sábado, 26 de maio de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (10)

SOU UM BENEFICIÁRIO

Quem, sozinho no mundo, poderia fabricar seus próprios chinelos, a camisa, a vara de pescar e a pulseira, bolar o crivo de Eratóstenes e obter a luz polarizada? Quem poderia plantar trigo, tanger os bois, pensar as feridas, construir teatros, calcular juros compostos, varrer a sala, decifrar hieróglifos, pedir vistas, tirar fotografia, calcular o logaritmo neperiano de 118, enunciar a constante de Planck, compor uma sinfonia de Mahler, acompanhar as fases da Lua, extrair raízes quadradas, comentar partidas de tênis, matar baratas, calibrar galvanômetros, registrar os fatos econômicos em partidas dobradas, estudar tabuada, temperar a feijoada, saber o que é zigoto, monera e esclerótica e, além disso, ler Tolstói e Guimarães Rosa, aplicar na Bolsa, assoar o nariz, receber aluguéis, cantar boleros, visitar Nova Orleans e ser dono de uma franquia dos correios?

- Ninguém. Nem me importa se estou enguiçado na estrada, sendo aplaudido em Curitiba, almoçando em Cascais ou, enfim, mofando nesta prisão que nem sei onde fica.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (9)

NÃO COLOU

- Adorei a sua cama...

Devo fingir que sou intelectual, sem errar nem pestanejar, antes que Pascale se levante da minha cama, decida ir embora e me deixe no ora-veja. O negócio é manter a calma, Estevinho, e falar com naturalidade e sem afetação. Tudo bem, mas falar sobre o quê? René Clair e Truffaut... Não, não, que ela é francesa, e disso deve saber muito mais do que eu. Quem sabe a expansão do Universo? As Vésperas Sicilianas, de Verdi?
O paradoxo de Abilene?

- Estevinho, você se formou em quê?

Ela foi mais rápida, ou seja, falhei...

- Em nada, Pascale. Pode-se viver de muitos modos, sem precisar da universidade. Conclua a Inacabada de Schubert, invente o motor de combustão externa, procure libelático no dicionário, plante uma bananeira no alto do Himalaia, compre o bilhete que será contemplado com o grande prêmio, aprenda a cabecear no ângulo, dedique-se à alta costura.

- Até mais mais ver, Estevinho.

sábado, 19 de maio de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (8)

INOCÊNCIA PUTATIVA


Regininha foi encontrada morta. Ao lado da cama, o bilhete que me incriminava:

"Devo informar aos meus familiares, à polícia e a quem mais interessar que fui assassinada por José Cláudio Antônio Nicola Estradivário Pastasciutta, conhecido como Estevinho, que mora no 800 da Visconde de Albuquerque."

Revólver na mão, quarto fechado por dentro, tudo indicava suicídio irrevogável e irretratável, dos categóricos e inapeláveis.
Mas o bilhete, como explicar o bilhete?
Por que me envolveu, se não tivemos nenhum relacionamento?
Sacana, que Deus a tenha.
Meu nome nos jornais, aquele trabalhão para provar a inocência, a revista interminável do apartamento, os numerosos comparecimentos à delegacia, os risinhos do escrivão, o mau humor do delegado, as despesas impossíveis. Citações, agravo de instrumento, apelação, habeas data, mandado de injunção, preclusão, certidões. Não exigiram incunábulos, nem palimpsestos, que talvez nem se apliquem nestes casos mais bodosos.

- Inocência putativa, sentenciou o juiz.
Putativa!

quarta-feira, 16 de maio de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (7)

FRASES E ESPELHOS

O exame constava de uma única questão: escrever uma frase, qualquer uma.
Eu me meto em cada fria...


Júpiter e Io, de Correggio

Há de ser uma frase alheia, e não minha, pensei.
Sete anos de pastor Jacó servia a Labão, pai de Raquel, serrana bela, mas não servia ao pai, servia a ela, e a ela só por prêmio pretendia. Não, não, não, nada disso, pois trata-se de uma fofoca da Bíblia, não obstante Camões.
Por sua inaptidão para o trabalho, meu filho Charles Darwin será uma vergonha para si mesmo e para toda a família. Também não, que isso é um curto-circuito, não uma frase.
E se eu citar, de Jack Welch, que até os elefantes podem dançar?
Ou, de Lorde Keynes, que a longo prazo estaremos todos mortos?
Ou, de Freud, que a noção do impossível não existe para um indivíduo que faz parte de uma multidão?
Não, nenhuma dessas.
Até que, finalmente, decidi escrever a frase de Borges:

- Os espelhos e a cópula são abomináveis porque multiplicam o número dos homens.

sábado, 12 de maio de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (6)

JOGADORES DE FUTEBOL

Muitos estavam ali por exigência da família, que enxergava no futebol uma oportunidade de ascensão econômica e social. Mas todos sabiam que a maioria seria dispensada no final do período de testes.

Enquanto a degola não vinha, a vida seguia. Vira e mexe, o papo da garotada girava sobre o que fazer com o primeiro salário. O Suélio, um baixinho cheio de marra, queria mesmo era casar com a Isiane. Lucinho dizia que seu desejo era comprar um apartamento para os pais, lá para os lados de Realengo ou, quem sabe, da Tijuca. E vinha o Carijó, sempre ele, com alguma tirada extravagante.

- Vou comprar uma casa e um carro. Mas antes quero ir a um restaurante lá de Bonsucesso, o "Sustança Garantida", e pedir dois filés com batatas fritas. O primeiro é para matar a fome.

- E o outro?

- De sobremesa, ora essa!

quarta-feira, 9 de maio de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (5)

RENDA NACIONAL

Tudo que se recebe a título de remuneração do trabalho, do capital e da natureza forma a renda nacional, explicou o professor. Alguns cuidados são por isso essenciais.

- Por exemplo, é impatriótico casar com a governanta, pois um salário é imediatamente cancelado, diminuindo a renda nacional.
Todos riem. Não sei por quê, quando em grupo, as pessoas têm mais disposição para o riso, e todos os chistes são bem-sucedidos. Sozinho sou uma coisa, no grupo sou outra diferente, e na multidão sou uma gota dentro de uma nuvem. Choverei também, se a decisão for a de promover uma tormenta.
Ela tem um lindo CPF
- Vocês ousariam pedir recibos às suas mulheres? Se o fizessem, poderiam abater suas mesadas dos rendimentos tributáveis, mas elas teriam de fazer declaração de renda!

Piada de economista é sempre assim, magnificar a renda nacional, não casar com a governanta, assalariar a mulher com a finalidade de deduzi-la...

sábado, 28 de abril de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (2)

LIÇÕES DE ELISA


No meio da noite, percebi que havia uma mulher deitada a meu lado, linda e pura como uma manhã de primavera. Como descobriu minha cama é para mim um fino mistério. Achei que devia dizer alguma coisa e, lembrando-me da Elisa, fiz o comentário de que amar foi minha ruína.

-Amar foi sua ruína?

-Ruína e humilhação. Minha amada me trocou por um saxofonista. Fosse talvez um otorrinolaringologista ou um artista de televisão... Mas, um saxofonista!

-Tudo muito claro.

-Claro, como?

-Machismo.

Calei-me, sem entender, e voltei a dormir. Quando acordei pela manhã, não havia ninguém a meu lado. Deve ter sido um sonho, ninguém precisa me advertir sobre essa possibilidade. Pois eu também acho isso. Difícil, porém, será explicar o bilhete que encontrei ao lado da cama:

“É machismo não aceitar que a mulher faça suas escolhas.”

quarta-feira, 25 de abril de 2012

CONTOS DE 150 PALAVRAS (1)

AJUDEM-ME A ENCONTRAR VELIONIS

Estou enviando esta circular para você e outros amigos para pedir que me ajudem a localizar uma moça da qual sei apenas que se chama Velionis. Trata-se de uma desconhecida, que bateu à minha porta numa madrugada de agosto, pedindo-me um favor: que eu apostasse na sena do dia 2 de setembro, pois estava impedida de fazê-lo pessoalmente. E foi me passando os números e os reais da aposta, sem mais explicar. Minha reação foi de perplexidade, mas a moça se esgueirou, desaparecendo, antes que eu pudesse dizer alguma coisa.
Para complicar, e muito, o jogo foi contemplado com um prêmio de quase dez milhões de reais. Que tive de depositar na minha conta, pois a moça não mais apareceu.
Alguém me garantiu que ”velionis” significa“falecida” em lituano, o que para mim não tem nenhuma importância.
Hei de localizá-la, custe o que custar. Ajudem-me, pois, a encontrar a Velionis!

sábado, 21 de abril de 2012

GÊNIO BRINCALHÃO

A Gênese, segundo George Gamow


George Gamow

George Gamow (1904-1968), físico russo nascido na cidade de Odessa e professor da Universidade George Washington, foi um dos formuladores da teoria do Big Bang, tendo sido autor, em 1946, da hipótese de que o Universo, no seu início abrasador, era formado por uma colossal sopa de prótons e nêutrons, à qual deu o nome de "ylem".
O primeiro elemento a se formar foi o hidrogênio, que tem apenas um próton no seu núcleo. Num processo que chamou de nucleossintese, átomos de hidrogênio,
no calor reinante no Universo inicial, começaram a se chocar, fundindo-se em hélio; depois, colisões entre hidrogênio e hélio produziram os elementos leves seguintes, lítio e berílio.


Notou-se, porém, a ausência, por instabilidade, do elemento de massa cinco nessa fase inicial, o que inviabilizava a continuação da nucleossíntese, no calor do Big Bang, para a obtenção de elementos mais pesados. O obstáculo foi posteriormente contornado por Fred Hoyle (1915-2001), físico inglês da Universidade de Cambridge, com a teoria de que a nucleossíntese tem prosseguimento nas estrelas, que inicialmente são formadas só de hidrogênio, mas passam por fases diferentes de fusão de elementos, até que os elementos muito pesados se formam nas explosões de supernovas.- A nucleossíntese do Big Bang, mostrando como se formaram os elementos leves, foi um ponto a favor do Big Bang.

Radiação cósmica de fundo

E
m outra oportunidade (1948), Gamow postulou a existência da radiação cósmica de fundo, uma energia da explosão primordial que acompanha o Universo na sua expansão eternidade adentro e que estaria atualmente no espectro das radiações de microondas, à temperatura, segundo seus cálculos, de 5,0 graus absolutos. Em 1965 Penzias e Wilson, com sua gigantesca antena de Crawford Hill, no estado de Nova Jersey, detectaram por acaso o ruído da radiação cósmica de fundo, à temperatura precisa de 2,7 graus absolutos.


Penzias e Wilson

- A radiação cósmica de fundo colocou o Big Bang na vanguarda das teorias científicas sobre a criação do Universo.

Gênese

Gamow, que era espirituoso e brincalhão, foi o autor de uma versão da Gênese, incluída na sua autobiografia, que tem o título de "My Word Line":



"No princípio Deus criou a radiação e o ylem.
E o ylem era sem forma ou número,
E os núcleons corriam loucamente
Sobre a face da profundidade abissal.


E Deus disse: "Que haja a massa dois." E houve a massa dois.
E Deus viu o deutério, e o deutério era bom.
E Deus disse: "Que haja a massa três."
E houve a massa três.
E Deus viu o trítio, e o trítio era bom.


E Deus continuou chamando número após número,
até chegar aos elementos transurânicos.
E então, contemplando sua obra,
Deus viu que ela não era boa.
Pois, no entusiasmo da contagem,
deixara de criar a massa cinco.

E, se assim ficasse, nenhum elemento mais pesado
poderia ter sido formado.
Deus ficou muito desapontado
e quis contrair o Universo novamente
e começar tudo de novo.
Mas isso seria simples demais.
E então, sendo todo-poderoso,
Deus quis corrigir aquele engano
da forma mais impossível.

E Deus disse: "Que haja o Hoyle." E houve o Hoyle.
E Deus, olhando para Hoyle, ordenou-lhe
que produzisse elementos pesados
do jeito que lhe aprouvesse.

E Hoyle decidiu fabricar elementos
pesados nas estrelas
e espalhá-los mediante explosões de supernovas.

Ele tinha, porém, de obter as mesmas quantidades
que teriam resultado da nucleossíntese do ylem,
se Deus não tivesse esquecido de chamar a massa cinco.
 
E assim, com a ajuda de Deus, Hoyle fez os elementos desse modo.
Mas era tão complicado que, hoje em dia, nem Hoyle, nem Deus,
nem ninguém mais pode determinar exatamente como foi feito.

Amém."

Supernova


Certa vez Gamow expressou assim sua perplexidade diante dos números do Universo:

 
"There was a young fellow from Trinity
Who took the square root of infinity
But the number of digits
Gave him the figits;
He dropped Math and took up Divinity."


("Era uma vez um cara de Trindade
Que extraiu a raiz quadrada da infinidade.
Mas o número que encontrou
Era muito grande e o assustou;
Renunciou à Matemática e engajou-se na Divindade.")


Prêmio Nobel


Até hoje se questiona por que George Gamow não foi distinguido com o Prêmio Nobel de Física.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

LAVOISIER (1/2)

UMA GRANDE TRAGÉDIA

Lavoisier, o pai da química moderna, morreu guilhotinado, vítima do regime que se instalou na França entre 1793 e 1794, ao tempo de Robespierre. Por ser cobrador oficial de impostos de Luiz XVI, uma função tornada mais impopular porque o clero e a nobreza gozavam do privilégio da isenção, Lavoisier acabou sendo injustamente acusado de peculato. A esse respeito, um antigo funcionário da Receita, Nicolas François Count Mollien, relatou na ocasião que não havia nenhuma dúvida quanto à inocência de Lavoisier, que não deixou "uma única objeção sem resposta, um único cálculo sem refutação, uma única justificativa sem prova."


De fato, as alegações contra Lavoisier eram irrelevantes, configurando um revanchismo dos que se viram prejudicados por sua atuação como coletor de impostos ou a sanha dos que lhe tinham inveja por sua fortuna e seus êxitos pessoais.
Tinha também contra si o ódio de Jean Paul Marat, que era médico e cientista, antes de se tornar o panfletário da Revolução Francesa. Em 1780, ou seja, antes do Terror, Marat submetera à Academia Real das Ciências um trabalho científico, pretensioso e equivocado, a que deu o nome de "Pesquisas Físicas sobre o Fogo"; nele Marat
defendia ingenuamente que o fogo era a manifestação de um fluido especial, o fluido ígneo, cujas sombras produziriam as formas trêmulas das chamas.

- Uma vela, defendia ele, confinada num espaço limitado, apaga-se porque o ar, dilatado pela chama, comprime-a e a abafa.


Esse trabalho, primário e despropositado, foi recusado por orientação de Lavoisier
.
Embora corriqueiro, o fato foi decisivo para levar Lavoisier à guilhotina. Pois Marat assumiu o papel de principal acusador, com seus artigos raivosos e desproporcionais. Para além de outros textos injustos e grosseiros sobre Lavoisier, eis o que Marat escreveu no seu jornal “L’Ami du Peuple”, em setembro de 1791:

“Denuncio-lhes o corifeu dos charlatães, o senhor Lavoisier, filho de um sovina, aprendiz de químico, aluno do agiota genebrino, coletor-geral de impostos, diretor da pólvora e do salitre, administrador da Caixa de Descontos, secretário do Rei, membro da Academia de Ciências, íntimo de Vauvilliers, administrador infiel da subsistência e o maior intrigante do século.”

Jean-Paul Marat: competindo com Lavoisier

Marat discutindo a capacidade de Lavoisier, veja só que comédia! Que redundou numa grande tragédia: o grande cientista foi condenado, e sua execução ocorreu em 8 de maio de 1794.

- A república não precisa de gênios, teria dito o juiz que o condenou.

Lagrange

Lavoisier não recebeu nenhuma solidariedade de antigos colaboradores e colegas acadêmicos, com a corajosa exceção do matemático Joseph Louis de Lagrange. No dia seguinte à execução, Lagrange expressou sua mágoa com as seguintes palavras, que se tornariam célebres:

- Bastaram alguns instantes para cortar sua cabeça; mas cem anos talvez não sejam bastantes para produzir outra igual.