quarta-feira, 18 de abril de 2012

LAVOISIER (1/2)

UMA GRANDE TRAGÉDIA

Lavoisier, o pai da química moderna, morreu guilhotinado, vítima do regime que se instalou na França entre 1793 e 1794, ao tempo de Robespierre. Por ser cobrador oficial de impostos de Luiz XVI, uma função tornada mais impopular porque o clero e a nobreza gozavam do privilégio da isenção, Lavoisier acabou sendo injustamente acusado de peculato. A esse respeito, um antigo funcionário da Receita, Nicolas François Count Mollien, relatou na ocasião que não havia nenhuma dúvida quanto à inocência de Lavoisier, que não deixou "uma única objeção sem resposta, um único cálculo sem refutação, uma única justificativa sem prova."


De fato, as alegações contra Lavoisier eram irrelevantes, configurando um revanchismo dos que se viram prejudicados por sua atuação como coletor de impostos ou a sanha dos que lhe tinham inveja por sua fortuna e seus êxitos pessoais.
Tinha também contra si o ódio de Jean Paul Marat, que era médico e cientista, antes de se tornar o panfletário da Revolução Francesa. Em 1780, ou seja, antes do Terror, Marat submetera à Academia Real das Ciências um trabalho científico, pretensioso e equivocado, a que deu o nome de "Pesquisas Físicas sobre o Fogo"; nele Marat
defendia ingenuamente que o fogo era a manifestação de um fluido especial, o fluido ígneo, cujas sombras produziriam as formas trêmulas das chamas.

- Uma vela, defendia ele, confinada num espaço limitado, apaga-se porque o ar, dilatado pela chama, comprime-a e a abafa.


Esse trabalho, primário e despropositado, foi recusado por orientação de Lavoisier
.
Embora corriqueiro, o fato foi decisivo para levar Lavoisier à guilhotina. Pois Marat assumiu o papel de principal acusador, com seus artigos raivosos e desproporcionais. Para além de outros textos injustos e grosseiros sobre Lavoisier, eis o que Marat escreveu no seu jornal “L’Ami du Peuple”, em setembro de 1791:

“Denuncio-lhes o corifeu dos charlatães, o senhor Lavoisier, filho de um sovina, aprendiz de químico, aluno do agiota genebrino, coletor-geral de impostos, diretor da pólvora e do salitre, administrador da Caixa de Descontos, secretário do Rei, membro da Academia de Ciências, íntimo de Vauvilliers, administrador infiel da subsistência e o maior intrigante do século.”

Jean-Paul Marat: competindo com Lavoisier

Marat discutindo a capacidade de Lavoisier, veja só que comédia! Que redundou numa grande tragédia: o grande cientista foi condenado, e sua execução ocorreu em 8 de maio de 1794.

- A república não precisa de gênios, teria dito o juiz que o condenou.

Lagrange

Lavoisier não recebeu nenhuma solidariedade de antigos colaboradores e colegas acadêmicos, com a corajosa exceção do matemático Joseph Louis de Lagrange. No dia seguinte à execução, Lagrange expressou sua mágoa com as seguintes palavras, que se tornariam célebres:

- Bastaram alguns instantes para cortar sua cabeça; mas cem anos talvez não sejam bastantes para produzir outra igual.

sábado, 14 de abril de 2012

SISTEMAS NÃO - LINEARES

Efeito Borboleta

- Vou provocar um tornado em Houston...

Estávamos em 1960. Edward Lorentz, um professor do Massachusetts Institute of Technology, o MIT, havia desenvolvido um conjunto de equações matemáticas para estudar a circulação atmosférica. Seu modelo foi construído de maneira que o computador calculava os valores das variáveis atmosféricas de um ponto no tempo, que serviam como dados de entrada para o cálculo dos valores do ponto no tempo seguinte; desse modo Lorentz obteve uma longa sequência de resultados, que o computador foi imprimindo ponto a ponto, até que um defeito da máquina interrompeu o processo. Sanado o problema, Lorentz decidiu não reiniciar os cálculos do ponto inicial, mas de um ponto intermediário, adotando para este os valores anteriormente calculados pelo computador. Observou, com surpresa, que na nova computação os valores obtidos para os pontos subsequentes foram se afastando progressivamente daqueles encontrados no cálculo anterior, até que, afinal, tornavam-se absolutamente discrepantes.

- Como isso pôde ocorrer, se as equações eram as mesmas e os valores para iniciar a nova sequência haviam sido calculados pelo próprio computador?

Após muito investigar, Lorentz descobriu que o computador imprimia seus valores com três casas decimais (0,506 era o valor relativo de uma variável ao início da segunda sequência), mas na hora de calcular operava com seis algarismos após a vírgula (0,506127, no caso em questão). Havia uma diferença invisível, de 0,000127, entre as condições iniciais das duas sequências que estavam sendo comparadas - no caso, uma diferença de 0,025%, que normalmente todos consideram desprezível, até o computador. No entanto, porém... Naquela situação, isso estava longe de ser verdade: a diferença aparentemente insignificante era significante demais!

Edward Lorentz

Foi assim que se descobriu que as condições iniciais nos fenômenos complexos, como os meteorológicos, podem ter influências importantes nos resultados, para além do que podemos imaginar à primeira vista. Os sistemas não-lineares têm a capacidade de ampliar superlativamente todos os desvios, impondo resultados erráticos, que parecem se subordinar ao acaso ou aos desígnios do caos e de seus estranhos atratores. Um sopro, por mais débil e insignificante, ao cabo de certo tempo pode ter um efeito devastador. Calculemos, por exemplo, o número que se obtém elevando 14,251 à oitava potência; a seguir, repitamos o cálculo arredondando o número, a ser elevado a essa potência, de 14,251 para 14,250. Um insignificante desvio de 0,001 ou 0,1%. Verificaremos, porém, que a diferença entre os dois resultados obtidos (1.701.228.778 e 1.700.274.004) corresponde a 954.774, equivalente a quase um bilhão de vezes o desvio introduzido inicialmente.

- Nem sempre 14,251 é mais ou menos a mesma coisa que 14,250!

Lorentz escreveu um artigo sobre essa questão, que se tornou célebre:

“Previsibilidade: o bater de asas de uma borboleta no Brasil provoca um tornado no Texas?”

Por causa desse artigo, a influência das condições iniciais nos fenômenos não-linerares passou a ser conhecido como Efeito Borboleta. O passado é uma complicada fábrica de futuros, pois tudo que acontece é construído passo a passo, e de forma não linear, de modo que uma pequena alteração nas condições iniciais de um fenômeno pode implicar uma mudança importante no seu resultado final.

As idéias de Lorentz se alinhavam com as do francês Henri Poincaré, que em 1900 dera início à teoria do caos, reconhecendo, desde então, que a maioria dos fenômenos se inter-relaciona mediante equações não-lineares, o que torna maior a incerteza do homem perante o Universo. O caos está presente extensivamente, seja na meteorologia, nas flutuações dos preços nas bolsas de valores, nas correntezas ou no crescimento das populações animais.
Em quase tudo há realimentação interna, interação constante e toda sorte de perturbações não-lineares.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

CRISTO REDENTOR, QUEM ILUMINOU?

Foi Marconi, afirmam uns...

O Cristo Redentor foi inaugurado no dia 12 de outubro de 1931. Suas luzes foram acesas exatamente às 19 horas e 15 minutos, para grande alegria da população do Rio de Janeiro, numa cerimônia que teve a presença do cardeal Dom Sebastião Leme e do Presidente Getúlio Vargas.
Por iniciativa do jornalista Assis Chateaubriand, o cientista italiano Guglielmo Marconi, inventor do rádio, foi solicitado a ativar a iluminação do monumento no seu dia inaugural, por intermédio de um sinal elétrico enviado de algum ponto da Itália.

Marconi

Na biografia de Marconi, de autoria de Filippo Garozzo, a proeza de Marconi foi assim relatada:

"Então todos ficaram olhando para o morro, esperando o milagre a ser produzido por um homem. E o milagre, pontualmente, aconteceu. O Papa e Marconi, em Roma, apertaram uma chave de transmissor; e um impulso rápido partiu da Cidade Eterna, deslizou sobre o Atlântico mais velozmente que o relâmpago, e atingiu o Cristo Redentor, construído sobre o Morro do Corcovado, na Baía de São Sebastião do Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa. E o Cristo, de repente, ficou tão resplandecente e brilhante de luz que mais se assemelhava a uma festa! Parecia até outro Cristo, risonho e mais bonito, agora que estava iluminado e inaugurado pela mão do Santo Padre e pelo gênio de Marconi."

Alguns dos que atribuem a façanha a Marconi costumam mencionar que o grande cientista acionou o transmissor não de Roma, nem na presença do Papa, mas a bordo do seu iate Electra, que estaria ancorado na Baía de Nápoles.

Não foi Marconi, garantem outros...

Há, todavia, uma segunda versão, geralmente apontada como a verdadeira. Realmente estava previsto que Marconi comandaria da Itália a inauguração das luzes do Cristo Redentor. Emitido do Electra, um iate ancorado na Baía de Nápoles, o sinal elétrico seria captado em Dorchester, na Inglaterra, e retransmitido para uma antena instalada em Jacarepaguá, de onde se acenderiam as luzes do Corcovado. O mau tempo, porém, teria impedido essa operação, e o monumento teve de ser iluminado do próprio Rio de Janeiro.

A maravilha


Situa-se no Morro do Corcovado, 710 metros acima do nível do mar
, e tem 30 metros de altura, assentado sobre um pedastal de oito metros adicionais. O monumento foi sugerido à Princesa Isabel em 1859 pelo padre Pedro Maria Boss, mas a ideia só se materializou a partir de 1921, quando dos preparativos para as comemorações do centenário da Independência. O projeto teve a autoria do arquiteto francês Paul Landowski e a construção, que demorou cerca de cinco anos, ficou a cargo do engenheiro brasileiro Heitor da Silva Costa.

sábado, 7 de abril de 2012

SHAKESPEARE OU TERMODINÂMICA

Incompletude Recíproca

Charles Percy Snow


“Poucos cientistas leem Charles Dickens ou uma peça de Shakespeare; poucos artistas conhecem o Segundo Princípio da Termodinâmica; assim fica muito difícil resolver os problemas do mundo.”


Charles Percy Snow (1905-1980), escritor e cientista inglês


quarta-feira, 4 de abril de 2012

A CIÊNCIA NA IDADE MÉDIA

A SOBREVIVÊNCIA DE ARISTÓTELES

Quando dominaram os gregos, no segundo século antes de Cristo, os romanos estavam mais preocupados com comércio, direito e moral do que com investigação científica. Apenas Aristóteles e Platão suscitavam algum interesse, sendo importante mencionar que em geral as obras científicas gregas não foram traduzidas para o latim.
Inicialmente, sem envolvimento do Estado com religião, a evolução científica dos gregos pôde seguir seu curso normal em Alexandria, com destaque na astronomia para os os trabalhos de Ptolomeu. Sua obra máxima, "Hè Megalè Syntaxis", foi traduzida pelos árabes, na Idade Média, com o nome de “Al Midjisti” (“O Grande Livro”), o qual só muitos séculos depois retornou para conhecimento do Ocidente, recebendo então o nome de Almagesto.

Teodósio

A partir do século II, passou a ocorrer a ascendência da religião sobre o Império Romano, até que, em 391, o imperador Teodósio deu ao Cristianismo o status de religião do Estado. Num movimento inverso ao que se iniciara com os pré-socráticos, que separaram ciência de religião, agora os monges da igreja, que viviam reclusos em mosteiros, rezando e copiando livros, tornavam-se responsáveis pela proteção espiritual da sociedade. Eles passaram a dizer o que era certo e o que era errado em termos científicos, estabelecendo parâmetros e os textos bíblicos e dogmas que deveriam ser usados na interpretação e validação do que se podia aceitar. Por exemplo, garantiam que a Terra, imóvel, apoiava-se sobre colunas, de acordo com o Salmo 103: 5:

- “Assentaste a Terra sobre suas bases, irremovível para sempre e eternamente.”

Pensamento e razão davam lugar à fé religiosa e à fidelidade aos textos cristãos.

Quatro registros


(1) São Basílio (330-379) condenou os que “comparam a simplicidade e ingenuidade de nossos discursos espirituais com a curiosidade dos filósofos a respeito do céu”. E argumentou:

- Assim como a beleza da mulher casta supera a da cortesã, assim também nossos discursos prevalecem sobre os desses estranhos à Igreja.


Catedral de São Basílio

(2) Em 389 o imperador romano Teodósio ordenou ao bispo Teófilo que destruísse os monumentos pagãos de Alexandria, entre os quais o Templo de Serápis, dedicado a uma divindade pagã, protetora da saúde. Assim se perdeu boa parte dos livros da Biblioteca de Alexandria, guardados no templo desde Cleópatra (século I).

(3) Em 529 o imperador cristão Justiniano fechou a Academia de Platão, em Atenas, tachando-a de “centro de saber pagão”.

(4) Os religiosos tinham dificuldade para aceitar a esfericidade da Terra, sobretudo pela afirmação de Aristóteles de que havia outro continente na parte sul do nosso planeta,
habitado pelos antípodas, contrapondo-se ao mundo conhecido. Os cristãos não podiam admitir que houvesse uma outra civilização, de homens não alcançados pelo Dilúvio. Por isso, mesmo os que acreditavam na esfericidade da Terra, representavam-na como uma semiesfera, com apenas o Hemisfério Norte e seus três continentes.
Para resolver essa questão, no século VI o monge Cosmas Indicopleustes defendeu que a Terra era plana como a superfície de uma mesa. Sua argumentação não tem nenhuma proximidade com a ciência e suas deduções se faziam a partir de postulados bíblicos:

- Existem falsos cristãos que ousam sustentar que a Terra é esférica. Uma heresia dos gregos, que refuto com passagens e citações inequívocas dos textos sagrados.

A Terra Quadrada, na visão de Cosmas Indicopleustes


Aristóteles

Na verdade, Aristóteles foi conhecido mais ou menos até o século VI, quando seus livros deixaram de ser lidos, perderam a importância e desapareceram. Havia pouca investigação científica, que cedeu lugar às práticas do ocultismo, em formas diversas de superstição, magia e astrologia. Nesse vácuo é que surgiu a Escola Árabe, concentrando um misto de conhecimentos de origem grega, romana e judaica na Corte de Bizâncio e nos países que se estendem da Síria ao Golfo Pérsico. As obras de Euclides e Ptolomeu foram traduzidas para o árabe, onde se adotou o zero,
no século IX, na função de completar os algarismos dos indianos; apareceu a alquimia, com o objetivo de procurar fazer a transmutação dos metais em ouro e encontrar o elixir da vida para cura de todos os males; e foram introduzidas tábuas astronômicas de grande qualidade.
O conhecimento científico grego foi desse modo preservado pelos árabes, que, a partir do século VII, se expandiram para várias regiões, incluindo o Norte da África e a Espanha.

Biblioteca de Toledo
: reencontro com os gregos

Quando os espanhóis expulsaram os mouros da cidade de Toledo, em 1085, nela encontraram uma extraordinária biblioteca islâmica, com todo o conhecimento dos gregos antigos traduzidos para o árabe. O rei espanhol Afonso VI deu toda a prioridade à tradução dos textos para o latim, onde se destacou um intelectual que aprendera a língua árabe, Gerard de Cremona, responsável pela tradução latina de 76 livros, entre os quais o Almagesto, de Cláudio Ptolomeu.

O Almagesto e os textos de Aristóteles passaram a ser considerados sagrados, apesar de neles Aristóteles ter incorrido em erros inadmissíveis, como a declaração de que os homens tinham mais dentes que as mulheres. Para compatibilizar o legado de Aristóteles com as Escrituras, foi fundamental o trabalho de São Tomás de Aquino (1225 - 1274), pela simbiose que fez do cristianismo com a visão aristotélica do mundo.
As ideias de Aristóteles e de seu operador matemático, Ptolomeu, tiveram garantida, por essa via, uma sobrevivência adicional de quatrocentos anos.

sábado, 31 de março de 2012

INÉRCIA E GRAVIDADE

POR QUE ÓRBITAS ELÍPTICAS?

Os gregos, tendo à frente Aristóteles, conceberam um universo geocêntrico, com os planetas girando com velocidade constante em torno de uma Terra fixa e descrevendo órbitas circulares. Acima da Lua, tudo o que existe é imutável, perfeito e incorruptível, construído de uma quinta-essência, diferente de terra, água, ar e fogo, que caracterizam nosso imperfeito mundo infralunar.

Estou vendo quatro luas em Júpiter...

Toda essa concepção foi abandonada a partir do século XVI. O sistema heliocêntrico de Copérnico fez ruir a
ideia da fixidez e centralidade da Terra; Tycho Brahe, ao descobrir uma supernova, manchou a reputação do céu imutável; e Johannes Kepler, pouco depois, mostrou que as órbitas dos astros, elípticas antes que circulares, são percorridas com velocidades maiores quando mais perto eles estão do Sol, e menores, quando dele se afastam. Complementando a derrocada das ideias de Aristóteles, o professor Galileu Galilei, da Universidade de Pádua, constatou com seu telescópio perspicaz a existência das irregularidades da Lua, das manchas solares, das fases de Vênus e das luas de Júpiter. Posteriormente, com o avanço da Cosmologia no século XX, todo o Sistema Solar foi rebatido para a periferia do Universo, sendo o Sol uma de mais de cem bilhões de estrelas da Via Láctea, que, por sua vez, é uma de mais de cem bilhões de galáxias, dentro de um Universo criado numa explosão que ocorreu há 15 bilhões de anos, evoluindo desde sempre em permanente e decidida expansão.


Órbitas elípticas, por quê?

Para justificar as órbitas elípticas dos planetas, Kepler imaginou que cada planeta deveria seguir a resultante de duas forças, uma das quais situada no próprio planeta, e a outra, proveniente do Sol. Kepler só errou por imaginar que as duas forças teriam natureza magnética. Pois, após os trabalhos de Galileu, Descartes e Newton, foi possível saber que se tratava da inércia e da gravidade.

Inércia

Por causa da inércia, tudo que vemos sobre nosso planeta conserva o movimento da Terra em todas as circunstâncias, pensou Galileu. Uma pedra atirada verticalmente para cima cai no mesmo lugar, e não no quintal do vizinho, porque, subindo ou descendo, a ela a cada instante sempre se adiciona o movimento da Terra. Como também se adiciona quando a pedra está parada, na superfície da Terra.
A ideia de Galileu foi depois aperfeiçoada por René Descartes (1596-1650) , ao intuir que uma partícula, isolada e sem nenhuma interferência,
deslocando-se num espaço infinito, permaneceria sempre em linha reta e com a mesma velocidade. Quaisquer desvios das tendências retilíneas dos movimentos naturais deviam ser consequência de ações exteriores, ou seja, as órbitas curvas e fechadas dos planetas eram indício de que uma força exterior adicionava-se à inércia.
Descartes alinhava-se com Kepler, mas, como este, desconhecia a natureza da força que se conjugava com a inércia para dotar os planetas de órbitas elípticas.

Gravidade


Por volta de 1680 três cientistas ingleses, Christopher Wren, Robert Hooke e Edmund Halley comentaram entre si sobre as órbitas elípticas dos planetas, conforme estabelecido pela primeira lei de Kepler. Era o assunto do dia nas rodas científicas. Parece que foi Hooke o primeiro a pensar que, para os planetas permanecerem em órbita, deveria atuar sobre eles uma força, orientada para o Sol, cuja intensidade fosse tanto maior quanto menor fosse a distância entre o planeta e aquela estrela, na razão inversa dos quadrados. O grande desafio era demonstrar, a partir de cálculos rigorosos, que uma força desse tipo levava os planetas a descreverem as órbitas elípticas da lei de Kepler.

- Já comentei essa ideia com Isaac Newton, teria dito Robert Hooke.


Diante disso, Halley procurou Newton e perguntou-lhe sobre como seria a curva descrita pelos planetas, caso houvesse, somando-se à inércia, uma força de atração do Sol inversamente proporcional ao quadrado da distância. Newton teria respondido imediatamente:

- Uma elipse.

- Como você sabe disso?

- Eu fiz os cálculos. A força de atração do Sol sobre um planeta, que se exerce na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias, combinada com a inércia do planeta, explica as órbitas elípticas, respondeu Newton.

Como era de se esperar, o fato deu lugar a intensa disputa entre Newton e Hooke, pois ambos se atribuíam a primazia de haver descoberto a natureza da gravidade. Seja como for, foi Newton, no seu livro "Philosophiae Naturalis Principia Matematica" ("Princípios Naturais da Filosofia Matemática"), publicado em 1687, quem enunciou a Lei da Gravitação Universal, que alguns chamam de quarta lei de Newton:

"Matéria atrai matéria, na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado da sua distância".

- E o que diz a teoria da relatividade geral?

A relatividade geral postula que, em verdade, matéria não “atrai” matéria. O que a matéria faz é deformar o espaço, que, assim deformado, determina o caminho a ser perseguido pela matéria.

- Mas a fórmula de Newton está correta, para todas as finalidades práticas.

Deus e Newton

Isaac Newton

Isaac Newton (1642-1727) costuma ser apontado como o maior de todos os cientistas. Criou o cálculo infinitesimal, introduziu as leis da refração e reflexão da luz, criou o telescópio por reflexão, explicou as marés, contribuiu para o avanço da termodinâmica e da acústica e apresentou uma explicação plausível para a origem das estrelas. Eis os versos do poeta inglês Alexander Pope (1688-1744), gravados no túmulo de Isaac Newton, na Abadia de Westminster, em Londres, Inglaterra:

Nature and Nature's law lay hid in night.
God sad “Let Newton be“ and all was light.

(A natureza e as leis naturais jaziam dentro da noite.
Disse Deus “Que seja Newton”, e a luz se fez.)

quarta-feira, 28 de março de 2012

ÚLTIMAS PALAVRAS NA FICÇÃO

NA FICÇÃO DE SHAKESPEARE


Hamlet
(morrendo envenenado)


Lawrence Olivier, como Hamlet

- O resto é silêncio.

("The rest is silence.")


Otelo
(suicidando-se)


Otelo e Desdêmona

- Beijei-te antes de te matar; não tenho saída, senão matar-me,
a mim também, para morrer depois de um beijo.


(" I kiss'd thee ere I kill'd thee; no way but this, killing myself to die upon a kiss.")


Julieta
(suicidando-se)

Leontina Vaduva e Roberto Alagna (Julieta e Romeu)


- Então serei breve. Ah, venturoso punhal !

("Then I will be brief. O happy dagger!")


Ricardo III
(antes de ser morto na Batalha de Bosworth Field)


Ricardo III (Al Pacino)

- Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!

("A horse! A horse! My kingdom for a horse!")

- Já vali um reino...


César
(ao ser assassinado)


- Até tu, Brutus!

("Et tu, Brute!")


Rei Lear
(morrendo, em delírio, com a filha Cordélia, morta, nos braços)


- Como pode um cão, um cavalo, um rato terem vida, e você sem respirar?
Olhai-a, olhai, seus lábios. Olhai aqui, olhai aqui!


(" Why should a dog, a horse, a rate have life, and thou no breath at all!
Lok on her, look, her lips. Look there, look there!")



Ricardo II
(ao ser assassinado)



- Sobe, sobe, ó minha alma. Teu lugar é para o alto,
enquanto minha carne bruta afunda aqui em baixo, para a morte.


("Mount, mount, my soul. Thy seat is up on high,
whilst my gross flesh sinks downward here to die.")



NA FICÇÃO BRASILEIRA


Corisco
(ao tombar, atingido mortalmente)


- Maiores são os direitos do povo!

(em "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha)


Quincas Berro D´Água
(caindo no mar)

Paulo José, como Quincas Berro D'Água

- O impossível não há; cada um cuide do seu enterro, que eu cuidarei do meu.

(em "Velhos Marinheiros", de Jorge Amado)


Brás Cubas

Reginaldo Faria, como Brás Cubas

- Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

(em " Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis)


Rubião


- Ao vencedor, as batatas!

(em "Quincas Borba", de Machado de Assis)

sábado, 24 de março de 2012

PERDER OU PERDER (2/2)

ENGANANDO NOVA YORK

No início não me envolvi diretamente nessas aventuras, por serem iniciativas isoladas na área de energia. Pois tudo era diferente no lado da mineração, onde os bons resultados foram se acumulando, até que um dia fui designado diretor técnico para toda a América Latina, uma determinação do Board of Directors, lá de Nova York.
A coisa agora era comigo, e passei a vetar as iniciativas esdrúxulas, sem resistência da parte de Forthwhite, que temia contestar-me, dado o prestígio que me havia sido conferido por Nova York.


Para além de tudo isso, aos poucos fui percebendo que havia dolo também. Os princípios de governança estavam longe de serem neutros e inelásticos, e muitas vezes os interesses da corporação eram malbaratados por atitudes duvidosas e ilícitas. Trabalhar, antes um grande prazer, passou a ser um exercício que me angustiava, pois eu não podia concordar com as empresas de papel, que tinham executivos remunerados com generosos acréscimos salariais por acumularem diretorias que não existiam, ou melhor, que só existiam no papel, nem com as viagens de negócios, muito duvidosas, dos diretores a Londres e Paris, que se emendavam com as férias da família na Côte D’Azur. Ou com as cisões ou fechamentos de capital feitos com prejuízo dos acionistas minoritários, muitas vezes resgatando suas ações em troca de indenizações calculadas a valores históricos e corroídos pela inflação.

Côte D'Azur

Como diretor técnico, não tinha ingerência nesses torneios administrativos de baixa extração. Mas, agora um observador privilegiado, passei a saber. E quem sabe é cúmplice. Na vida profissional, você tem de gostar do que faz, ser bem remunerado, relacionar-se com os outros profissionais da empresa, sentir a importância do projeto que está sendo cumprido e a sanidade do ambiente. Azul sobre amarelo, maravilha e roxo, para usar um verso dileto de Adélia Prado; mas se um desses requisitos vem a faltar, você pode ruir profissionalmente, a não ser que queira ficar em desacordo consigo mesmo. O dilema estará entre abandonar o emprego, o que significa que você fracassou, ou nele permanecer a contragosto, em cujo caso fracassou do mesmo jeito. Perder ou perder.


Adélia Prado


Tinha certeza de que não iria aguentar por muito tempo. Deu-se então que, no meio do exercício, Forthwhite fez a mudança do critério para avaliação de desempenho dos executivos, operando uma fraude, pois afirmava uma eficiência que não possuíamos. Tudo feito com a conivência e beneplácito dos auditores da subsidiária brasileira. Era permanecer calado, mas intranquilo, ou jogar tudo para o alto, dos dois males o que fosse menos ruim. Foi menos ruim jogar tudo para o alto.


- Estamos enganando Nova York, foi o que disse a Sean Forthwhite.


- Mas você também recebeu bônus de desempenho, Carlinhos.


- Sim, mas devolvi tudo à companhia. Veja aqui o recibo que me foi dado pela tesouraria.


“Recebemos de Carlos Auvergne de Carvalho a quantia de 179 mil reais, correspondente à integral e voluntária devolução do bônus que a Western Exploration and Development lhe pagou como prêmio pela sua performance e desempenho no decorrer do exercício de 2001.”


Durei exatos 14 meses na função de diretor técnico, até que, para surpresa de todos, decidi pedir demissão.


- Sinto muito, senhores, mas a partir de hoje não trabalho mais para a WED.


Foram oito anos de trabalho jogados na lata do lixo.

quarta-feira, 21 de março de 2012

PERDER OU PERDER (1/2)

RISCO E RECOMPENSA

No início da minha carreira, trabalhei para uma companhia de energia, que, ampliando seus negócios no Brasil, estava a ingressar na atividade de mineração. Eu integrava a equipe encarregada de analisar a viabilidade econômica de projetos exploratórios e negociar acordos, pois nessa atividade é muito comum dividir com outras empresas a exposição financeira e os riscos.


Nada disso tinha relação com o que aprendera na universidade, o que me obrigou a estudar o assunto em livros que fui importando da Inglaterra e dos Estados Unidos. Passei a saber sobre as leis de mineração em diversos países, teorias econômicas para avaliação de projetos, cálculo das probabilidades, práticas de orçamento e até cláusulas de mediação e arbitragem contratuais.

O chefe do departamento, percebendo que me empenhava, aceitou minha sugestão de construir um modelo de atuação, que incluía simular todas as consequências do projeto, gerar fluxos de caixa, calcular os valores monetários e formular propostas, além de preparação técnica rigorosa para negociar e redigir os contratos. Nossas propostas deveriam ser suficientemente competitivas para vencer as licitações, tendo sempre em conta que pretensões elevadas e atitudes inflexíveis fariam escapar oportunidades importantes, após despesas não recuperáveis com estudos, viagens, aquisições de dados e taxas de participação.


Deu certo, muito certo. O que interessa é o resultado global de todos os projetos. No nosso caso, o êxito foi sempre mais frequente que o da média dos competidores, gerando resultados agregados positivos. O melhor de tudo foi quando descobrimos minério de tântalo, um metal de elevado ponto de fusão, muito valioso, que se usa na fabricação de capacitores eletrolíticos, instrumentos cirúrgicos e circuitos elétricos miniaturizados.


- Tântalo abundante, numa região do Amazonas que a direção queria abandonar e só foi pesquisada por causa da minha insistência e obstinação.


Muita coisa, todavia, acontecia no meu entorno, tanto na área de exploração como, principalmente, na de energia. Alguns chefes de departamento trabalhavam exaustivamente, e por todos os meios, para assumir alguma posição na direção central. A qual se enchia de gente mais estúpida que o vice-presidente, Sean G. Forthwhite, de modo que este era sempre o mais inteligente do seu círculo.
Cheio de iniciativas esdrúxulas, Sean tinha poder suficiente para levá-las adiante. Amanhecesse com uma sugestão, impraticável que fosse ou estapafúrdia, todo o sistema se ajustava para provar que se tratava de uma ideia absolutamente pertinente e inovadora; a materialidade da proposta passava ao controle dos chefes de departamento, que imediatamente geravam curvas estranhas em que a moeda era energizada em todas as contas por índices de utilidades que multiplicavam os retornos esperados e reduziam os custos exigidos pelo projeto.


- Estamos aplicando os conceitos de Bernoulli, justificavam-se, pomposamente.


Daniel Bernoulli


Infelizmente, porém, esses torneios generosos não costumam ser acolhidos pela realidade das condições de campo. Cumpre-se então a derrota inevitável. Após a execução e malogro do projeto, que jamais poderia dar certo por sua frágil concepção e superficialidade, começava a busca dos que deveriam ser escalados para assumir a responsabilidade pelo fracasso. Outros deveriam pagar pela iniciativa.


- Frustrou-se o êxito da operação, ora essa, por causa da incúria desses incompetentes, energúmenos e sabotadores morais, que não souberam implementar uma ideia revolucionária do vice-presidente. Uma ideia absolutamente revolucionária!


Assim se perderam algumas dezenas de milhões de dólares, jogados fora em projetos que não tinham nenhuma probabilidade de êxito.


(continua)