sábado, 18 de fevereiro de 2012

WALT WITHMAN

O Me! O Life!

O Me! O life!... of the questions of these recurring;
Of the endless trains of the faithless, of cities fill’d with the foolish;
Of myself forever reproaching myself, (for who more foolish than I, and who more faithless?)

Of eyes that vainly crave the light, of the objects mean, of the struggle ever renew’d;

Of the poor results of all, of the plodding and sordid crowds I see around me;

Of the empty and useless years of the rest, with the rest me intertwined;
The question (O me!) so sad, recurring:


What good amid these, O me, O life?

Answer:


That you are here—that life exists, and identity;
That the powerful play goes on, and you will contribute a verse.


Ó Eu! Ó Vida!

Ó eu! Ó vida!... das questões que sempre reaparecem;
Das legiões sem conta dos que não têm fé, das cidades repletas de tolos;

De mim próprio sempre a me censurar (pois, quem seria mais tolo que eu e quem teria menos fé?)

Dos olhos que inutilmente anseiam pela luz, das coisas ordinárias, do esforço sempre renovado;

Dos medíocres resultados de tudo, das multidões trôpegas e sórdidas que vejo no meu entorno;

Dos anos vazios e inúteis de todo o resto, eu integrado nesse resto;

Vem a questão (ó eu!) tão triste, recorrente:

O que há de bom no meio de tudo isso, ó eu, ó vida?

Resposta:


Você está aqui - a vida existe, e existe a identidade;
O poderoso espetáculo vai continuar, e você pode
contribuir com um verso.

Walt Whitman (1819-1892)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

JOHN DALTON

UM QUACRE PROVINCIANO NA HISTÓRIA DO ÁTOMO

A ideia do átomo, introduzida no século V a. C. por Leucipo e Demócrito, ambos de Abdera, só seria retomada de forma objetiva no limiar do século XIX, com os trabalhos de John Dalton (1766- 1844), um simplório quacre que se projetou no mundo da ciência após haver estudado por conta própria na aldeia de Cockermouth, no norte da Inglaterra.

Demócrito

Os modernos conceitos de átomos, moléculas, elementos e compostos químicos foram apresentados por ele em 1808, e tão convincente
se houve nesse mister que em vinte anos sua teoria foi assumida em todo o mundo, embora muitos cientistas de renome se recusassem a aceitá-la.
Um dos que se opuseram à existência real dos átomos foi Ernest Mach, célebre professor da Universidade de Viena:


- Átomos e moléculas existem apenas na imaginação, como objetos do pensamento.


Ernest Mach

Essa polêmica arrastou-se por quase cem anos e incluiu episódios dramáticos, como o suicídio de Ludwig Boltzmann, um de seus defensores, e só foi resolvida no começo do século XX, tomando por base um artigo de Albert Einstein publicado em 1905. Pois nesse artigo Einstein explicou o movimento irregular dos grãos de pólen suspensos na água, conhecido como movimento browniano, como sendo decorrente do choque do pólen com as moléculas de água, estas como postuladas por Dalton.

Murray Gell-Mann

Uma sucessão de experiências, nos anos que se seguiram, permitiu que se penetrasse na intimidade dos átomos e se desvendasse o seu interior. Nomes importantes da ciência na formulação do conceito atual dos modelos atômicos são os de J. J. Thomson, Ernest Rutherford, Niels Bohr, Erwin Schrödinger, De Broglie, Heisenberg, James Chadwick e Murray Gell-Mann.

Tenha a bondade de aguardar

Dalton

Embora suas ideias tenham permanecido no terreno das hipóteses pelo resto da sua vida, Dalton tornou-se famoso mundialmente. Conta-se que em 1826 o químico francês Pierre Joseph Pelletier viajou a Manchester, na Inglaterra, especialmente para conhecê-lo.
Pelletier, que era uma celebridade, espantou-se ao encontrar John Dalton ensinando operações aritméticas elementares a um menino, no pátio de uma escola de subúrbio.


- É verdade que estou tendo a honra de dirigir-me ao senhor John Dalton?


- Sim, respondeu Dalton, com simplicidade. Tenha a bondade de aguardar, pois estou muito ocupado neste momento.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

WOLFGANG PAULI

Pintar o teto da Capela Sistina

Desde 1897, quando o elétron foi descoberto pelo britânico Joseph John Thomson (1856-1940), os cientistas foram paulatinamente revelando a existência de muitas outras partículas subatômicas, algumas delas exóticas.


Glória e façanha é pintar o teto da Capela Sistina, compor uma sinfonia de Mahler, como também (por que não?) descobrir uma partícula subatômica usando apenas as quatro operações aritméticas. Foi o que fez o austríaco Wolfgang Pauli (1900-1958), Prêmio Nobel de Física, de 1945: ao observar o que acontece quando um nêutron se desdobra num próton e num elétron, no fenômeno conhecido como decaimento beta, Pauli calculou que havia uma diferença entre a energia das partículas, antes e depois do desdobramento, e para explicá-la postulou, em 1930, a existência de uma partícula que não pode ser percebida, por ter massa insignificante e carga elétrica nula, que tudo atravessa e que não interfere com nada.

- Somos constantemente atravessados por ela, em quantidades avassaladoras e à velocidade da luz.

- Não seria essa partícula fantasmal uma metáfora matemática, considerando que ninguém teve, ainda, o privilégio de vê-la, nem de senti-la?

Pauli confiava nos princípios da Física.

- Ela existe. Se não existir, estará violado o princípio da conservação da energia.

O físico italiano Enrico Fermi propôs dar a essa partícula o nome afetuoso de neutrino (neutronzinho), em virtude da sua neutralidade excepcional.

Wolfgan Pauli


Em 1956 os físicos Clyde Cowan, Frederick Reines, F. B. Harrison, H. W. Kruse e A. D. McGuire detetaram o neutrino no reator Hanford, em Washington, o que foi comunicado pela publicação, na revista Science, do artigo "Deteção do neutrino livre: uma confirmação".

- O neutrino é o triunfo do sutil, conformou-se o astrofísico francês Michel Cassé.

Um toureiro, vá lá...

Há cientistas que têm o hábito de desdenhar dos profissionais de outras áreas. O físico Ernest Rutherford (1871-1937) disse certa vez:

- Ciência é Física. O resto, coleção de selos.

Só por ironia Rutherford, que era um brilhante experimentador, ganhou o Prêmio Nobel de Química, em 1908. Não o de Física, mas o de Química!

Wolfgang Pauli, o gênio capaz de uma Capela Sistina, ou melhor, de descobrir partículas desconhecidas fazendo continhas, pautava-se por sentimentos análogos aos de Rutherford em relação aos outros cientistas. Até nas suas desilusões amorosas. Ao saber que sua esposa, Käthe Margarethe Deppner, o trocara por um químico, reagiu com as seguintes palavras:

- Se tivesse escolhido um toureiro, tudo bem. Mas, um químico... Não posso entender!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ZÉ FLORES E A CACHORRADA

A ECONOMIA, IDIOTA!

Na infância, lá nas profundezas de Minas Gerais, o advogado Zé Flores foi uma vítima constante dos cães de rua, que sobre ele avançavam sem nenhuma motivação, nem constrangimento. Lembra-se de que tinha de andar pela cidade com muito cuidado, mas nem sempre conseguia escapar das mordidas dos vira-latas, o que explica as cicatrizes que carrega em ambas as pernas. Outras crianças, mesmo que estivessem com ele, nunca eram molestadas, muito menos os adultos.


- Por que só avançam em mim?

- Os cães sentem o cheiro do seu medo, dizia-lhe o pai.

Até hoje, decorridos tantos anos, o advogado sente calafrios quando passa perto de um cachorro. Daí o seu desespero, quando, há oito meses, Dona Clarinha comprou o apartamento do terceiro andar. Ela veio com dezesseis cães! Dizem que é milionária e tem cento e cinquenta cachorros, entre grandes e pequenos, que ficam concentrados no sítio de Guapimirim, pelas bandas de Teresópolis. Lá, num canil que é coisa de cinema, um veterinário de dedicação exclusiva consulta diariamente a saúde dos animais, que, além disso, têm à sua disposição os serviços de dois tratadores profissionais. Junto de si, onde quer que esteja, a mulher tem sempre dezesseis cães, dos quais doze são substituídos a cada mês, enquanto os preferidos Tartufo, Michael Jordan, Branquinha e Almodóvar constituem a parte fixa da cachorrada. Quando descia para passear, Dona Clarinha era seguida por uma fila indiana de vira-latas, puxada pelo Tarturfo.



Se um dos animais saía da fila ou se atrasava, era prontamente admoestado pela dona:

- Vê se te emenda Branquinha!

- Vai ficar de castigo, Riquelme!

- Você não me engana, não, Rigoletto!

Era irritante aguardar que os dezesseis cachorros deixassem o elevador ou que desobstruíssem a saída de serviço. Sem contar o medo do Zé de que algum deles avançasse sobre suas pernas. Decidiu levar a questão ao síndico, que, embora também incomodado com o fato inusitado, não viu na convenção do condomínio nenhum dispositivo que pudesse ser usado contra Dona Clarinha.
Modus in rebus, retrucou Zé Flores, que tinha um inesgotável repertório de frases latinas. Podemos discutir o assunto no âmbito do artigo 31 da convenção. Veja aqui: “Alterações deste regulamento serão acolhidas, em Assembleia Geral, sempre que tiverem o apoio de dois terços dos condôminos em dia com suas obrigações condominiais”.

- Ótima ideia!


Convocada a reunião, Dona Clarinha afirmou que tinha lido a convenção do condomínio antes de comprar o apartamento. Nenhuma restrição a cães, que não eram sequer mencionados em nenhum lugar do texto.

- Estou amparada pela convenção do condomínio!

- Engana-se, disse o síndico. A senhora não leu o artigo 31.

- Li, sim, e o artigo não faz nenhuma menção a cachorro.

- A convenção pressupunha a existência de moradores convencionais, com perdão do trocadilho. Não sendo o caso, recorre-se ao artigo 31.

Nesse ponto José Flores entrou na discussão, pronto para colocar seu plano em ação.

- Dona Coisinha...


- Dona Coisinha, não senhor. Dona Clarinha!

- Eu disse Dona Clarinha, a senhora é que me entendeu mal. Outro dia fui hostilizado pelo Michael Jackson...

- Michael Jordan.

- Seus cachorros são imundos e fedorentos e infestam o edifício de pulgas!

- Como ousa dizer isso? Dou banho nos dezesseis cachorros pelo menos uma vez por dia!

- Aí está o que queríamos saber. Seus dezesseis cachorros acarretam um colossal desperdício de água. Por isso é que a conta de água do condomínio é tão alta. Um absurdo, total e definitivo!

Colocada a matéria em votação, só a dona votou pelos cachorros. Clarinha, que teve sessenta dias de prazo para sumir com os animais, decidiu vender o apartamento e mudou-se resignadamente, levando a cachorrada para longe.


- Foi assim a grande vitória de Zé Flores sobre os cachorros.

- Bastou mexer com o bolso dos eleitores, explicou ele.

- Funcionou.

- Funciona sempre. Pois, conforme disse James Carville, guru eleitoral de Bill Clinton, o que decide as votações é a economia. A economia, idiota!

sábado, 4 de fevereiro de 2012

LEI DE PARKINSON

Trabalho vegetativo


Em 1957 o professor Cyril Northcote Parkinson publicou na Inglaterra “
A Lei de Parkinson”, um livro, irônico e divertido, que introduziu, no terreno da Administração Empresarial, o que se convencionou chamar de “Escola do Absurdo”.
Parkinson manifesta no livro o entendimento de que o ocioso tem de ocupar-se, e muito, para preencher seu tempo disponível.
Seu exemplo é o de uma vovó que passa o dia cuidando de fazer um bilhete para alguém que mora numa cidade vizinha. Uma hora será gasta buscando os óculos; outra, procurando papel e caneta; duas horas, fazendo a redação do bilhete; vinte minutos, tentando encontrar o endereço; uma hora e meia, decidindo como se deslocar até o correio; e por aí vai. No final do dia, a boa velhinha estará exausta e aborrecida com os procedimentos que a tarefa lhe exigiu.

- Alguém de fato atarefado não gastaria nesse bilhete mais do que cinco minutos.


Nas empresas tudo se passa de maneira semelhante, valendo então a Lei de Parkinson, que tem um enunciado curioso, mas simples e direto:

“O trabalho aumenta para preencher o tempo disponível.”


É na verdade uma lei de crescimento vegetativo do trabalho, pois há uma tendência natural de aumentar o tempo disponível e, pois, o trabalho para preenchê-lo. Nas grandes empresas, um fator exacerba a aplicação da lei: o número de empregados de uma empresa ou organização tende a aumentar em progressão geométrica, independentemente dos níveis correntes de produção. Em consequência, sendo maior o tempo disponível agregadamente, os diversos chefes são obrigados a criar trabalho, uns para os outros.

Tudo começa quando o candidato a chefe quer tirar férias ou ter a faculdade de ausentar-se do local de trabalho, para ir ao médico, frequentar algum curso ou comparecer a palestras e reuniões de trabalho, sem ser impedido pelo fato de trabalhar sozinho. Ele almeja ter pelo menos dois subordinados, pois ficará com a vantagem de ser o único a entender a totalidade do serviço assim repartido, sem contar que o subordinado único seria um candidato potencial ao seu lugar de chefe. Ou seja, pensa em subordinados, não em rivais.
Admitidos os dois subalternos, com o passar do tempo, e pelos mesmos motivos, cada um destes almejará a contratação de mais dois auxiliares, de maneira a ter-se a possibilidade de, ao fim e ao cabo, estarem sete pessoas a executar uma tarefa antes confiada a apenas uma.


O número de pessoas de uma organização tende, por esse mecanismo, a elevar-se geometricamente, quer a produção aumente, diminua ou permaneça constante, seja na administração pública, seja na administração privada.
A consequência é mais tempo disponível e, pois, mais trabalho a ser criado para preenchê-lo. Caberá aos chefes inventarem trabalho uns para os outros, o que explica os despachos, citações, emendas, acréscimos, lembretes e observações, e as sucessivas idas e vindas dos processos que fundamentam as decisões. Além das reuniões inumeráveis.

- Isso é despiciendo...

- Tudo com a finalidade de preencher tempo disponível.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Ladrões de Bicicleta

POR QUE O MENINO CHOROU?


Jano, o deus romano de duas cabeças, era considerado o deus das indecisões, pois, enquanto uma cabeça pensava uma coisa, a outra cabeça pensava a coisa contrária - uma metáfora poderosa para simbolizar as dificuldades que enfrentamos quando temos de decidir sobre alguma coisa.
Sem falar que há questões que são realmente indecidíveis.


Um exemplo parece ser o da história do filme Nós Que Nos Amávamos Tanto, do Ettore Scola, em que o personagem Nicola responde sobre Vittorio De Sica, habilitando-se a um prêmio milionário, num quadro televisivo que se chamava "Lascia o raddoppia" ("Perde ou dobra").
No programa decisivo, ao candidato foi dirigida a seguinte pergunta:

- Por que o menino chorou no final do filme Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica?



Qualquer pessoa normal que tivesse visto o filme responderia que o menino chorou porque viu o pai sendo espancado; o candidato não era, porém, uma pessoa normal, mas alguém que sabia tudo sobre De Sica. Sabia, por exemplo, que, para fazer chorar o ator amador Enzo Staiola, que fazia o menino Bruno, De Sica ordenou aos assessores que colocassem cigarros em seu bolso e o acusassem de roubo. Ofendido, o menino começou a chorar de verdade, aparecendo assim no filme imortal.
Não iriam perguntar-me o que todos sabem, pensou Nicole. Foi por isso que o personagem de Scola respondeu:

- O menino chorou porque o acusaram de haver roubado os cigarros que estavam no seu bolso.



A resposta foi considerada errada, e o candidato perdeu o prêmio, pois, segundo a produção do programa, o menino chorou porque viu o pai ser espancado.
Nicola nunca se conformou com esse desfecho, acreditando que, se tivesse optado por esta outra resposta, perderia do mesmo jeito, porque nesse caso a televisão diria que o choro ocorreu por causa dos cigarros.

Um exemplo de questão indecidível.

sábado, 28 de janeiro de 2012

BIOGRAFIAS

Conversas íntimas


- Não confio nas biografias.
- Nem nas idôneas?
- Refiro-me somente às idôneas.
- Por quê?
- Porque o biógrafo tem de suprir as eventuais lacunas com suposições.
- Como assim?
- É necessário inventar de forma verossímil as realidades desconhecidas.
- Mentiras verdadeiras, é isso?
- Verdadeiras mentiras. Há de ser assim, ou não haverá uma biografia fechada, quer dizer, completa. Dificilmente alguém dirá "vamos saltar o ano de 1997 por insuficiência de informações." Daí as ilações. Narradores diferentes, ilações diferentes, biografias diferentes.
- Mas isso vale para tudo: reportagens, pesquisas científicas, previsões do tempo, jogos de futebol, crônicas sociais etc.
- Um evento tem muitas versões, dependendo do narrador e das informações que ele possui.
- Meio complicado, pois distorcê-lo me parece a consequência....
- Lembre-se de que a minha hipótese só contempla o autor idôneo.


- Por que você levantou esse assunto?
- Li outro dia uma biografia do falecido Arnaldo Leviatã.
- O senador?
- Sim, escrita pela Aurora Leviatã, sua filha. Ela vê o pai como um perfeito chefe de família, excelente orador e homem público identificado com o melhor interesse nacional.
- Uma versão filial.
- Ela não sabia que Leviatã tinha uma amante. Possuindo essa informação, provavelmente teria escrito uma biografia diferente.
- Se quisesse.
- Além disso, o senador era pouco inteligente, mas muito esforçado. Seus discursos eram escritos por assessores, e ele os decorava, treinando horas a fio diante do espelho. Por que nunca concedia nenhum aparte? Porque não saberia replicar o que não havia decorado. Todos o tinham como um Demóstenes e, no entanto, não passava de um ator de segunda categoria, a despejar textos alheios. Isso não daria uma terceira biografia?
- Com certeza.
- E se eu lhe disser que Aurora Leviatã não é filha dele, mas do amante de sua mãe, de cuja existência nem pai nem filha jamais chegaram a saber?
- Isso complica a coisa toda.
- É praticamente impossível saber sobre a vida de alguém de maneira integral, nem o saberia a própria pessoa a ser biografada. É uma característica absolutamente geral, extensível a todos, sem exceção, pois nem biógrafos nem biografados conhecem a totalidade dos fatos da pessoa a ser biografada. Eu tenho uma versão de mim, talvez a mais próxima da verdade, mas uma versão. Como há lacunas, é necessário supri-las...
- É, versões, Boca de Ouro...
- Por isso eu jamais quereria ser jurado, e ter de decidir entre a verdade da acusação e a verdade da defesa, que costumam ser opostas.
- E mutuamente excludentes.
- Comme il faut. E você, no meio, condenando ou absolvendo.

- Decidindo indecididamente.

- Como no Paradoxo do Mentiroso....


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A FLECHA QUE VOA, MAS NÃO VOA

PAUL VALERY E ZENÃO DE ELEIA



O paradoxo da flecha voadora foi usado por
Zenão de Eleia (495 a.C.-430 a.C.) para contestar nosso entendimento sobre pluralidade e movimento.
Argumentava Zenão que uma flecha disparada fica imóvel em cada instante, pois, do contrário, ocuparia várias posições num só instante, o que é impossível. Se o tempo é feito de uma pluralidade de instantes, segue-se que a seta permanecerá sempre imóvel, contrariamente ao que se observa. Ou, dizendo de outra maneira, se o espaço e o tempo são discretos, então uma flecha não pode se mover através do ar, pois a cada instante de tempo ela está em um ponto definido e, portanto, em repouso naquele instante. No instante seguinte ela também estará em repouso e assim sucessivamente, ou seja, em repouso para sempre.

Na década de 1920, o filósofo e matemático inglês Bertrand Russell (1872-1970) considerou os paradoxos de Zenão como extremamente sutis e profundos.

Paul Valery

Paul Valery (1871-1945), um poeta que tinha interesse em música, matemática e filosofia, também se encantou com os jogos intelectuais de Zenão. No seu celebrado poema “Le cimetière marin”, Valery invoca o paradoxo da flecha em admiráveis versos decassílabos:

Zénon! Cruel Zénon! Zénon d'Êlée!
M'as-tu percé de cette flèche ailée

Qui vibre, vole, et qui ne vole pas!

Le son m'emporte et la flèche me tue!


Numa tradução livre:

Zenão! Cruel Zenão! Zenão de Eleia!

Tu me feriste com tua flecha alada,

Que vibra, voa, e que não voa nada!

O som me enleva, e a flecha me mata!

Pluralidade e mudança

- Seu paradoxo não tem correspondência na realidade, disse um vizinho a Zenão. Todos sabemos que a flecha disparada sempre sai de um ponto e alcança outro, ou seja, há algo errado no seu raciocínio.

- Claro, retrucou Zenão. Mas não basta apontar o absurdo, temos de explicá-lo. E eu explico:
a pluralidade não existe, e a mudança é impossível.

sábado, 21 de janeiro de 2012

PARADOXO DE FERMI

Onde estão eles?

Muitos creem que não somos os únicos atores inteligentes no Universo e defendem a existência de seres extraterrestres, em sistemas solares que tenham condições semelhantes ou até mais favoráveis do que as que propiciaram a vida inteligente na Terra. Pois o Universo visível possui cerca de 10 bilhões de trilhões de estrelas, com, provavelmente, muitos bilhões de sistemas planetários semelhantes ao nosso Sistema Solar.

- Então, onde eles estão?, perguntou na década de 1950 o físico italiano Enrico Fermi (1901 - 1954), prêmio Nobel de Física (1938) e responsável pela construção do primeiro reator atômico, desenvolvido na Universidade de Chicago.

Enrico Fermi

Essa pergunta configura o que ficou conhecido como o “Paradoxo de Fermi”. Subjacentemente à indagação, existe o raciocínio de que, passados 15 bilhões de anos desde o Big Bang, e com tantos sistemas planetários, deviam ter surgido civilizações extraterrestres mais velhas e mais novas, mais adiantadas e mais atrasadas, cuja existência fosse percebida de alguma forma pelos habitantes da Terra.

- Mas seus sinais não nos chegam, nem os de rádio, muito menos sondas ou espaçonaves, configurando-se um autêntico paradoxo - o paradoxo de Fermi.


Na Hungria


Leo Szilard

Consta que Fermi fez sua pergunta aos físicos que se encontravam no refeitório de Los Alamos, o Laboratório Nacional dos Estados Unidos, no Novo México, fundado durante a Segunda Guerra Mundial, que ao tempo de Fermi esteve engajado no esforço de desenvolvimento da primeira bomba atômica.
Corre a versão de que Leo Szilard, o húngaro brincalhão, teria respondido na hora:

- Eles já estão há algum tempo
por aqui. Mas chamam a si próprios de húngaros.

A resposta de Szilard gerou uma lenda jocosa, corrente entre os físicos, segundo a qual há milhões de anos os marcianos deixaram seu planeta e pousaram onde hoje é a Hungria. Misturaram-se aos macacos que habitavam a Terra, adaptando-se a eles e assimilando suas feições, e são hoje caracterizados pela propensão para viajar (os húngaros espalham-se por todo o mundo), por sua língua, diferente de todas as demais, e inteligência (muitas das melhores mentes de Los Alamos eram húngaras.)



Possíveis Soluções Para o Paradoxo de Fermi

(1) Eles existem, mas ainda não se comunicaram conosco.

(2) Eles estão por aí, mas não querem contato conosco.


(3) Eles não existem.



Carl Sagan
Sagan

- Às vezes acredito que há vida em outros planetas, às vezes acredito que não. O que é mais assustador, a idéia de extraterrestres em mundos estranhos, ou a idéia de que, em todo este imenso Universo, nós estamos sozinhos?

- Seja como for,
se nós estamos sozinhos, o Universo é um grande desperdício de espaço.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

UM CARDINAL CIVILIZADO

A revolução feita pelo zero

Nos sistemas de numeração sem o zero, como eram o egípcio, o babilônico, o chinês e o romano, uma infinidade de símbolos era necessária para representar todos os números. Na numeração egípcia, por exemplo, um milhão era representado por uma pessoa de joelhos, com os braços dirigidos para cima, como se estivesse demonstrando aos céus sua perplexidade diante de um número tão desconcertante e avassalador.


Com o zero, diferentemente, qualquer número imaginável passou a ser facilmente representado, adotando-se a numeração indo-arábica, que requer apenas nove algarismos significativos, para além do zero.
O valor representado por qualquer algarismo na numeração com o zero depende da sua posição dentro do número, que define a potência de 10 pela qual deve ser multiplicado para obter o seu valor na composição do número. Por exemplo, no número 827, só o 7 mantém o seu valor nominal, pois o algarismo 2 representa duas vezes 10 e o algarismo 8, oito vezes 100, com a respectiva potência de 10 escolhida pela posição relativa de cada algarismo no número.


Além disso, o zero, se presente diretamente no número, estará indicando uma potência de dez a ser considerada, mas vazia, permitindo distinguir, por exemplo, 12 de 102 ou de 1.020.
Um sistema de numeração assim concebido permite operações aritméticas sem auxílio de nenhum instrumento, o que não era possível com numerações baseadas em outras concepções, como os algarismos romanos. Com efeito, é muito fácil e prático dividir 817 por 43 para obter 19, mas dividir DCCCXVII por XLIII para obter XIX, na representação com algarismos romanos, é tarefa situada para além das nossas habilidades e capacitação.
Por isso mesmo, antes do zero
essas operações eram feitas com auxílio de ábacos.

Onde surgiu

A formulação do conceito de zero e sua introdução como base do sistema de numeração parece terem ocorrido em torno do ano 500 da nossa era. Essa proeza, uma das mais importantes da matemática, é geralmente atribuída aos indianos.
Os árabes tomaram conhecimento desse sistema de numeração por volta do ano 710, nas suas cruzadas islâmicas pela Índia.

Estátua de Al-Khowarizmi

Por volta de 840 o árabe Al-Khowarizmi (780-850) estabeleceu regras orientadoras para facilitar as quatro operações com base na numeração indo-arábica.
A palavra “algoritmo” deriva de Al-khowarizmi, e “álgebra”, de “al-jahr”, palavra árabe que significa "equação".
Outro árabe importante na formulação do sistema de numeração baseado no zero foi Omar Khayam (1048-1131), matemático, poeta e autor dos 75 poemas do Rubayat. Khayam desenvolveu métodos que ampliaram as técnicas de Al-Khowarizmi e formulou uma disposição triangular dos números para facilitar o cálculo das potências matemáticas.


Omar Khayam

Popularização

Não foi nada fácil disseminar o conceito de zero, no passado em que a necessidade das pessoas não ultrapassava as tarefas de contar suas plantas e animais ou definir a extensão de suas terras. Seja como for, o zero entrou na Europa por volta do ano 1000, pela via das universidades mouras, na Espanha, e com os sarracenos, na Sicília. Consta que o estudioso francês Gerbert de Aurillac aprendeu o novo sistema com os mouros e depois, já como Papa Silvestre II, estimulou sua introdução nas escolas e universidades de diversos países europeus.
A popularização do sistema de numeração indo-arábico só se tornaria efetiva a partir de 1202, o ano em que Leonardo Pisano, o Fibonacci, publicou o Liber Abaci, um livro que mostrava como era essa numeração e como as operações aritméticas poderiam ser feitas, a partir dela, sem recorrer aos ábacos.


Fibonacci

Não sem razão, o filósofo-matemático inglês Alfred North Whitehead (1861-1947) considerou o zero o mais civilizado dos cardinais, por ter surgido em decorrência e por necessidade das formas cultas de pensamento.