sexta-feira, 21 de outubro de 2016

DE RERUM NATURA


            LUCRÉCIO

            Quando dominaram os gregos, no segundo século antes de Cristo, os romanos estavam mais preocupados com comércio, direito e moral do que com investigação científica. Apenas Aristóteles e Platão suscitavam algum interesse, sendo importante mencionar que em geral as obras científicas gregas não foram traduzidas para o Latim. Uma rara incursão dos romanos na área da ciência deve-se a Titus Lucretius Carus (99 a.C.-55 a.C.), o Lucrécio, que, ao defender as ideias dos gregos Demócrito e Epicuro, desenvolveu estudos que se caracterizaram pela crença no poder infinito da Natureza. A principal obra de Lucrécio, um longo poema que recebeu o título de "De Rerum Natura" ("Sobre a Natureza das Coisas"), desapareceu durante muitos séculos, provavelmente por influência da censura cristã, até que uma cópia surgiu na Itália, em 1417, descoberta pelo humanista Gian Francesco Poggio. 


- Tornou-se um dos primeiros livros impressos por Gutenberg. 
  
Lucrécio era sujeito a surtos de loucura, ocasionados, segundo se conta, por uma poção de amor que lhe era ministrada por sua mulher. Nos intervalos de lucidez produzia textos e os submetia ao conhecimento de seu amigo Cícero, para quem os poemas de Lucrécio tinham “muito de gênio e de arte".      
Grande foi a repercussão das ideias de Lucrécio durante a Renascença e, sobretudo, a partir do século XVI. "De Rerum Natura", durante muito tempo lida como obra literária, chegou a ser mais popular que a "Divina Comédia", de Dante Alighieri. Entre seus temas, incluem-se física, botânica, zoologia, medicina, cosmologia, ética e artes militares.
Lucrécio retomou a ideia do átomo, de Demócrito, abandonada desde Aristóteles. Muitos o consideram um precursor do Iluminismo, com influência sobre Voltaire e outros pensadores do século XVIII. Além disso, há, na sua obra, afirmações premonitórias sobre as mutações biológicas e seleção do mais apto para sobrevivência, em linha com a teoria evolucionária de Charles Darwin. Lucrécio também defendeu a existência de seres vivos diminutos e invisíveis, que tinham a capacidade de causar doenças, sendo, por isso, apontado como precursor da microbiologia.
            Muitas vezes Lucrécio sintetizou suas ideias em proposições:

                - O Universo teve um começo e terá um fim.
                - O mundo é feito de átomos, e estes estão em movimento permanente.
                - Átomos se combinam para formar as substâncias, mas nem todas as combinações são possíveis.
                - Mente integra o corpo, de que resulta uma única substância corporal.
                - O inferno não tem existência real, mas uma dimensão imaginária, que reflete o sofrimento das pessoas.
                - A superstição deriva da ignorância.
                 - A ninguém foi dada a posse da vida, mas, a todos, o seu usufruto.
                - A morte é nada para nós... Pois, quando vem, já não existimos.
                - Não existe razão para misturar ciência com religião, pois não há nenhuma relação das coisas reais com o sobrenatural e com os deuses.
                - Apenas a compreensão da Natureza e dos seus processos permite derrotar o terror que existe na mente das pessoas.
                - Tudo é átomo e vazio, desde o invisível vapor da água até o poderoso firmamento, que se constitui na flamejante parede do mundo.