quarta-feira, 14 de março de 2012

COPÉRNICO

O COMENTARIOZINHO QUE REVOLUCIONOU A ASTRONOMIA

Na Idade Média, que a tradição estende de 476, ano da queda do Império Romano do Ocidente, até 1453, quando se deu a tomada de Constantinopla pelos turcos,
prevaleceram o sistema de produção feudal, as relações de vassalagem e suserania e a supremacia espiritual da Igreja Católica, que, no interesse de preservar a integridade das Sagradas Escrituras, subordinava a ciência à interpretação dos textos sagrados.

Tomás de Aquino

Em linha com esse desígnio, a física de Aristóteles foi resgatada por São Tomás de Aquino (1227-1274) e integrada à fé cristã, apenas descartadas as ideias aristotélicas conflitantes com os dogmas católicos, como a eternidade do mundo, contrária à doutrina da criação, e o fatalismo astrológico, contrário à doutrina da onipotência divina. No terreno da Astronomia, aceitavam-se a centralidade e fixidez da Terra, o tamanho reduzido do Universo, a distinção entre um mundo supralunar e um mundo sublunar, a esfera das fixas e, por imposição divina, o movimento circular e uniforme dos astros.

- A Terra é fixa?

- Claro, basta usar o "bom senso": nada fica para trás, os corpos que sobem verticalmente caem no mesmo lugar; nem se percebe nenhuma paralaxe estelar.

Além do "bom senso", a concepção de Aristóteles tinha a vantagem de ser operacionalizada pelo sistema geocêntrico de Ptolomeu, que permitia fazer previsões sobre as posições dos astros e a "salvava" das contradições observadas, pela utilização de um complexo sistema de epiciclos, deferentes, excêntricos e equantes.

Pequeno Comentário

Copérnico

Nicolau Copérnico (1473-1543), polonês nascido em Torun, às margens do Vístula, dedicou-se a várias atividades, como medicina, administração, direito e economia, e foi nomeado cônego de Frauemburgo, em 1497, por influência de seu tio Lucas Watzelrode, bispo de Ermland. Sua paixão era, entretanto, a Astronomia, tanto que em 1513 construiu uma torre para observar as estrelas. Gostava, a esse fim, de analisar os dados que haviam sido colhidos por outros astrônomos, sobretudo Ptolomeu. Por volta de 1514, Copérnico fez circular entre os amigos um manuscrito de 20 páginas, a que chamou de "Commentarioulus" ("Pequeno Comentário"), com uma nova visão do Universo, consubstanciada nos seguintes pontos:

1. A Terra não é o centro do Universo.

2. O centro do Universo fica próximo do Sol.

3. A distância entre a Terra e o Sol é insignificante, se comparada com sua distância às estrelas.

4. O movimento diário das estrelas é apenas aparente, como resultado do movimento de rotação da Terra em torno do seu eixo.

5. Todos os planetas giram em torno do Sol. A sequência anual aparente dos movimentos do Sol é o resultado da revolução da Terra em torno dele.

6. O movimento retrógrado de alguns planetas é também aparente, pois resulta de nossa posição de observadores colocados numa Terra em movimento.

7. A Lua, e tão-somente a Lua, gira em torno da Terra.

Esse manuscrito, que passou quase despercebido, tirava a Terra e o homem do centro do Universo, rebatendo-nos para a periferia, e acabava com a concepção de que havia um mundo supralunar e um mundo sublunar.
Copérnico não publicou o "Commentariolus", por temer uma admoestação por parte da Igreja Católica, mas continuou aprimorando seus estudos, de maneira a expandir o manuscrito para cerca de 250 páginas. O trabalho, concluído por volta de 1530, permaneceu inédito até o ano de sua morte, em 1543.

A simetria do Universo

Sistema heliocêntrico

Na verdade, Copérnico não aboliu os movimentos circulares e uniformes dos astros, nem a esfera das estrelas fixas; mostrou apenas que a Terra se movimentava e qual a posição dos astros nos movimentos, sendo o Sol, não a Terra, o centro dos movimentos planetários.
Como as leis
físicas não eram conhecidas, sua abordagem era de caráter matemático e se destinava a substituir outra abordagem matemática, a de Ptolomeu.
A motivação de Copérnico parece ter sido a de não aceitar a complexidade do sistema de Ptolomeu, com seus deferentes, epiciclos e equantes, e, no dizer de Simon Singh, autor do livro "Big Bang", sua inconformidade com esta complicação foi manifestada nos seguintes termos:

"É como se um artista produzisse as mãos, os pés, cabeça e outros membros de suas imagens a partir de modelos variados, cada parte corretamente desenhada, mas pertencente a corpos diferentes, e, como não correspondem umas às outras, o resultado seria um monstro, não um ser humano."

Copérnico admitia uma única órbita para cada planeta - Saturno a completar sua circunferência em torno do Sol em trinta anos; Júpiter, em doze; Marte, depois, com uma revolução de dois anos, seguindo-se a Terra, com a Lua a girar em torno dela; depois, Vênus, fazendo sua volta em nove meses, e Mercúrio, em oitenta dias.

- A maravilhosa simetria do Universo...
No centro de tudo, repousa o Sol. Pois, quem colocaria essa lâmpada de belo templo em melhor lugar do que esse, de onde pode iluminar tudo ao mesmo tempo? É uma feliz expressão a dos que o chamam de lanterna; outros, de mente, e outros, ainda, de piloto do mundo. Hermes Trimegisto equipara-o a um "Deus visível"; a Electra de Sófocles, "a aquilo que faz arder em chamas todas as coisas". E, assim, o Sol, como se repousando em um trono real, governa a família dos astros que o rodeiam...

Commentariolus
Observação

Urano e Netuno eram desconhecidos ao tempo de Copérnico (1473-1543) - Urano foi descoberto apenas em 1781, sendo de 84 anos seu tempo de revolução, e Netuno, em 1846, com tempo de revolução de 164 anos.

A publicação

Em 1540, George Joachim Rheticus, um admirador de Copérnico, publicou um resumo de suas ideias, a que chamou de "Narratio Prima", sem que despertasse nenhuma animosidade por parte da Igreja Católica. O fato foi determinante para que Copérnico concordasse com a publicação de sua obra final, chamada de "De Revolutionibus Orbium Coelestium", que foi à impressão em 1543, em Nuremberg, pouco antes da sua morte. O livro só seria proibido pela Igreja Católica em 1616, no âmbito das discussões de Galileu com as autoridades eclesiásticas. Infelizmente, porém, o livro de Copérnico foi publicado com um prefácio clandestino, introduzido pelo encarregado da edição, Andreas Osiander, no qual a teoria que se publicava foi apresentada como um mero algoritmo para facilitar os cálculos das distâncias.

- O modelo centrado no Sol não passa de um artifício matemático que serve aos cálculos, não à realidade.

Em seu leito de morte Copérnico, recebeu um exemplar do livro e não deve ter percebido o prefácio, que só foi descoberto como impostura por Johannes Kepler, que denunciou o fato em seu livro "Astronomia Nova", de 1609.

De Revolutionibus Orbium Coelestium

Uma carreira lenta e gradual


Note-se que Copérnico, cujo sistema heliocêntrico tirava a Terra do centro do Universo, manteve a errônea premissa dos movimentos circulares tanto quanto a esfera das estrelas fixas e tinha contra si o desastroso prefácio de Osiander. Inicialmente, “De Revolutionibus Orbium Coelestium”, lida por poucos astrônomos, interessou a alguns intelectuais e acabou adormecendo nas estantes. Tinha, porém, a força de ser a opção verdadeira e aos poucos foi conquistando adeptos, sendo aceita primeiro pelos personagens importantes, como Giordano Bruno, Galileu Galilei, Johannes Kepler, Isaac Newton e Voltaire, depois nas universidades e, finalmente, pela Igreja Católica, que em 1822 retirou o livro de Copérnico do Index Librorum Prohibitorum ("Indicador dos Livros Proibidos").

sábado, 10 de março de 2012

A ARTE DE "SALVAR O FENÔMENO"

SISTEMA GEOCÊNTRICO

Coube a Cláudio Ptolomeu (90-168), de Alexandria, construir um modelo matemático para sintetizar a antiga astronomia grega, ou seja, o pensamento que se consolidou com fundamentos esboçados desde Pitágoras até as contribuições de Platão e Aristóteles.

Cláudio Ptolomeu

Seu sistema, chamado de geocêntrico, era um construto matemático para viabilizar o modelo da "perfeição", cujas premissas eram:

- a centralidade e fixidez da Terra,

- o tamanho reduzido do Universo,

- a distinção entre um mundo supralunar e um mundo sublunar e


- o movimento circular e uniforme dos astros.


Leis Físicas

De fato, o sistema de Ptolomeu torna "operacionais" as ideias e insuficiências de seu tempo.
A crença na centralidade e fixidez da Terra decorria principalmente do desconhecimento das leis físicas (como as leis do movimento, o princípio da inércia e a lei da gravidade). Acreditavam os gregos que, se a Terra se movesse, sentíriamos o vento contra nossos corpos e todos os corpos em repouso na Terra pareceriam estar em deslocamento contrário. O próprio Ptolomeu escreveu que, se a Terra se movesse, "os pássaros que voassem no sentido do movimento não poderiam voltar para seus ninhos."
Desconheciam, com efeito, o princípio da inércia, que só seria formulado por Galileu, no início do século XVII.
Além disso, uma Terra em movimento era incompatível com a concepção grega da gravidade;
Aristóteles supunha que a Terra estava no centro do mundo por causa do seu peso. Todos os corpos têm seu lugar natural, e o lugar natural dos corpos pesados é um ponto abstrato, que chamou de "centro da Terra".
Outro motivo para crer na imobilidade da Terra era a aparente ausência de alterações nas posições das estrelas. Se a Terra se movesse, as posições das estrelas deveriam alterar-se, umas em relação às outras, por causa da paralaxe estelar. Esse entendimento decorria de não terem os gregos nenhuma ideia das enormes distâncias que nos separam das estrelas; a paralaxe existe, mas as distâncias até as estrelas, e entre elas, são tão grandes que parece não existir.


Contradições

Havia, porém, algumas questões a resolver:

(1) Se os movimentos dos astros eram circulares, tendo uma Terra fixa como centro, como explicar que os planetas ora estivessem mais próximos, ora mais longe dela?

(2) A velocidade dos planetas não permanecia imutável, variando de acordo com sua posição na órbita, o que configurava outra contradição com a premissa de movimento uniforme.

(3) Cinco planetas vagavam errantemente em torno da Terra: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. De vez em quando um deles parava e começava a andar para trás, num recuo chamado de movimento retrógrado. Como explicar isso?

Salvar o fenômeno

No contexto das concepções astronômicas gregas, usa-se a expressão "salvar o fenômeno" para fazer referência ao esforço empreendido para justificar os complicados movimentos planetários utilizando apenas movimentos circulares uniformes. No esforço de "salvar" o modelo da perfeição, contornando as três contradições mencionadas, Ptolomeu usou um complicado sistema de deferentes, epiciclos e equantes.
Para explicar as trajetórias não circulares, Ptolomeu admitiu que o planeta se move ao longo de um pequeno círculo chamado epiciclo, cujo centro se move em um círculo maior chamado deferente. A Terra fica numa posição um pouco afastada do centro do deferente (portanto o deferente é um círculo cujo centro não é a Terra). Conjugando o movimento do centro do epiciclo, movido pelo deferente, com o movimento próprio do planeta a descrever o epiciclo, tem-se um movimento resultante para definir a trajetória do astro em questão, tudo construído de modo que o astro ora se afasta, ora se aproxima, atrasa-se ou adianta-se.

(a) deferente, epiciclo, planeta
(b) trajetória resultante ( do planeta
)

Para explicar a velocidade não uniforme dos planetas, Ptolomeu introduziu o equante, que é um ponto ao lado do centro do deferente oposto à posição da Terra, em relação ao qual o centro do epiciclo se move a uma velocidade angular uniforme. O movimento uniforme não era do planeta, mas do centro do epiciclo, em relação ao equante, não em relação à Terra.

Deferente, equante, epiciclo

O deferente, o raio do epiciclo, sua velocidade e a posição do equante eram determinados matematicamente, o que dava ao Sistema de Ptolomeu um cunho de artificialidade, mas permitia explicar qualquer órbita e qualquer movimento retrógrado, só utilizando movimentos circulares e uniformes.
Ou seja, a matemática "de resultado", em que a solução desejada retroage sobre os parâmetros que a definem, é que permitiu "salvar o fenômeno". E, com tal eficiência, que Ptolomeu iria prevalecer, absoluto e em caráter exclusivo, do século II até o século XVI, quando passou a ter a concorrência do sistema heliocêntrico de Copérnico.

quarta-feira, 7 de março de 2012

DISPUTAS E OVOS LATERAIS

NEWTON VERSUS LEIBNIZ

Newton e Leibniz

Newton e Leibniz enfrentaram-se publicamente durante longos anos, disputando a glória de ter criado o cálculo infinitesimal, que engloga as derivadas e as integrais.


Leibniz , gênio alemão nascido em Leipzig, era um homem cordial, e Newton, um temperamental que gostava de triturar os que ameaçavam seu prestígio de gênio da ciência. Presidente da mais importante sociedade científica do mundo, a Royal Society, Newton a usava para obter pareceres que lhe garantiam a prioridade na disputa, que se estendeu por mais de quarenta anos e só terminou com a morte de Leibniz, em 1716.
Hoje se acredita que os dois cientistas, trabalhando independentemente, teriam chegado aos mesmos resultados, embora seja de Leibniz a notação que se aproxima daquela que os matemáticos usam universalmente:



Einstein não botou ovos laterais

Os cientistas não estão imunes aos nossos problemas e dramas. Não estão, mesmo. Houve no casamento de Einstein e Mileva Maric um mistério nunca esclarecido: a filha Lieserl, da qual só se sabe o nome, desapareceu de cena alguns dias depois de ter nascido, na Sérvia, em 1902. Esse fato só se tornou conhecido 85 anos depois, em 1987, quando as cartas de Einstein foram tornadas públicas por decisão judicial.

Einstein e Mileva

Nunca houve uma palavra, publicamente, de Einstein ou de Mileva sobre Lieserl. Uns poucos acreditam que teria morrido, ainda bebê, mas a maioria suspeita de que tenha sido dada em regime de adoção, por causa de problemas financeiros enfrentados pelo casal. Pois, naquele ano de 1902, Einstein, ainda desempregado e aguardando uma colocação no Escritório de Patentes de Berna, colocou o seguinte anúncio em um jornal suíço:

“Aulas particulares de Matemática e Física para universitários e secundaristas, dadas especialmente por Albert Einstein, professor diplomado pela Politécnica Federal - Gerechtigkeitsgasse, 32, primeiro andar. Aulas experimentais grátis.”


Gerechtigkeitsgasse, 32, residência de Einstein em Berna, 1902

Einstein e Mileva continuaram juntos por quinze anos e tiveram mais dois filhos, Hans Albert, em 1904, e Eduard, em 1910. Na década de 1930, Einstein, divorciado de Mileva desde 1918, morava com sua segunda mulher, Elsa Löwentall, em Princeton, nos Estados Unidos; foi quando um amigo residente na mesma cidade, Hermann Weyl, recebeu de um professor do Christ Church College, de Oxford, Inglaterra, um telegrama sobre uma mulher que tentava provar ser filha de Einstein:

“Senhorita Herrschdoeffer acha que é filha de Einstein. Busca apoio nos altos círculos porque não pode contar com a madrasta, Elsa Löwentall. Não duvide e comunique Einstein pessoalmente. Telegrafe em seguida. Frederick Lindemann.”

Ninguém naquela ocasião podia associar o episódio a Lieserl, cuja existência era então desconhecida de todos. Sabe-se que a secretária de Einstein, Helen Dukas, contratou para investigar o caso um detetive particular, cujas averiguações teriam indicado que se tratava de um delírio ou de uma impostura de Grete Markstein, uma atriz alemã. Einstein escreveu a respeito para um amigo, com uma ressentida pilhéria:

-Dizer que pus ovos para os lados seria engraçado, se não magoasse outras pessoas.

sábado, 3 de março de 2012

NEWTON VERSUS EINSTEIN

Pró-Newton

Eis os versos do poeta inglês Alexander Pope (1688-1744), gravados no túmulo de Isaac Newton (1642-1727), na Abadia de Westminster, em Londres, Inglaterra:


"Nature and Nature's law lay hid in night.
God sad “Let Newton be“ and all was light.
"

Em Português:


"A natureza e as leis naturais jaziam dentro da noite.
Disse Deus “Que seja Newton” e houve a luz."

Pró-Einstein

John Squire (1884-1958), outro poeta inglês, propôs acrescentar àquele epitáfio de Newton os seguintes versos:

"It did not last: the Devil (howling “Ho! Let Einstein be!”)
restored the status quo.
"

Em Português:


"Não durou: o Diabo (uivando “Oh! Einstein seja feito!”)
restaurou o status quo."

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

RENÉ DESCARTES

ÁGUA QUENTE
Descartes viveu apenas 54 anos!

O lema de Ovídio “bene qui latuit bene vixit” - “vive bem quem bem se esconde ” - foi adotado por René Descartes (1596-1650), que por ele realmente se pautou, quando, no temor do Santo Ofício, viveu alguns anos escondido na Holanda.
Desca
rtes apoiava as ideias heliocêntricas de Nicolau Copérnico, a Terra girando em torno do Sol, e sabia muito bem o que sucedera a Giordano Bruno, lançado à fogueira, em 1600, e a Galileu Galilei, condenado à prisão domiciliar e ao silêncio, em 1633. A Igreja não admitia que o homem, a criatura de Deus, fosse deslocado de seu sítio privilegiado, no centro do Universo, e passasse a orbitar mediocremente em torno do Sol.
Copérnico publicou sua teoria em 1543, mas a Igreja só a aceitaria em 1822, quase 300 a
nos depois.

Na terceira periferia

O Discurso do Método

Descartes criou a geometria analítica, uma elegante combinação de álgebra com geometria, e foi um dos pioneiros da ótica, da hidrostática e da mecânica. Teve ainda destacada atuação na filosofia, publicando obras importantes, como “Meditações” e “Princípios da Filosofia”, ambas redigidas em Latim, além do “Discurso do Método” (“Discours de la Méthode”), sugerindo um procedimento que foi decisivo na evolução da ciência.

“Não me cabe, de fato, aceitar como verdadeira nenhuma coisa que eu não conheça evidentemente como tal; devo dividir cada uma das dificuldades em tantas partes quanto possível e necessário para resolvê-las; hei de conduzir os meus pensamentos de forma organizada, começando pelos objetos mais simples, segundo uma ordem de precedência de uns em relação aos outros; ao final, encerrarei cada estudo ou pesquisa com enumerações completas e revisões gerais, para ter certeza de que nada foi omitido. Enfim, como máxima fundamental, hei de procurar sempre vencer antes a mim do que à fortuna, modificar os meus desejos antes que a ordem do mundo.”

Geometria analítica


A geometria analítica foi criada por Descartes para ilustrar o procedimento estabelecido no “Discurso do Método”.

Protagonistas e beneficiários

Boa parte do nosso conhecimento foi construída, ao longo dos séculos, por homens como Descartes, os quais muitas vezes eram filósofos, matemáticos ou físicos só por vocação e diletantismo, porque profissionalmente eram empresários, médicos, advogados ou militares. Como Lavoisier, o pai da química, que era advogado e coletor de impostos, ou Alexander Graham Bell, o inventor do telefone, que era professor de música e de elocução para surdos. Numa lenta progressão séculos afora, esses luminares começaram por introduzir a noção de força; depois, relacionando a força e a superfície onde se exerce, criaram o conceito de pressão, intuíram a energia e o trabalho mecânico, definiram a entropia e estudaram a corrente elétrica e o calor. E, com esses constructos do pensamento erudito, foram edificando teorias vitoriosas sobre mecânica, hidrostática, eletricidade, termodinâmica e acústica.
No decorrer da humanidade, os gênios trabalharam com dedicação, percebendo os fenômenos, explicando-os, relacionando-os e possibilitando o desenvolvimento de tecnologias fundamentais, de modo que, maravilha das maravilhas, ao simplesmente manusear uma torneira sou contemplado com uma generosa ducha de água quente, no banheiro do meu apartamento. Ao sair do banho, direto para o meu dia muito confortável, tomo refrigerante gelado, falo no telefone, vejo TV, chamo o elevador, ligo o carro etc, tudo com naturalidade.


Tudo bem. Merecemos todas as benesses, incluindo chinelos, automóveis, porta-retratos, copos,
geladeiras, micro-ondas, parafusos, descascadores de batatas, telefones, relógios, cabides, ar refrigerado, liquidificadores, brilhantina, camisetas, aviões, computadores, galochas, canudinhos e escadas rolantes. Mas humildade não nos falte para reconhecer que talento não é apanágio ou exclusividade do século XXI, pois somos beneficiários, principalmente beneficiários, antes e mais que protagonistas.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

PALAVRAS DE FILÓSOFOS (2)

QUEM DISSE?


(1) Tudo é feito de água.



(2) Deus está morto. Nós o matamos!
Epicuro

(3) Duas coisas enchem o meu espírito de admiração e reverência: o céu estrelado acima de mim
e a lei moral dentro de mim.


(4)
Deus não criou o mundo, mas emanou-o.


(5) Nada existe; se algo existisse, não poderia ser pensado; se algo existisse e pudesse ser pensado, não poderia, de qualquer maneira, ser explicado.


(6) Todo homem é um compêndio de história.


(7) O objetivo da vida feliz é o prazer.


(8) Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio.

Nietzsche
(9) A matéria não existe: é uma ideia da mente.


(10) Existem vícios benéficos e virtudes perniciosas.


CONFIRA AS RESPOSTAS


(1)
Tales de Mileto (cerca de 624 - 545 a.C.)


(2)
Friedrich Nietzsche (1844 - 1900)


(3)
Immanuel Kant (1724 - 1804)


Croce
(4)
Plotino (204- 270)



(5)

Górgias de Leontinos (cerca de 485 -378 a. C.)


(6)
Benedetto Croce (1866 - 1952)



(7)
Epicuro (341 - 270 a. C.)


(8)
Heráclito de Éfeso (cerca de 540 - 480 a. C.)



(9)
George Berkeley (1685 - 1753)
Kant

(10)
Nicolau Maquiavel (1469 - 1527)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

PALAVRAS DE FILÓSOFOS (1)

QUEM DISSE?

(1) Penso, logo existo.



(2) Sábio é aquele que sabe que nada sabe.


(3) Deus é natureza naturante; o homem, natureza naturada.

Pascal
(4) A discórdia é a peste, e a tolerância, o remédio.


(5) A única solução é esquecer que se existe.


(6)
O coração tem razões que a própria razão desconhece.


(7) A música é uma harmonia de números.



(8) Todo conhecimento é uma recordação.

Sócrates
(9) O homem é a medida de todas as coisas.


(10) Nas mãos do homem, tudo degenera.



CONFIRA AS RESPOSTAS


(1)
René Descartes (1596-1650)



(2)

Sócrates (470 -399 a. C.)


(3)
Baruch Espinosa (1632 - 1677)

Espinosa
(4)
François Marie Arouet de Voltaire (1694 - 1778)



(5)
Arthur Schopenhauer (1788 - 1860)


(6)
Blaise Pascal (1623 - 1662)


(7)
Pitágoras (cerca de 570 - 500 a. C.)


(8)
Platão (428 - 347 a. C.)


(9)
Protágoras (483 - 410 a. C.)
Voltaire

(10)
Jean-Jacques Rousseau (1712 - 1778)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

WALT WITHMAN

O Me! O Life!

O Me! O life!... of the questions of these recurring;
Of the endless trains of the faithless, of cities fill’d with the foolish;
Of myself forever reproaching myself, (for who more foolish than I, and who more faithless?)

Of eyes that vainly crave the light, of the objects mean, of the struggle ever renew’d;

Of the poor results of all, of the plodding and sordid crowds I see around me;

Of the empty and useless years of the rest, with the rest me intertwined;
The question (O me!) so sad, recurring:


What good amid these, O me, O life?

Answer:


That you are here—that life exists, and identity;
That the powerful play goes on, and you will contribute a verse.


Ó Eu! Ó Vida!

Ó eu! Ó vida!... das questões que sempre reaparecem;
Das legiões sem conta dos que não têm fé, das cidades repletas de tolos;

De mim próprio sempre a me censurar (pois, quem seria mais tolo que eu e quem teria menos fé?)

Dos olhos que inutilmente anseiam pela luz, das coisas ordinárias, do esforço sempre renovado;

Dos medíocres resultados de tudo, das multidões trôpegas e sórdidas que vejo no meu entorno;

Dos anos vazios e inúteis de todo o resto, eu integrado nesse resto;

Vem a questão (ó eu!) tão triste, recorrente:

O que há de bom no meio de tudo isso, ó eu, ó vida?

Resposta:


Você está aqui - a vida existe, e existe a identidade;
O poderoso espetáculo vai continuar, e você pode
contribuir com um verso.

Walt Whitman (1819-1892)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

JOHN DALTON

UM QUACRE PROVINCIANO NA HISTÓRIA DO ÁTOMO

A ideia do átomo, introduzida no século V a. C. por Leucipo e Demócrito, ambos de Abdera, só seria retomada de forma objetiva no limiar do século XIX, com os trabalhos de John Dalton (1766- 1844), um simplório quacre que se projetou no mundo da ciência após haver estudado por conta própria na aldeia de Cockermouth, no norte da Inglaterra.

Demócrito

Os modernos conceitos de átomos, moléculas, elementos e compostos químicos foram apresentados por ele em 1808, e tão convincente
se houve nesse mister que em vinte anos sua teoria foi assumida em todo o mundo, embora muitos cientistas de renome se recusassem a aceitá-la.
Um dos que se opuseram à existência real dos átomos foi Ernest Mach, célebre professor da Universidade de Viena:


- Átomos e moléculas existem apenas na imaginação, como objetos do pensamento.


Ernest Mach

Essa polêmica arrastou-se por quase cem anos e incluiu episódios dramáticos, como o suicídio de Ludwig Boltzmann, um de seus defensores, e só foi resolvida no começo do século XX, tomando por base um artigo de Albert Einstein publicado em 1905. Pois nesse artigo Einstein explicou o movimento irregular dos grãos de pólen suspensos na água, conhecido como movimento browniano, como sendo decorrente do choque do pólen com as moléculas de água, estas como postuladas por Dalton.

Murray Gell-Mann

Uma sucessão de experiências, nos anos que se seguiram, permitiu que se penetrasse na intimidade dos átomos e se desvendasse o seu interior. Nomes importantes da ciência na formulação do conceito atual dos modelos atômicos são os de J. J. Thomson, Ernest Rutherford, Niels Bohr, Erwin Schrödinger, De Broglie, Heisenberg, James Chadwick e Murray Gell-Mann.

Tenha a bondade de aguardar

Dalton

Embora suas ideias tenham permanecido no terreno das hipóteses pelo resto da sua vida, Dalton tornou-se famoso mundialmente. Conta-se que em 1826 o químico francês Pierre Joseph Pelletier viajou a Manchester, na Inglaterra, especialmente para conhecê-lo.
Pelletier, que era uma celebridade, espantou-se ao encontrar John Dalton ensinando operações aritméticas elementares a um menino, no pátio de uma escola de subúrbio.


- É verdade que estou tendo a honra de dirigir-me ao senhor John Dalton?


- Sim, respondeu Dalton, com simplicidade. Tenha a bondade de aguardar, pois estou muito ocupado neste momento.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

WOLFGANG PAULI

Pintar o teto da Capela Sistina

Desde 1897, quando o elétron foi descoberto pelo britânico Joseph John Thomson (1856-1940), os cientistas foram paulatinamente revelando a existência de muitas outras partículas subatômicas, algumas delas exóticas.


Glória e façanha é pintar o teto da Capela Sistina, compor uma sinfonia de Mahler, como também (por que não?) descobrir uma partícula subatômica usando apenas as quatro operações aritméticas. Foi o que fez o austríaco Wolfgang Pauli (1900-1958), Prêmio Nobel de Física, de 1945: ao observar o que acontece quando um nêutron se desdobra num próton e num elétron, no fenômeno conhecido como decaimento beta, Pauli calculou que havia uma diferença entre a energia das partículas, antes e depois do desdobramento, e para explicá-la postulou, em 1930, a existência de uma partícula que não pode ser percebida, por ter massa insignificante e carga elétrica nula, que tudo atravessa e que não interfere com nada.

- Somos constantemente atravessados por ela, em quantidades avassaladoras e à velocidade da luz.

- Não seria essa partícula fantasmal uma metáfora matemática, considerando que ninguém teve, ainda, o privilégio de vê-la, nem de senti-la?

Pauli confiava nos princípios da Física.

- Ela existe. Se não existir, estará violado o princípio da conservação da energia.

O físico italiano Enrico Fermi propôs dar a essa partícula o nome afetuoso de neutrino (neutronzinho), em virtude da sua neutralidade excepcional.

Wolfgan Pauli


Em 1956 os físicos Clyde Cowan, Frederick Reines, F. B. Harrison, H. W. Kruse e A. D. McGuire detetaram o neutrino no reator Hanford, em Washington, o que foi comunicado pela publicação, na revista Science, do artigo "Deteção do neutrino livre: uma confirmação".

- O neutrino é o triunfo do sutil, conformou-se o astrofísico francês Michel Cassé.

Um toureiro, vá lá...

Há cientistas que têm o hábito de desdenhar dos profissionais de outras áreas. O físico Ernest Rutherford (1871-1937) disse certa vez:

- Ciência é Física. O resto, coleção de selos.

Só por ironia Rutherford, que era um brilhante experimentador, ganhou o Prêmio Nobel de Química, em 1908. Não o de Física, mas o de Química!

Wolfgang Pauli, o gênio capaz de uma Capela Sistina, ou melhor, de descobrir partículas desconhecidas fazendo continhas, pautava-se por sentimentos análogos aos de Rutherford em relação aos outros cientistas. Até nas suas desilusões amorosas. Ao saber que sua esposa, Käthe Margarethe Deppner, o trocara por um químico, reagiu com as seguintes palavras:

- Se tivesse escolhido um toureiro, tudo bem. Mas, um químico... Não posso entender!