terça-feira, 17 de outubro de 2017

A QUEDA DO MUNDO SUPRALUNAR INCORRUPTÍVEL



TYCHO BRAHE



A teoria heliocêntrica de Copérnico tirava a Terra do centro do Universo, mas não alterava o dogma dos movimentos planetários circulares e uniformes, nem questionava a imutabilidade do mundo supralunar. A primeira grande contribuição para refutar esses conceitos equivocados foi dada por Tycho Brahe, por suas observações astronômicas, que feriam a reputação do sistema supralunar incorruptível e também pelos dados telescópicos que colheu com precisão meticulosa, ensejando a Johannes Kepler a oportunidade de estabelecer as leis dos movimentos planetários.
            Nascido em uma família rica da Dinamarca, Tycho Brahe (1546-1601) aos treze anos foi enviado para a Universidade de Copenhague e aos dezesseis, para a Universidade de Leipizig, antes de passar pelas universidades de Rostok e Basileia. Em 1566, com vinte anos, por causa de uma disputa intelectual, envolveu-se num duelo com seu primo Manderup Parsberg, do qual saiu sem um pedaço do nariz, que foi substituído por uma prótese de metal, que escondia perfeitamente a parte mutilada.
A família o queria estudando leis. Cedo, porém, Tycho adquiriu gosto pela astronomia, depois que, em 1560, com apenas 14 anos, observou um eclipse parcial do Sol. Da observação dos astros, passou à medida de suas distâncias, sempre com esmero e precisão.
            Tornou-se conhecido quando tinha 26 anos, por causa de uma estrela supernova, que observou em 11 de novembro de 1572. A "estrela de Tycho Brahe", como ficou conhecida, foi observada por astrônomos e sábios de toda a Europa até março de 1574, quando desapareceu.



     - Seria um meteoro? Seria um novo planeta?

            Constatou-se depois que se tratava de uma "supernova", conforme denominação que recebeu do próprio Tycho Brahe, num livreto, de 1573, a que deu o título de "De nova stella". Naquela época não se tinha nenhuma explicação para uma supernova, nem havia conhecimento suficiente para fazer alguma hipótese a esse respeito (ver uma explicação sobre o assunto em “Saiba mais”, imediatamente abaixo). Seu aparecimento, contudo, derrubava a premissa de Aristóteles de que o mundo supralunar era imutável, ou, como se costumava dizer, "incorruptível." 

- Como imutável, se nele podia surgir uma supernova?

            Em 1576, Tycho Brae recebeu de presente de Frederico II, rei da Dinamarca, a ilha de Hven, onde construiu um observatório, Uraniborg (Castelo do Céu), no qual fez uso de impressionante variedade de instrumentos (quadrantes, rodas, sextantes e esferas amilares rotativas), para perscrutar o céu. Construiu adicionalmente uma instalação subterrânea, para guardar os instrumentos, além de biblioteca, gráfica, laboratório de alquimia, fornalha e prisão para servos relapsos.
Uraniborg cresceu a ponto de tornar-se uma cidade, enquanto Tycho Brahe elevava a astronomia observacional a um estágio sem precedente, o que lhe acarretou, em consequência, enorme reputação internacional. Em 1577, um cometa de longa cauda apareceu no firmamento. Tycho demonstrou, com provas, que o astro era supralunar, pois passava a uma distância mais que seis vezes a distância entre a Terra e a Lua, numa nova contradição com a premissa de um mundo supralunar imutável.

- Como imutável, se nele pode transitar um cometa?

            Em 1588, com a morte de Frederico II, Tycho Brahe perdeu o financiamento de suas atividades, sua casa e posição. Só em 1597 mudou-se para Praga, para onde se deslocou carregando seus instrumentos e ficou sob a proteção do imperador Rodolfo II. Foi então que contratou como assistente o astrônomo alemão Johannes Kepler, a quem, antes de morrer, em 1601, confiou todos os seus dados sobre as estrelas e um cuidadoso trabalho sobre o planeta Marte.
           
No leito de morte, Brahe repetiu várias vezes para Kepler:

            - Que eu não tenha vivido em vão.

            Tycho Brahe realmente não viveu em vão, pois, trabalhando com os seus dados, Kepler iria derrubar a premissa dos movimentos circulares e uniformes, ao publicar em 1609 o livro "A Astronomia Nova", com as três leis dos movimentos planetários.

Saiba mais

            O que é uma supernova?  
A maior parte da matéria do Universo consiste de hidrogênio, que se reúne em grande quantidade para formar as estrelas. A massa da estrela, no início toda de hidrogênio, é puxada da periferia para seu centro, devido à atração gravitacional, que, entretanto, é contrabalançada pela pressão exercida do centro da estrela para a sua periferia em decorrência das altas temperaturas no núcleo. Nessa temperatura assim muito elevada, quatro átomos de hidrogênio fundem-se num átomo de hélio, liberando exatamente a energia que se opõe à gravidade. É o que ocorre no núcleo das estrelas, seguindo-se com o tempo também a fusão dos átomos de hélio e, em sucessivos processos de fusão, a produção dos demais elementos químicos. Esse equilíbrio entre a gravidade e a pressão mantém-se durante alguns bilhões de anos. Porém, perdendo energia por irradiação de calor, a estrela entra finalmente num estágio de degeneração e acaba explodindo, quando suas camadas externas são ejetadas à velocidade de milhares de quilômetros por segundo. O resultado é um gigantesco objeto luminoso, chamado de estrela supernova, que pode brilhar durante um curto espaço de tempo (a “estrela de Tycho Brahe” durou cerca de quinze meses), com intensidade maior do que a de uma galáxia de bilhões de estrelas.

- A estrela vista por Tycho sempre esteve lá, mas só se tornou grande e suficientemente luminosa para ser vista quando se tornou uma supernova.