sábado, 19 de janeiro de 2013

CONTOS DE 150 PALAVRAS (58)


SINATRA E O APOSENTADO DE COPACABANA
- I did it my way.
Henrique, o aposentado de Copacabana, conta, no filme "Edifício Master", que, em 1969, quando trabalhava na Pan-American, decidiu assistir no Astrodome Houston a um espetáculo em homenagem aos astronautas da Apollo 11. Acomodado na platéia, surpreendeu-se ao ver a seu lado ninguém menos que Frank Sinatra. Puxou conversa com o astro:

- Gosto de todas as suas músicas, querido "Old Blue Eyes", mas minha preferida é "My Way".

Garante Henrique que Frank Sinatra, chamado para o seu número, subiu ao palco a ele abraçado. Foi desse modo que Frank Sinatra e o aposentado de Copacabana cantaram "My Way", em dueto, para um entusiasmado público de mais de 200 mil pessoas.
 

  Por isso, a cada dois sábados, os moradores da Rua Domingos Ferreira são brindados com um show musical espetacular. Ouve-se pelo alto-falante a voz de Frank Sinatra interpretando “My Way”, enquanto, dentro do apartamento, Henrique o acompanha, cantando a plenos pulmões. Ao encerrar o relato, Henrique não conseguiu conter as lágrimas, 


- Tenho para mim que esse Henrique é mitômano.

- Mitômano, o que é isso? 

- Eis aí uma oportunidade que você tem para consultar o dicionário. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Contos de 150 palavras (57)

CAPIVARA NÃO TEM GARANTIA

 - Esse Ramiro é uma capivara... 

 A geometria, que é anterior ao homem, garante que o quadrado da hipotenusa é  a soma de dois quadrados,  antes do Big Bang, na época de Lucrécia Bórgia, nos dias atuais e eternidade adentro. Uma propriedade assegurada por catetos submissos e providenciais, cujos quadrados somam o resultado desejado, qualquer que seja a hipotenusa, não importa se carismática, excitada ou oligofrênica. 

- A geometria garantidamente não falha!

 - E o resto?

 - Bem, o resto é o resto, como a capivara, que não tem nenhuma garantia.

- Qual a razão desse comentário?

-  O Ramiro meteu-se numa especulação na bolsa de valores, pois lhe asseguraram que iria ganhar a fortuna da sua vida.

- Ganhou?

- Perdeu tudo, claro. 

- Claro, por quê? 

- Porque capivara não tem nenhuma garantia. 

sábado, 12 de janeiro de 2013

CONTOS DE 150 PALAVRAS (56)


RELIGIÃO E CIÊNCIA 

Modelo da perfeição

Os intelectuais religiosos Tomás de Aquino e Alberto Magno fizeram no século XIII uma combinação do aristotelismo com o cristianismo, a que se costuma chamar de "escolástica", formulando uma visão do mundo que deveria ser aceita por imposição da Igreja Católica. Nessa visão, a Terra estava imóvel no centro do Universo, com todos os astros girando à sua volta, com órbitas circulares e velocidades constantes. Era o modelo da perfeição.

- Pois Deus, perfeito, não admitiria senão órbitas perfeitas, como o círculo, e movimentos perfeitos, de velocidades constantes.
 
A primeira voz discordante foi a do franciscano Roger Bacon, de Oxford

- Se dependesse de mim, queimaria todos os livros de Aristóteles, cuja leitura é pura perda de tempo e só nos leva ao erro e à ignorância. A verdadeira ciência, construída mediante leis matemáticas, há de nos levar  à locomoção por meio de os motores e a voar, como os pássaros.

Roger Bacon foi acusado de fabricar "novidades perigosas" e condenado a quatorze anos de prisão.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

CONTOS DE 150 PALAVRAS (55)


MECÂNICA QUÂNTICA TAMBÉM É CULTURA


 - Three quarks for Muster Mark...
O físico Murray Gell-Mann, um dos homens mais cultos da atualidade, descobriu que cada próton e cada nêutron são formados por três “quarks”. 

- Por que esse nome, quark?
- Naquela ocasião, 1963, li no Finnegans Wake, de James Joyce, a frase “three quarks for Muster Mark”, dirigida a um dono de bar. A palavra “quark” significa “pio da gaivota”, mas, no contexto de Joyce, pode-se admitir que tenha sido usada com o sentido de “quart”, uma medida de volume, em cujo caso a frase tem o significado de “três quartas (de cerveja) para Mestre Mark”. Tive então a ideia de chamar a partícula descoberta por mim de “quark”, uma vez que o próton e o nêutron são formados por três quarks.
- A receita para fazer um próton ou um nêutron é “três quarks para Mestre Próton” ou “três quarks para Mestre Nêutron”.

Eis o elo entre James Joyce e a física. Mecânica quântica também é cultura...

sábado, 5 de janeiro de 2013

CONTOS DE 150 PALAVRAS (54)



DA ARTE DE FALAR DIFÍCIL

Nastenka

A pensão da Tijuca era uma festa. Carlos de Proença, o hóspede mais extravagante, gostava de usar expressões complicadas, das quais não me esqueço de "mateologia holística", "reversão dialógica" e "tmeses ataviadoras". Ele se recusava a esclarecê-las, mesmo não sendo entendido por ninguém.

- Louçanias, senhores, meras louçanias de linguagem. Não existem para ser explicadas, nem me cabe nenhuma obrigação de dar milho aos pombos.


Certa vez, quando se conversava no jantar sobre decisões políticas controvertidas, deixou escapar alguma coisa em latim, "beati monoculi in regione caecorum", provocando reações irônicas.

- Na minha terra quem fala bonito é o prefeito, observou Zé Terra, o pernambucano que bate na mulher.

- Na Ucrânia a lei da vida é muito outra, pois escreveu, não leu, o pau comeu, acrescentou Nastenka Danielovitch. Lá o pau come solenemente!

- Vocês são estupefativos, rebateu Proença, com sarcasmo..

- O quê?

- Gente de visão plúmbea, ímproba e mitigada.