quarta-feira, 12 de setembro de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (33)

CONTO DA VIDA REAL - O HOMEM QUE SABIA DEMAIS


Depois da Segunda Guerra, Alan Turing, o cientista inglês que construiu o primeiro computador, passou a ser uma preocupação do Serviço Secreto Britânico, por causa da sua condição de homossexual. As autoridades temiam as inconfidências que poderia fazer o homem que mais conhecia os códigos de segurança da Inglaterra ou que pudesse se tornar vulnerável à chantagem.


- Turing já se acostumara a ser seguido e a ser permanentemente monitorado, quando, em 1952, foi preso e humilhado em público, sob a esdrúxula acusação de "violação das leis britânicas de homossexualidade".


Julgado por "vícios impróprios", Turing reconheceu-se "culpado" e foi condenado a submeter-se a terapias à base de estrogênio, um hormônio feminino que o tornou impotente e teve o grotesco efeito colateral de lhe fazer crescer os seios. Humilhado e deprimido, Turing cometeu suicídio, comendo uma maçã envenenada com cianeto, em 7 de Junho de 1954.


- Tinha apenas 41 anos.


sábado, 8 de setembro de 2012

PÍLULAS (8)





(1) O resto é silêncio, disse Hamlet ao morrer. Comentário de Beethoven: não tenho disso a menor dúvida.

(2) Se, como Dante, eu tiver a chance de visitar o Inferno, gostaria de ser recepcionado por todos os meus inimigos.

(3) No tempo em que comemoravam o dia dos meus anos, ninguém sabia nada sobre mim. Subitamente pararam de comemorar.

(4)
O Universo visível contém dez bilhões de trilhões de estrelas (mais de um trilhão de estrelas para cada habitante da Terra). Sem contar a Maria Callas.



quarta-feira, 5 de setembro de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (32)

DOIS MONUMENTOS FORA DO MEU ALCANCE

Consumado o êxito das minhas especulações, e desde então muito rico, desapareci completamente dos pregões, pois especular na Bolsa é atividade de gente pobre. Ou melhor, de gente ainda pobre. Comprei um apartamento de três andares, mais cobertura, na Avenida Vieira Souto, uma ilha em Cabo Frio e uma centena de salas nos melhores edifícios da Avenida Rio Branco. Passei a acionista majoritário de algumas empresas sólidas e rentáveis, engajadas em negócios de fertilizantes, bebidas e metalurgia, que meus prepostos administram com redobrado zelo e eficiência.


- Quis ser engenheiro, pois meu sonho era trabalhar na construção da ponte Rio-Niterói. Só que não passei no vestibular.



Do meu escritório, de frente para o pôster de Silvana Mangano, depois da surra na chuva e molhada de 18 anos, contemplo com nostalgia a Ponte Rio-Niterói, de cuja construção não participei. Minhas duas frustações...


- Não me despojarei, porém, do mérito de tê-las antevisto, Silvana e a ponte, tamanhas, nas minhas premonições de adolescente...



sábado, 1 de setembro de 2012

PÍLULAS (7)



(1) Tudo que é alto, quando passa, passa alto e passa, escreveu Fernando Pessoa. Concordo com ele.

(2) Prefiro mulheres a um só tempo flertativas e gozozas. De que serve uma mulher gozosa, se não for flertativa? E uma mulher flertativa, se não for gozosa?

(3) Atirei no meu inimigo, e ele, em mim. Dele não sei, mas eu morri. Ou seja, dei tudo que tinha pela metade de um empate.

(4) Non, je ne regrette rien.
Mas ganhar na sena teria ajudado muito.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (31)

A PRIMEIRA ÓPERA DE MOZART


“Mitridate, Rei de Ponto” é uma ópera, baseada num romance de Racine, que Mozart compôs durante um passeio pela Itália, quando tinha apenas quatorze anos.

Mitridate, o rei, luta lá fora contra os romanos, enquanto, em casa, seus filhos, Sifare e Farnace, fazem corte a Aspásia. Cuja é a noiva de Mitridate... Isso mesmo, Mitridate e seus dois filhos estão apaixonados pela mesma mulher.

Ao regressar, descobre o imbróglio familiar e decide matar noiva e filhos, o que não se concretiza porque tem de voltar à guerra.

Ferido em combate, Mitridate decide morrer perante a família, após o que Sifare fica com Aspásia, e Farnace, com Ismênia, filha do rei de Pártia.


- Todos se reconciliam perante o rei moribundo.



- Quatorze anos? Eu não era capaz de nada quando tinha quatorze anos...


- Não soltava pipa, nem jogava pião?


- Jogava futebol, mas ia sempre para o gol.

sábado, 25 de agosto de 2012

PÍLULAS (6)



(1) Toda vez que meu time perde, penso no Rigoletto. Há sempre alguém com uma tragédia maior do que a nossa.

(2) A oração principal recusa-se a fazer o trabalho miúdo. Daí a necessidade de orações subordinadas.

(3)
A astrologia é uma prática laboriosa e universal com a qual ou sem a qual o universo permanece tal e qual.

(4) Minha dúvida de sempre: justaposição é uma palavra formada por justaposição?



quarta-feira, 22 de agosto de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (30)

VESTIBULAR DE ENGENHARIA

Fanny Marguerite Judith Ardant

Cheguei a frequentar um curso preparatório para o vestibular de engenharia, no longínquo ano de 1990. Foi quando descobri minha inaptidão para a tarefa.

- Utilizando dez consoantes e cinco vogais, quantos agrupamentos de quatro consoantes e duas vogais distintas podem ser formados?

Não sabia por onde começar, e fui advertido pelo professor de que sem isso não aprenderia sobre o cálculo das probabilidades, nem sobre a distribuição de Gauss, que é sempre campanular. Euclides e Euler faziam esses cálculos muito bem, o que explica o grande êxito que alcançaram.

- Os matemáticos?

-Não, alunos meus que passaram no vestibular em primeiro lugar.

O certo é que eu nunca sabia, e o professor sempre vinha com a história de Euclides e Euler. O desenlace entre mim e a engenharia, cada vez mais inevitável, ocorreu quando o professor pediu o logaritmo, na base raiz de dois, do logaritmo de 81, na base raiz de três.

- Adeus, engenharia, para nunca mais.