quarta-feira, 27 de junho de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (19)

AI DA SOFIA...


Maureen O'Hara

Nem sempre fui feliz nas minhas escolhas, conforme passo a demonstrar:

Sou torcedor do América: nem sei mais em que divisão ou campeonato nossos bravos jogadores estão sendo derrotados atualmente.
Meu primeiro carro foi um Gordini (cujo motor foi ao chão em plena Avenida Rio Branco).
Comprei quotas do Carnê Fartura e ações da “holding” da Marcopolo.
Vi “Quintet”, quando podia ter visto “Depois do Vendaval”, um filme de John Ford, que ostenta o privilégio de ser com Maureen O'Hara.
Estudei romeno e “job control language”.
Passei férias em Zurich e namorei a Cidinha (que me disse muitas coisas nas quais acreditei).

O deputado que ajudei a eleger trocou o mandato por um cartório, e o senador da minha predileção, quem diria, desviou verbas importantes do orçamento nacional. Votei em Jânio Quadros, preciso dizer mais?

- Ai, pois, da Sofia, se dependesse de mim para fazer a sua escolha!

sábado, 23 de junho de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (18)

VIDA DE MILIONÁRIO

Depois da tacada que dei em Wall Street, decidi almoçar no Nello´s, no 696 da Madison Square. Sentado discretamente a um canto, tive a impressão de que a Julie Delpy estava flertando comigo.

Terminada a refeição, assinei um cheque em branco.

- Preencha-o no valor da conta, acrescentando-lhe uma gratificação de vinte mil dólares.

- Vinte mil dólares? Nem o Rockfeller dá gorjetas assim...

- Rockfeller, só conheci um, o John, que tinha o péssimo hábito de discutir a conta do almoço com o garçom. O problema dele foi a Lei Shermann.

- Lei Shermann?

- Pobre John...

- Sim, senhor.

- Tenho a lei a meu lado e não me humilho com ridicularias.

Antes de sair, sou efusivamente cumprimentado por Alberto de Mônaco, que é ruim de mulher e sempre paquera por aqui, e cruzo com Julia Roberts, que, se não me engano, faz tudo por dinheiro.

- Menos beijar na boca...

quarta-feira, 20 de junho de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (17)

FICOU RICO PORQUE NÃO SABIA TABUADA

No seu livro “O andar do bêbado”, escrito para ajudar nas decisões a serem tomadas em regime de incerteza, Leonard Mlodinow narra a história de um ganhador do grande prêmio da loteria da Espanha. O apostador tinha ido a várias casas lotéricas até encontrar o bilhete, terminado em 48, que, ao fim e ao cabo, o tranformou num milionário.

- Por que um bilhete terminado em 48?

- Porque sonhei sete noites seguidas com o número sete. E sete vezes sete é igual a 48.

Os sonhos foram fundamentais para o felizardo, pois, sem eles, o homem não teria tido a oportunidade de fazer as suas contas... erradas. Talvez nem jogasse, por falta de palpite. Seja como for, e engraçado que seja, trata-se do único caso em que alguém ficou rico porque não sabia tabuada. Sonho errado, conta errada, mas palpite certo.

- Tudo teria sido diferente se o cujo tivesse sido aluno da Dona Nininha...

sábado, 16 de junho de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (16)

TODO CARIOCA É JAPONÊS

Muito bom o resultado dos incentivos que resolvemos adotar na fábrica, bastando lembrar que a solução do problema do duplo cilindro e das embalagens se deveu à ação do Pé de Ganso, com apenas as máquinas que estavam ociosas na divisão de operações industriais. Dou grande valor a um Taylor, a um Ford, a um Pardal e a todos os que se dedicaram ao bom funcionamento do sistema, que, como as pessoas, tem de estar vivo e saber que vai continuar vivo.


Samurai José da Silva

Essa vitoriosa aplicação da engenharia humana permitiu mostrar o valor do trabalhador carioca, eficiente, aplicado, laborioso e, paradoxalmente, tão vilipendiado. Seja como for, em termos de eficiência e produtividade, o carioca é o japonês da vida real. Você vai à praia, ao cinema, ao Maracanã: os cariocas que você vê são, na verdade, japoneses.

- Minha senhora....

- Alice.

- Peço-lhe, dona Alice, a gentileza de tomar conhecimento de que se casou com um japonês.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (15)

Eu matei o barbeiro




Godô estava falando havia trinta minutos, e eu, absolutamente calado. De vez em quando é necessário falar também, interessar-se, ser solidário, sei lá... Assim ocorreu. Quando o assunto foram as peladas dominicais, decidi aconselhar, alto e bom som:


- Se fosse você, Godô, só jogaria após exame médico e autorização de um cardiologista, pois você pode morrer no próprio campo.

Havia um pouco de show-offismo nas minhas palavras, mas disse aquilo de boa fé. Mas, diabo... Por que não interrompi quando o assunto foi Bill Clinton? Claire Danes? João Ubaldo era também um tema adequado, pois gosto muito daquela do cachorro que se chamava Logoeudigo.


- Cachorro ou gato?


Claire Daines


Na segunda-feira, recebi a notícia: Godô faleceu no domingo, quando disputava uma partida de futebol. Ele jogava no campinho da Pavuna há mais de vinte anos e nunca tinha acontecido nada.


- Resumo da ópera: eu, agourento de uma figa, matei o barbeiro.