sábado, 5 de novembro de 2011

Immanuel Kant, um gol de placa

Uma intuição genial

Kant

Após os trabalhos de Copérnico, Tycho Brahe, Johannes Kepler, Galileu e Newton, a estrutura do sistema solar, já no século XVIII, estava totalmente desvendada, não havendo dúvida de que os planetas, com seus satélites, giram em torno do Sol em trajetórias elípticas, com velocidades variáveis, conforme as Leis de Kepler.

- O restante do Universo, para além do Sistema Solar, como seria o restante do Universo
, que, já então, também se sabia não ser imutável?

Teoria dos Céus

Immanuel Kant (1724 - 1804) confessou naquela ocasião que duas coisas enchiam seu espírito de admiração e reverência:

“o céu estrelado acima de mim”

e

“a lei moral dentro de mim”.


Para entender o céu estrelado, Kant estudou o livro de Isaac Newton, "Princípios Matemáticos da Filosofia Natural", e publicou, aos 31 anos, uma obra audaciosa e de título complicado, “História Natural Universal e Teoria dos Céus, Ou um Ensaio sobre a Constituição e Origem Mecânica de Todo o Universo Tratada Segundo os Princípios de Newton”, mais conhecida por “Teoria dos Céus”.
Trata-se de um livro, de 1755, contendo importantes intuições cosmológicas. Entre elas, a de que o tempo teve um começo, o que está de acordo com as modernas teorias físicas; outra intuição notável estava em linha com as ideias de Giordano Bruno, a de que no Universo haveria uma infinidade de galáxias, cada uma com uma infinidade de estrelas e sistemas solares, naquela época em que a Via Láctea era considerada como a única galáxia existente, configurando sozinha todo o Universo.


O Grande Debate


O tema suscitado por Kant foi conquistando adeptos com o surgimento dos grandes telescópios e suas abundantes observações, como:

a descoberta do planeta Urano, em 1781, pelo alemão Whilhelm Herschell;


William Parsons, um milionário irlandês
, a partir de 1845, observou várias nebulosas por intermédio do seu telescópio "Leviatã de Parsonstown";

e

já no século XX, George Ellery Halle, construiu
telescópios de sessenta e cem polegadas em Monte Wilson, perto de Pasadena, na Califórnia, com o que se ampliou consideravelmente o volume de descobertas no céu.

Observar o céu e descobrir novas nebulosas tornou-se uma festa. Nesse ponto a dúvida era generalizada: essas estruturas estariam dentro da Via Láctea ou fora dela?
Não se conheciam as distâncias até as nebulosas, embora se estimasse
que fosse de 100 mil anos-luz a maior dimensão da Via Láctea. Nessa controvérsia, muitos astrônomos defendiam que as nebulosas eram estrelas jovens dentro da Via Láctea, ao passo que os alinhados com Kant argumentavam que se tratava de outras galáxias, situadas para além da Via Láctea.
A Academia Nacional de Ciências de Washington organizou em abril de 1920 um debate entre as duas correntes, que, ao fim e ao cabo, era na verdade uma discussão sobre o lugar da humanidade dentro do Cosmos.

Harlow Shapley

A galáxia única foi defendida pelos astrônomos do Observatório de Monte Wilson, representados por Harlow Shapley, um astrônomo graduado em Princeton, enquanto a tese de que as nebulosas eram galáxias independentes foi defendida pelo experiente astrônomo Heber Curtis, professor da universidade de Michigan.

Heber Curtis

O Grande Debate pouco acrescentou, pois faltavam dados observacionais que ajudassem a decidir sobre a questão. Alguns astrônomos, pessimistas, chegaram a admitir que essa questão não seria jamais esclarecida, por
situar-se numa fronteira indecidível, onde “o intelecto humano começa a falhar". Erro comparável, em contexto equivalente, ao de Augusto Comte, que manifestou em seu Curso de Filosofia Positiva a opinião de que nunca seríamos capazes de estudar a estrutura química e mineralógica das estrelas.

Henrietta Leavitt

Henrietta Leavitt, que era totalmente surda, em1895 ofereceu-se para trabalhar, sem nenhuma remuneração, no Observatório Astronômico de Harvard, onde executou tarefas simples até ser admitida, em 1902, como assessora permanente, com o salário de 30 centavos de dólar por hora.
Henrietta Leavitt interessou-se por estrelas variáveis, que são estrelas que aumentam e diminuem de brilho regularmente, como a estrela de Algol, na Constelação de Perseu, por isso mesmo chamada, às vezes, de Demônio Piscante.

Constelação de Perseu

Henrietta descobriu mais de 2.400 estrelas variáveis, cerca de metade do total então conhecido. Entre as estrelas variáveis, estão as cefeidas, que variam entre brilho máximo e brilho mínimo em um intervalo de tempo constante; depois de muito pesquisar, ela fez uma descoberta revolucionária, correlacionando o brilho de uma cefeida com o logaritmo do tempo em dias entre seu brilho aparente máximo e seu brilho aparente mínimo.
Bastava determinar o período que decorre entre brilho máximo e brilho mínimo, por inspeção visual, para ter o brilho real de uma cefeida, mediante a utilização da correlação obtida por Henrietta, em contraposição ao seu brilho aparente percebido desde a Terra.
Essa descoberta era revolucionária porque permitia aos astrônomos, já a partir da década de 1920, calcular a exata distância que nos separa de qualquer estrela cefeida.

Henrietta Leavitt

Henrietta Leavitt morreu de câncer em 1921, quase sem ser percebida, mas hoje muitos a consideram a “mais brilhante mulher que já passou por Harvard”. Onde, é bom repetir, trabalhou cerca de sete anos sem receber nenhum salário, assoberbada por problemas de saúde e pelas suas obrigações domésticas. As denominações do Asteroide ""5383 Leavitt" e da Cratera Lunar "Leavitt" foram dadas em sua homenagem.

Gol de Placa

Em 4 de outubro de 1923, Edwin Hubble, com seu telescópio de 2,5 metros de diâmetro, no Monte Wilson, descobriu na nebulosa de Andrômedra uma cefeida sete mil vezes mais luminosa do que o Sol e, pela técnica desenvolvida por Henrietta Leavitt, concluiu que essa estrela estava a 900 mil anos-luz da Terra.

Edwin Hubble

Ou seja, a cefeida de Andrômeda estava fora da Via Láctea, que de ponta a ponta não tem mais que 100 mil anos-luz.
A nebulosa de Andrômeda e outras nebulosas constituíam, pois, outras galáxias.

Hubble anunciou sua descoberta na reunião de 1924 da Associação Americana para o Progresso da Ciência.
A intuição de Kant estava, pois, correta: o Universo não se restringe à Via Láctea, formado que é por cerca de 100 bilhões de galáxias, cada uma com cerca de 100 bilhões de estrelas, sendo a mais próxima do Sol a estrela Alfa da constelação de Centauro, que dista do Sol quatro anos-luz, cerca de 38 trilhões de quilômetros.

- Kant assinalou um gol de placa!

2 comentários:

giramundo-pernalonga.blogspot.com disse...

...e "O Homem Horizontal" assinala
gol de placa em todas as suas postagens!
Grande abraço

Metamorfose Ambulante disse...

Concordo com o "pernalonga": cada postagem um gol de placa!!