quarta-feira, 18 de junho de 2014

A COMPROVAÇÃO DO BIG BANG

Em 1964, os pesquisadores norte-americanos Arno Penzias e Robert Wilson, que trabalhavam para os Laboratórios Bell, tentavam calibrar, em Nova Jersey, a antena gigantesca de um radiotelescópio, construído para pesquisar os sinais do satélite artificial Echo I, que os captava da estrela Cassiopeia A. Em dado momento perceberam no radiotelescópio um estranho e persistente ruído, vindo de todas as direções do céu e sempre com a mesma intensidade, no momento em que tudo estava desligado. Um ruído sem causa. Em vão procuraram defeitos em todos os componentes do radiotelescópio e de sua antena, chegando mesmo a se preocupar com as fezes (“material dielétrico branco”) depositadas na antena por um casal de pombos que nela se alojaram. Até uma célebre armadilha para pombos foi por eles pendurada na antena.


Armadilha para pombos, na antena de Penzias e Wilson

Na sequência desses eventos, e com o auxílio dos físicos teóricos da Universidade de Princeton, ficou provado que Penzias e Wilson haviam detectado a radiação cósmica de fundo, que está atualmente na forma de ondas de rádio, no espectro conhecido como micro-ondas, à temperatura de 2,7 graus Kelvin, em lugar dos 5,0 graus Kelvin postulados por Gamow.


Penzias e Wilson

Essa descoberta, um caso típico de serendipidade, desferiu um golpe mortal na teoria do Universo Estacionário e representou um argumento decisivo para a teoria do Big Bang. No dia 21 de maio de 1965, o New York Times publicou matéria na primeira página que tinha a seguinte manchete:

"SIGNALS IMPLY A 'BIG BANG' UNIVERSE"
("SINAIS CONFIRMAM A TEORIA DO "BIG BANG")

Penzias escreveria posteriormente:

"Quando você sair hoje à noite, e tirar o chapéu, estará recebendo um pouco do calor do Big Bang no seu couro cabeludo. Se tiver um rádio FM e sintonizá-lo entre duas estações, ouvirá aquele chiado aborrecido. Saiba que meio por cento dele estará vindo dos primeiros momentos da criação do Universo."

O interessante é que no alvoroço motivado pela confirmação do Big Bang, os nomes de Gamow, Alpher e Hermann foram completamente esquecidos e a outros cientistas foi atribuída a teoria da radiação cósmica de fundo. A injustiça (Alpher chegou a sofrer um grave ataque cardíaco) está sendo progressivamente corrigida, nos numerosos livros que reconstituem a trajetória da teoria do Big Bang.


E a idade do Universo?


A velocidade de afastamento das galáxias fora estabelecida por Hubble em cerca de 171 quilômetros por segundo para cada milhão de anos-luz (558 quilômetros por segundo para cada megaparsec). Esse valor desacreditava o Big Bang, pois, aplicando-o em direção ao passado, chegava-se, pelos cálculos, à conclusão de que o Universo teria começado sua expansão e existência há cerca de 1,8 bilhão de anos. Uma contradição com a assertiva dos geólogos de que a Terra tem 4,5 bilhões anos e, sobretudo, um argumento decisivo para os que defendiam um Universo eterno e imutável.


- Como pode a Terra, que é fiha, ser mais velha que a mãe?, perguntava Christopher Impey, da Universidade do Arizona.

Não era bem assim

Tamanhas são as dimensões do Universo que a luz emitida pelos astros, em particular pelas estrelas, pode demorar anos, séculos, milênios, milhões e bilhões de anos até chegar a nós. O Sol está a oito minutos-luz, significando que sua luz leva oito minutos para alcançar o observador terrestre; a estrela Alfa, da constelação de Centauro, que é a estrela mais próxima, leva quatro anos; Sirius, da constelação do Cão Maior, a estrela mais brilhante, 8,6 anos; Aldebaran, da constelação de Touro, 65,1 anos; Deneb, da constelação do Cisne, 3.227,7 anos.

-Desse modo, olhando para o céu noturno contemplo todas as épocas do Universo permitidas pelo alcance e capacidade da minha vista. A olho nu, vejo a história mais recente. Com um telescópio, é possível ver partes muito mais antigas. Com um satélite, posso ver a luz de todas as estrelas, ou seja, quase toda a história do Universo.

Satélite WMAP

Em 2003 o satélite WMAP (Sonda Anisotrópica de Micro-Ondas Wilkinson) conseguiu enxergar como era o Universo quando ele tinha apenas 380 mil anos, isso há 13,3 bilhões de anos-luz.

- O Universo tem portanto 13,7 bilhões de anos, com margem de erro de 0,2 bilhão. Uma idade compatível com a idade da Terra, com a idade de todas as estrelas e com a teoria do Big Bang.

- E a velocidade definida pela constante de Hubble?


- O valor da constante de Hubble (171 quilômetros por segundo para cada milhão de anos-luz (558 quilômetros por segundo para cada megaparsec) estava simplesmente errado, o que foi verificado por medições cada vez mais precisas e finalmente comprovado pelo projeto WMAP.
O valor correto da constante é de 71 quilômetros por segundo para cada megaparsec (3.260.000 anos-luz).

Big Bang

13,7 bilhões de anos, para a esquerda


A constatação da existência da radiação cósmica de fundo, mais a nucleossíntese do Big Bang, que explica a abundância de hidrogênio e hélio no Universo, e a confirmação da idade do Universo, de cerca de 13,7 bilhões de anos pelo WMAP, sobre derrotar o Universo Estacionário, colocaram a teoria do Big Bang na rota de uma explicação para o Universo. 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

TÉDIO
Depois de oito anos, Cecília e eu éramos outros, não outros quaisquer e ocasionais, mas outros consumados, consumadíssimos. Até que ela me veio com aquela história de Montgomery Clift e Shelley Winters, um amor que teve de fenecer para ensejar outro amor, maior e renovado; eu merecia, assim também, encontrar a minha Elizabeth Taylor, pois a mim não me faltavam os atributos para um merecido lugar ao sol.

Foi assim, civilizadamente assim, que ela me comunicou que nosso casamento já não lhe interessava. Uma derradeira convivência ainda nos tocou, sem nenhuma animosidade ou irritação. Que nem fariam sentido na nossa história, da qual a separação foi apenas um capítulo necessário.

Estranho, porém, foi continuar transitando mais quarenta dias pelos caminhos da casa, pois nenhum cenário permanece neutro, nem impune, em face de um amor exaurido. Até a arte perde o sentido, as cores se esmaecem e, para dizer a verdade, nunca vi a menor graça naquela cortina da sala de visitas, lilás, isso mesmo, lilás, e em momento algum estive de acordo com a moldura que ela escolheu para o Böcklin que arrematamos no leilão da Bartolomeu Mitre.

Nem mesmo um telefonema ou um protocolar cartão de despedida. Pois um deixou de existir para o outro, aquele estágio na relação de duas pessoas que, para Otávio Paz, poderia chamar-se de nenhumação.

Ou melhor, nenhumação recíproca, que é a arte de inexistir daqui para lá e de lá para cá...