mais, até que, ao final, pelo menos metade da classe estaria me aplaudindo, como se eu fosse um Frank Sinatra ou um Hamlet envenenado. Eu então me curvaria num gesto de agradecimento, humilde, como um São Francisco, mas envaidecido, como uma Maria Callas.
(fim)

segunda-feira, 24 de março de 2008

ACHEGAS GENIAIS

EU e outros poetas

('É porque nada sou que tudo sinto!' - Augusto Frederico Schmidt)


EU, que comecei a morrer muito antes de ter vivido...

EU, que perdi o bonde e a esperança...

EU, que te peço perdão por te amar assim tão de repente...

EU, que comigo me desavim, não posso viver comigo, não posso fugir de mim...

EU, que te quero verde, verde vento, verdes ramas...

EU, palhaço das perdidas ilusões...

EU, que te direi as grandes palavras...

EU, que ganhei (perdi) meu dia...

EU, uma educação pela pedra, por lições, para aprender da

pedra, freqüentá-la...

EU, que guardo no peito a imagem querida do mais verdadeiro,
do mais santo amor...

EU, que trago-te flores - restos arrancados da terra que nos viu passar unidos
e ora mortos nos deixa, e separados...

EU, que serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade
e saio da vida para entrar na História...

EU, que até morrer estarei enamorado de coisas impossíveis...

EU, que errei, fui homem...

EU, que nada posso lhes prometer, a não ser sangue, suor e lágrimas...

EU, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas...

EU, que na curva perigosa dos cinqüenta derrapei neste amor...

EU, eunuco, reles, verme, incauto e sagaz...

EU! Ai do que em mim me chamo EU!

EU? EU sou o Incriado de Deus, o demônio do bem e o destinado do mal, mas EU nada sou!


Observação do gozador, no quadro-negro


- EU, filho do carbono e do amoníaco, já Bocage não sou.

sexta-feira, 21 de março de 2008

MANUEL BANDEIRA

Desencanto

Eu faço versos como quem chora

De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.


Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração.


E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

Manuel Bandeira (1886 - 1968)

terça-feira, 18 de março de 2008

GRACIAS A LA VIDA

REFLEXÕES DE UM PRISIONEIRO

Muita sorte ter nascido racional, e não lagartixa, eucalipto, jaguatirica, guaxinim ou pé de couve. E dispor da faculdade de falar, aprender, protestar, ensinar, cantar, ter consciência e memória, amar, recitar, amarrar os cordões dos sapatos, agradecer, pecar, errar, escrever, amar novamente e, tendo chance, amar ainda mais e intensamente.

- E regozijar-me por estar presente na grande festa do Universo.

Nem me importa se estou sendo
aplaudido em Curitiba, almoçando em Cascais, enguiçado na estrada ou, enfim, arrestado nesta prisão que nem sei onde fica. Outra sorte, muito grande, é ser dos que recebem muito e retribuem com pouco. Quem, sozinho no mundo, poderia fabricar seus próprios chinelos, a camisa, o leito, a casa, a vara de pescar, o cabrito à lagareira, a pulseira, o garfo, a caneta, as polainas, o fio dental, o editorial e a luz polarizada? Quem, sozinho, haveria de plantar trigo, tanger os bois, pensar as feridas, construir teatros, calcular juros compostos, aplicar a regra de Sarrus, gerar, transmitir e distribuir eletricidade, varrer a sala, redigir a petição com espaço de oito linhas, decifrar hieróglifos, pedir vistas, tirar fotografia, calcular o logaritmo neperiano de 118 e a constante de Planck, compor uma sinfonia de Mahler, participar de assembléias gerais de acionistas, canalizar a água, acompanhar as fases da Lua, comer sanduíche de presunto, extrair raízes quadradas, averiguar os suspeitos, comentar partidas de tênis, matar baratas, inventar o automóvel, discutir a lei do impedimento, candidatar-se a deputado, calibrar galvanômetros, registrar os fatos econômicos em partidas dobradas, fazer caridade, estudar taboada e cálculo integral, ligar o computador, temperar a feijoada, saber o que é zigoto, monera e esclerótica e, além disso, ler Tolstói, Pico della Mirandola, Honoré de Balzac e Guimarães Rosa, aplicar na Bolsa, assoar o nariz, receber aluguéis, saber a importância de Oersted, ir ao barbeiro, cantar boleros, visitar Nova Orleans, ser dono de uma franquia dos correios e empregar-se como faxineiro do Observatório Nacional? Quem poderia saber sobre a soma dos quadrados dos catetos? A conjugação perifrástica? A localização do músculo psoas maior? A importância da quiáltera e a precessão dos equinócios?

- Ninguém poderia.

- Somos, com efeito, o conjunto dos seres que devem quase tudo ao próprio conjunto.

Há, pois, uma generosidade em cadeia, generalizada, sistêmica, involuntária, inevitável, tácita, impercebida e espontânea, e, na fartura de tantos desfrutos, cada um recebe muito mais do que dá, violando os princípios da matemática - o total das contribuições recebidas por todos é infinitamente maior que o total das contribuições por todos fornecidas. Uma mão invisível, que não é a de Adam Smith, exagera nos benefícios e distribui bondades e considerações de toda natureza: eis, senhoras e senhores, o milagre da multiplicação das benesses.

- A multiplicação de benesses é uma propriedade da vida em conjunto.

Violeta Parra

Gracias a la vida

Que me ha dado tanto

Me dio dos luceros

Que cuando los abro

Perfecto distingo

Lo negro del blanco

Y en alto cielo
Su fondo estrellado

Y en las multitudes

La mujer que yo amo
Gracias a la vida

Que me ha dado tanto

Me ha dado el sonido

Y el abecedario

Con el las palabras
Que pienso y declaro

Madre amigo hermano

Y luz alumbrando

La ruta del alma

De mi bién amada

Gracias a la vida
Que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha
De mis pieds cansados

Con ellos anduve

Ciudades y charcos

Playas y desertos

Montañas y llanos
Y a la casa tuya
Tu calle y tu patio

Gracias a la vida, gracias a la vida...


"Gracias a la Vida", da chilena Violeta Parra, deveria ser cantada pelos pequenos alunos, fosse antes ou depois dos hinos e dos discursos da diretora. Ah, após o canto, perder um minuto escasso para refletir sobre Mohandas Karamchand Gandhi, pois o homem pode ser decisivo sem deixar de ser generoso.


Rei do espaço infinito


- O God! I could be bounded in a nut-shell, and count myself a king of infinite space.

Embora prisoneiro, posso reinar pelo pensamento, como um Hamlet confinado numa casca de noz. Soltando a minha imaginação, que esta é livre e soberana. Sou o rei do espaço infinito.


(fim)

terça-feira, 11 de março de 2008

A MÃO INVISÍVEL

O CRÉDITO DE CADA UM

Júlia preside a sessão e segue apresentando o conferencista William Bird, ela que se empenhou para garantir-me este lugar na platéia. Eu a conheci há menos de uma semana, o que me deixa de peito aquecido e com a responsabilidade de me interessar pelo assunto.

-Quem sabe vão ensinar a arte de ganhar dinheiro na Bolsa de Valores?

Sorte que esse Bird, professor de Harvard e colunista do Washington Post, já morou no Brasil e fala Português sem nenhum sotaque. Li uma vez que foi dele o primeiro artigo sobre o uso das curvas de utilidade na avaliação econômica dos projetos de risco. Para mim, trata-se de uma fraude requintada, que descaracteriza a responsabilidade pelas decisões assumidas. Pois, ocorrendo o prejuízo, a falha será do projeto, pertinaz e refratário, e de suas insuficientes e traiçoeiras probabilidades. Nesse caso bastará dizer para os acionistas, com toda a modéstia e sinceridade:

- Lamento muito.

Se, entretanto, o improvável ocorrer e o projeto for bem-sucedido, você será reconhecido como um gênio, assim humilde, a circular generosamente entre os mortais e sério candidato a uma recompensa a ser estabelecida pelo conselho de administração, nas avaliações anuais de desempenho. O super-homem da utilidade destemida.

Adam Smith

William Bird começa com a pergunta que dá o tom da conferência:

- Por que não faltam técnicos nas plataformas geladas do Mar de Behring, nem embaixadas em Guiné-Bissau ou arroz em Nova York?

A resposta será a sua aula, ou seja, nada de Bolsa de Valores. Por que contrataram um professor americano para ensinar sobre isso? Tenho para mim, muito para mim, que esse negócio de Adam Smith todo mundo sabe, o pipoqueiro, a prostituta, o corredor de meia-maratona, o agrônomo, o estalajadeiro e a tia do Rigoletto. Estudei isso superficialmente no primeiro ano da faculdade, junto com estatística, logística dos transportes, perfumaria e outras generalidades.

- Por que há uma mão invisível, a do mercado, que coloca arroz e frangos em Nova York e embaixadas em Guiné-Bissau. Exatamente isso, nem mais, nem menos do que isso. Para qualquer bem ou serviço, há uma curva de quantidade demandada, a verde, que se assemelha ao ramo positivo de uma hipérbole equilátera, e uma curva de quantidade ofertada, a vermelha, de sentido contrário, a fazer-lhe o contraponto. Num mercado em funcionamento, as duas curvas se cruzam. E é bom que o façam, pois, do contrário, o mercado desaparece e... adeus bem ou serviço! O ponto de encontro das duas curvas define e o preço e a quantidade realmente negociada do bem ou serviço em questão, não importa se sal de cozinha, sanduíche de mortadela, apartamentos de cobertura ou perfume francês.

Curvas do sanduíche de mortadela

A linguagem dos economistas é cheia de louçanias, belas como uma tela de Matisse. Ramo positivo de uma hipérbole equilátera, quantidade demandada, lei dos rendimentos decrescentes, necessidades geométricas de Malthus...

- Os fatores da produção são a natureza, o trabalho e o capital, prossegue o professor. Num certo sentido, porém, esses fatores reduzem-se a dois, natureza e trabalho, com a exclusão do capital, pois este resulta do trabalho em face da natureza, da capacidade de prever o futuro e da vontade de poupar e fazer provisão.

- Os fatores de produção são sempre remunerados?

-
Numa economia livre, certamente. Tudo que se recebe a título de remuneração do trabalho, do capital e da natureza forma a renda nacional. Nesse sentido, alguns cuidados são essenciais, conforme alertou Hubert Védrine, ministro francês, em recente discurso perante a Comunidade Econômica Européia. Ele o fez jocosamente, provocando o riso das autoridades presentes.

- Na Comunidade Européia, jocosamente?

- Sim, muito jocosamente. Há, há, há! Védrine lembrou que é impatriótico casar com a governanta, pois um salário é imediatamente cancelado, diminuindo a renda nacional.

Hubert Védrine

Todos riem. Não sei por quê, as pessoas, quando em grupo, têm mais disposição para o riso, e todos os chistes são bem-sucedidos. É aí que entra o Freud: sozinho sou uma coisa, no grupo sou outra diferente, e na multidão sou uma gota dentro de uma nuvem. Choverei também, se a decisão for a de promover uma tormenta.


- Estão rindo? Será que vocês ousariam pedir recibos às suas mulheres? Se o fizessem, poderiam abater suas mesadas dos rendimentos tributáveis, mas elas teriam de fazer declaração de renda!

- Boa idéia, professor, boa idéia!


Piada de economista é sempre assim, magnificar a renda nacional, não casar com a governanta, deduzir a mulher no imposto de renda...


O quinhão do William Bird

Terminada a aula, Bird é aplaudido entusiasticamente, como se tivesse cantado uma ária de Bizet ou formulado uma das leis de Newton. Ele, o Bird, embolsará três mil dólares, um “fee” nada desprezí (zá) vel, livre de impostos e despesas de qualquer natureza. Ou, como escreveu na carta-resposta que Júlia me mostrou, “free of taxes and expenses whatsoever”. Júlia terá enriquecido o seu portfólio. Os assistentes, quase todos doutorandos, receberão créditos universitários e menções curriculares.
E eu? Isso mesmo, e eu?

- Estou apaixonado pela Júlia.
(fim)

terça-feira, 4 de março de 2008

O MUNDO ADMIRÁVEL

PERFEIÇÃO

Assertivo e paciente, o doutor Crisóstomo sempre se mostrou tolerante com a nossa ignorância.

- No mundo que nos sucederá ser
ão proibidas a História, a Economia e a Divisão do Trabalho, ramos do conhecimento que estão na origem de todos os males. O homem integral não necessita nem de Henry Ford nem de Heródoto; antes os despreza.

Heródoto
- Não entendi...

- Numa sociedade sem moedas, bancos, promissórias, juros e aluguéis, cada qual será seu próprio Mário Henrique Simonsen, cantando ópera no banheiro. Sem História, nunca se aprenderá sobre guerras, e, sem Engenharia, não haverá telefones celulares, fornos elétricos e câmeras fotográficas digitais. Nem aceleradores de partículas, golpes de aríete ou virabrequim, cujo desgaste é intolerável.

- E então?

- O homem estará novamente no paraíso.

Entidades inexistentes

Nega Fulô

Segundo o Crisóstomo, as seguintes entidades não existirão no mundo latino sem guerras:

Teorema de Tales
Lei dos grandes números
Gatos pardos, pingados e escaldados
Tribunal de pequenas causas
Elevadores e logaritmos neperianos

Críticos de cinema, dilema e eczema
Bidê, dendê e meus óculos, cadê?
Macbeth e Lady Macbeth

Teoria Geral do Estado e estado geral da teoria
Relógios, atrito de rolamento e elefantíase
Pisicanalistas e ansiedades básicas
Maiô e essa nega Fulô
Paris, Texas
Questão Christie
Comida a quilo, rádios de pilha, sacos cheios e conjuntos vazios

Medidas provisórias, cadernos de encargos e telefone
Torcicolo e dependências de empregadas
Ponto flexível, ponto de vista, duas horas em ponto e eu dormi no ponto
Viés diagonal e reversão de expectativas
Tratado básico de eletricidade, sem mestre, terceira edição.

O Oriente será habitado por gente pacífica, e no Vietnã as crianças soltarão pipas coloridas no Golfo de Tonquim.
Heráclito se esquecerá de dizer que "não se pode entrar duas vezes no mesmo rio". Porque Heráclito, coitado, já não será o mesmo, nem o rio.
As indiretas serão abolidas, e o bolo, repartido.
Políticos não serão molestados, como de outras vezes, pela peste suína africana, médicos não farão greves, e o MAM, ao queimar, poupará Mathieu e Portinari.
Serão abolidos os telegramas, as genuflexões, a luz polarizada, os ensinamentos de Pontes de Miranda e a paulatina, mas eficiente, poluição da Baía de Guanabara.

Código

Apenas um monumento será erigido num sítio escolhido, a seu tempo, para ser a capital do admirável mundo novo. Nele se lerá o único código permitido:

Código

"Guerra a todas as máquinas de calcular, aos índices de produtividade, à estatística e à inflação persistente, mas controlada;
Guerra às democracias, ao ângulo obtuso, ao número 18 e aos nomes de guerra;
Guerra à lei da gravitação universal, ao ano decretório, à tripanossomíase sul-americana e aos mecanismos de defesa do nosso ego atribulado;
Guerra ao crivo de Eratóstenes, ao Estreito de Dardanelos e ao esternoclideomastóideo;
Guerra às divisões celulares, à segunda divisão e às divisões blindadas;
Guerra ao anacoluto, ao estilo gótico e ao Tratado de Tordesilhas, revisto e ampliado;
Guerra a todas as guerras."

Esta guerra, com efeito, existirá.
(fim)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

ÚLTIMO CONTO DA GUERRA FRIA

Sucessos do 16 e do 17 de agosto

No dia 17 de agosto do ano da graça de..., ocorrerá a terceira e última guerra mundial. Guerra instantânea, total, datilográfica, como explicava o doutor Crisóstomo, nas suas pacientes e intermináveis elucubrações. Um datilógrafo apertará
Londres, simplesmente isso, e Londres se derreterá. E, assim, sem deferências nem contemplações, Rio de Janeiro, Paris, Moscou, Roma, Berlim, Espera Feliz e Nova York. Perderá a guerra menos rapidamente quem se apresentar com melhor datilografia e máquinas de belo consolo e retrocesso competente e decidido.


16 de agosto.
Amanhã teremos um encontro inevitável com o desenlace. Somos quase sete bilhões de morituros, ávidos de viver, nessas (nossas) 24 horas. A morte não tarda, mas é preciso viver, enquanto o canhoneio não vem. Cada segundo terá de durar uma eternidade. Entremos, pois, no melhor restaurante, assistamos ao melhor teatro e descansemos no melhor apartamento. Deitemos fora os termômetros, as pastas de engraxar que lustram sem ressecar, os pregadores de gravatas, os oito primeiros números da série de Fibonacci, os abridores de latas e os carnês de prestações a juros favorecidos.

- Hoje eu não vou fazer a barba.

- A propósito, quer dançar comigo?

Aqueles que tiverem bom gosto subirão comigo ao Pão de Açúcar, e juntos lançaremos aviões de papel sobre a Baía da Guanabara. Depois, nós nos consumiremos de amor.
Por favor, não nos fale de Bush, nem de Bin Laden, que estes estarão fugindo de si mesmos e de suas biografias, as quais são todas não autorizadas. Nesse dia todo discurso será absolutamente desnecessário. O poliglota, dançando conosco a infatigável valsa da despedida, gritará para as pessoas: Folks! Todos entenderemos "Volks!". Mas ninguém quer saber de Volks porque há Mercedes sobrando. Mercedes e Marias sobrando.

Mercedes e Maria

Alguns, os corruptos (que sempre os há), permacerão graves, mas quase todos estarão se despedindo alegremente. Mães de uns e filhos de outras se abraçarão emocionados, os olhos absolutamente auspiciosos. Pois hoje, 16 de agosto, é o nosso domingo, dia dos pobres iguais aos ricos e dos ricos iguais a todos. Nem importa que a humanidade tenha uma sobrevida de apenas 24 horas - um instantezinho de felicidade é bastante para realizar a criação, humana e desumana, de uma só vez e completamente.

Primeiras informações adicionais:
No dia 16 não haverá chaves, dinheiro valendo e família, porque chaves dinheiro valendo e família são entidades úteis nas coletividades que não esperam morrer amanhã, e apenas nestas. De minha parte, jogarei fora a doçura sem açúcar que não engorda e rasgarei, enfim, o soneto em que tive vergonha de mostrar.


Soneto que será rasgado

17 de agosto: o dia chegou. A felicidade foi ontem. Teremos hoje alucinações maiores que as do recoveiro de Púchkin, varridos da Terra pela nossa própria tecnologia. Que você não pense que essa odisséia no chão (re-odisséia) é algum elevado ou shopping center caindo sobre sua cabeça. Pois é fim do mundo mesmo. Na hora da morte, homens e animais, apartamentos de cobertura da Delfim Moreira e falsos profetas vestidos de azul, tudo, absolutamente tudo, irá desmoronar num único baque.
Os nossos gritos serão abafados pelo troar infernal das bombas deles, e todos viveremos a inerme ventura de morrer igualitariamente.
É a expiação.
É a expiação, pelas nossas guerras convencionais, químicas, de quadrilhas, púnicas, de nervos, santas, sem quartel, bacteriológicas, injustas, de preços, atômicas, frias, econômicas, de cem anos, localizadas, sujas, totais e de torcidas.

Outras informações adicionais: Na verdade salvam-se um homem e uma mulher, que isso aqui é bom demais para ficar desabitado. O homem será escolhido por sorteio, essa a sua chance, mas da mulher serão exigidas qualidades várias, como a beleza da Jeanne Moreau, a coragem de Eneida de Morais e a inteligência da Dione. Engana-se quem pensou em Cláudia Cardinale ou Vera Fischer, cujas, infelizmente, não poderão ser salvas.

A escolhida, uma latina, formará com outro latino um casal sem nenhuma propensão marginal, nem para consumir nem para guerrear. Esta, porém, é outra história, a ser contada depois.

Últimas informações adicionais: Nossos prótons são eternos, mas não teremos missa de sétimo dia.
(fim)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

SOLILÓQUIO

Aguardando uma tertúlia literária

Chego antes das 14 horas e acomodo-me na primeira fila. Lembro-me de ter trazido as crônicas do Machado de Assis e aproveito para ler sobre o velho Senado, pois conhecer a alma das instituições sempre me comove e emociona.

Machado de Assis

"Paranhos costumava falar com moderação e pausa; firmava os dedos, erguia-se para o gesto lento e sóbrio, ou então para chamar os punhos da camisa, e sua voz ia saindo meditada e colorida. Naquele dia, porém, a ânsia de produzir a defesa era tal, que as primeiras palavras foram antes bradadas que ditas:

- Não à vaidade, senhor presidente...

Daí a um instante, a voz tornava ao diapasão habitual, e o discurso continuou como nos outros dias. Eram nove horas da noite, quando ele acabou; estava como no princípio, nenhum sinal de fadiga, nem dele nem do auditório, que o aplaudiu."

Bardo Sereno

Dez minutos minutos passados, talvez mais, só agora percebo que a sala está lotada. Há muitas pessoas em pé. Imagino que toda essa gente esteja na expectativa de uma briga, como a da semana passada. Ainda faltam 20 minutos para o início da sessão, uma eternidade.
Subitamente um homem levanta-se no meio da platéia e toma a palavra:

- Meu nome é Bardo Sereno. Nada tenho a ver com este evento, mero circunstante e metediço que sou por aqui, mas gostaria que os senhores ouvissem o meu texto.

Bardo Sereno

Um constrangimento prolongado, até que o velhinho da bengala se manifesta:

- Texto, que texto?

- Um pequeno solilóquio, mediante o qual apresento a minha capacidade.

- Solilóquio... O que é isso?

- Um monólogo dramático de caráter literário.

- Manda lá o solilóquio, se de fato pequeno.

- Aí vai... Maldo, escarneço, degringolo, hiperbolizo, descuro, prevarico, infernizo e obscureço, sem que ninguém se dê conta da iniqüidade que represento. Tergiverso, ocultamente, e como! Posso rir de todos os discursos sobre o método, extrair a raiz cúbica do infinito, iluminar buracos negros e consolar girafas escandalizadas, eis alguns dos meus mais freqüentes e divertidos passatempos. Posso evitar o assassinato de Lincoln, impedir o terremoto de Lisboa,
apagar o incêndio de Roma, absolver Giordano Bruno e Galileu Galilei, decidir sobre o Santo Graal, conferir os cálculos de Eratóstenes e reabrir a Academia de Platão, dela excluindo os que não saibam matemática, e somente estes. Que mais, isso mesmo, que mais? Sou capaz de conversar com Cervantes, convencer o indeciso Pilatos de que a democracia direta é muito complicada, conter os arroubos de Napoleão ou salvá-lo de Waterloo, dar ouvidos a Beethoven, atirar longe a cicuta de Sócrates e comprar trigais diretamente de Van Gogh. Uma pechincha, senhores, uma pechincha!

- Muito bem!

- Maravilhoso!

- Valeu, Bardo Sereno!

- Sinceramente... Eu não esperava críticas, assim, tão construtivas.
Obrigado, obrigado a todos!

Namorou a Pier Angeli

Pier Angeli

Muito curioso, mas prefiro que ninguém mais se anime para uma segunda exibição desse tipo. Não tenho disposição, nem paciência, para ser platéia dos ASP, autores sem público. Não mesmo, não mesmo. Pois, como caixa de banco indefeso e desqualificado, sou obrigado a ouvir todo dia o gerente da conta dos aposentados, que tem um discurso parecido com o desse Bardo Sereno para relatar suas inesgotáveis proezas e capacidades. É o doutor Pacheco, um velhinho que fala rumeno sem sotaque, conhece armas e brasões, é PHD em geografia política, foi campeão de tênis, derrotou o Petrossian com xeque-mate de cavalo e sobreviveu 40 dias no deserto. Ah, antes que me esqueça, protagonizou o Cyrano de Bergerac, namorou a Pier Angeli e deu aulas particulares para o Norberto Bobbio.
Solilóquio, so - li - ló - quio...
(fim)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

A PENSÃO DOS NAUFRAGADOS (1/1)

BEATI MONOCULI

É divertido vê-los chegar, muito humildes, como o Araújo, que ontem aqui aportou de mala quase vazia, trazendo nas mãos um espelho, um cavaquinho e dois cabides de arame.

- Quanto custa o quarto mais barato?

A pensão

Depois, integrados, desinibem-se e esparramam-se pensão afora, com seus malogros e ambições, grandes defeitos e poucas qualidades. São, como eu, perdedores, vultos, apenas vultos, e, deles, o pouco que sei considero demasiado.

Caminhadas suspeitas

Nenhuma importância há de haver no guarda-livros que estuda canto, na esperança de representar o Othelo; na Ivonete, que era caixa de farmácia no Largo da Segunda-Feira e agora, mesmo desempregada, usa perfumes caros e só traja vestidos importados, nas suas caminhadas suspeitas pela Conde de Bonfim; no Sargento Castro de Paula, cujo sonho é servir na Bósnia, por alguns dólares da ONU, e na sua mulher, dona Eulália, a portuguesa branquicela que tudo tempera com azeite de oliva, até a sobremesa; no Sebastião Valadares, que ateou fogo no armazém vazio após esconder as mercadorias num depósito de Caxias e, em vez de receber a indenização reclamada à companhia de seguros, está a enfrentar um adverso processo judicial; no Zé Terra, um pernambucano enfezado que bate na mulher, a Jupira; e no Sorianito Gonzalez, que é mexicano e apanha da sua todas as noites.

Incêndio do inexistente

Reversão dialógica

Ah, sim, antes que me escape, Carlos Arruda de Proença é dos hóspedes o mais extravagante, com sua mania de usar expressões complicadas, das quais não me esqueço de "mateologia holística", "reversão dialógica" e "tmeses ataviadoras". Ele se recusa a esclarecê-las, mesmo não sendo entendido por ninguém.

- Louçanias, senhores, meras louçanias de linguagem. Não existem para ser explicadas, nem me cabe nenhuma obrigação de dar milho aos pombos.

Outro dia, quando se conversava no jantar sobre decisões políticas controvertidas, deixou escapar alguma coisa em latim, "beati monoculi in regione caecorum", provocando reações irônicas do Zé Terra e de dona Eulália.

- Na minha terra quem fala bonito é o prefeito.

- Em Portugal a lei da vida é muito outra, pois escreveu, não leu, o pau comeu. Lá o pau come solenemente!

- Vocês são estupefativos, rebateu o Proença.

- O quê?

- Gente de visão plúmbea, ímproba e mitigada.

E não é só

Pois há também na pensão um Licurgo dos Santos Reis, alfaiate de roupas militares, que às vezes inicia suas refeições com rezas assim:

Profanaste os vasos santos
Nas torpezas de um festim.
Teus dias estão contados
Como os da bela Seboim.
Não sabias, cão danado,
Que tenho o corpo fechado?
Tu fizeste e pagarás,
Vade retro, Satanás.

Rezas ou pragas, nem sei direito.

Praga

No mês passado apareceu aqui o Abdmelaus Karuche de Alicante, conhecido como Abdias, um estudante profissional que se gaba de sempre conseguir generosas bolsas de estudo, de acordo com trâmites que conhece com exclusividade. Polpudas e sumarentas bolsas, garante ele, que as acumula, a todas, na maior desfaçatez. Estudou engenharia, literatura e geografia, mas seu interesse atual está na filosofia, que orgulhosamente chama de a ciência de Platão.
Justiça seja feita, esse Abdias realmente estuda, e estuda muito, adquirindo informações a serviço de coisa nenhuma, a fundo perdido, pois disse repetidas vezes que não trabalhará jamais.

Assassinou o sono
Ts´ai Lun

Sentado em meu canto, na maior parte do tempo desligo-me desse ambiente, que em certas ocasiões se torna inóspito e agressivo. Eles falam da ONU, das companhias de seguros, de Othelo, das mulheres que gostam de apanhar, do azeite de oliva, das bolsas de estudo e das louçanias de linguagem, e eu, fingindo que os ouço, viajo infinito afora, imaginando por que Einstein assumiu-se com a velocidade da luz para estabelecer as bases da teoria da relatividade, se é verdade que o eunuco chinês Ts´ai Lun inventou o papel ou como Machbeth, o nobre escocês que assassinou o sono, houve de morrer pelas mãos daquele que não nasceu de mulher, quando as florestas se puseram a caminhar.
(Fim)