quarta-feira, 1 de junho de 2011

ELA, EXATAMENTE ELA!

A SURPRESA DA MINHA VIDA

Não me lembro de ter tido surpresa maior em toda a minha vida: quem me aguardava no restaurante era... Melisande. A moça inatingível, que na juventude fizera o meu encantamento e para a qual me preparara com tantos emparelhamentos impossíveis, estava diante de mim, como sempre linda e maravilhosa. Ela, exatamente ela!


- Muito prazer em conhecê-lo, que meu nome é Melisande. A Irene teve um problema de última hora e solicitou-me que viesse em seu lugar.

- Muito prazer, Melisande. Espero que o problema da Irene não seja grave e muito lhe agradeço pela gentileza da sua presença. De onde você a conhece?

- Ela é sócia de meu pai numa produtora cinematográfica.

Era muita coincidência! Enviá-la em seu lugar era, sem dúvida, uma armação da Irene. O que senti, porém, foi a sensação de estar sendo ajudado pela sorte. Considerei-me em estado de graça, pois naquele mês fora eleito paraninfo dos alunos da economia e diante de mim estava agora a Melisande dos meus sonhos de rapaz. Quase perdi o rumo, de puro contentamento.


- Já reparei que, quanto mais me esforço, mais sou ajudado pela sorte.


- O quê?

- Nada, não.


O restaurante estava menos cheio do que habitualmente, aos poucos voltei ao estado normal e pudemos conversar longamente. Não houve oportunidades de emparelhamento, que nem teriam sido necessárias.
Muito culta, Melisande sabia discorrer sobre temas variados, Borges, Machado de Assis, Caravaggio, Norberto Bobbio, coisas assim. Dou muita sorte com mulheres preponderantes.
Resolvi falar também e terminei fazendo uma digressão meio inconsequente sobre Pascal e a família Bernouilli, misturando ciência e filosofia.

Fui salvo pela chegada do florista, com as rosas que eu comprara para a Irene.

- Para você, Melisande. As quatro forças fundamentais da natureza combinaram-se para que estas flores chegassem agora à nossa mesa, a fim de que pudesse oferecê-las a uma pessoa especial, como você.


Terminado o jantar, levei-a à sua residência, no Itanhangá. Foi quando me convidou para assistir a uma ópera, na semana seguinte, na casa de Elvira Stokes, que exibia em reuniões de amigos o que importava de Nova York.


- Mitridate, de Mozart. Não se preocupe, que sou muito amiga da Elvira e posso levá-lo à sessão, sem constrangimentos de nenhuma natureza.


Lembrei-me dos Palhaços, de Laura, e do Eugene Onegin, da própria Melisande. Mulheres maravilhosas gostam de ópera, pensei, quando regressava ao Leblon.

- Mas, convenhamos, a Irene planejou tudo muito bem!

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