quarta-feira, 16 de maio de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (7)

FRASES E ESPELHOS

O exame constava de uma única questão: escrever uma frase, qualquer uma.
Eu me meto em cada fria...


Júpiter e Io, de Correggio

Há de ser uma frase alheia, e não minha, pensei.
Sete anos de pastor Jacó servia a Labão, pai de Raquel, serrana bela, mas não servia ao pai, servia a ela, e a ela só por prêmio pretendia. Não, não, não, nada disso, pois trata-se de uma fofoca da Bíblia, não obstante Camões.
Por sua inaptidão para o trabalho, meu filho Charles Darwin será uma vergonha para si mesmo e para toda a família. Também não, que isso é um curto-circuito, não uma frase.
E se eu citar, de Jack Welch, que até os elefantes podem dançar?
Ou, de Lorde Keynes, que a longo prazo estaremos todos mortos?
Ou, de Freud, que a noção do impossível não existe para um indivíduo que faz parte de uma multidão?
Não, nenhuma dessas.
Até que, finalmente, decidi escrever a frase de Borges:

- Os espelhos e a cópula são abomináveis porque multiplicam o número dos homens.

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