quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (51)

MERCADOS

Um sonho muito estranho. Invadi o pregão da Bolsa de Valores, subi na mesa de operações, dei três batidas no microfone e, percebendo seu bom funcionamento, com a melhor das intenções disse exatamente o que se segue:

- Senhoras e senhores...

Tudo estacou, como num quadro de Ticiano, onde os rostos ficam à espreita, dominados pela dúvida e pela angústia. Os operadores silenciaram, e os computadores, inerciados pelos acontecimentos, pararam de vomitar cotações em tempo real. Os mercados de Nova York, Londres, São Paulo, Tóquio e Shangai permaneceram  estáticos/extáticos.


- Senhoras e senhores... Senhoras e senhores... 

Depus o microfone com a elegância requerida e me retirei do pregão, pensando o seguinte: se os especuladores aumentarem artificialmente o preço de todas as ações em dez por cento, o mundo capitalista vai ficar dez por cento mais rico.

sábado, 15 de dezembro de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (50)


A VÊNUS DE MILO

[A.jpg]

Não consegui acompanhar as aulas de matemática, das quais, apesar de muito esforço, ficou-me apenas um comentário do professor Eutrópio:

 - O  Binômio de Newton, de tão importante, é até citado na poesia de Fernando Pessoa. 

Parecia uma tirada inconsequente do Eutrópio, que era meio grosso e irônico, além de ter cara de quem não leu poesia nenhuma. É verdade que eu tampouco me importava com poesia e apenas conhecia, se tanto, o Mal Secreto e alguns trechos bem condoreiros do Navio Negreiro. Seja como for, abandonada a ideia de ser engenheiro e passados mais de vinte anos, fui outro dia à livraria e comprei as obras completas de Fernando Pessoa, o poeta que, em sonhos, sonhos criou. Encontrei o poema em Álvaro de Campos:


“O Binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
óóóó óóóóóó óó óóóóóóó óóóóóóó (O vento lá fora.)”


Ou seja, vestibular de engenharia também é cultura.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (49)

O CÓDIGO DO NOVO MUNDO


Alguém pediu a Edgardo que escrevesse um código para ser observado num hipotético mundo novo.
- Um código?
- Que seria inscrito no monumento principal.
Código de Edgardo

"Guerra a todas as máquinas de calcular, aos índices de produtividade, à estatística e à inflação persistente, mas controlada;
Guerra às democracias, ao ângulo obtuso, ao número 18 e aos nomes de guerra;
Guerra à lei da gravitação universal, ao ano decretório, à tripanossomíase sul-americana e aos mecanismos de defesa do nosso ego atribulado;
Guerra ao crivo de Eratóstenes, ao Estreito de Dardanelos e ao esternoclideomastoideo;
Guerra às divisões celulares, à segunda divisão e às divisões blindadas;
Guerra ao anacoluto, ao estilo gótico e ao Tratado de Tordesilhas, revisto e ampliado;
Guerra a todas as guerras."


Guerra contra todas as guerras: esta guerra existirá, com certeza.
- Abaixo o Estreito de Dardanelos...


sábado, 8 de dezembro de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (48)


OS SETE SÁBIOS DA GRÉCIA ANTIGA

A lista dos sete sábios da Grécia assumiu sua composição definitiva ao tempo de Platão: Tales de Mileto, Periandro de Corinto, Pítaco de Mitilene, Bias de Priene, Cleóbulo de Lindos, Sólon de Atenas e Quílon de Esparta.
 
- Prefiro o Cleóbulo de Lindos
 
Conta a lenda que os pescadores de Mileto certa vez encontraram um vaso sagrado nas águas do Mar Egeu. Não havendo acordo sobre o destino que deveriam dar à peça, decidiram consultar a respeito o deus Apolo, no Oráculo de Delfos. A resposta de Apolo, transmitida pelas pitonisas, mandava entregar o vaso ao mais sábio dos homens. O escolhido foi Tales, que, não se considerando o mais sábio, enviou-o a Periandro, que, pelo mesmo motivo, passou a oferta adiante. E assim o vaso foi mudando de mãos, transitando pelos sete sábios. 

- O último deles, Sólon, encerrou a questão, ofertando-o a Apolo, "o mais sábio dos deuses".

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (47)


FALTA-ME A DAMA DE AROSA

 Schrödinger formulou em 1926 a teoria de que o elétron se comporta segundo uma equação de onda e parece ocupar várias posições no espaço, ao mesmo tempo!  O gênio tinha então 39 anos. A façanha, que lhe valeu o Prêmio Nobel de 1933, deu-se quando passava uma temporada com uma amante misteriosa nos Alpes suíços, conhecida nos meios científicos como Dama de Arosa.



- Idade suficiente já tenho. O que me falta é a Dama de Arosa... 

- Não falta mais nada?

- Ah, falta-me também o talento.

Um amigo estranhou essa pesquisa de idades e amantes.

- Acho que você está querendo ganhar um Prêmio Nobel!

Meu desejo é ser um bom professor de física. Quanto ao Prêmio Nobel, dou a mesma resposta de Dona Edith Pastoril, a nonagenária da Antero de Quental, quando lhe perguntam se acha possível receber uma proposta de casamento:

- A gente nunca sabe...