sábado, 5 de janeiro de 2013

CONTOS DE 150 PALAVRAS (54)



DA ARTE DE FALAR DIFÍCIL

Nastenka

A pensão da Tijuca era uma festa. Carlos de Proença, o hóspede mais extravagante, gostava de usar expressões complicadas, das quais não me esqueço de "mateologia holística", "reversão dialógica" e "tmeses ataviadoras". Ele se recusava a esclarecê-las, mesmo não sendo entendido por ninguém.

- Louçanias, senhores, meras louçanias de linguagem. Não existem para ser explicadas, nem me cabe nenhuma obrigação de dar milho aos pombos.


Certa vez, quando se conversava no jantar sobre decisões políticas controvertidas, deixou escapar alguma coisa em latim, "beati monoculi in regione caecorum", provocando reações irônicas.

- Na minha terra quem fala bonito é o prefeito, observou Zé Terra, o pernambucano que bate na mulher.

- Na Ucrânia a lei da vida é muito outra, pois escreveu, não leu, o pau comeu, acrescentou Nastenka Danielovitch. Lá o pau come solenemente!

- Vocês são estupefativos, rebateu Proença, com sarcasmo..

- O quê?

- Gente de visão plúmbea, ímproba e mitigada.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

CONTOS DE 150 PALAVRAS (53)

O ESPECULADOR

Caminho, quase no automático, até o 696 da Madison Square e entro no restaurante Nello. Foi tudo o que me ocorreu fazer, depois da tacada de 12 milhões de dólares que dei em Wall Street. Acomodo-me na mesa mais discreta e peço ao maître que ofereça vinho e destilados às mesas mais próximas.

- Até para o Al Pacino?

- Ofereça, senhor, ofereça.


-Chateau Margaux nine five!


Logo percebem que sou um ganhador. Dinheiro para esse cara é artigo abundante. Uns optam pelo Lafite Rothschild 1982, outros pedem o Chateau Margaux 1995.

- Vinhos de mais de mil dólares a garrafa, observa o maître.

- Sirva a dezessete graus Celsius, por favor.

-Dezessete graus Celsius?

- Sim, equivalentes a 62 graus Fahrenheit.

Todos me olham perplexos e agradecidos, mas não lhes dou atenção.


- E para o senhor?

- Peito de frango grelhado, legumes na água e sal e uma garrafa de água mineral, sem gás. De sobremesa, uma fatia de mamão bem maduro.

- Papaia?

- Yes, papaia.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Miniconto

ONDE ESTÁ VELIONIS?


Estou enviando esta circular para você e outros amigos para pedir que me ajudem a localizar uma moça da qual sei apenas que se chama Velionis. Trata-se de uma desconhecida, que bateu à minha porta numa madrugada de agosto, pedindo-me um favor: que eu apostasse na sena do dia 2 de setembro, pois estava impedida de fazê-lo pessoalmente. E foi me passando os números e o dinheiro da aposta, sem mais explicar. Minha reação foi de perplexidade, claro, mas a moça se esgueirou, desaparecendo misteriosamente,  antes que eu pudesse dizer alguma coisa. Para complicar, e muito, o jogo foi contemplado com um prêmio de quase dez milhões de reais. Que tive de depositar na minha conta, pois a moça não apareceu nunca mais. Alguém me garantiu que "velionis” significa“falecida” em lituano, o que para mim não tem nenhuma importância.
Hei de localizá-la, custe o que custar. Ajudem-me, pois, a encontrar a Velionis!

sábado, 22 de dezembro de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (52)


A IMPORTÂNCIA DE NÃO SABER TABUADA



No seu livro “O Andar do Bêbado”, Leonard Mlodinow conta a história verdadeira de um homem que percorreu várias casas lotéricas antes de achar um bilhete que terminava com o número 48. Era a loteria nacional espanhola, e o bilhete por ele adquirido foi contemplado com a grande fortuna. Procurado,  o milionário  deu uma explicação que desconcertou paraguaios e baianos:

- Só servia um número terminado em 48.

- Por quê?

- Sonhei com o número 7, em 7 noites consecutivas. E 7 vezes 7 é 48.

Eis aí a coincidência da ignorância com a sorte: o homem ficou rico porque não sabia tabuada.  Um deboche para  os que acreditam em sonhos premonitórios, capazes de orientar sobre apostas nos jogos de azar. 

- Se forem 100 mil bilhetes  concorrendo na extração, são 100 mil histórias diferentes.

 - Nenhuma talvez tão bizarra.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (51)

MERCADOS

Um sonho muito estranho. Invadi o pregão da Bolsa de Valores, subi na mesa de operações, dei três batidas no microfone e, percebendo seu bom funcionamento, com a melhor das intenções disse exatamente o que se segue:

- Senhoras e senhores...

Tudo estacou, como num quadro de Ticiano, onde os rostos ficam à espreita, dominados pela dúvida e pela angústia. Os operadores silenciaram, e os computadores, inerciados pelos acontecimentos, pararam de vomitar cotações em tempo real. Os mercados de Nova York, Londres, São Paulo, Tóquio e Shangai permaneceram  estáticos/extáticos.


- Senhoras e senhores... Senhoras e senhores... 

Depus o microfone com a elegância requerida e me retirei do pregão, pensando o seguinte: se os especuladores aumentarem artificialmente o preço de todas as ações em dez por cento, o mundo capitalista vai ficar dez por cento mais rico.

sábado, 15 de dezembro de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (50)


A VÊNUS DE MILO

[A.jpg]

Não consegui acompanhar as aulas de matemática, das quais, apesar de muito esforço, ficou-me apenas um comentário do professor Eutrópio:

 - O  Binômio de Newton, de tão importante, é até citado na poesia de Fernando Pessoa. 

Parecia uma tirada inconsequente do Eutrópio, que era meio grosso e irônico, além de ter cara de quem não leu poesia nenhuma. É verdade que eu tampouco me importava com poesia e apenas conhecia, se tanto, o Mal Secreto e alguns trechos bem condoreiros do Navio Negreiro. Seja como for, abandonada a ideia de ser engenheiro e passados mais de vinte anos, fui outro dia à livraria e comprei as obras completas de Fernando Pessoa, o poeta que, em sonhos, sonhos criou. Encontrei o poema em Álvaro de Campos:


“O Binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
óóóó óóóóóó óó óóóóóóó óóóóóóó (O vento lá fora.)”


Ou seja, vestibular de engenharia também é cultura.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (49)

O CÓDIGO DO NOVO MUNDO


Alguém pediu a Edgardo que escrevesse um código para ser observado num hipotético mundo novo.
- Um código?
- Que seria inscrito no monumento principal.
Código de Edgardo

"Guerra a todas as máquinas de calcular, aos índices de produtividade, à estatística e à inflação persistente, mas controlada;
Guerra às democracias, ao ângulo obtuso, ao número 18 e aos nomes de guerra;
Guerra à lei da gravitação universal, ao ano decretório, à tripanossomíase sul-americana e aos mecanismos de defesa do nosso ego atribulado;
Guerra ao crivo de Eratóstenes, ao Estreito de Dardanelos e ao esternoclideomastoideo;
Guerra às divisões celulares, à segunda divisão e às divisões blindadas;
Guerra ao anacoluto, ao estilo gótico e ao Tratado de Tordesilhas, revisto e ampliado;
Guerra a todas as guerras."


Guerra contra todas as guerras: esta guerra existirá, com certeza.
- Abaixo o Estreito de Dardanelos...