O CRÉDITO DE CADA UM
Júlia preside a sessão e segue apresentando o conferencista William Bird, ela que se empenhou para garantir-me este lugar na platéia. Eu a conheci há menos de uma semana, o que me deixa de peito aquecido e com a responsabilidade de me interessar pelo assunto.
-Quem sabe vão ensinar a arte de ganhar dinheiro na Bolsa de Valores?
Sorte que esse Bird, professor de Harvard e colunista do Washington Post, já morou no Brasil e fala Português sem nenhum sotaque. Li uma vez que foi dele o primeiro artigo sobre o uso das curvas de utilidade na avaliação econômica dos projetos de risco. Para mim, trata-se de uma fraude requintada, que descaracteriza a responsabilidade pelas decisões assumidas. Pois, ocorrendo o prejuízo, a falha será do projeto, pertinaz e refratário, e de suas insuficientes e traiçoeiras probabilidades. Nesse caso bastará dizer para os acionistas, com toda a modéstia e sinceridade:
- Lamento muito.
Se, entretanto, o improvável ocorrer e o projeto for bem-sucedido, você será reconhecido como um gênio, assim humilde, a circular generosamente entre os mortais e sério candidato a uma recompensa a ser estabelecida pelo conselho de administração, nas avaliações anuais de desempenho. O super-homem da utilidade destemida.
Adam Smith
William Bird começa com a pergunta que dá o tom da conferência:
- Por que não faltam técnicos nas plataformas geladas do Mar de Behring, nem embaixadas em Guiné-Bissau ou arroz em Nova York?
A resposta será a sua aula, ou seja, nada de Bolsa de Valores. Por que contrataram um professor americano para ensinar sobre isso? Tenho para mim, muito para mim, que esse negócio de Adam Smith todo mundo sabe, o pipoqueiro, a prostituta, o corredor de meia-maratona, o agrônomo, o estalajadeiro e a tia do Rigoletto. Estudei isso superficialmente no primeiro ano da faculdade, junto com estatística, logística dos transportes, perfumaria e outras generalidades.
- Por que há uma mão invisível, a do mercado, que coloca arroz e frangos em Nova York e embaixadas em Guiné-Bissau. Exatamente isso, nem mais, nem menos do que isso. Para qualquer bem ou serviço, há uma curva de quantidade demandada, a verde, que se assemelha ao ramo positivo de uma hipérbole equilátera, e uma curva de quantidade ofertada, a vermelha, de sentido contrário, a fazer-lhe o contraponto. Num mercado em funcionamento, as duas curvas se cruzam. E é bom que o façam, pois, do contrário, o mercado desaparece e... adeus bem ou serviço! O ponto de encontro das duas curvas define e o preço e a quantidade realmente negociada do bem ou serviço em questão, não importa se sal de cozinha, sanduíche de mortadela, apartamentos de cobertura ou perfume francês.
A linguagem dos economistas é cheia de louçanias, belas como uma tela de Matisse. Ramo positivo de uma hipérbole equilátera, quantidade demandada, lei dos rendimentos decrescentes, necessidades geométricas de Malthus...
- Os fatores da produção são a natureza, o trabalho e o capital, prossegue o professor. Num certo sentido, porém, esses fatores reduzem-se a dois, natureza e trabalho, com a exclusão do capital, pois este resulta do trabalho em face da natureza, da capacidade de prever o futuro e da vontade de poupar e fazer provisão.
- Os fatores de produção são sempre remunerados?
- Numa economia livre, certamente. Tudo que se recebe a título de remuneração do trabalho, do capital e da natureza forma a renda nacional. Nesse sentido, alguns cuidados são essenciais, conforme alertou Hubert Védrine, ministro francês, em recente discurso perante a Comunidade Econômica Européia. Ele o fez jocosamente, provocando o riso das autoridades presentes.
- Na Comunidade Européia, jocosamente?
- Sim, muito jocosamente. Há, há, há! Védrine lembrou que é impatriótico casar com a governanta, pois um salário é imediatamente cancelado, diminuindo a renda nacional.
Todos riem. Não sei por quê, as pessoas, quando em grupo, têm mais disposição para o riso, e todos os chistes são bem-sucedidos. É aí que entra o Freud: sozinho sou uma coisa, no grupo sou outra diferente, e na multidão sou uma gota dentro de uma nuvem. Choverei também, se a decisão for a de promover uma tormenta.
- Estão rindo? Será que vocês ousariam pedir recibos às suas mulheres? Se o fizessem, poderiam abater suas mesadas dos rendimentos tributáveis, mas elas teriam de fazer declaração de renda!
- Boa idéia, professor, boa idéia!
Piada de economista é sempre assim, magnificar a renda nacional, não casar com a governanta, deduzir a mulher no imposto de renda...
Terminada a aula, Bird é aplaudido entusiasticamente, como se tivesse cantado uma ária de Bizet ou formulado uma das leis de Newton. Ele, o Bird, embolsará três mil dólares, um “fee” nada desprezí (zá) vel, livre de impostos e despesas de qualquer natureza. Ou, como escreveu na carta-resposta que Júlia me mostrou, “free of taxes and expenses whatsoever”. Júlia terá enriquecido o seu portfólio. Os assistentes, quase todos doutorandos, receberão créditos universitários e menções curriculares. E eu? Isso mesmo, e eu?
- Estou apaixonado pela Júlia.
(fim)
terça-feira, 11 de março de 2008
terça-feira, 4 de março de 2008
O MUNDO ADMIRÁVEL
PERFEIÇÃO
Assertivo e paciente, o doutor Crisóstomo sempre se mostrou tolerante com a nossa ignorância.
- No mundo que nos sucederá serão proibidas a História, a Economia e a Divisão do Trabalho, ramos do conhecimento que estão na origem de todos os males. O homem integral não necessita nem de Henry Ford nem de Heródoto; antes os despreza.
- Não entendi...
- Numa sociedade sem moedas, bancos, promissórias, juros e aluguéis, cada qual será seu próprio Mário Henrique Simonsen, cantando ópera no banheiro. Sem História, nunca se aprenderá sobre guerras, e, sem Engenharia, não haverá telefones celulares, fornos elétricos e câmeras fotográficas digitais. Nem aceleradores de partículas, golpes de aríete ou virabrequim, cujo desgaste é intolerável.
- E então?
- O homem estará novamente no paraíso.
Entidades inexistentes
Segundo o Crisóstomo, as seguintes entidades não existirão no mundo latino sem guerras:
Teorema de Tales
Lei dos grandes números
Gatos pardos, pingados e escaldados
Tribunal de pequenas causas
Elevadores e logaritmos neperianos
Críticos de cinema, dilema e eczema
Bidê, dendê e meus óculos, cadê?
Macbeth e Lady Macbeth
Teoria Geral do Estado e estado geral da teoria
Relógios, atrito de rolamento e elefantíase
Pisicanalistas e ansiedades básicas
Maiô e essa nega Fulô
Paris, Texas
Questão Christie
Comida a quilo, rádios de pilha, sacos cheios e conjuntos vazios
Medidas provisórias, cadernos de encargos e telefone
Viés diagonal e reversão de expectativas
Tratado básico de eletricidade, sem mestre, terceira edição.
O Oriente será habitado por gente pacífica, e no Vietnã as crianças soltarão pipas coloridas no Golfo de Tonquim.
Heráclito se esquecerá de dizer que "não se pode entrar duas vezes no mesmo rio". Porque Heráclito, coitado, já não será o mesmo, nem o rio.
As indiretas serão abolidas, e o bolo, repartido.
Políticos não serão molestados, como de outras vezes, pela peste suína africana, médicos não farão greves, e o MAM, ao queimar, poupará Mathieu e Portinari.
Serão abolidos os telegramas, as genuflexões, a luz polarizada, os ensinamentos de Pontes de Miranda e a paulatina, mas eficiente, poluição da Baía de Guanabara.
Código
Apenas um monumento será erigido num sítio escolhido, a seu tempo, para ser a capital do admirável mundo novo. Nele se lerá o único código permitido:
"Guerra a todas as máquinas de calcular, aos índices de produtividade, à estatística e à inflação persistente, mas controlada;
Guerra às democracias, ao ângulo obtuso, ao número 18 e aos nomes de guerra;
Guerra à lei da gravitação universal, ao ano decretório, à tripanossomíase sul-americana e aos mecanismos de defesa do nosso ego atribulado;
Guerra ao crivo de Eratóstenes, ao Estreito de Dardanelos e ao esternoclideomastóideo;
Guerra às divisões celulares, à segunda divisão e às divisões blindadas;
Guerra ao anacoluto, ao estilo gótico e ao Tratado de Tordesilhas, revisto e ampliado;
Guerra a todas as guerras."
Esta guerra, com efeito, existirá.
(fim)
Assertivo e paciente, o doutor Crisóstomo sempre se mostrou tolerante com a nossa ignorância.
- No mundo que nos sucederá serão proibidas a História, a Economia e a Divisão do Trabalho, ramos do conhecimento que estão na origem de todos os males. O homem integral não necessita nem de Henry Ford nem de Heródoto; antes os despreza.
- Não entendi...
- Numa sociedade sem moedas, bancos, promissórias, juros e aluguéis, cada qual será seu próprio Mário Henrique Simonsen, cantando ópera no banheiro. Sem História, nunca se aprenderá sobre guerras, e, sem Engenharia, não haverá telefones celulares, fornos elétricos e câmeras fotográficas digitais. Nem aceleradores de partículas, golpes de aríete ou virabrequim, cujo desgaste é intolerável.
- E então?
- O homem estará novamente no paraíso.
Entidades inexistentes
Segundo o Crisóstomo, as seguintes entidades não existirão no mundo latino sem guerras:
Teorema de Tales
Lei dos grandes números
Gatos pardos, pingados e escaldados
Tribunal de pequenas causas
Elevadores e logaritmos neperianos

Críticos de cinema, dilema e eczema
Bidê, dendê e meus óculos, cadê?
Macbeth e Lady Macbeth
Teoria Geral do Estado e estado geral da teoria
Relógios, atrito de rolamento e elefantíase
Pisicanalistas e ansiedades básicas
Maiô e essa nega Fulô
Paris, Texas
Questão Christie
Comida a quilo, rádios de pilha, sacos cheios e conjuntos vazios
Medidas provisórias, cadernos de encargos e telefone
Torcicolo e dependências de empregadas
Ponto flexível, ponto de vista, duas horas em ponto e eu dormi no pontoViés diagonal e reversão de expectativas
Tratado básico de eletricidade, sem mestre, terceira edição.
O Oriente será habitado por gente pacífica, e no Vietnã as crianças soltarão pipas coloridas no Golfo de Tonquim.Heráclito se esquecerá de dizer que "não se pode entrar duas vezes no mesmo rio". Porque Heráclito, coitado, já não será o mesmo, nem o rio.
As indiretas serão abolidas, e o bolo, repartido.
Políticos não serão molestados, como de outras vezes, pela peste suína africana, médicos não farão greves, e o MAM, ao queimar, poupará Mathieu e Portinari.
Serão abolidos os telegramas, as genuflexões, a luz polarizada, os ensinamentos de Pontes de Miranda e a paulatina, mas eficiente, poluição da Baía de Guanabara.
Código
Apenas um monumento será erigido num sítio escolhido, a seu tempo, para ser a capital do admirável mundo novo. Nele se lerá o único código permitido:
"Guerra a todas as máquinas de calcular, aos índices de produtividade, à estatística e à inflação persistente, mas controlada;
Guerra às democracias, ao ângulo obtuso, ao número 18 e aos nomes de guerra;
Guerra à lei da gravitação universal, ao ano decretório, à tripanossomíase sul-americana e aos mecanismos de defesa do nosso ego atribulado;
Guerra ao crivo de Eratóstenes, ao Estreito de Dardanelos e ao esternoclideomastóideo;
Guerra às divisões celulares, à segunda divisão e às divisões blindadas;
Guerra ao anacoluto, ao estilo gótico e ao Tratado de Tordesilhas, revisto e ampliado;
Guerra a todas as guerras."
Esta guerra, com efeito, existirá.
(fim)
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
ÚLTIMO CONTO DA GUERRA FRIA
Sucessos do 16 e do 17 de agosto
No dia 17 de agosto do ano da graça de..., ocorrerá a terceira e última guerra mundial. Guerra instantânea, total, datilográfica, como explicava o doutor Crisóstomo, nas suas pacientes e intermináveis elucubrações. Um datilógrafo apertará Londres, simplesmente isso, e Londres se derreterá. E, assim, sem deferências nem contemplações, Rio de Janeiro, Paris, Moscou, Roma, Berlim, Espera Feliz e Nova York. Perderá a guerra menos rapidamente quem se apresentar com melhor datilografia e máquinas de belo consolo e retrocesso competente e decidido.

16 de agosto. Amanhã teremos um encontro inevitável com o desenlace. Somos quase sete bilhões de morituros, ávidos de viver, nessas (nossas) 24 horas. A morte não tarda, mas é preciso viver, enquanto o canhoneio não vem. Cada segundo terá de durar uma eternidade. Entremos, pois, no melhor restaurante, assistamos ao melhor teatro e descansemos no melhor apartamento. Deitemos fora os termômetros, as pastas de engraxar que lustram sem ressecar, os pregadores de gravatas, os oito primeiros números da série de Fibonacci, os abridores de latas e os carnês de prestações a juros favorecidos.
- Hoje eu não vou fazer a barba.
- A propósito, quer dançar comigo?
Aqueles que tiverem bom gosto subirão comigo ao Pão de Açúcar, e juntos lançaremos aviões de papel sobre a Baía da Guanabara. Depois, nós nos consumiremos de amor.
Por favor, não nos fale de Bush, nem de Bin Laden, que estes estarão fugindo de si mesmos e de suas biografias, as quais são todas não autorizadas. Nesse dia todo discurso será absolutamente desnecessário. O poliglota, dançando conosco a infatigável valsa da despedida, gritará para as pessoas: Folks! Todos entenderemos "Volks!". Mas ninguém quer saber de Volks porque há Mercedes sobrando. Mercedes e Marias sobrando.
Alguns, os corruptos (que sempre os há), permacerão graves, mas quase todos estarão se despedindo alegremente. Mães de uns e filhos de outras se abraçarão emocionados, os olhos absolutamente auspiciosos. Pois hoje, 16 de agosto, é o nosso domingo, dia dos pobres iguais aos ricos e dos ricos iguais a todos. Nem importa que a humanidade tenha uma sobrevida de apenas 24 horas - um instantezinho de felicidade é bastante para realizar a criação, humana e desumana, de uma só vez e completamente.
Primeiras informações adicionais: No dia 16 não haverá chaves, dinheiro valendo e família, porque chaves dinheiro valendo e família são entidades úteis nas coletividades que não esperam morrer amanhã, e apenas nestas. De minha parte, jogarei fora a doçura sem açúcar que não engorda e rasgarei, enfim, o soneto em que tive vergonha de mostrar.
17 de agosto: o dia chegou. A felicidade foi ontem. Teremos hoje alucinações maiores que as do recoveiro de Púchkin, varridos da Terra pela nossa própria tecnologia. Que você não pense que essa odisséia no chão (re-odisséia) é algum elevado ou shopping center caindo sobre sua cabeça. Pois é fim do mundo mesmo. Na hora da morte, homens e animais, apartamentos de cobertura da Delfim Moreira e falsos profetas vestidos de azul, tudo, absolutamente tudo, irá desmoronar num único baque.
Os nossos gritos serão abafados pelo troar infernal das bombas deles, e todos viveremos a inerme ventura de morrer igualitariamente.
É a expiação.
É a expiação, pelas nossas guerras convencionais, químicas, de quadrilhas, púnicas, de nervos, santas, sem quartel, bacteriológicas, injustas, de preços, atômicas, frias, econômicas, de cem anos, localizadas, sujas, totais e de torcidas.
Outras informações adicionais: Na verdade salvam-se um homem e uma mulher, que isso aqui é bom demais para ficar desabitado. O homem será escolhido por sorteio, essa a sua chance, mas da mulher serão exigidas qualidades várias, como a beleza da Jeanne Moreau, a coragem de Eneida de Morais e a inteligência da Dione. Engana-se quem pensou em Cláudia Cardinale ou Vera Fischer, cujas, infelizmente, não poderão ser salvas.
A escolhida, uma latina, formará com outro latino um casal sem nenhuma propensão marginal, nem para consumir nem para guerrear. Esta, porém, é outra história, a ser contada depois.
Últimas informações adicionais: Nossos prótons são eternos, mas não teremos missa de sétimo dia.
(fim)
No dia 17 de agosto do ano da graça de..., ocorrerá a terceira e última guerra mundial. Guerra instantânea, total, datilográfica, como explicava o doutor Crisóstomo, nas suas pacientes e intermináveis elucubrações. Um datilógrafo apertará Londres, simplesmente isso, e Londres se derreterá. E, assim, sem deferências nem contemplações, Rio de Janeiro, Paris, Moscou, Roma, Berlim, Espera Feliz e Nova York. Perderá a guerra menos rapidamente quem se apresentar com melhor datilografia e máquinas de belo consolo e retrocesso competente e decidido.

16 de agosto. Amanhã teremos um encontro inevitável com o desenlace. Somos quase sete bilhões de morituros, ávidos de viver, nessas (nossas) 24 horas. A morte não tarda, mas é preciso viver, enquanto o canhoneio não vem. Cada segundo terá de durar uma eternidade. Entremos, pois, no melhor restaurante, assistamos ao melhor teatro e descansemos no melhor apartamento. Deitemos fora os termômetros, as pastas de engraxar que lustram sem ressecar, os pregadores de gravatas, os oito primeiros números da série de Fibonacci, os abridores de latas e os carnês de prestações a juros favorecidos.
- Hoje eu não vou fazer a barba.
- A propósito, quer dançar comigo?
Aqueles que tiverem bom gosto subirão comigo ao Pão de Açúcar, e juntos lançaremos aviões de papel sobre a Baía da Guanabara. Depois, nós nos consumiremos de amor.Por favor, não nos fale de Bush, nem de Bin Laden, que estes estarão fugindo de si mesmos e de suas biografias, as quais são todas não autorizadas. Nesse dia todo discurso será absolutamente desnecessário. O poliglota, dançando conosco a infatigável valsa da despedida, gritará para as pessoas: Folks! Todos entenderemos "Volks!". Mas ninguém quer saber de Volks porque há Mercedes sobrando. Mercedes e Marias sobrando.
Alguns, os corruptos (que sempre os há), permacerão graves, mas quase todos estarão se despedindo alegremente. Mães de uns e filhos de outras se abraçarão emocionados, os olhos absolutamente auspiciosos. Pois hoje, 16 de agosto, é o nosso domingo, dia dos pobres iguais aos ricos e dos ricos iguais a todos. Nem importa que a humanidade tenha uma sobrevida de apenas 24 horas - um instantezinho de felicidade é bastante para realizar a criação, humana e desumana, de uma só vez e completamente.
Primeiras informações adicionais: No dia 16 não haverá chaves, dinheiro valendo e família, porque chaves dinheiro valendo e família são entidades úteis nas coletividades que não esperam morrer amanhã, e apenas nestas. De minha parte, jogarei fora a doçura sem açúcar que não engorda e rasgarei, enfim, o soneto em que tive vergonha de mostrar.
17 de agosto: o dia chegou. A felicidade foi ontem. Teremos hoje alucinações maiores que as do recoveiro de Púchkin, varridos da Terra pela nossa própria tecnologia. Que você não pense que essa odisséia no chão (re-odisséia) é algum elevado ou shopping center caindo sobre sua cabeça. Pois é fim do mundo mesmo. Na hora da morte, homens e animais, apartamentos de cobertura da Delfim Moreira e falsos profetas vestidos de azul, tudo, absolutamente tudo, irá desmoronar num único baque.
Os nossos gritos serão abafados pelo troar infernal das bombas deles, e todos viveremos a inerme ventura de morrer igualitariamente.
É a expiação.
É a expiação, pelas nossas guerras convencionais, químicas, de quadrilhas, púnicas, de nervos, santas, sem quartel, bacteriológicas, injustas, de preços, atômicas, frias, econômicas, de cem anos, localizadas, sujas, totais e de torcidas.
Outras informações adicionais: Na verdade salvam-se um homem e uma mulher, que isso aqui é bom demais para ficar desabitado. O homem será escolhido por sorteio, essa a sua chance, mas da mulher serão exigidas qualidades várias, como a beleza da Jeanne Moreau, a coragem de Eneida de Morais e a inteligência da Dione. Engana-se quem pensou em Cláudia Cardinale ou Vera Fischer, cujas, infelizmente, não poderão ser salvas.
A escolhida, uma latina, formará com outro latino um casal sem nenhuma propensão marginal, nem para consumir nem para guerrear. Esta, porém, é outra história, a ser contada depois.Últimas informações adicionais: Nossos prótons são eternos, mas não teremos missa de sétimo dia.
(fim)
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
SOLILÓQUIO
Aguardando uma tertúlia literária
Chego antes das 14 horas e acomodo-me na primeira fila. Lembro-me de ter trazido as crônicas do Machado de Assis e aproveito para ler sobre o velho Senado, pois conhecer a alma das instituições sempre me comove e emociona.
"Paranhos costumava falar com moderação e pausa; firmava os dedos, erguia-se para o gesto lento e sóbrio, ou então para chamar os punhos da camisa, e sua voz ia saindo meditada e colorida. Naquele dia, porém, a ânsia de produzir a defesa era tal, que as primeiras palavras foram antes bradadas que ditas:
- Não à vaidade, senhor presidente...
Daí a um instante, a voz tornava ao diapasão habitual, e o discurso continuou como nos outros dias. Eram nove horas da noite, quando ele acabou; estava como no princípio, nenhum sinal de fadiga, nem dele nem do auditório, que o aplaudiu."
Bardo Sereno
Dez minutos minutos passados, talvez mais, só agora percebo que a sala está lotada. Há muitas pessoas em pé. Imagino que toda essa gente esteja na expectativa de uma briga, como a da semana passada. Ainda faltam 20 minutos para o início da sessão, uma eternidade.
Subitamente um homem levanta-se no meio da platéia e toma a palavra:
- Meu nome é Bardo Sereno. Nada tenho a ver com este evento, mero circunstante e metediço que sou por aqui, mas gostaria que os senhores ouvissem o meu texto.
Um constrangimento prolongado, até que o velhinho da bengala se manifesta:
- Texto, que texto?
- Um pequeno solilóquio, mediante o qual apresento a minha capacidade.
- Solilóquio... O que é isso?
- Um monólogo dramático de caráter literário.
- Manda lá o solilóquio, se de fato pequeno.
- Aí vai... Maldo, escarneço, degringolo, hiperbolizo, descuro, prevarico, infernizo e obscureço, sem que ninguém se dê conta da iniqüidade que represento. Tergiverso, ocultamente, e como! Posso rir de todos os discursos sobre o método, extrair a raiz cúbica do infinito, iluminar buracos negros e consolar girafas escandalizadas, eis alguns dos meus mais freqüentes e divertidos passatempos. Posso evitar o assassinato de Lincoln, impedir o terremoto de Lisboa, apagar o incêndio de Roma, absolver Giordano Bruno e Galileu Galilei, decidir sobre o Santo Graal, conferir os cálculos de Eratóstenes e reabrir a Academia de Platão, dela excluindo os que não saibam matemática, e somente estes. Que mais, isso mesmo, que mais? Sou capaz de conversar com Cervantes, convencer o indeciso Pilatos de que a democracia direta é muito complicada, conter os arroubos de Napoleão ou salvá-lo de Waterloo, dar ouvidos a Beethoven, atirar longe a cicuta de Sócrates e comprar trigais diretamente de Van Gogh. Uma pechincha, senhores, uma pechincha!
- Muito bem!
- Maravilhoso!
- Valeu, Bardo Sereno!
- Sinceramente... Eu não esperava críticas, assim, tão construtivas. Obrigado, obrigado a todos!
Namorou a Pier Angeli
Muito curioso, mas prefiro que ninguém mais se anime para uma segunda exibição desse tipo. Não tenho disposição, nem paciência, para ser platéia dos ASP, autores sem público. Não mesmo, não mesmo. Pois, como caixa de banco indefeso e desqualificado, sou obrigado a ouvir todo dia o gerente da conta dos aposentados, que tem um discurso parecido com o desse Bardo Sereno para relatar suas inesgotáveis proezas e capacidades. É o doutor Pacheco, um velhinho que fala rumeno sem sotaque, conhece armas e brasões, é PHD em geografia política, foi campeão de tênis, derrotou o Petrossian com xeque-mate de cavalo e sobreviveu 40 dias no deserto. Ah, antes que me esqueça, protagonizou o Cyrano de Bergerac, namorou a Pier Angeli e deu aulas particulares para o Norberto Bobbio.
Solilóquio, so - li - ló - quio...
(fim)
Chego antes das 14 horas e acomodo-me na primeira fila. Lembro-me de ter trazido as crônicas do Machado de Assis e aproveito para ler sobre o velho Senado, pois conhecer a alma das instituições sempre me comove e emociona.
"Paranhos costumava falar com moderação e pausa; firmava os dedos, erguia-se para o gesto lento e sóbrio, ou então para chamar os punhos da camisa, e sua voz ia saindo meditada e colorida. Naquele dia, porém, a ânsia de produzir a defesa era tal, que as primeiras palavras foram antes bradadas que ditas:
- Não à vaidade, senhor presidente...
Daí a um instante, a voz tornava ao diapasão habitual, e o discurso continuou como nos outros dias. Eram nove horas da noite, quando ele acabou; estava como no princípio, nenhum sinal de fadiga, nem dele nem do auditório, que o aplaudiu."
Bardo Sereno
Dez minutos minutos passados, talvez mais, só agora percebo que a sala está lotada. Há muitas pessoas em pé. Imagino que toda essa gente esteja na expectativa de uma briga, como a da semana passada. Ainda faltam 20 minutos para o início da sessão, uma eternidade.
Subitamente um homem levanta-se no meio da platéia e toma a palavra:
- Meu nome é Bardo Sereno. Nada tenho a ver com este evento, mero circunstante e metediço que sou por aqui, mas gostaria que os senhores ouvissem o meu texto.
Um constrangimento prolongado, até que o velhinho da bengala se manifesta:
- Texto, que texto?
- Um pequeno solilóquio, mediante o qual apresento a minha capacidade.
- Solilóquio... O que é isso?
- Um monólogo dramático de caráter literário.
- Manda lá o solilóquio, se de fato pequeno.
- Aí vai... Maldo, escarneço, degringolo, hiperbolizo, descuro, prevarico, infernizo e obscureço, sem que ninguém se dê conta da iniqüidade que represento. Tergiverso, ocultamente, e como! Posso rir de todos os discursos sobre o método, extrair a raiz cúbica do infinito, iluminar buracos negros e consolar girafas escandalizadas, eis alguns dos meus mais freqüentes e divertidos passatempos. Posso evitar o assassinato de Lincoln, impedir o terremoto de Lisboa, apagar o incêndio de Roma, absolver Giordano Bruno e Galileu Galilei, decidir sobre o Santo Graal, conferir os cálculos de Eratóstenes e reabrir a Academia de Platão, dela excluindo os que não saibam matemática, e somente estes. Que mais, isso mesmo, que mais? Sou capaz de conversar com Cervantes, convencer o indeciso Pilatos de que a democracia direta é muito complicada, conter os arroubos de Napoleão ou salvá-lo de Waterloo, dar ouvidos a Beethoven, atirar longe a cicuta de Sócrates e comprar trigais diretamente de Van Gogh. Uma pechincha, senhores, uma pechincha!
- Muito bem!
- Maravilhoso!
- Valeu, Bardo Sereno!
- Sinceramente... Eu não esperava críticas, assim, tão construtivas. Obrigado, obrigado a todos!
Namorou a Pier Angeli
Muito curioso, mas prefiro que ninguém mais se anime para uma segunda exibição desse tipo. Não tenho disposição, nem paciência, para ser platéia dos ASP, autores sem público. Não mesmo, não mesmo. Pois, como caixa de banco indefeso e desqualificado, sou obrigado a ouvir todo dia o gerente da conta dos aposentados, que tem um discurso parecido com o desse Bardo Sereno para relatar suas inesgotáveis proezas e capacidades. É o doutor Pacheco, um velhinho que fala rumeno sem sotaque, conhece armas e brasões, é PHD em geografia política, foi campeão de tênis, derrotou o Petrossian com xeque-mate de cavalo e sobreviveu 40 dias no deserto. Ah, antes que me esqueça, protagonizou o Cyrano de Bergerac, namorou a Pier Angeli e deu aulas particulares para o Norberto Bobbio.
Solilóquio, so - li - ló - quio...
(fim)
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
A PENSÃO DOS NAUFRAGADOS (1/1)
BEATI MONOCULI
É divertido vê-los chegar, muito humildes, como o Araújo, que ontem aqui aportou de mala quase vazia, trazendo nas mãos um espelho, um cavaquinho e dois cabides de arame.
- Quanto custa o quarto mais barato?
Depois, integrados, desinibem-se e esparramam-se pensão afora, com seus malogros e ambições, grandes defeitos e poucas qualidades. São, como eu, perdedores, vultos, apenas vultos, e, deles, o pouco que sei considero demasiado.
Caminhadas suspeitas
Nenhuma importância há de haver no guarda-livros que estuda canto, na esperança de representar o Othelo; na Ivonete, que era caixa de farmácia no Largo da Segunda-Feira e agora, mesmo desempregada, usa perfumes caros e só traja vestidos importados, nas suas caminhadas suspeitas pela Conde de Bonfim; no Sargento Castro de Paula, cujo sonho é servir na Bósnia, por alguns dólares da ONU, e na sua mulher, dona Eulália, a portuguesa branquicela que tudo tempera com azeite de oliva, até a sobremesa; no Sebastião Valadares, que ateou fogo no armazém vazio após esconder as mercadorias num depósito de Caxias e, em vez de receber a indenização reclamada à companhia de seguros, está a enfrentar um adverso processo judicial; no Zé Terra, um pernambucano enfezado que bate na mulher, a Jupira; e no Sorianito Gonzalez, que é mexicano e apanha da sua todas as noites.
Reversão dialógica
Ah, sim, antes que me escape, Carlos Arruda de Proença é dos hóspedes o mais extravagante, com sua mania de usar expressões complicadas, das quais não me esqueço de "mateologia holística", "reversão dialógica" e "tmeses ataviadoras". Ele se recusa a esclarecê-las, mesmo não sendo entendido por ninguém.
- Louçanias, senhores, meras louçanias de linguagem. Não existem para ser explicadas, nem me cabe nenhuma obrigação de dar milho aos pombos.
Outro dia, quando se conversava no jantar sobre decisões políticas controvertidas, deixou escapar alguma coisa em latim, "beati monoculi in regione caecorum", provocando reações irônicas do Zé Terra e de dona Eulália.
- Na minha terra quem fala bonito é o prefeito.
- Em Portugal a lei da vida é muito outra, pois escreveu, não leu, o pau comeu. Lá o pau come solenemente!
- Vocês são estupefativos, rebateu o Proença.
- O quê?
- Gente de visão plúmbea, ímproba e mitigada.
E não é só
Pois há também na pensão um Licurgo dos Santos Reis, alfaiate de roupas militares, que às vezes inicia suas refeições com rezas assim:
Justiça seja feita, esse Abdias realmente estuda, e estuda muito, adquirindo informações a serviço de coisa nenhuma, a fundo perdido, pois disse repetidas vezes que não trabalhará jamais.
Assassinou o sono
Sentado em meu canto, na maior parte do tempo desligo-me desse ambiente, que em certas ocasiões se torna inóspito e agressivo. Eles falam da ONU, das companhias de seguros, de Othelo, das mulheres que gostam de apanhar, do azeite de oliva, das bolsas de estudo e das louçanias de linguagem, e eu, fingindo que os ouço, viajo infinito afora, imaginando por que Einstein assumiu-se com a velocidade da luz para estabelecer as bases da teoria da relatividade, se é verdade que o eunuco chinês Ts´ai Lun inventou o papel ou como Machbeth, o nobre escocês que assassinou o sono, houve de morrer pelas mãos daquele que não nasceu de mulher, quando as florestas se puseram a caminhar.
(Fim)
É divertido vê-los chegar, muito humildes, como o Araújo, que ontem aqui aportou de mala quase vazia, trazendo nas mãos um espelho, um cavaquinho e dois cabides de arame.
- Quanto custa o quarto mais barato?
Depois, integrados, desinibem-se e esparramam-se pensão afora, com seus malogros e ambições, grandes defeitos e poucas qualidades. São, como eu, perdedores, vultos, apenas vultos, e, deles, o pouco que sei considero demasiado.
Caminhadas suspeitas
Nenhuma importância há de haver no guarda-livros que estuda canto, na esperança de representar o Othelo; na Ivonete, que era caixa de farmácia no Largo da Segunda-Feira e agora, mesmo desempregada, usa perfumes caros e só traja vestidos importados, nas suas caminhadas suspeitas pela Conde de Bonfim; no Sargento Castro de Paula, cujo sonho é servir na Bósnia, por alguns dólares da ONU, e na sua mulher, dona Eulália, a portuguesa branquicela que tudo tempera com azeite de oliva, até a sobremesa; no Sebastião Valadares, que ateou fogo no armazém vazio após esconder as mercadorias num depósito de Caxias e, em vez de receber a indenização reclamada à companhia de seguros, está a enfrentar um adverso processo judicial; no Zé Terra, um pernambucano enfezado que bate na mulher, a Jupira; e no Sorianito Gonzalez, que é mexicano e apanha da sua todas as noites.
Reversão dialógica
Ah, sim, antes que me escape, Carlos Arruda de Proença é dos hóspedes o mais extravagante, com sua mania de usar expressões complicadas, das quais não me esqueço de "mateologia holística", "reversão dialógica" e "tmeses ataviadoras". Ele se recusa a esclarecê-las, mesmo não sendo entendido por ninguém.
- Louçanias, senhores, meras louçanias de linguagem. Não existem para ser explicadas, nem me cabe nenhuma obrigação de dar milho aos pombos.
Outro dia, quando se conversava no jantar sobre decisões políticas controvertidas, deixou escapar alguma coisa em latim, "beati monoculi in regione caecorum", provocando reações irônicas do Zé Terra e de dona Eulália.- Na minha terra quem fala bonito é o prefeito.
- Em Portugal a lei da vida é muito outra, pois escreveu, não leu, o pau comeu. Lá o pau come solenemente!
- Vocês são estupefativos, rebateu o Proença.
- O quê?
- Gente de visão plúmbea, ímproba e mitigada.
E não é só
Pois há também na pensão um Licurgo dos Santos Reis, alfaiate de roupas militares, que às vezes inicia suas refeições com rezas assim:
Profanaste os vasos santos
Nas torpezas de um festim.
Teus dias estão contados
Como os da bela Seboim.
Não sabias, cão danado,
Que tenho o corpo fechado?
Tu fizeste e pagarás,
Vade retro, Satanás.
No mês passado apareceu aqui o Abdmelaus Karuche de Alicante, conhecido como Abdias, um estudante profissional que se gaba de sempre conseguir generosas bolsas de estudo, de acordo com trâmites que conhece com exclusividade. Polpudas e sumarentas bolsas, garante ele, que as acumula, a todas, na maior desfaçatez. Estudou engenharia, literatura e geografia, mas seu interesse atual está na filosofia, que orgulhosamente chama de a ciência de Platão.Nas torpezas de um festim.
Teus dias estão contados
Como os da bela Seboim.
Não sabias, cão danado,
Que tenho o corpo fechado?
Tu fizeste e pagarás,
Vade retro, Satanás.
Justiça seja feita, esse Abdias realmente estuda, e estuda muito, adquirindo informações a serviço de coisa nenhuma, a fundo perdido, pois disse repetidas vezes que não trabalhará jamais.
Assassinou o sono
Sentado em meu canto, na maior parte do tempo desligo-me desse ambiente, que em certas ocasiões se torna inóspito e agressivo. Eles falam da ONU, das companhias de seguros, de Othelo, das mulheres que gostam de apanhar, do azeite de oliva, das bolsas de estudo e das louçanias de linguagem, e eu, fingindo que os ouço, viajo infinito afora, imaginando por que Einstein assumiu-se com a velocidade da luz para estabelecer as bases da teoria da relatividade, se é verdade que o eunuco chinês Ts´ai Lun inventou o papel ou como Machbeth, o nobre escocês que assassinou o sono, houve de morrer pelas mãos daquele que não nasceu de mulher, quando as florestas se puseram a caminhar.
(Fim)
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
A DESCOBERTA DO FÓSFORO
Mais que ouro
A descoberta do fósforo foi uma façanha do alquimista alemão Hennig Brand (1630-1710), graças à sua tentativa de produzir ouro a partir da urina. Em 1669 Brand reuniu 50 galões de urina no porão de sua casa e adicionou-lhes produtos químicos que foi escolhendo arbitrariamente. A pasta resultante foi submetida a um processo de destilação, cujos vapores deveriam transformar-se em ouro quando resfriados em água.
O que obteve, porém, foi uma substância que brilhava na escuridão. Em vez de chegar ao ouro, descobriu o fósforo. Pois, com as adições de Hennig Brand, a urina, um fosfato sódico de amônia, foi transformada num fosfito sódico, que, levado à ebulição, decompôs-se de maneira a liberar o fósforo.
Um caso típico de serendipidade.

Logo se percebeu a importância comercial dessa descoberta.
Pelo caminho percorrido por Hennig Brand, eram necessários 50 litros de urina para obter um grama de fósforo, que era vendido por cerca de 30 dólares atuais por grama, valendo mais que o ouro.
Genialidade, azar e imprudência
O químico sueco Karl Scheele (1742-1786) descobriu em 1769 um processo semelhante à pasteurização que permitiu a produção de fósforo em larga escala e colocou a Suécia como líder mundial em produtos lumíníferos.
Scheele foi um gênio da química, tendo descoberto inúmeros elementos químicos, como o oxigênio, o nitrogênio, o bário, o cloro, o flúor, o manganês, o molibdêmio e o tungstênio, além de diversos compostos químicos, como o ácido nítrico, o glicerol, o ácido tânico e o cianeto de hidrogênio, este conhecido como ácido prússico.
Além da competência, outra particularidade de Scheele era a falta de sorte. Suas descobertas passaram despercebidas ou ocorreram paralelamente às de outros pesquisadores, que receberam todo o crédito por essas façanhas. Por exemplo: Scheele descobriu o oxigênio em 1772, mas quem recebeu o crédito foi Joseph Priestley (1733-1804), que descobriu o oxigênio apenas em 1774. Outro caso foi o da descoberta do cloro, atribuída a Humphry Davy (1778-1829), que de fato o descobriu em 1810, mas Karl Scheele já o fizera 36 anos antes.
Scheele tinha o mau hábito de experimentar o sabor das substâncias que produzia no seu laboratório, como o mercúrio e o ácido clorídrico. Um hábito que lhe custou a vida, pois foi encontrado morto, por envenenamento, no dia 21 de maio de 1786.
A descoberta do fósforo foi uma façanha do alquimista alemão Hennig Brand (1630-1710), graças à sua tentativa de produzir ouro a partir da urina. Em 1669 Brand reuniu 50 galões de urina no porão de sua casa e adicionou-lhes produtos químicos que foi escolhendo arbitrariamente. A pasta resultante foi submetida a um processo de destilação, cujos vapores deveriam transformar-se em ouro quando resfriados em água.
O que obteve, porém, foi uma substância que brilhava na escuridão. Em vez de chegar ao ouro, descobriu o fósforo. Pois, com as adições de Hennig Brand, a urina, um fosfato sódico de amônia, foi transformada num fosfito sódico, que, levado à ebulição, decompôs-se de maneira a liberar o fósforo.
Um caso típico de serendipidade.

Logo se percebeu a importância comercial dessa descoberta.
Pelo caminho percorrido por Hennig Brand, eram necessários 50 litros de urina para obter um grama de fósforo, que era vendido por cerca de 30 dólares atuais por grama, valendo mais que o ouro.
Genialidade, azar e imprudência
O químico sueco Karl Scheele (1742-1786) descobriu em 1769 um processo semelhante à pasteurização que permitiu a produção de fósforo em larga escala e colocou a Suécia como líder mundial em produtos lumíníferos.
Scheele foi um gênio da química, tendo descoberto inúmeros elementos químicos, como o oxigênio, o nitrogênio, o bário, o cloro, o flúor, o manganês, o molibdêmio e o tungstênio, além de diversos compostos químicos, como o ácido nítrico, o glicerol, o ácido tânico e o cianeto de hidrogênio, este conhecido como ácido prússico.
Além da competência, outra particularidade de Scheele era a falta de sorte. Suas descobertas passaram despercebidas ou ocorreram paralelamente às de outros pesquisadores, que receberam todo o crédito por essas façanhas. Por exemplo: Scheele descobriu o oxigênio em 1772, mas quem recebeu o crédito foi Joseph Priestley (1733-1804), que descobriu o oxigênio apenas em 1774. Outro caso foi o da descoberta do cloro, atribuída a Humphry Davy (1778-1829), que de fato o descobriu em 1810, mas Karl Scheele já o fizera 36 anos antes.
Scheele tinha o mau hábito de experimentar o sabor das substâncias que produzia no seu laboratório, como o mercúrio e o ácido clorídrico. Um hábito que lhe custou a vida, pois foi encontrado morto, por envenenamento, no dia 21 de maio de 1786.
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
INÊS DE CASTRO
A RAINHA MORTA
O episódio de Inês de Castro ocorreu em Coimbra, no século XIV. Consta que Dom Pedro, quando ainda príncipe herdeiro do trono de Portugal, casou-se secretamente com a dama espanhola Inês de Castro, após ficar viúvo de Constância de Aragão, falecida em 1345. O casal viveu seus amores no Paço de Santa Clara, às margens do rio Mondego, em Coimbra.
Afonso IV, o Rei Benigno, aconselhado por cortesãos que temiam uma influência espanhola sobre o trono de Portugal, decretou a morte de Inês, em 1355, aproveitando-se do fato de que seu filho Pedro estava ausente, ou lutando pelo Reino de Castilha, segundo uns, ou numa estação de caça, segundo outros.
Três cortesãos, Pero Coelho, Diego Lopes Pacheco e Álvaro Gonçalves, foram encarregados de executar a pobre dama, missão que teriam cumprido com requintes de crueldade, degolando Inês sem nenhuma piedade. Segundo a tradição popular o sangue de Inês ficou gravado numa rocha e nela permanecerá para sempre.
Rei Cruel
Desvairado com o ocorrido, Dom Pedro insurgiu-se contra o pai, derrotou-o, corou-se rei de Portugal e perseguiu os carrascos de Inês, torturando dois deles até a morte, Pero Coelho e Álvaro Gonçalves. Por tal motivo passou à história com os epítetos de Rei Justiceiro e Rei Cruel. Reza uma das versões que em 1361 Dom Pedro mandou exumar o cadáver de Inês, coroando-a rainha depois de morta. Os restos mortais de Pedro e Inês estão em túmulos suntuosos no Mosteiro de Alcobaça, cidade que fica a 109 quilômetros de Lisboa.
Inês nos Lusíadas
Inês de Castro é o tema das estrofes de 118 a 135 do Canto III dos Lusíadas, reproduzindo a história de Portugal como narrada por Vasco da Gama ao rei de Melinde (uma cidade que hoje pertence ao Quênia, na costa do Índico). Abaixo, duas estrofes de Camões alusivas ao episódio:
O episódio de Inês de Castro ocorreu em Coimbra, no século XIV. Consta que Dom Pedro, quando ainda príncipe herdeiro do trono de Portugal, casou-se secretamente com a dama espanhola Inês de Castro, após ficar viúvo de Constância de Aragão, falecida em 1345. O casal viveu seus amores no Paço de Santa Clara, às margens do rio Mondego, em Coimbra.
Afonso IV, o Rei Benigno, aconselhado por cortesãos que temiam uma influência espanhola sobre o trono de Portugal, decretou a morte de Inês, em 1355, aproveitando-se do fato de que seu filho Pedro estava ausente, ou lutando pelo Reino de Castilha, segundo uns, ou numa estação de caça, segundo outros.Três cortesãos, Pero Coelho, Diego Lopes Pacheco e Álvaro Gonçalves, foram encarregados de executar a pobre dama, missão que teriam cumprido com requintes de crueldade, degolando Inês sem nenhuma piedade. Segundo a tradição popular o sangue de Inês ficou gravado numa rocha e nela permanecerá para sempre.
Rei Cruel
Desvairado com o ocorrido, Dom Pedro insurgiu-se contra o pai, derrotou-o, corou-se rei de Portugal e perseguiu os carrascos de Inês, torturando dois deles até a morte, Pero Coelho e Álvaro Gonçalves. Por tal motivo passou à história com os epítetos de Rei Justiceiro e Rei Cruel. Reza uma das versões que em 1361 Dom Pedro mandou exumar o cadáver de Inês, coroando-a rainha depois de morta. Os restos mortais de Pedro e Inês estão em túmulos suntuosos no Mosteiro de Alcobaça, cidade que fica a 109 quilômetros de Lisboa.
Inês nos Lusíadas
Inês de Castro é o tema das estrofes de 118 a 135 do Canto III dos Lusíadas, reproduzindo a história de Portugal como narrada por Vasco da Gama ao rei de Melinde (uma cidade que hoje pertence ao Quênia, na costa do Índico). Abaixo, duas estrofes de Camões alusivas ao episódio:
Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito,
Se de humano é matar uma donzela
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la,
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito,
Se de humano é matar uma donzela
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la,
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
BINÔMIO DE NEWTON (parte3/3)
Nhambiquaras
Outro dia, ao cruzar a Cinelândia, reencontrei Ramiro, o gênio capaz de uma Capela Sistina ou de uma Teoria da Relatividade. Não mudara quase nada, aquela cara trigonométrica e proparoxítona. Engenheiro suma cum laudae da turma de 1966, adquirira grande experiência construindo túneis e viadutos e trabalhou, depois, na construção da... ponte Rio-Niterói. Bingo! Eu, lá atrás, entendia alguma coisa de futuro...
- Diga-me, indaguei, você usou os conhecimentos do professor Kakaze, os 1.512.000 agrupamentos, o cálculo das probabilidades e a distribuição de Gauss?
- Não, nada disso foi necessário.
A obra havia dispensado a parte mateológica da sua inexcedível competência. Usara apenas ferragem, cimento, brita um, brita dois, brita três, tabelas, ábacos, thumb rules...
- O quê?
- Thumb rules.
- Pombas!
Terminada a ponte, Ramiro engajou-se no desenvolvimento de campos de petróleo nas costas britânicas do Mar do Norte. Assentamento de plataformas e construção de sistemas flutuantes de produção, projetos que se justificam quando os preços do petróleo estão elevados, como agora.
- Está de férias?, perguntei-lhe, já em tom de despedida.
- Não, voltei de vez. Estou desempregado, mas decidido a conseguir uma ocupação sem grandes tardanças. Concorri ao cargo de engenheiro de manutenção numa fábrica de computadores em Maria da Graça, mas fui recusado no teste. Não soube responder o nome que se dá à unidade de elastância.
- É daraf, comentei. O daraf é o inverso do farad, que, por sua vez, é a unidade prática de capacitância.
- Estou, porém, na iminência de conseguir um emprego de oito salários mínimos, mais sobreaviso e periculosidade, numa hidrelétrica no norte de Mato Grosso, junto da reserva indígena dos nhambiquaras. Uma passagem de avião por ano, ida e volta, para visitar o Rio de Janeiro. Vou usar toda a minha experiência na construção de barragens, sem nenhuma agressão ao meio ambiente ou aos processos ecológicos essenciais.
Profissionais de mercado
Não consigo imaginar o Ramiro senão brilhando, o giz em riste, sob os aplausos entusiasmados do professor Kakaze. Mas essa questão dos nhambiquaras me desconcertou, desestabilizando as minhas memórias. Dos quais, nhambiquaras, sei apenas que gostam de aaru, que é um bolo no qual se misturam carne de tatu e farinha de mandioca.
- Meu caro pitecantropo, o binômio de Newton é até citado nas poesias do Fernando Pessoa.
Será que o Ramiro brilhava mesmo ou não passava de uma das minhas fantasias? Raiz de dois e raiz de três, isso existe de fato na teoria dos logaritmos? O professor Kakaze citou realmente o Fernando Pessoa?
Veio então a idéia. É verdade que eu nunca dera importância à poesia e conhecia, se tanto, o Mal Secreto e alguns trechos bem condoreiros do Navio Negreiro. Seja como for, fui à livraria e comprei as obras completas de Fernando Pessoa, o poeta que, em sonhos, sonhos criou. Logo na introdução, fiquei sabendo que foi um homem do comércio, autor de textos para dirigentes de empresas, publicados na Revista de Comércio e Contabilidade, de Lisboa, e de uma vasta Teoria e Prática do Comércio.
- Um profissional de mercado, exatamente como eu!
Li toda obra e encontrei o poema em Álvaro de Campos:

Um exemplo de player: Vittorio Gassman, o homem que desfrutou o doce arroz amargo... Outros players: Costa e Silva, Rembrandt e Ramiro. Eles entendem de álgebras e metáforas e movem a história, para o bem ou para o mal, êxito ou infortúnio. Tentei ser player também, mas não passei de observador. Resta-me o consolo de que, sem observadores, este universo não faria nenhum sentido.
(Fim)
Outro dia, ao cruzar a Cinelândia, reencontrei Ramiro, o gênio capaz de uma Capela Sistina ou de uma Teoria da Relatividade. Não mudara quase nada, aquela cara trigonométrica e proparoxítona. Engenheiro suma cum laudae da turma de 1966, adquirira grande experiência construindo túneis e viadutos e trabalhou, depois, na construção da... ponte Rio-Niterói. Bingo! Eu, lá atrás, entendia alguma coisa de futuro...
- Diga-me, indaguei, você usou os conhecimentos do professor Kakaze, os 1.512.000 agrupamentos, o cálculo das probabilidades e a distribuição de Gauss?
- Não, nada disso foi necessário.
A obra havia dispensado a parte mateológica da sua inexcedível competência. Usara apenas ferragem, cimento, brita um, brita dois, brita três, tabelas, ábacos, thumb rules...
- O quê?
- Thumb rules.
- Pombas!
Terminada a ponte, Ramiro engajou-se no desenvolvimento de campos de petróleo nas costas britânicas do Mar do Norte. Assentamento de plataformas e construção de sistemas flutuantes de produção, projetos que se justificam quando os preços do petróleo estão elevados, como agora.
- Está de férias?, perguntei-lhe, já em tom de despedida.
- Não, voltei de vez. Estou desempregado, mas decidido a conseguir uma ocupação sem grandes tardanças. Concorri ao cargo de engenheiro de manutenção numa fábrica de computadores em Maria da Graça, mas fui recusado no teste. Não soube responder o nome que se dá à unidade de elastância.
- É daraf, comentei. O daraf é o inverso do farad, que, por sua vez, é a unidade prática de capacitância.
- Estou, porém, na iminência de conseguir um emprego de oito salários mínimos, mais sobreaviso e periculosidade, numa hidrelétrica no norte de Mato Grosso, junto da reserva indígena dos nhambiquaras. Uma passagem de avião por ano, ida e volta, para visitar o Rio de Janeiro. Vou usar toda a minha experiência na construção de barragens, sem nenhuma agressão ao meio ambiente ou aos processos ecológicos essenciais.
Profissionais de mercado
Não consigo imaginar o Ramiro senão brilhando, o giz em riste, sob os aplausos entusiasmados do professor Kakaze. Mas essa questão dos nhambiquaras me desconcertou, desestabilizando as minhas memórias. Dos quais, nhambiquaras, sei apenas que gostam de aaru, que é um bolo no qual se misturam carne de tatu e farinha de mandioca.
- Meu caro pitecantropo, o binômio de Newton é até citado nas poesias do Fernando Pessoa.
Será que o Ramiro brilhava mesmo ou não passava de uma das minhas fantasias? Raiz de dois e raiz de três, isso existe de fato na teoria dos logaritmos? O professor Kakaze citou realmente o Fernando Pessoa?
Veio então a idéia. É verdade que eu nunca dera importância à poesia e conhecia, se tanto, o Mal Secreto e alguns trechos bem condoreiros do Navio Negreiro. Seja como for, fui à livraria e comprei as obras completas de Fernando Pessoa, o poeta que, em sonhos, sonhos criou. Logo na introdução, fiquei sabendo que foi um homem do comércio, autor de textos para dirigentes de empresas, publicados na Revista de Comércio e Contabilidade, de Lisboa, e de uma vasta Teoria e Prática do Comércio.
- Um profissional de mercado, exatamente como eu!
Li toda obra e encontrei o poema em Álvaro de Campos:

“O Binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo.
Players e observadoresUm exemplo de player: Vittorio Gassman, o homem que desfrutou o doce arroz amargo... Outros players: Costa e Silva, Rembrandt e Ramiro. Eles entendem de álgebras e metáforas e movem a história, para o bem ou para o mal, êxito ou infortúnio. Tentei ser player também, mas não passei de observador. Resta-me o consolo de que, sem observadores, este universo não faria nenhum sentido.
(Fim)
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
BINÔMIO DE NEWTON (parte 2/3)
Maná
Qualquer pessoa normal entende a lógica da contabilidade, pois o grande Luca Paciolo, criador das partidas dobradas, era um homem positivamente menos complicado do que o professor Kakaze. A terminologia é simples e direta. Não se cogita de logaritmo, nem de derivada, mas do ativo disponível. O passivo circulante ocupa o lugar das equações trigonométricas e das integrais indefinidas, e não há espaço para inequações de nenhuma natureza, sendo certo, com justa razão, que os dois pratos da balança deverão permanecer em rigorosa paridade. Basta ter um pouco de organização, para não misturar informações, e de paciência, para consultar tabelas, como quem vai ao dicionário. Ah, vale também um pouco de bom senso, para nunca somar o que deve ser subtraído, cometendo nessa inversão um erro multiplicado por dois.
Logo percebi que a atividade estava a meu alcance e, incapaz de viver das palavras cruzadas, decidi trabalhar como contador. Botei banca de guarda-livros, apenas ciente dos prolegômenos contábeis, e nesse mister, entre borradores e diários, muito me valeu o aforismo de Sparafucile de Pococô:
- O dinheiro é bolsípeto, pois, se sair de um bolso, entra necessariamente em outro bolso.
Por fim, entrei para a classe dos milionários de gabinete, quando gloriosamente me pus a especular na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, à sombra da Comissão de Valores Mobiliários, estimulado pela Fazenda, aplaudido, e muito, pelo Planejamento e convenientemente documentado pela Associação Nacional dos Analistas dos Mercados de Capitais. Ah, nunca me esqueça de dizer que naquela época tudo o que se amealhava nesse mercado gozava de isenção do imposto de renda. Um incentivo providencial, muito justo e conveniente...
- Eu, na outra ponta, vendia ações a mancheias...
Se é verdade que se pode perder muito (ou, o que dá no mesmo, ganhar milhões num dia e vê-los desaparecer no dia seguinte), o esperto geralmente se dá bem, muito bem, pois a Bolsa, convenientemente utilizada, pode ensejar um retorno muito superior ao esforço despendido. Um jogo desproporcional, desequilibrado, a favor dos... equipados. Engana-se o cruzadista que conservar, cá fora do diagrama, a impressão de que maná é apenas o alimento que Deus mandou em forma de chuva para socorro dos israelitas no deserto...
Assim foi. Consumado o êxito das minhas especulações, desapareci completamente dos pregões, pois especular é atividade de gente pobre. Ou melhor, de gente ainda pobre.
Comprei um apartamento de três andares, mais cobertura, na Avenida Vieira Souto, uma ilha em Cabo Frio e uma centena de salas nos melhores edifícios da Avenida Rio Branco. Passei a acionista majoritário de algumas empresas sólidas e rentáveis, engajadas em negócios de fertilizantes, bebidas e metalurgia, que meus prepostos administram com redobrado zelo e eficiência, na pressuposição e temor de que posso demiti-los a qualquer momento.
Arroz doce

Do meu escritório, de frente para o pôster de Silvana Mangano, molhada de 18 anos, contemplo com nostalgia a obra de 13 quilômetros à qual não tive acesso, eis o meu fracasso mais retumbante. Não me despojarei, porém, do mérito de tê-las antevisto, tamanhas, nas minhas premonições de adolescente...
(continua)
Qualquer pessoa normal entende a lógica da contabilidade, pois o grande Luca Paciolo, criador das partidas dobradas, era um homem positivamente menos complicado do que o professor Kakaze. A terminologia é simples e direta. Não se cogita de logaritmo, nem de derivada, mas do ativo disponível. O passivo circulante ocupa o lugar das equações trigonométricas e das integrais indefinidas, e não há espaço para inequações de nenhuma natureza, sendo certo, com justa razão, que os dois pratos da balança deverão permanecer em rigorosa paridade. Basta ter um pouco de organização, para não misturar informações, e de paciência, para consultar tabelas, como quem vai ao dicionário. Ah, vale também um pouco de bom senso, para nunca somar o que deve ser subtraído, cometendo nessa inversão um erro multiplicado por dois.
Logo percebi que a atividade estava a meu alcance e, incapaz de viver das palavras cruzadas, decidi trabalhar como contador. Botei banca de guarda-livros, apenas ciente dos prolegômenos contábeis, e nesse mister, entre borradores e diários, muito me valeu o aforismo de Sparafucile de Pococô:
- O dinheiro é bolsípeto, pois, se sair de um bolso, entra necessariamente em outro bolso.
No início faturava pouco, cobrando um salário mínimo por cliente. Depois, perdida a inocência, passei a impor honorários cada vez mais elevados, certo de que os clientes não teriam como opor resistência. Impor o preço, na cartilha dos bem-sucedidos, implica um decisivo salto de qualidade...
Por fim, entrei para a classe dos milionários de gabinete, quando gloriosamente me pus a especular na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, à sombra da Comissão de Valores Mobiliários, estimulado pela Fazenda, aplaudido, e muito, pelo Planejamento e convenientemente documentado pela Associação Nacional dos Analistas dos Mercados de Capitais. Ah, nunca me esqueça de dizer que naquela época tudo o que se amealhava nesse mercado gozava de isenção do imposto de renda. Um incentivo providencial, muito justo e conveniente...
Minha técnica era a de adquirir barato, e a termo, na adinamia do mercado, e enfiar caro, e à vista, nas fases de euforia. Em outras palavras, comprar quando todos queriam vender e vender quando decidiam voltar às compras - a ambição de violar princípios termodinâmicos e criar o moto contínuo de primeira espécie. Quem não se lembra de 1971, quando as pessoas trocavam suas casas por ações? O Plano Cruzado, esquecer quem há de?
- Eu, na outra ponta, vendia ações a mancheias...
Se é verdade que se pode perder muito (ou, o que dá no mesmo, ganhar milhões num dia e vê-los desaparecer no dia seguinte), o esperto geralmente se dá bem, muito bem, pois a Bolsa, convenientemente utilizada, pode ensejar um retorno muito superior ao esforço despendido. Um jogo desproporcional, desequilibrado, a favor dos... equipados. Engana-se o cruzadista que conservar, cá fora do diagrama, a impressão de que maná é apenas o alimento que Deus mandou em forma de chuva para socorro dos israelitas no deserto... Assim foi. Consumado o êxito das minhas especulações, desapareci completamente dos pregões, pois especular é atividade de gente pobre. Ou melhor, de gente ainda pobre.
Comprei um apartamento de três andares, mais cobertura, na Avenida Vieira Souto, uma ilha em Cabo Frio e uma centena de salas nos melhores edifícios da Avenida Rio Branco. Passei a acionista majoritário de algumas empresas sólidas e rentáveis, engajadas em negócios de fertilizantes, bebidas e metalurgia, que meus prepostos administram com redobrado zelo e eficiência, na pressuposição e temor de que posso demiti-los a qualquer momento.
Arroz doce

Do meu escritório, de frente para o pôster de Silvana Mangano, molhada de 18 anos, contemplo com nostalgia a obra de 13 quilômetros à qual não tive acesso, eis o meu fracasso mais retumbante. Não me despojarei, porém, do mérito de tê-las antevisto, tamanhas, nas minhas premonições de adolescente... (continua)
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
BINÔMIO DE NEWTON (parte 1/3)
A ponte
Hoje tenho por melhor exercício divagar sobre acontecimentos afastados no tempo, pois o passado é a minha matéria. Mais ou menos na linha do doutor Pedro Nava, para quem o futuro é somente uma expectativa da nossa experiência, sujeita a todos os riscos, e o presente não tem dimensão, sendo apenas este ponto da trajetória, que já passou, nem sei se você percebeu.
- Só o passado existe como realidade objetiva.
Eu era obrigado a seguir para Araruama nos fins de semana, pois na minha família criança não tinha voz, nem vez. Eram horas intermináveis na fila das barcas, até chegar o momento de embarcar o carro e transpor a baía. Imaginei a ponte imensa e, dos seus numerosos profetas, fui dos poucos que tiveram a ambição de construí-la.
Curso preparatório
Do pensamento à ação, cheguei a freqüentar um curso preparatório para o vestibular de engenharia, no longínquo ano de 1960. Meus planos esbarraram, porém, nos obstáculos que o professor Kakaze ia depondo à minha frente. Lembro-me muito bem da satisfação que lhe proporcionavam os seus teoremas e dos problemas que costumava propor, a todo instante, para testar os conhecimentos daquela turma de principiantes. Que só faziam revelar a minha inaptidão e aumentar a minha angústia. Pobre de mim!
Dia importante, nessa fase de ensaio e muito erro, foi o da questão que se colocou para sempre no epicentro das minhas frustrações:
- Utilizando dez consoantes e cinco vogais, quantos agrupamentos de quatro consoantes e duas vogais distintas podem ser formados?
Tremi, perplexo, sem saber como enfrentar o desafio. O Ramiro, lá na primeira fila, levantou-se rapidamente com o resultado:
- 1.512.000 agrupamentos.
Não me contive:
- Então, professor, isso é necessário?
- Certamente, meu caro pitecantropo. Passaremos da análise combinatória ao binômio de Newton, que, de tão importante, é citado até nas poesias do Fernando Pessoa. Depois estudaremos o cálculo das probabilidades e a distribuição de Gauss. A qual há de ser sempre campanular, você sabia? Sem a distribuição de Gauss não se enriquece o urânio, não se gera, não se transmite e não se distribui eletricidade, não se constroem as grandes estruturas, como o Maracanã, nem os canhões necessários à segurança nacional.
- Nem a ponte Rio-Niterói?
-Nem a ponte Rio-Niterói, ora se!
Voltei para casa cheio de desalento. Sem a distribuição de Gauss, não havia nenhuma salvação. Além disso, 1.512.000 agrupamentos! Algumas semanas ainda insisti, impotente e desamparado, na luta desigual com integrais e polinômios. O desenlace entre mim e a engenharia, cada vez mais inevitável, consumou-se no dia 8 de junho de 1960, quando o Kakaze indagou pelo logaritmo, na base raiz de dois, do logaritmo de 81, na base raiz de três. Um pesadelo dentro do pesadelo. Enquanto o Ramiro dava, lá na frente, o seu espetáculo de competência, escapuli sorrateiramente e, desatinado como um ícaro que percebe a ruína das suas ambições impossíveis, abandonei a engenharia, em caráter irrevogável e irretratável. Não obstante a ponte Rio-Niterói.
Gênios
Ronda Noturna
Com certeza se dirá que foram gênios, e eu, óbvio que seja, muito modestamente acrescento: pessoas dotadas de extraordinária aptidão e avassaladora força de vontade. Exatamente assim eu via o Ramiro, a quem estava reservado o privilégio das grandes edificações, incluindo, quem sabe, a ponte Rio-Niterói. Cervantes, Rembrandt e Einstein, lá atrás, gênios indisputáveis. Ramiro, cá na frente, na condição de expectativa da minha experiência, era um gênio em plena e decidida elaboração.
Eu, que não sou gênio por falta de talento e até mesmo por falta de vontade, estou sempre resolvendo problemas de palavras cruzadas. Não sei explicar por quê. Imagino que a atividade esteja relacionada com a solidão, tratando-se de empreendimento que não carece de parceiros, nem de testemunhas. Quando depôs sobre os anos de chumbo, Ernesto Geisel atribuiu ao general Costa e Silva o apego excessivo às palavras cruzadas. Posso imaginar o general, entre um e outro ato institucional, fazendo a invocação mística dos hindus com a luz que emana da ponta dos dedos e colocando o demônio tibetano no inferno dos malês antes da antepenúltima hora canônica. Indizível solidão...
(continua)
Hoje tenho por melhor exercício divagar sobre acontecimentos afastados no tempo, pois o passado é a minha matéria. Mais ou menos na linha do doutor Pedro Nava, para quem o futuro é somente uma expectativa da nossa experiência, sujeita a todos os riscos, e o presente não tem dimensão, sendo apenas este ponto da trajetória, que já passou, nem sei se você percebeu.
- Só o passado existe como realidade objetiva.Eu era obrigado a seguir para Araruama nos fins de semana, pois na minha família criança não tinha voz, nem vez. Eram horas intermináveis na fila das barcas, até chegar o momento de embarcar o carro e transpor a baía. Imaginei a ponte imensa e, dos seus numerosos profetas, fui dos poucos que tiveram a ambição de construí-la.
Curso preparatórioDo pensamento à ação, cheguei a freqüentar um curso preparatório para o vestibular de engenharia, no longínquo ano de 1960. Meus planos esbarraram, porém, nos obstáculos que o professor Kakaze ia depondo à minha frente. Lembro-me muito bem da satisfação que lhe proporcionavam os seus teoremas e dos problemas que costumava propor, a todo instante, para testar os conhecimentos daquela turma de principiantes. Que só faziam revelar a minha inaptidão e aumentar a minha angústia. Pobre de mim!
Dia importante, nessa fase de ensaio e muito erro, foi o da questão que se colocou para sempre no epicentro das minhas frustrações:- Utilizando dez consoantes e cinco vogais, quantos agrupamentos de quatro consoantes e duas vogais distintas podem ser formados?
Tremi, perplexo, sem saber como enfrentar o desafio. O Ramiro, lá na primeira fila, levantou-se rapidamente com o resultado:
- 1.512.000 agrupamentos.
Não me contive:
- Então, professor, isso é necessário?
- Certamente, meu caro pitecantropo. Passaremos da análise combinatória ao binômio de Newton, que, de tão importante, é citado até nas poesias do Fernando Pessoa. Depois estudaremos o cálculo das probabilidades e a distribuição de Gauss. A qual há de ser sempre campanular, você sabia? Sem a distribuição de Gauss não se enriquece o urânio, não se gera, não se transmite e não se distribui eletricidade, não se constroem as grandes estruturas, como o Maracanã, nem os canhões necessários à segurança nacional.
- Nem a ponte Rio-Niterói?
-Nem a ponte Rio-Niterói, ora se!
Voltei para casa cheio de desalento. Sem a distribuição de Gauss, não havia nenhuma salvação. Além disso, 1.512.000 agrupamentos! Algumas semanas ainda insisti, impotente e desamparado, na luta desigual com integrais e polinômios. O desenlace entre mim e a engenharia, cada vez mais inevitável, consumou-se no dia 8 de junho de 1960, quando o Kakaze indagou pelo logaritmo, na base raiz de dois, do logaritmo de 81, na base raiz de três. Um pesadelo dentro do pesadelo. Enquanto o Ramiro dava, lá na frente, o seu espetáculo de competência, escapuli sorrateiramente e, desatinado como um ícaro que percebe a ruína das suas ambições impossíveis, abandonei a engenharia, em caráter irrevogável e irretratável. Não obstante a ponte Rio-Niterói.
Gênios
Cervantes escreveu o “Dom Quixote”, Rembrandt pintou a “Ronda Noturna”, e Einstein, mesmo assoberbado na seção de patentes de Berna, explicou o movimento browniano, entendeu a natureza dual da luz, a um só tempo partícula e onda, e formulou a desconcertante Teoria da Relatividade.
Ronda NoturnaCom certeza se dirá que foram gênios, e eu, óbvio que seja, muito modestamente acrescento: pessoas dotadas de extraordinária aptidão e avassaladora força de vontade. Exatamente assim eu via o Ramiro, a quem estava reservado o privilégio das grandes edificações, incluindo, quem sabe, a ponte Rio-Niterói. Cervantes, Rembrandt e Einstein, lá atrás, gênios indisputáveis. Ramiro, cá na frente, na condição de expectativa da minha experiência, era um gênio em plena e decidida elaboração.
Eu, que não sou gênio por falta de talento e até mesmo por falta de vontade, estou sempre resolvendo problemas de palavras cruzadas. Não sei explicar por quê. Imagino que a atividade esteja relacionada com a solidão, tratando-se de empreendimento que não carece de parceiros, nem de testemunhas. Quando depôs sobre os anos de chumbo, Ernesto Geisel atribuiu ao general Costa e Silva o apego excessivo às palavras cruzadas. Posso imaginar o general, entre um e outro ato institucional, fazendo a invocação mística dos hindus com a luz que emana da ponta dos dedos e colocando o demônio tibetano no inferno dos malês antes da antepenúltima hora canônica. Indizível solidão...
(continua)
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