sexta-feira, 11 de maio de 2007

OBRA E TRAGÉDIA DE LAVOISIER

Uma obra fundamental

Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794) foi o fundador da Química moderna. Seus feitos científicos são numerosos: criou os conceitos de substância pura, elemento químico e equação química; fez os primeiros estudos da Química Orgânica; propôs uma nomenclatura científica para os elementos e substâncias; publicou uma tabela com 32 elementos químicos, dos 92 que hoje se sabe existirem em estado natural; criou os termos oxigênio, hidrogênio e azoto; descobriu a composição da água, do ar e do gás carbônico; provou, em colaboração com Pierre-Simon de Laplace, que a respiração animal é uma forma de combustão interna sob a ação do oxigênio; obteve o hidrogênio por ação do ferro em vapor de água; inventou, ainda em colaboração com Laplace, o calorímetro de gelo; eliminou da Química a teoria do flogisto ou flogístico, um fluido hipotético que, segundo se acreditava, era liberado pelos corpos durante o processo da combustão; intuiu de forma genial sobre a reação básica que ocorre na fotossíntese da matéria vegetal; e estabeleceu o Princípio da Conservação da Matéria.
Lavoisier, que era muito rico, herdeiro de uma grande fortuna tanto quanto sua mulher Anne-Marie Pierrete Paulze, despendia grandes quantias na construção de aparelhos de laboratório, entre os quais pelicanos e balanças de alta precisão, que ainda hoje se encontram nos museus da França.
Após a queda da Bastilha, a Assembléia Nacional instituiu uma comissão para estabelecer um sistema internacional de pesos e medidas, integrada por Lavoisier, Condorcet, Borda, Lagrange, Tillet, Laplace e Monge; foi essa comissão que criou o metro, correspondente à décima milionésima parte do quadrante terrestre, e o quilograma-massa, construído para ser equivalente à massa, à temperatura de 18 graus Celsius, de um litro de água destilada.
Em 1789, o ano da Tomada da Bastilha, Lavoisier publicou o seu extraordinário Tratado de Química Elementar, no qual se contêm as bases de toda a Química moderna; nele Lavoisier explica o seu Princípio da Conservação da Matéria, que lhe valeu enorme prestígio mundial, sendo certo que pouca gente não terá ouvido alguma vez que

na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”.

Lavoisier foi também proprietário rural, com mais de mil hectares de glebas em Freschines, perto da cidade de Blois, onde desenvolveu experiências agrícolas com o mesmo zelo que usava nos trabalhos de laboratório. Como político, foi suplente de deputado dos Estados Gerais e secretário do Tesouro.
Um amigo e discípulo de Lavoisier, Eleuthère Irénée Dupont de Nemours, tendo emigrado em 1800 para os Estados Unidos da América, fundou no Estado de Delaware a Du Pont de Nemours & Co, hoje um dos maiores conglomerados industriais do mundo.

Uma tragédia para a ciência

Lavoisier morreu guilhotinado, vítima do regime do Terror, que se instalou na França entre 1793 e 1794, ao tempo de Robespierre. Por ser cobrador oficial de impostos de Luiz XVI, uma função tornada mais impopular porque o clero e a nobreza gozavam do privilégio da isenção, Lavoisier acabou sendo injustamente acusado de peculato. A esse respeito, um antigo funcionário da Receita, Mollien, relatou na ocasião que não havia nenhuma dúvida quanto à inocência de Lavoisier, que não deixou "uma única objeção sem resposta, um único cálculo sem refutação, uma única justificativa sem prova."
De fato, as alegações contra Lavoisier eram irrelevantes, configurando um revanchismo dos que se viram prejudicados por sua atuação como coletor de impostos ou a sanha dos que lhe tinham inveja por sua fortuna e seus êxitos pessoais.

Tinha também contra si o ódio de Jean Paul Marat, que era médico e cientista, antes de se tornar o panfletário da Revolução Francesa. Em 1780, ou seja, antes do Terror, Marat submetera à Academia Real das Ciências um trabalho científico, pretensioso e equivocado, a que deu o nome de "Pesquisas Físicas sobre o Fogo"; nele Marat defendia ingenuamente que o fogo era a manifestação de um fluido especial, o fluido ígneo, cujas sombras produziriam as formas trêmulas das chamas. "Uma vela, defendia ele, confinada num espaço limitado, apaga-se porque o ar, dilatado pela chama, comprime-a e a abafa."
Esse trabalho foi recusado por orientação de Lavoisier. Embora corriqueiro, o fato foi decisivo para levar Lavoisier à guilhotina. Pois Marat assumiu o papel de principal acusador, com seus artigos raivosos e desproporcionais.
Para além de outros textos injustos e grosseiros sobre Lavoisier, eis o que Marat escreveu no seu jornal “L’Ami du Peuple”, em setembro de 1791:

“Denuncio-lhes o corifeu dos charlatães, o senhor Lavoisier, filho de um sovina, aprendiz de químico, aluno do agiota genebrino, coletor-geral de impostos, diretor da pólvora e do salitre, administrador da Caixa de Descontos, secretário do Rei, membro da Academia de Ciências, íntimo de Vauvilliers, administrador infiel da subsistência e o maior intrigante do século.”

O grande cientista foi condenado, e sua execução ocorreu em 8 de maio de 1794. “A república não precisa de gênios”, disse o juiz que o condenou.
Lavoisier não recebeu nenhuma solidariedade de antigos colaboradores e colegas acadêmicos, com a honrosa exceção do matemático Joseph Louis de Lagrange. No dia seguinte à execução, Lagrange expressou a sua mágoa com as seguintes palavras, que se tornariam famosas:

Bastaram alguns instantes para cortar a sua cabeça; mas cem anos talvez não sejam bastantes para produzir outra igual.”

quinta-feira, 10 de maio de 2007

RETALHOS DO QUOTIDIANO (parte 13/26)

A poesia

Uma certeza que me acompanha existência afora, nem sei exatamente por quê, é a de que todo mundo um dia acaba fazendo alguma poesia, nem que seja umazinha só, mirrada e solitária. No meu caso, isso é meio complicado e difícil porque não tenho nenhuma afirmação abrangente a fazer, nem para os amigos, nem sobretudo para a humanidade.

Minha cachorrinha

Sobreveio, porém, o incidente vivido à porta do motel, que preciso contar desde o começo.

Confesso constrangidamente que tenho cara de sósia, do tipo mais genérico e vulgar, tantas vezes já me confundiram com outras pessoas. Nunca, porém, o mal-entendido viera com tanto fervor e destempero.
Saíamos do motel, quando uma desconhecida, irrompendo do nada, deu um empurrão em May e dirigiu-se a mim de maneira extravagante e agressiva.

- Pensa que a coisa vai ficar assim, seu cretino? Me deixando por essa aí? Não adianta tirar a barba, nem o bigode, que eu te reconheço debaixo de qualquer disfarce, mesmo fantasiado de satanás ou de vice-rei da Catalunha! Eu irei atrás de você até as profundezas do inferno!
De um lado, uma mulher equivocada, com sua fúria e desespero, e, do outro, eu, um homem desconcertado, sem saber o que fazer, nem como reagir.
- Mas quem é a senhora?
- Não sabe quem sou eu, essa é boa, muito boa! E, além de tudo, me chamando de senhora! Você sempre me chamou de minha cachorrinha, não se lembra não, seu cretino?
Cada vez mais desorientado, a custo me desvencilhei da mulher. Mais que uma mulher, um pesadelo inexplicado, aliás, inexplicável.
Então, a surpresa maior: May, na confusão, havia abandonado o local. Ela seguira de táxi na direção do Leblon, foi o que me informaram.


Sic transit gloria mundi

À perplexidade daquele momento juntou-se a decepção dos dias que se seguiram. May se recusou a atender os meus telefonemas. Não sei se doeu mais a separação ou se a lógica absurda na qual se baseou. Senti semanas a fio uma terrível sensação de impotência, a de um inocente condenado por causa de um lamentável mal-entendido, inerme e inerte diante de um tribunal chamado May, a mulher que eu amava. Que ouviu uma acusação contra mim, de nenhum fundamento, me julgou e me condenou, sem sequer me conceder a generosidade de me ouvir.
Sic transit gloria mundi.
Apesar disso, ou, quem sabe, exatamente por isso, eu sentia muita falta dela. Afinal, May não tinha culpa de ignorar a minha inocência. Foi então que fiz a poesia, a que corroborou no que me diz respeito que todo mundo é poeta por um dia. Poesia tem de ser mostrada, imaginei, ou deve ir para a lata do lixo. Foi por isso que pensei em ir ao Museu, chamar pela May e depor-lhe o meu amor. Uma declaração seguida de uma declamação, de acordo com um teatro que cheguei a ensaiar.

O que declarar:

"Fiz uma poesia para você, os primeiros versos da minha vida. Versos ruins, sem dúvida, o que não tem nenhuma importância, nem conseqüência. Porque não sou poeta, May, mas um homem confessando o seu amor."

O que declamar:

"A febre, grande ameaça,
Sempre demora, mas passa.
A banda passa na praça,
Tocando com muita graça.
A uva demora, mas passa.
Passa boi, passa boiada,
Passarinho, passarada.
O aluno se vira e passa,
O filme passa no paço,
E, do pascácio que passa,
Não fica nem a carcaça.
Mas você, aqui no peito,
Agarrada como traça,
Impassante, impassada,
Só você é que não passa."

Horror ao vexame

Não bastava ensaiar. Para ir ao Museu eu teria de arrostar e vencer todas as minhas resistências. O que não aconteceu, pois, tudo aferido e sopesado, prevaleceu o meu recato. Ir ao Museu, de poesia em punho, onde já se viu, ora essa!
E, convenhamos, os meus versos cumpriram a regra, cumpriram sim, mas como são ridículos!
Galileu Galilei afirmou que a Natureza tem horror ao vácuo; eu faço pior ainda, pois é do vexame que tenho pavor, e somente dele.
Como são ridículos!
(continua)

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Preparação para a Morte

A vida é um milagre.
Cada flor, com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro, com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito, o espaço é um milagre.
O tempo, infinito, o tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
— Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

Manuel Bandeira, 1965

segunda-feira, 7 de maio de 2007

A "vergonha" de Pero Vaz de Caminha

A primeira impressão civilizada que se conhece a respeito das índias brasileiras foi a transmitida pelo escrivão Pero Vaz de Caminha, na carta que dirigiu a Dom Manuel I em primeiro de maio de 1500. Nas diferentes passagens da carta, Caminha não esconde sua fixação nas “vergonhas” das moças índias, com seus insistentes e bem-humorados trocadilhos com a palavra "vergonha":

(...) "Entre eles, andavam também três ou quatro moças, bem novas e graciosas, com cabelos muito pretos, pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que não tínhamos nenhuma vergonha de as olhar muito bem.”

(...) "E uma daquelas moças era toda pintada de baixo acima daquela tintura; e de fato era tão bem-feita e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhes tais feições, sentiriam vergonha por não serem como ela."

(...) "Também andavam, entre eles, quatro ou cinco mulheres moças, nuas como os homens, as quais não pareciam mal. Entre elas andava uma com uma coxa (do joelho até o quadril) e a nádega toda pintada daquela tintura preta; e o resto, de sua cor natural. Outra trazia os joelhos com as curvas assim pintadas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência descobertas, que nisto não havia vergonha alguma."

Quando a esquadra de Pedro Álvares Cabral partiu do Brasil, deixou com os índios dois degredados que haviam sido trazidos com a expedição, um dos quais se chamava Afonso Ribeiro. Os dois infelizes puseram-se a chorar com tal veemência e desespero que os índios ficaram perplexos e comovidos. Enquanto isso, dois grumetes (ou cinco, segundo alguns historiadores) abandonaram espontaneamente a esquadra, embrenhando-se terra adentro. Deles nunca mais se ouviu falar, mas os dois degredados foram resgatados vinte meses depois por outra expedição portuguesa, da qual fazia parte Américo Vespúcio. No final da carta, Pero Vaz de Caminha pede a Dom Manuel pela volta do genro, Jorge de Osório, um marginal que estava exilado na Ilha de São Tomé, atual Gabão, na África, depois de condenado por ter assaltado uma igreja e ferido um padre. Por isso muitos dizem que a carta de Caminha é a certidão de nascimento do pistolonato no Brasil.
Caminha seguiu com a frota de Cabral para a feitoria portuguesa de Calicute, nas Índias, a fim de assumir seu posto de tesoureiro. Em 16 de dezembro de 1500, porém, os árabes desfecharam um violento ataque contra a feitoria de Calicute, de que resultou a morte de Caminha. Ao saber do ocorrido, Dom Manuel decidiu atender o pleito do seu escrivão, dando por encerrado o exílio de Jorge de Osório.




Dogma do círculo

Platão (428 ou 427 a. C. - 347 a. C.) é um dos mais importantes pensadores gregos. O filósofo do século XX Alfred North Whitehead declarou certa vez que toda a filosofia não passava de uma nota de rodapé a ser anexada à obra de Platão.
Platão criou sua Academia em 387 a.C. num olival situado num subúrbio de Atenas, que havia pertencido ao herói Akademus. Na porta de entrada da Academia, o filósofo mandou colocar um aviso, de nítida inspiração pitagórica:

Não entre aqui quem não saiba geometria".

Aristóteles ingressou na Academia de Platão quando tinha 17 anos, e nela as mulheres só eram admitidas se aceitassem vestir-se como homens.
Platão usava a técnica de buscar o saber
pelo debate e pelo questionamento, no estilo dialético de Sócrates. Além de interesse na Filosofia, na qual então se incluía a Matemática, Platão tinha paixão pela Política. Predominavam na Academia o raciocínio e as idéias abstratas, e até os estudos políticos de Platão eram baseados na utopia, não na realidade social.
Não sem razão, a geometria de Platão limitava-se às figuras perfeitas, que podiam ser traçadas com régua e compasso, como o círculo, o quadrado, o triângulo e os poliedros regulares. Desse modo eram ignoradas as formas do mundo real, que era “mecânico” e “ilusório”.

Os corpos celestes só podiam ser esferas (sólidos perfeitos) a descrever círculos (curvas perfeitas), em movimentos de velocidade uniforme. Eis o que se lê no
Timeu, um tratado teórico, na forma de diálogo, que contém as concepções de Platão sobre a natureza do mundo físico.:

Deus deu ao mundo uma forma compatível com sua divindade. Ou seja, deu-lhe a forma de uma esfera, porque os seus pontos se encontram a igual distância do centro - a mais bela das formas, pois há mil vezes mais beleza no semelhante do que no diferente... Foi assim que imprimiu ao mundo um movimento circular e constituiu um céu circular, obrigado a arrastar-se num movimento circular, de velocidade uniforme.

As idéias cosmológicas de Platão configuram o chamado “dogma do círculo”, que prevaleceu por cerca de vinte séculos, servindo como ponto de partida fundamental para a edificação do sistema de Cláudio Ptolomeu, com sua teoria geocêntrica, e persistiu com Nicolau Copérnico, cujo sistema heliocêntrico preconizava que os planetas descreviam movimentos circulares em torno do Sol.
O "dogma do círculo" resistiu até o século XVII, quando
Johannes Kepler demonstrou de forma definitiva que os planetas não descrevem círculos, mas órbitas elípticas, das quais o Sol ocupa necessariamente um dos focos.
Platão lecionou até 347 a.C., o ano da sua morte. A Academia, a ele sobrevivendo, funcionou mais nove séculos, até 529, quando o imperador romano Justiniano ordenou seu fechamento, declarando-a uma casa do “saber pagão”. Era o início da Era das Trevas, que iria perdurar por cinco séculos.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

RETALHOS DO QUOTIDIANO (parte 12/26)

Paixão e cultura

Foi do Museu que ela me ligou.
- Quero convidá-lo para ver uma peça.
- Peça, sobre o quê? Quando?
- Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki, hoje à noite. Sobre os Bessemenovs, uma família russa em decadência. Nem pense em recusar, pois já adquiri os ingressos.

Gorki

May, ao volante, tomou o rumo do Teatro Villa-Lobos. Durante o percurso ela me explicou que Máximo Gorki teve uma vida miserável, trabalhando como lavador de pratos, pescador, vendedor de frutas, muitas vezes sobrevivendo até como vagabundo. Chegou a tentar o suicídio, no desespero de quem se sente perdido, no meio de uma gente corrupta e miserável. Ele se consagrou, porém, ao escrever os Pequenos Burgueses, pois a decadência dos Bessemenovs, com todas as suas contradições, era uma amostra do que acontecia na Rússia que antecedeu a Revolução Comunista.
Tudo foi, para mim, um alumbramento:
o teatro, o ambiente, o ritual. E a peça, não sei se tinha visto alguma assim densa e interessante. Um pai arbitrário, uma filha deprimida, um filho pretensioso e Nill, o trombeta de Deus! Era a classe média assoberbada pelo tédio, numa sociedade em plena e decidida decomposição.
Saí do teatro ainda mais convencido de que era necessário introduzir o viés da cultura em minha vida, jogando na lata do lixo aquele modelo idiota em que eu só pensava em integrais, vetores, transformadas de Laplace, eletricidade e mecânica. E a todo instante me lembrei de Charles Percy Snow, para o qual poucos cientistas lêem Charles Dickens ou uma peça de Shakespeare, e poucos artistas conhecem o Segundo Princípio da Termodinâmica; assim, concluía ele, fica muito difícil resolver os problemas do mundo.
Fica mesmo. Não que eu me considere um cientista na acepção integral da palavra, mas não posso continuar sendo um analfabeto cultural em plena cidade do Rio de Janeiro.

Camus

Uma semana depois May me ligou novamente, sempre assumindo as iniciativas.
- Já tenho os ingressos.
- Mas qual o filme?
- Isso também é importante. O Estrangeiro, baseado num romance de Albert Camus.
- Albert Camus?
Ora, pois. O senhor Meursault decide ir ao enterro da mãe, cuja idade desconhece. Sei lá, sessenta anos. Encontra-se depois com Marie Cardona e vê um filme de Fernandel; Mersault se relaciona com um vizinho, Salamano, que tem um cachorro nojento; e com outro, Raymond Sintès, que é cafetão e tem o hábito de espancar a mulher até o sangramento.
No domingo, Meursault, Marie Cardona e Raymond Sintès vão para a casa de praia de Masson, um amigo de Raymond. Dois árabes atacam Raymond na praia, pois querem vingar-se da surra que ele deu na prostituta. São repelidos por Raymond e Masson, que, a seguir, voltam para casa.
Meursault passeia pela praia sozinho e avista um dos árabes, que exibe a faca, mas sem nenhuma atitude agressiva. Era só Meursault voltar também para casa, e tudo estaria terminado. Mas havia o sol na cara. Mersault atira, e o árabe tomba, fulminado. Depois atira mais quatro vezes contra o corpo inerte do homem caído.
O advogado, o juiz e o promotor tentam entender o gesto de Mersault, que, de fato, nunca se arrepende de nada porque é dominado pelo que vai acontecer.
- Eu matei o árabe por causa do sol.
O capelão insiste em falar com o senhor Meursault, pois precisa conquistar sua alma de condenado à morte.
- Deus irá ajudá-lo, Meursault.
- Não quero que ninguém me ajude, e me falta tempo para me interessar pelo que não me interessa.
Indiferença perante a vida.
Uma obra de Camus, mostrando, numa reflexão sobre o absurdo, um homem que se estranha, estrangeiro de si próprio.
- Muito esquisito.
- Bota esquisito nisso, Carlinhos.


Minha única opção

Dar mais atenção aos cadernos internos do jornal, ler Proust, a Divina Comédia e o Dom Quixote, ir ao Municipal, ser capaz de reconhecer uma ária da Traviata ou uma sonata de Beethoven, saber francês e jogar bridge. Ilíada, Finnegans Wake, mitologia grega e escandinava, Noberto Bobbio, Ángel San Briz e Condillac. E, claro, vinhos, filosofia e economia política. Ficar atento às oportunidades culturais. E gritar, como um Bocage desvairado da Rita Ludolph:

- Gente ímpia, rasgai os meus versos e crede na eternidade, que já beócio não sou!

Ou não estarei à altura da May.
(continua)

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Biblioteca de Alexandria (em duas partes)

Biblioteca de Alexandria(final)

A lista de moradores ilustres de Alexandria inclui Eratóstenes (276-194 a.C.), que criou um crivo para descobrir números primos, estabeleceu os alicerces da geografia científica e fez medições da circunferência terrestre com extraordinária precisão; Eratóstenes foi o bibliotecário-chefe de Alexandria durante mais de 40 anos, um cargo muito cobiçado pelos intelectuais do mundo antigo.
Vale também mencionar
Arquimedes (287 a.C. - 212 a.C.) , o siciliano de Siracusa que foi considerado o maior engenheiro da Antiguidade, famoso por ter corrido pelado pelas ruas de Siracusa, a gritar “eureka!” (“achei!”), depois de descobrir o princípio da física que leva o seu nome: todo corpo mergulhado num fluido fica inapelavelmente sujeito a um empuxo vertical, de baixo para cima, igual ao peso do fluido deslocado. Dele são também alguns estudos fundamentais da hidrostática, as invenções de dispositivos para levantar pesos, máquinas bélicas, o parafuso d´água, além de estudos sobre a alavanca e o estabelecimento de relações geométricas diversas.
Em Alexandria também viveram Diophante, o pai da álgebra; os poetas Teócrito, Zenódoto e Calímaco; o cientista Aristarco de Samos, que formulou a teoria heliocêntrica do nosso sistema planetário dezoito séculos antes de Copérnico; Apolônio de Perga, o geômetra que estudou as cônicas e criou os termos “elipse”, “parábola” e “hipérbole”; Aristófanes de Bizâncio, o gramático grego que revisou Homero, Píndaro, Hesíodo e outros grandes dramaturgos gregos; Hiparco de Nicéia, que inventou a trigonometria, calculou a duração do ano solar, descobriu a precessão dos equinócios e catalogou 850 estrelas, listando-as por magnitude, longitude e latitude; Cláudio Ptolomeu (que não tinha nenhum parentesco com os Ptolomeus que governavam o Egito), autor da teoria geocêntrica do nosso sistema planetário, que, equivocada embora, prevaleceu durante 14 séculos; Galeno, o maior médico da Antiguidade, após Hipócrates; Plutarco, autor de Vidas Paralelas, a obra que mais influenciou a moderna literatura, até mesmo Shakespeare, e serviu de inspiração para os grandes líderes da Revolução Francesa; Plotino, o expoente do neo-platonismo; Hipácia, mártir do início do século V, a matemática e filósofa que foi cruelmente arrastada pelas ruas de Alexandria e teve o corpo queimado por fanáticos religiosos.

A Biblioteca de Alexandria atravessou muitos séculos e por pouco não se tornou milenar. No meio dessa trajetória, em 49 a. C., foi atingida por um incêndio provocado pelas tropas de Júlio César, que atacaram Alexandria, então sob o reinado de Cleópatra.
Poucos anos depois, Cleópatra conseguiu de seu amante, Marco Antônio, a doação de 200 mil rolos de pergaminhos da biblioteca de Pérgamo, o que de certa forma compensava a perda de 40 mil volumes provocada pelo incêndio. Infelizmente, porém, Cleópatra decidiu transferir boa parte do livros para o Templo de Serápis, o que, quatro séculos depois, teria graves conseqüências: em 389 o imperador romano Teodósio ordenou ao bispo Teófilo que destruísse todos os monumentos pagãos de Alexandria, entre os quais o Templo de Serápis, dedicado a uma divindade protetora da saúde. Com a destruição do templo, perdeu-se grande parte dos livros.
A Biblioteca de Alexandria, apesar dos percalços, conseguiu funcionar até 642 quando o Egito foi conquistado pelos árabes do general Amr Ibn Al As, que atuava em nome do Califa Omar. Amr autorizou que os livros da biblioteca fossem usados como combustível das caldeiras que aqueciam os banhos da cidade. Consta que João, o Gramático, um ex-padre obcecado pela cultura, tentou persuadir Amr a não queimar os livros e foi por este encaminhado ao Califa Omar.
Omar, porém, não se sensibilizou com seus argumentos, manifestando-lhe o seguinte entendimento:

- Os livros contrários ao Corão devem ser destruídos, porque hereges; e, igualmente, os que lhe são favoráveis, porque desnecessários.

Terminava desse modo a trajetória da Biblioteca de Alexandria, uma das mais bem-sucedidas iniciativas a serviço da humanidade. Sem a sua biblioteca, Alexandria iniciou um longo e penoso processo de decadência, que alcançou seu grau mais extremo com a cessação de suas atividades comerciais, em decorrência da descoberta da rota marítima para as Índias, pela via do Cabo da Boa Esperança.

Alexandria só voltaria a recuperar a sua condição de grande cidade a partir do início do século XIX, quando as forças de Muhammad Ali expulsaram do Egito os franceses de Napoleão e recuperaram-na do domínio inglês. A partir daí a cidade refez-se muito bem no plano material, sem entretanto retornar ao esplendor cultural e científico da época da biblioteca, que teve a responsabilidade de preservar a cultura grega, no que ela teve de mais importante em termos de ciência, filosofia, literatura e arte.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Biblioteca de Alexandria (em duas partes)


A Biblioteca de Alexandria (primeira parte)

A Biblioteca de Alexandria
reuniu a maior coleção de escritos e o maior acervo cultural e científico de toda a Antiguidade. Sua história começa com a dominação helênica do Egito, a partir de 332 a. C., quando Alexandre, então com 21 anos, expulsou os persas que havia dez anos dominavam o país e coroou-se rei, na milenar cidade de Mênfis.
Ao visitar logo depois uma vila de pescadores chamada Racótis, na costa do Mediterrâneo, Alexandre examinou seus mananciais de água doce e sua proximidade com o rio Nilo e decidiu construir ali um porto de mar profundo, para servir às atividades tanto de sua armada quanto de sua frota mercante, que fosse parte de uma cidade que deveria se constituir numa nova e resplandescente capital do Egito.
Era a sua Alexandria.
Lançada a pedra fundamental da cidade em 7 de abril de 331 a. C., Alexandre confiou o seu projeto ao grande arquiteto grego Deinócrates e retomou suas aventuras pelo mundo, falecendo, repentinamente, em 323 a. C. Seus amigos macedônios e gregos dividiram entre si o mundo que ele conquistara. Seu corpo foi resgatado e sepultado em Alexandria, numa luxuosa tumba que recebeu o nome de Soma, por seu sucessor Ptolomeu I Sóter, um macedônio que se coroou rei em 306 a. C., inaugurando a dinastia dos Ptolomeus. Que se estenderia até 30 a. C., quando Cleópatra, a última dos Ptolomeus, foi derrotada por Otávio, na batalha de Actio, e o Egito passou ao domínio romano.
Ptolomeu I decidiu atrair para Alexandria os intelectuais do mundo grego e aceitou de um destes, Demétrio Falereu, a sugestão de erigir na cidade um centro de cultura semelhante aos que existiam em Atenas, Pérgamo e Cirene e criou um museu e uma biblioteca, que tiveram decisiva importância na preservação do pensamento grego e romano
.
Ptolomeu I foi logo adquirindo 500 mil pergaminhos para a nova biblioteca, que se situava no bairro real, próxima do museu, ao lado do qual surgiu a primeira universidade do mundo. Emissários foram enviados aos centros acadêmicos do Mediterrâneo e do Oriente Médio para comprar, copiar, pedir emprestado ou, se necessário, furtar as obras dos cientistas e literatos. Bibliotecas inteiras foram adquiridas, incluindo boa parte dos livros que pertenceram a Aristóteles; estrangeiros eram revistados e tinham seus livros confiscados, recebendo-os de volta depois de copiados para a biblioteca, de cujo acervo constaram os manuscritos originais de Ésquilo, Eurípedes e Sófocles. Nela ficaram guardados os rolos de papiro da literatura grega, egpícia, assíria e babilônica.
Os dois primeiros sucessores de Ptolomeu Sóter, a saber, Ptolomeu II Filadelfo e Ptolomeu III Evergeta, ampliaram os investimentos na biblioteca, que chegou a possuir cerca de 700 mil volumes, segundo Aulo Gélio, um gramático latino do século II .
Os sábios emigravam de toda parte para Alexandria, atraídos pela reputação da universidade, mas principalmente para consultar os milhares de livros que a biblioteca colocava à sua disposição. Entre eles, Euclides, natural de Racótis, que, tendo estudado em Atenas com um discípulo de Platão, fundou em Alexandria uma escola de matemática. Por volta de 300 a. C., Euclides escreveu "Os Elementos", o livro-texto mais bem-sucedido da história da humanidade e maior best seller mundial depois da Bíblia, desenvolvendo, pelo método dedutivo e uma criteriosa seleção de postulados, a sua impecável geometria euclidiana. Esse método vitorioso, o de desenvolver teorias a partir de postulados, vem sendo adotado desde então por físicos, como Newton, matemáticos, como Bertrand Russell e Alfred North Whitehead, ou filósofos, como Espinosa.
Outro cientista importante que se transferiu para Alexandria foi Hierófilo de Calcedônia, que revolucionou a medicina com sua técnica de exames post mortem, o primeiro médico que dissecou o olho, seguiu os seios nasais até o torcular herophilie, assim chamado em sua homenagem, e provou que o cérebro era o centro do sistema nervoso, e não o coração, como supusera Aristóteles. Não sem razão, com Hierófilo, Alexandria transformou-se durante séculos num centro mundial de excelência médica.
(continua)


terça-feira, 1 de maio de 2007

Método

Não me cabe, de fato, aceitar como verdadeira nenhuma coisa que eu não conheça evidentemente como tal; devo dividir cada uma das dificuldades em tantas partes quanto possível e necessário para resolvê-las; hei de conduzir os meus pensamentos de forma organizada, começando pelos objetos mais simples, segundo uma ordem de precedência de uns em relação aos outros; ao final, encerrarei cada estudo ou pesquisa com enumerações completas e revisões gerais, para ter certeza de que nada foi omitido. Enfim, como máxima fundamental, hei de procurar sempre vencer antes a mim do que à fortuna, modificar antes os meus desejos do que a ordem do mundo.

René Descartes (1596-1650)