quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Máximo Gorki


PEQUENOS BURGUESES

 Margot me ligou do Museu.
- Quero convidá-lo para ver uma peça.
- Peça, sobre o quê? Quando?
- Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki, hoje à noite. Sobre os Bessemenovs, uma família russa em decadência. Nem pense em recusar, pois já adquiri os ingressos.
Tomamos o rumo do Teatro Villa-Lobos. Durante o percurso ela me explicou que Gorki teve uma vida miserável, trabalhando como lavador de pratos, pescador, vendedor de frutas, muitas vezes sobrevivendo até como vagabundo. Chegou a tentar o suicídio, no desespero de quem se sente perdido, no meio de uma gente corrupta e miserável.
- Ele se consagrou, porém, ao escrever os Pequenos Burgueses, pois a decadência dos Bessemenovs, com todas as suas contradições, era uma amostra do que acontecia na Rússia que antecedeu a Revolução Comunista.
Um pai arbitrário, uma filha deprimida, um filho pretensioso e Nill, o trombeta de Deus! Era a classe média assoberbada pelo tédio, numa sociedade em plena e decidida decomposição. 

Saí do teatro ainda mais convencido de que era necessário introduzir o viés da cultura em minha vida, jogando na lata do lixo aquele modelo idiota em que eu só pensava em integrais, vetores, transformadas de Laplace, eletricidade e mecânica. E a todo instante me lembrei da advertência de Charles Percy Snow:

- Poucos cientistas leem Charles Dickens ou uma peça de Shakespeare, e poucos artistas conhecem o Segundo Princípio da Termodinâmica; assim fica muito difícil resolver os problemas do mundo.
Fica mesmo, pensei então. Não que eu me considerasse um cientista na acepção integral da palavra, mas não podia permanecer analfabeto cultural em plena cidade do Rio de Janeiro.

domingo, 9 de novembro de 2014

AJUDEM-ME A ENCONTRAR A MOÇA


ONDE ESTÁ VELIONIS?

 

Estou enviando esta circular para você e outros amigos para pedir que me ajudem a localizar uma moça da qual sei apenas que se chama Velionis. 

Trata-se de uma desconhecida, que bateu à minha porta numa madrugada de agosto, pedindo-me um favor: que eu apostasse na sena do dia 2 de setembro, pois estava impedida de fazê-lo pessoalmente. E foi me passando os números e o dinheiro da aposta, sem mais explicar.

Minha reação foi de perplexidade, claro, mas a moça se esgueirou, desaparecendo misteriosamente,  antes que eu pudesse dizer alguma coisa. 

Para complicar, e muito, o jogo foi contemplado com um prêmio de quase dez milhões de reais. Que tive de depositar na minha conta, pois a moça não apareceu nunca mais. Alguém me garantiu que "velionis” significa“falecida” em lituano, o que para mim não tem nenhuma importância. 

Hei de localizá-la, custe o que custar. Ajudem-me, pois, a encontrar a Velionis!

terça-feira, 21 de outubro de 2014

 MERCEDES VERMELHA

   
Numa fria madrugada de julho, eu curtia minha solidão sentado num banco da pracinha de Muriaé. Ninguém, exceto eu. Uma Mercedes vermelha surgiu do lado da estação, deslizando suavemente, e parou quase junto de mim. Era uma bela moça, que dizia chamar-se Mariella Foscari e dirigia-se para Cataguases. Vivia uma emergência, pois saíra sem dinheiro e estava quase sem gasolina no carro.
- Não seja por isso, comentei, repassando-lhe cem reais e um cartão com meu endereço no Rio de Janeiro.
Um mês depois, recebi uma carta contendo cem reais. Nenhuma palavra, apenas “MF, Cataguases”, no verso do envelope. Perguntei sobre a moça ao Pradinho, um amigo do vôlei de praia, que é de Cataguases.
-Mariella? Morreu há quinze anos. Parou sua Mercedes na estrada, por falta de gasolina, foi violentada e assassinada brutalmente.
- Morreu há quinze anos?
- Quinze anos. Corre a lenda de que a moça, isto é , o seu fantasma, atravessa as madrugadas pedindo dinheiro emprestado para comprar gasolina. Bizarro, não?
- Muito...

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

POR QUE O SEGUNDO TURNO É NECESSÁRIO?

Paradoxo de Condorcet



Marie Jean de Caritat, marquês de Condorcet (1743-1794), foi o autor do seguinte enunciado:

-Agentes racionais podem tomar decisões certas, mas coletivamente irracionais.


É o chamado paradoxo de Condorcet. É o que acontece nos momentos de crise nas Bolsas de Valores, quando
o pressentimento do risco leva a decisões individuais corretas; tomadas no mesmo instante, sendo numerosas e todas de mesmo sentido, essas decisões acabam agravando a crise. É o "efeito manada."

De modo semelhante, o paradoxo ocorre quando há ameaça de recessão na economia; as pessoas, receosas, deixam de consumir, o que contribui para agravar a situação e favorecer a recessão.

Outro exemplo de paradoxo de Condorcet aparece num estudo do matemático francês Jéan-Charles Borda (1733-1799), mostrando que é possível, numa eleição com mais de dois candidatos, eleger o candidato que a maioria dos eleitores colocaria em último lugar nos confrontos bilaterais diretos. O candidato escolhido, que é menos preferido num confronto mano a mano, pode ser o vencedor numa disputa em que há mais de dois candidatos.
 
Pode-se ilustrar com um exemplo. Admitamos que, numa assembléia eletiva de 50 eleitores, haja três candidatos (A, B e C), e que foram feitas as constatações (a) e (b), adiante:

(a) todos os eleitores de B preferem C a A; todos os eleitores de A preferem C a B; e todos os eleitores de C preferem B a A.

(b) o resultado da eleição indicou
A com 20 votos, B com 16 e C com 14.

A
seria indicado vencedor por ter a maioria dos votos;
B
seria o segundo colocado;
e
C seria o último colocado.No confronto direto, porém, em face do que se supôs em (a), teríamos:


A X B

vitória de
B pelo escore de 30 x 20;


A X C

vitória de
C
pelo escore de 30 X 20;

B X C

vitória de
C
pelo escore de 34 X 16
 
A eleição, que indicou A como vencedor, mascarou a vontade do conjunto, que prefere C, na frente de A e B; e prefere B, na frente de A. Assim, o menos votado, C, é que tem a preferência do conjunto dos eleitores, enquanto a vitória foi paradoxalmente atribuída a A, ou seja, o candidato que perderia dos outros dois em confrontos diretos.
Diz-se que esse tipo de eleição resulta num "perdedor de Condorcet".
Para evitar o paradoxo, ou pelo menos minimizá-lo, o recurso é o segundo turno.

 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Soneto 84

O DINHEIRO DO ALUGUEL


 -Não fazer pior o que natureza fez tão claro...

Nostradamus, envolto em densa névoa, a mim se dirigiu com voz solene e cavernosa:

- Abra ao acaso os sonetos de William Shakespeare e lucre monetariamente.

Ótimo, pensei ao acordar, pois estava precisando de dinheiro. Por sorte, eu tinha o livro de Shakespeare na estante. Seguindo à risca a instrução de abri-lo ao acaso, após um pequeno ritual cheguei ao soneto 84. Um amigo ofereceu-se para fazer a tradução dos versos, aquela coisa de “não fazer pior aquilo que a natureza fez tão claro.”

- Não fazer pior aquilo que a natureza fez tão claro. Entendeu?

- Não entendi nada.

Durante dias consultei amigos e conhecidos, sem conseguir decifrar o enigma. Já pensava em desistir, quando na porta do apartamento encontrei um bilhete que dizia:

- Touro, 84 é touro!

Não me cabia fazer pior o que a natureza fez tão claro: joguei no touro e acertei, obtendo o dinheiro do aluguel.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

MACHISMO

           Cansado e desiludido, deixei-me dormir pesadamente, com a esperança de não acordar nunca mais. No meio da noite, porém, percebi que havia uma mulher deitada a meu lado, linda e pura como uma manhã de primavera. Como descobriu minha cama é para mim um fino mistério. O que se seguiu é muito confuso. Lembrando-me de Luísa, a namorada que um dia me abandonou sem sequer dizer adeus, fiz o comentário de que o homem é a medida de todas as coisas, do mundo nada se leva e amar foi minha ruína. 

            - Amar foi sua ruína?

            - Ruína e humilhação...

            - Claro, está tudo muito claro.

            - Claro, como?

            - Machismo. 

            Calei-me, sem entender, e voltei a dormir. Quando acordei pela manhã, não havia ninguém a meu lado. Deve ter sido um sonho, ninguém precisa me advertir sobre essa possibilidade.  Eu também acho isso. Difícil, porém, é explicar o bilhete que encontrei ao lado da cama: 
 
            - É machismo não aceitar que a mulher faça suas escolhas. 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

UM TOUREIRO, VÁ LÁ...


 

Há cientistas que têm o hábito de desdenhar dos profissionais de outras áreas. O físico Ernest Rutherford (1871-1937) disse certa vez:
 
- Ciência é Física. O resto, coleção de selos. 

Só por ironia Rutherford, que era um brilhante experimentador, ganhou o Prêmio Nobel de Química, em 1908. Não o de Física, mas o de Química!

 
Wolfgang Pauli (1900-1958), o gênio que foi capaz  de descobrir uma partícula atômica desconhecida,o neutrino, apenas fazendo continhas, pautava-se por sentimentos análogos aos de Rutherford em relação aos outros cientistas. Até nas suas desilusões amorosas. Ao saber que sua esposa, Käthe Margarethe Deppner, o trocara por um químico, reagiu com as seguintes palavras:

- Se tivesse escolhido um toureiro, tudo bem. Mas, um químico... Não posso entender!

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Paradoxo das Noites Escuras



Uma estrela em cada visada


Antes das idéias cosmológicas que desde a primeira metade do século XX estão a prevalecer com a concepção do Big Bang, admitia-se que o Universo era:

infinito em extensão,
estático (sem grandes movimentos, em larga escala),
homogêneo e isotrópico (com as mesmas propriedades em todos os pontos e direções),
imutável e euclidiano (espaço plano, não encurvado pela gravidade).

O alemão Heinrich Olbers (1758-1840) fez uma observação em 1826 que ficou conhecida como "Paradoxo de Olbers" ou "Paradoxo das Noites Escuras":


- Se o Universo tivesse de fato essas propriedades, não haveria noites escuras, pois as infinitas estrelas, distribuídas uniformemente, deveriam cobrir a Terra de luz. Pois todas as visadas acabariam numa estrela, ou seja, num ponto de luz.

Diz-se que essa questão fora anteriormente levantada por Johannes Kepler, em 1610, e um pouco mais tarde por Edmond Halley e Jean-Philippe de Cheseaux.

Edgar Allan Poe

Muitos tentaram explicar o paradoxo, alguns mediante demonstrações matemáticas. Para o escritor Edgar Allan Poe, a explicação era a idade finita do Universo infinito: por falta de tempo, ainda não chegou a nós a luz das estrelas mais distantes. 

A teoria do Big Bang tem uma explicação semelhante à de Edgar Allan Poe: o tempo é realmente finito, pois o Universo teve um começo, criado que foi há alguns bilhões de anos; de fato, a luz das estrelas situadas para além de determinada distância não teve tempo de nos alcançar, o que explica a quantidade limitada de luz no céu noturno. A diferença, em relação à hipótese de Poe, é que na teoria do Big Bang o Universo não é infinito, não é estático (pois está em permanente expansão), nem euclidiano (pois o espaço é curvado pela gravidade, conforme a teoria da relatividade) e está longe de ser imutável.

- Seja como for, não há lugar para o paradoxo de Olbers.