quarta-feira, 6 de junho de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (13)

MINHA CAMA, MINHA PÁTRIA

Uma noite de amor, cara pálida, vale por uma boa eternidade. Apoteose à primeira potência, apoteoses ao quadrado, apoteoses ao infinito, eis o enredo do amor, que é a melhor das capacidades humanas.

- Minha cama é pátria e testemunha.


Quanta obra-prima existe sobre mesas, pianos, luvas e outros variados objetos, tomados como metáforas do amor ou de sua ausência. Um texto de Rubem Braga exalta o guarda-chuva, com toda a justiça. Sobre cama, porém, só conheço a história do homem que, ao separar-se da mulher que o traía, doou-lhe tudo, menos a cama.


- Se a cama se fosse com ela, além da mulher, teria perdido a alma.


Uma mulher bonita, nua assim, deitada assim, magnífica assim, começa pelos olhos, continua nos lábios, alteia-se em montes soberbos, estende-se por vales insondáveis e acaba em... não acaba não, isso mesmo, uma mulher bonita não acaba nunca.


sábado, 2 de junho de 2012

CONTO DE 150 PALAVRAS (12)

O HOMEM DESNECESSÁRIO


Infelizmente, não passa em concurso um homem como eu, só e desnecessário. Não que os concursos sejam fraudados, isso não. É que para se dar bem em concurso é necessário que o homem não seja desnecessário. Isso mesmo, é necessário não ser desnecessário. Mas há um lado bom nessa de ser desnecessário, bastando dizer que não tenho de dar espinafrada, nem gorjeta, nem mole, nem bandeira, nem uma de inteligente, nem bons-dias ou cotoveladas.

- Não acredito!

O homem desnecessário chama-se, por exemplo, Hebdomadário de Oliveira, que é esse o meu nome, exatamente esse. Sou, nesse particular, um homem comprovadamente só, por absoluta fata de outro Hebdomadário.Trago a certidão de nascimento sempre comigo, para aquelas pessoas que não acreditam que alguém possa ser, dos Oliveiras, o Hebdomadário. Sempre que requerido, essa certidão dissipa o mal-entendido de forma competente e definitiva.

- Hebdomadário de Oliveira, sim, senhor, veja aqui, nascido em Barro Verde, no dia 3 de janeiro de 1969.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (11)

Aguardando a entrevista




Tenho certeza. Vão exigir de mim respostas objetivas sobre coisas desimportantes, como o papa que em boa hora instituiu a missa do galo, a origem dos vertebrados, os anos de Margareth Tatcher no poder, em que cidade existiu um bonde chamado Desejo, qual a cor da ametista, a importância dos capacitores nas instalações industriais, a deusa à qual foi dedicado o Paternon, a capital da Carolina do Norte, além de questões sobre equações trigonométricas, as cópias do Doríforo, econometria, línguas faladas em Vaduz, que é capital do Liechtenstein, teorema das forças vivas e os conjuntos transfinitos do matemático alemão George Cantor, o qual, pelo que sei e depreendo, não cantava em conjunto nenhum. Algo assim:


- Você sabe o que é quiáltera? Como se chama o estreito que liga o Mar Egeu ao Mar de Mármara? Mogadíscio é capital de qual país africano?


Ou seja, perdi o emprego.

sábado, 26 de maio de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (10)

SOU UM BENEFICIÁRIO

Quem, sozinho no mundo, poderia fabricar seus próprios chinelos, a camisa, a vara de pescar e a pulseira, bolar o crivo de Eratóstenes e obter a luz polarizada? Quem poderia plantar trigo, tanger os bois, pensar as feridas, construir teatros, calcular juros compostos, varrer a sala, decifrar hieróglifos, pedir vistas, tirar fotografia, calcular o logaritmo neperiano de 118, enunciar a constante de Planck, compor uma sinfonia de Mahler, acompanhar as fases da Lua, extrair raízes quadradas, comentar partidas de tênis, matar baratas, calibrar galvanômetros, registrar os fatos econômicos em partidas dobradas, estudar tabuada, temperar a feijoada, saber o que é zigoto, monera e esclerótica e, além disso, ler Tolstói e Guimarães Rosa, aplicar na Bolsa, assoar o nariz, receber aluguéis, cantar boleros, visitar Nova Orleans e ser dono de uma franquia dos correios?

- Ninguém. Nem me importa se estou enguiçado na estrada, sendo aplaudido em Curitiba, almoçando em Cascais ou, enfim, mofando nesta prisão que nem sei onde fica.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (9)

NÃO COLOU

- Adorei a sua cama...

Devo fingir que sou intelectual, sem errar nem pestanejar, antes que Pascale se levante da minha cama, decida ir embora e me deixe no ora-veja. O negócio é manter a calma, Estevinho, e falar com naturalidade e sem afetação. Tudo bem, mas falar sobre o quê? René Clair e Truffaut... Não, não, que ela é francesa, e disso deve saber muito mais do que eu. Quem sabe a expansão do Universo? As Vésperas Sicilianas, de Verdi?
O paradoxo de Abilene?

- Estevinho, você se formou em quê?

Ela foi mais rápida, ou seja, falhei...

- Em nada, Pascale. Pode-se viver de muitos modos, sem precisar da universidade. Conclua a Inacabada de Schubert, invente o motor de combustão externa, procure libelático no dicionário, plante uma bananeira no alto do Himalaia, compre o bilhete que será contemplado com o grande prêmio, aprenda a cabecear no ângulo, dedique-se à alta costura.

- Até mais mais ver, Estevinho.

sábado, 19 de maio de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (8)

INOCÊNCIA PUTATIVA


Regininha foi encontrada morta. Ao lado da cama, o bilhete que me incriminava:

"Devo informar aos meus familiares, à polícia e a quem mais interessar que fui assassinada por José Cláudio Antônio Nicola Estradivário Pastasciutta, conhecido como Estevinho, que mora no 800 da Visconde de Albuquerque."

Revólver na mão, quarto fechado por dentro, tudo indicava suicídio irrevogável e irretratável, dos categóricos e inapeláveis.
Mas o bilhete, como explicar o bilhete?
Por que me envolveu, se não tivemos nenhum relacionamento?
Sacana, que Deus a tenha.
Meu nome nos jornais, aquele trabalhão para provar a inocência, a revista interminável do apartamento, os numerosos comparecimentos à delegacia, os risinhos do escrivão, o mau humor do delegado, as despesas impossíveis. Citações, agravo de instrumento, apelação, habeas data, mandado de injunção, preclusão, certidões. Não exigiram incunábulos, nem palimpsestos, que talvez nem se apliquem nestes casos mais bodosos.

- Inocência putativa, sentenciou o juiz.
Putativa!