quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

UMA AULA PARA A MOÇA DA SAN MARTIN

Meu reino por cinco salários mínimos

Sonhar com Einstein na véspera da aula, ora direis! Permaneci muito tempo deitado, relacionando o sonho extravagante com a odisseia que era encarar uma banca de doutores e depor-lhes uma aula sobre um assunto que me seria comunicado apenas na hora. A qual, se aprovada, implicava um doutorado, com direito a uma bolsa de cinco salários mínimos por mês, durante três anos. Eu me preparara exaustivamente e só temia que os nervos me atrapalhassem, quando chegasse a hora da verdade.

- Dar uma aula, sem saber qual o assunto... Essa é boa, muito boa.

Mecânica

- Tomara que escolham mecânica. É começar pelo princípio da inércia, passar pelo balde de Newton, discutir o caráter absoluto do movimento da Terra e o pêndulo de Foucault. A toda ação, corresponde uma reação, igual e de sentido contrário, sendo certo, quem diria, que um corpo não pode, por si só, modificar seu estado de repouso ou de movimento retilíneo uniforme. Simetrias e invariâncias, o Princípio de d’Alembert, o tempo, Santo Agostinho, Kant, Stephen Hawking... Nosso passado tem forma de pera, o presente já passou, e o futuro é uma expectativa que reflete a nossa experiência... passada. Bem, isso já é coisa de Pedro Nava.

Pedro Nava

Honestidade não é grandeza


- Se me pedirem para dar uma aula sobre grandeza, entro com aquela do Ilmar: “Grandeza é o atributo de um objeto ou atributo de um atributo de um objeto, no qual, atributo, se podem reconhecer diferentes graus de intensidade." Se não for atributo, não é grandeza; se não puder assumir diferentes graus de intensidade, também não é grandeza. Carro não é grandeza, mas sua velocidade é. Posso improvisar uma piada: honestidade não é grandeza, pois, embora atributo, nela não se pode reconhecer nenhuma gradação de intensidade. Essa é boa, muito boa!

E se for acústica? Magnetismo? Hidrodinâmica? Relatividade?

Montaigne

Manter a calma, esse o segredo, e só mencionar assuntos por mim dominados, omitindo todo o resto. Ao citar os pioneiros, mencionar seus problemas e dizer como foi que eles morreram. Para avaliar se uma pessoa foi feliz, isto é, se valeu a pena ter vivido, é preciso saber como foi que morreu, e quem ensina isso é Michel de Montaigne, nos Ensaios competentes. Se tais coisas não ficarem esclarecidas, isto é, se não se conhece o lado humano e doloroso dos físicos, os alunos podem pensar que ciência se faz num céu de brigadeiro, sem alma, sem angústia e sem sofrimento. Que a física surge do nada, como a noite, a chuva, as manhãs de outono, o vento leste, ou pelas artimanhas de alguma máquina, bastando ligá-la na tomada ou alimentá-la de petróleo numa planta de gasolina.

Proibido usar matemática

- Lembrar-se, Carlinhos idiota, de não usar integrais ou cálculo vetorial, nem médias harmônicas ou transformadas de Laplace. Ensinar por meio de fórmulas matemáticas é muito cômodo, mas tem o pequeno e decisivo inconveniente de que os alunos ficam sem entender o que está sendo ensinado. Exercite, em vez, aquele seu velho aforismo: a melhor álgebra é a das palavras, verborrágica, superabundante.

A moça da San Martin

- Você curte o Al Pacino?

Faça de conta que você está num barzinho do Baixo Leblon e a moça mais bonita da San Martin de uma só vez lhe pergunta se você curte o Al Pacino e o que é física.

- Sim, sim, também curto o Al Pacino. Isso mesmo, você vai dar a aula, qualquer que seja o assunto, para a moça mais bonita da San Martin, a Elisa, segurando o giz como quem segura um copo de uísque. Problema, se houver, serão as intervenções do presidente da banca, inesperadas, surpreendentes e ameaçadoras, interferindo no rumo da aula. Mas isso está fora do meu controle. Seja como for, lembre-se de que o professor é um ator num palco, fazendo o Ricardo III. Meu reino por cinco salários mínimos!


- A Horse, a Horse! My Kingdom for a Horse!

Terminada a aula, espero que todos se confraternizem comigo, a exaltar meus conhecimentos, repetindo a cada instante que física é isso aí, de aula assim é que os alunos precisam.

Um comentário:

Lucas Alves disse...

Vc vai conseguir!!! Torço por você a cada post que leio... apesar de não saber se suas histórias são sua vida real ou a de um "eu-lírico"! Gosto muito do blog... entro todo dia pra procurar atualizações. Não deixe de escrever, vc tem sido de grande inspiração pra mim e pra atual fase da minha vida! Abraços

Lucas Alves