segunda-feira, 29 de maio de 2017

RESTRINJA-SE A FEZES E URINA

AVICENA
 
 
             
 Avicena (980-1037), um persa de Samarcanda, cujo nome verdadeiro era Ibn Sina, destacou-se em vários campos do saber, como medicina, alquimia, química, astronomia, geografia, matemática, física, paleontologia, filosofia, ética e poesia. Foi talvez o homem mais culto de sua época, escrevendo centenas de tratados, dos quais nos restaram 40 sobre medicina e 150 sobre filosofia. Nesses estudos fez importantes observações, como a de que um corpo permanece no mesmo lugar ou se move com velocidade constante se sobre ele não atuar uma força externa­– uma antecipação de 600 anos da primeira lei de Newton. Disse também que, se todas as coisas do universo fossem inertes, o tempo não faria nenhum sentido, antecipando-se aos estudos da Física atual. Na medicina, enfatizava que remédios minerais ou químicos eram melhores que ervas e poções, compilando uma lista de substâncias químicas e das doenças que podiam curar.
Por seus vastos conhecimentos, Avicena foi algumas vezes chamado para assessorar líderes muçulmanos, de que lhe advieram muitos contratempos, sequestros, prisões e até ameaça de pena de morte. Não se sabe como conseguia tempo para tantos estudos e atividades, pois era exagerado no consumo de vinho e teve várias esposas e inúmeras amantes. Não tinha amigos, pois era cáustico e intolerante com os tolos. Quando um médico palaciano apresentou-lhe um trabalho filosófico, Avicena deu a seguinte opinião:

- Restrinja-se a examinar fezes e urina.

  Não admira que tenha morrido por envenenamento, em 1037.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O MUNDO É UMA MESA


         COSMAS INDICOPLEUSTES


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            Cosmas Indicopleustes viveu no século VI. Era um mercador de Alexandria que fez inúmeras viagens à India, no decurso das quais acabou se tornando monge. Naquela época os religiosos tinham dificuldade para aceitar a esfericidade da Terra, sobretudo pela afirmação de Aristóteles de que havia outro continente na parte sul do nosso planeta, habitado pelos antípodas, contrapondo-se ao mundo que então se conhecia. Não podiam admitir que houvesse outra civilização, de homens não mencionados na Bíblia e não alcançados pelo Dilúvio. Por isso, mesmo os que acreditavam na esfericidade da Terra, representavam-na como uma semiesfera, com apenas o Hemisfério Norte e seus três continentes.
Cosmas Indicopleustes (literalmente, “Aquele que esteve na Índia”) retratou esse entendimento no seu livro Topografia Cristã, escrito por volta de 550, que, além de conter informações sobre história, geografia, filosofia e religião, com veemência proclama que o céu tem a forma de uma caixa de tampa curva. Para ele, a Terra era plana, como a superfície de uma mesa, o que dizia provar com argumentos baseados nos postulados bíblicos:

            - Existem falsos cristãos que ousam sustentar que a Terra é esférica. Uma heresia herdada dos gregos, que refuto com passagens bíblicas e citações inequívocas dos textos sagrados.  

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Mapa do mundo, segundo Indicopleustes


Um desses argumentos era o Salmo 104: 5:  

“Senhor, assentastes a Terra sobre suas bases, irremovível para sempre.”

Um regresso à concepção do mundo dos babilônios e egípcios, um recuo de dois mil anos, para aquém das concepções de Platão, Aristóteles e Ptolomeu.

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  Era a exacerbação da visão anticientífica que se fortaleceu a partir do século II, com a ascendência da religião sobre o Império Romano, e atingiu seu ponto máximo em 391, quando o imperador Teodósio deu ao Cristianismo o status de religião do Estado. Num movimento inverso ao que se iniciara com os pré-socráticos, que separaram ciência de religião, agora os monges da igreja, que viviam reclusos em mosteiros, rezando e copiando livros, tornavam-se responsáveis pela proteção espiritual da sociedade. Eles passaram a dizer o que era certo e o que era errado em termos científicos, estabelecendo os parâmetros e os textos bíblicos e dogmas que deveriam ser usados na interpretação e validação do que se podia aceitar. Pensamento e razão davam lugar à fé religiosa e à fidelidade aos textos cristãos. São Basílio, um dos mais influentes teólogos religiosos do século IV, condenou os que “comparavam a simplicidade e ingenuidade de nossos discursos espirituais com a curiosidade dos filósofos a respeito do Céu. Assim como a beleza da mulher casta supera a da cortesã, assim também nossos discursos prevalecem sobre os desses estranhos à Igreja.”