terça-feira, 21 de outubro de 2014

 MERCEDES VERMELHA

   
Numa fria madrugada de julho, eu curtia minha solidão sentado num banco da pracinha de Muriaé. Ninguém, exceto eu. Uma Mercedes vermelha surgiu do lado da estação, deslizando suavemente, e parou quase junto de mim. Era uma bela moça, que dizia chamar-se Mariella Foscari e dirigia-se para Cataguases. Vivia uma emergência, pois saíra sem dinheiro e estava quase sem gasolina no carro.
- Não seja por isso, comentei, repassando-lhe cem reais e um cartão com meu endereço no Rio de Janeiro.
Um mês depois, recebi uma carta contendo cem reais. Nenhuma palavra, apenas “MF, Cataguases”, no verso do envelope. Perguntei sobre a moça ao Pradinho, um amigo do vôlei de praia, que é de Cataguases.
-Mariella? Morreu há quinze anos. Parou sua Mercedes na estrada, por falta de gasolina, foi violentada e assassinada brutalmente.
- Morreu há quinze anos?
- Quinze anos. Corre a lenda de que a moça, isto é , o seu fantasma, atravessa as madrugadas pedindo dinheiro emprestado para comprar gasolina. Bizarro, não?
- Muito...

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

POR QUE O SEGUNDO TURNO É NECESSÁRIO?

Paradoxo de Condorcet



Marie Jean de Caritat, marquês de Condorcet (1743-1794), foi o autor do seguinte enunciado:

-Agentes racionais podem tomar decisões certas, mas coletivamente irracionais.


É o chamado paradoxo de Condorcet. É o que acontece nos momentos de crise nas Bolsas de Valores, quando
o pressentimento do risco leva a decisões individuais corretas; tomadas no mesmo instante, sendo numerosas e todas de mesmo sentido, essas decisões acabam agravando a crise. É o "efeito manada."

De modo semelhante, o paradoxo ocorre quando há ameaça de recessão na economia; as pessoas, receosas, deixam de consumir, o que contribui para agravar a situação e favorecer a recessão.

Outro exemplo de paradoxo de Condorcet aparece num estudo do matemático francês Jéan-Charles Borda (1733-1799), mostrando que é possível, numa eleição com mais de dois candidatos, eleger o candidato que a maioria dos eleitores colocaria em último lugar nos confrontos bilaterais diretos. O candidato escolhido, que é menos preferido num confronto mano a mano, pode ser o vencedor numa disputa em que há mais de dois candidatos.
 
Pode-se ilustrar com um exemplo. Admitamos que, numa assembléia eletiva de 50 eleitores, haja três candidatos (A, B e C), e que foram feitas as constatações (a) e (b), adiante:

(a) todos os eleitores de B preferem C a A; todos os eleitores de A preferem C a B; e todos os eleitores de C preferem B a A.

(b) o resultado da eleição indicou
A com 20 votos, B com 16 e C com 14.

A
seria indicado vencedor por ter a maioria dos votos;
B
seria o segundo colocado;
e
C seria o último colocado.No confronto direto, porém, em face do que se supôs em (a), teríamos:


A X B

vitória de
B pelo escore de 30 x 20;


A X C

vitória de
C
pelo escore de 30 X 20;

B X C

vitória de
C
pelo escore de 34 X 16
 
A eleição, que indicou A como vencedor, mascarou a vontade do conjunto, que prefere C, na frente de A e B; e prefere B, na frente de A. Assim, o menos votado, C, é que tem a preferência do conjunto dos eleitores, enquanto a vitória foi paradoxalmente atribuída a A, ou seja, o candidato que perderia dos outros dois em confrontos diretos.
Diz-se que esse tipo de eleição resulta num "perdedor de Condorcet".
Para evitar o paradoxo, ou pelo menos minimizá-lo, o recurso é o segundo turno.