quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Ladrões de Bicicleta

POR QUE O MENINO CHOROU?


Jano, o deus romano de duas cabeças, era considerado o deus das indecisões, pois, enquanto uma cabeça pensava uma coisa, a outra cabeça pensava a coisa contrária - uma metáfora poderosa para simbolizar as dificuldades que enfrentamos quando temos de decidir sobre alguma coisa.
Sem falar que há questões que são realmente indecidíveis.


Um exemplo parece ser o da história do filme Nós Que Nos Amávamos Tanto, do Ettore Scola, em que o personagem Nicola responde sobre Vittorio De Sica, habilitando-se a um prêmio milionário, num quadro televisivo que se chamava "Lascia o raddoppia" ("Perde ou dobra").
No programa decisivo, ao candidato foi dirigida a seguinte pergunta:

- Por que o menino chorou no final do filme Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica?



Qualquer pessoa normal que tivesse visto o filme responderia que o menino chorou porque viu o pai sendo espancado; o candidato não era, porém, uma pessoa normal, mas alguém que sabia tudo sobre De Sica. Sabia, por exemplo, que, para fazer chorar o ator amador Enzo Staiola, que fazia o menino Bruno, De Sica ordenou aos assessores que colocassem cigarros em seu bolso e o acusassem de roubo. Ofendido, o menino começou a chorar de verdade, aparecendo assim no filme imortal.
Não iriam perguntar-me o que todos sabem, pensou Nicole. Foi por isso que o personagem de Scola respondeu:

- O menino chorou porque o acusaram de haver roubado os cigarros que estavam no seu bolso.



A resposta foi considerada errada, e o candidato perdeu o prêmio, pois, segundo a produção do programa, o menino chorou porque viu o pai ser espancado.
Nicola nunca se conformou com esse desfecho, acreditando que, se tivesse optado por esta outra resposta, perderia do mesmo jeito, porque nesse caso a televisão diria que o choro ocorreu por causa dos cigarros.

Um exemplo de questão indecidível.

sábado, 28 de janeiro de 2012

BIOGRAFIAS

Conversas íntimas


- Não confio nas biografias.
- Nem nas idôneas?
- Refiro-me somente às idôneas.
- Por quê?
- Porque o biógrafo tem de suprir as eventuais lacunas com suposições.
- Como assim?
- É necessário inventar de forma verossímil as realidades desconhecidas.
- Mentiras verdadeiras, é isso?
- Verdadeiras mentiras. Há de ser assim, ou não haverá uma biografia fechada, quer dizer, completa. Dificilmente alguém dirá "vamos saltar o ano de 1997 por insuficiência de informações." Daí as ilações. Narradores diferentes, ilações diferentes, biografias diferentes.
- Mas isso vale para tudo: reportagens, pesquisas científicas, previsões do tempo, jogos de futebol, crônicas sociais etc.
- Um evento tem muitas versões, dependendo do narrador e das informações que ele possui.
- Meio complicado, pois distorcê-lo me parece a consequência....
- Lembre-se de que a minha hipótese só contempla o autor idôneo.


- Por que você levantou esse assunto?
- Li outro dia uma biografia do falecido Arnaldo Leviatã.
- O senador?
- Sim, escrita pela Aurora Leviatã, sua filha. Ela vê o pai como um perfeito chefe de família, excelente orador e homem público identificado com o melhor interesse nacional.
- Uma versão filial.
- Ela não sabia que Leviatã tinha uma amante. Possuindo essa informação, provavelmente teria escrito uma biografia diferente.
- Se quisesse.
- Além disso, o senador era pouco inteligente, mas muito esforçado. Seus discursos eram escritos por assessores, e ele os decorava, treinando horas a fio diante do espelho. Por que nunca concedia nenhum aparte? Porque não saberia replicar o que não havia decorado. Todos o tinham como um Demóstenes e, no entanto, não passava de um ator de segunda categoria, a despejar textos alheios. Isso não daria uma terceira biografia?
- Com certeza.
- E se eu lhe disser que Aurora Leviatã não é filha dele, mas do amante de sua mãe, de cuja existência nem pai nem filha jamais chegaram a saber?
- Isso complica a coisa toda.
- É praticamente impossível saber sobre a vida de alguém de maneira integral, nem o saberia a própria pessoa a ser biografada. É uma característica absolutamente geral, extensível a todos, sem exceção, pois nem biógrafos nem biografados conhecem a totalidade dos fatos da pessoa a ser biografada. Eu tenho uma versão de mim, talvez a mais próxima da verdade, mas uma versão. Como há lacunas, é necessário supri-las...
- É, versões, Boca de Ouro...
- Por isso eu jamais quereria ser jurado, e ter de decidir entre a verdade da acusação e a verdade da defesa, que costumam ser opostas.
- E mutuamente excludentes.
- Comme il faut. E você, no meio, condenando ou absolvendo.

- Decidindo indecididamente.

- Como no Paradoxo do Mentiroso....


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A FLECHA QUE VOA, MAS NÃO VOA

PAUL VALERY E ZENÃO DE ELEIA



O paradoxo da flecha voadora foi usado por
Zenão de Eleia (495 a.C.-430 a.C.) para contestar nosso entendimento sobre pluralidade e movimento.
Argumentava Zenão que uma flecha disparada fica imóvel em cada instante, pois, do contrário, ocuparia várias posições num só instante, o que é impossível. Se o tempo é feito de uma pluralidade de instantes, segue-se que a seta permanecerá sempre imóvel, contrariamente ao que se observa. Ou, dizendo de outra maneira, se o espaço e o tempo são discretos, então uma flecha não pode se mover através do ar, pois a cada instante de tempo ela está em um ponto definido e, portanto, em repouso naquele instante. No instante seguinte ela também estará em repouso e assim sucessivamente, ou seja, em repouso para sempre.

Na década de 1920, o filósofo e matemático inglês Bertrand Russell (1872-1970) considerou os paradoxos de Zenão como extremamente sutis e profundos.

Paul Valery

Paul Valery (1871-1945), um poeta que tinha interesse em música, matemática e filosofia, também se encantou com os jogos intelectuais de Zenão. No seu celebrado poema “Le cimetière marin”, Valery invoca o paradoxo da flecha em admiráveis versos decassílabos:

Zénon! Cruel Zénon! Zénon d'Êlée!
M'as-tu percé de cette flèche ailée

Qui vibre, vole, et qui ne vole pas!

Le son m'emporte et la flèche me tue!


Numa tradução livre:

Zenão! Cruel Zenão! Zenão de Eleia!

Tu me feriste com tua flecha alada,

Que vibra, voa, e que não voa nada!

O som me enleva, e a flecha me mata!

Pluralidade e mudança

- Seu paradoxo não tem correspondência na realidade, disse um vizinho a Zenão. Todos sabemos que a flecha disparada sempre sai de um ponto e alcança outro, ou seja, há algo errado no seu raciocínio.

- Claro, retrucou Zenão. Mas não basta apontar o absurdo, temos de explicá-lo. E eu explico:
a pluralidade não existe, e a mudança é impossível.

sábado, 21 de janeiro de 2012

PARADOXO DE FERMI

Onde estão eles?

Muitos creem que não somos os únicos atores inteligentes no Universo e defendem a existência de seres extraterrestres, em sistemas solares que tenham condições semelhantes ou até mais favoráveis do que as que propiciaram a vida inteligente na Terra. Pois o Universo visível possui cerca de 10 bilhões de trilhões de estrelas, com, provavelmente, muitos bilhões de sistemas planetários semelhantes ao nosso Sistema Solar.

- Então, onde eles estão?, perguntou na década de 1950 o físico italiano Enrico Fermi (1901 - 1954), prêmio Nobel de Física (1938) e responsável pela construção do primeiro reator atômico, desenvolvido na Universidade de Chicago.

Enrico Fermi

Essa pergunta configura o que ficou conhecido como o “Paradoxo de Fermi”. Subjacentemente à indagação, existe o raciocínio de que, passados 15 bilhões de anos desde o Big Bang, e com tantos sistemas planetários, deviam ter surgido civilizações extraterrestres mais velhas e mais novas, mais adiantadas e mais atrasadas, cuja existência fosse percebida de alguma forma pelos habitantes da Terra.

- Mas seus sinais não nos chegam, nem os de rádio, muito menos sondas ou espaçonaves, configurando-se um autêntico paradoxo - o paradoxo de Fermi.


Na Hungria


Leo Szilard

Consta que Fermi fez sua pergunta aos físicos que se encontravam no refeitório de Los Alamos, o Laboratório Nacional dos Estados Unidos, no Novo México, fundado durante a Segunda Guerra Mundial, que ao tempo de Fermi esteve engajado no esforço de desenvolvimento da primeira bomba atômica.
Corre a versão de que Leo Szilard, o húngaro brincalhão, teria respondido na hora:

- Eles já estão há algum tempo
por aqui. Mas chamam a si próprios de húngaros.

A resposta de Szilard gerou uma lenda jocosa, corrente entre os físicos, segundo a qual há milhões de anos os marcianos deixaram seu planeta e pousaram onde hoje é a Hungria. Misturaram-se aos macacos que habitavam a Terra, adaptando-se a eles e assimilando suas feições, e são hoje caracterizados pela propensão para viajar (os húngaros espalham-se por todo o mundo), por sua língua, diferente de todas as demais, e inteligência (muitas das melhores mentes de Los Alamos eram húngaras.)



Possíveis Soluções Para o Paradoxo de Fermi

(1) Eles existem, mas ainda não se comunicaram conosco.

(2) Eles estão por aí, mas não querem contato conosco.


(3) Eles não existem.



Carl Sagan
Sagan

- Às vezes acredito que há vida em outros planetas, às vezes acredito que não. O que é mais assustador, a idéia de extraterrestres em mundos estranhos, ou a idéia de que, em todo este imenso Universo, nós estamos sozinhos?

- Seja como for,
se nós estamos sozinhos, o Universo é um grande desperdício de espaço.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

UM CARDINAL CIVILIZADO

A revolução feita pelo zero

Nos sistemas de numeração sem o zero, como eram o egípcio, o babilônico, o chinês e o romano, uma infinidade de símbolos era necessária para representar todos os números. Na numeração egípcia, por exemplo, um milhão era representado por uma pessoa de joelhos, com os braços dirigidos para cima, como se estivesse demonstrando aos céus sua perplexidade diante de um número tão desconcertante e avassalador.


Com o zero, diferentemente, qualquer número imaginável passou a ser facilmente representado, adotando-se a numeração indo-arábica, que requer apenas nove algarismos significativos, para além do zero.
O valor representado por qualquer algarismo na numeração com o zero depende da sua posição dentro do número, que define a potência de 10 pela qual deve ser multiplicado para obter o seu valor na composição do número. Por exemplo, no número 827, só o 7 mantém o seu valor nominal, pois o algarismo 2 representa duas vezes 10 e o algarismo 8, oito vezes 100, com a respectiva potência de 10 escolhida pela posição relativa de cada algarismo no número.


Além disso, o zero, se presente diretamente no número, estará indicando uma potência de dez a ser considerada, mas vazia, permitindo distinguir, por exemplo, 12 de 102 ou de 1.020.
Um sistema de numeração assim concebido permite operações aritméticas sem auxílio de nenhum instrumento, o que não era possível com numerações baseadas em outras concepções, como os algarismos romanos. Com efeito, é muito fácil e prático dividir 817 por 43 para obter 19, mas dividir DCCCXVII por XLIII para obter XIX, na representação com algarismos romanos, é tarefa situada para além das nossas habilidades e capacitação.
Por isso mesmo, antes do zero
essas operações eram feitas com auxílio de ábacos.

Onde surgiu

A formulação do conceito de zero e sua introdução como base do sistema de numeração parece terem ocorrido em torno do ano 500 da nossa era. Essa proeza, uma das mais importantes da matemática, é geralmente atribuída aos indianos.
Os árabes tomaram conhecimento desse sistema de numeração por volta do ano 710, nas suas cruzadas islâmicas pela Índia.

Estátua de Al-Khowarizmi

Por volta de 840 o árabe Al-Khowarizmi (780-850) estabeleceu regras orientadoras para facilitar as quatro operações com base na numeração indo-arábica.
A palavra “algoritmo” deriva de Al-khowarizmi, e “álgebra”, de “al-jahr”, palavra árabe que significa "equação".
Outro árabe importante na formulação do sistema de numeração baseado no zero foi Omar Khayam (1048-1131), matemático, poeta e autor dos 75 poemas do Rubayat. Khayam desenvolveu métodos que ampliaram as técnicas de Al-Khowarizmi e formulou uma disposição triangular dos números para facilitar o cálculo das potências matemáticas.


Omar Khayam

Popularização

Não foi nada fácil disseminar o conceito de zero, no passado em que a necessidade das pessoas não ultrapassava as tarefas de contar suas plantas e animais ou definir a extensão de suas terras. Seja como for, o zero entrou na Europa por volta do ano 1000, pela via das universidades mouras, na Espanha, e com os sarracenos, na Sicília. Consta que o estudioso francês Gerbert de Aurillac aprendeu o novo sistema com os mouros e depois, já como Papa Silvestre II, estimulou sua introdução nas escolas e universidades de diversos países europeus.
A popularização do sistema de numeração indo-arábico só se tornaria efetiva a partir de 1202, o ano em que Leonardo Pisano, o Fibonacci, publicou o Liber Abaci, um livro que mostrava como era essa numeração e como as operações aritméticas poderiam ser feitas, a partir dela, sem recorrer aos ábacos.


Fibonacci

Não sem razão, o filósofo-matemático inglês Alfred North Whitehead (1861-1947) considerou o zero o mais civilizado dos cardinais, por ter surgido em decorrência e por necessidade das formas cultas de pensamento.

sábado, 14 de janeiro de 2012

ÚLTIMAS PALAVRAS (NA VIDA REAL)

NA HORA DA DESPEDIDA

Mozart (5 de dezembro de 1791)



- Deixem-me ouvir, ainda desta vez, esses sons que sempre foram minha consolação e alegria.


Danton (guilhotinado em 5 de abril de 1794)



- Exibam minha cabeça para o povo, pois ela merece ser vista.
(Dirigindo-se aos carrascos, diante da guilhotina)



Bocage (21 de dezembro de 1805)



- Gente ímpia, rasgai os meus versos e crede na eternidade.



Beethoven (26 de março de 1827)



- É tarde!


Goethe (22 de março de 1832)



- Mais luz!

John Maynard Keynes (21 de abril de 1946)


Keynes

- Lamento não ter bebido mais champanhe.

Mahatma Gandhi (assassinado em 30 de janeiro de 1948)



- Ó Deus!



Churchill (24 de janeiro de 1965)




- Como fui tolo!


Che Guevara (8 de outubro de 1967)


Primeira versão
(segundo o general Alfredo Ovando Candia, chefe das Forças Armadas da Bolivia
)

- Não se preocupe, capitão. Eu falhei.

Ovando

Segunda versão

(entrevista
à BBC do agente da CIA Félix Rodriguez, que assistiu à execução)

- Então você veio, filho da puta. Quero que saiba que vai matar um homem.



Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), em 29 de setembro de 1968


Sérgio Porto


- Tunica, eu tô apagando!

(para a empregada, ao sofrer seu derradeiro infarto,
)


Pablo Picasso (8 de abril de 1973)


Pablo Picasso (auto-retrato)

- Bebam em minha homenagem!


John Lennon (8 de de dezembro de 1980)



- Sim, sou eu.
(Respondendo à pergunta do guarda que o socorreu: " Você é o John Lennon?")

sábado, 7 de janeiro de 2012

AS DUAS FACES DE JANO

A FAVOR DA VIDA E A FAVOR DA MORTE



Jano, o deus romano que tem duas faces voltadas para direções opostas, uma para o passado, outra para o futuro, serve como metáfora para simbolizar que a ciência pode ser utilizada tanto para o bem quanto para o mal.
Suponhamos o ano de 1912. Uma das faces de Jano, olhando então para o passado, terá visto o alemão Fritz Haber (1868-1934) como um paladino da humanidade, por ter criado em 1909 um processo de produção de amônia para fertilizantes, sem o qual não haveria alimentos suficientes para as necessidades do mundo. Não fosse pelos fertilizantes nitrogenados, a população mundial não teria alcançado senão 50 % dos seus níveis atuais. Por esta razão, Haber ganhou merecidamente o Prêmio Nobel de Química, em 1918.


Ainda em 1912, a outra face de Jano, a que olha para o futuro, pôde contemplar o mesmo Fritz Haber usando gás cloro contra os inimigos, o que foi feito pela primeira vez na Batalha de Ypres, na Bélgica, em 22 de abril de 1915, com o próprio Haber conduzindo as operações. Era o início de uma crônica de extermínio que, só na Primeira Guerra Mundial, registra a morte de mais de cem mil soldados. Clara Haber, que também era cientista, suicidou-se com um tiro no peito, em protesto contra a atuação do marido no front da guerra química.

Clara Haber

Isso mesmo. Os fertilizantes, que ajudam a vida, e a guerra química, que se destina à morte, nasceram pelas mãos do mesmo cientista. De um lado, o Prêmio Nobel e do outro, o remorso de ter provocado o suicídio da mulher querida. Em 1927, em carta a um amigo, Fritz Haber fez a seguinte confissão:

- "Estou lutando, cada vez mais depauperado, contra meus quatro inimigos: a insônia, as reivindicações financeiras da minha segunda esposa Charlotte Nathan, minha preocupação com o futuro e a sensação de haver cometido graves erros em minha vida."

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

OBRAS DO ACASO

SERENDIPIDADE

Horace Walpole

A palavra inglesa “serendipity” foi criada em 1754 pelo escritor e político inglês Horace Walpole para designar descobertas científicas felizes, mas acidentais. A palavra vem de Serendip, nome antigo do Ceilão. De acordo com um conto oriental, três príncipes de Serendip, nos seus passeios pela ilha, fizeram importantes e inesperadas descobertas, das quais, graças à sua sagacidade, sempre tiravam proveito.

Exemplos de serendipidade:

Fleming

(1) O escocês Alexander Fleming fazia uma cultura de bactérias patogênicas, quando sobre esta caiu acidentalmente uma partícula de fungo “Penicillium notatum”, provocando a morte das bactérias. Estava descoberta a penicilina (1928).

(2) O engenheiro suíço George de Mestral viu sementes espinhosas em sua calça e teve a idéia de inventar o velcro (1948).

Arno Penzias e Robert Wilson

(3) Os pesquisadores norte-americanos Arno Penzias e Robert Wilson, trabalhando a serviço dos Laboratórios Bell, ao calibrarem a antena gigantesca de um radiotelescópio destinado a ampliar os sinais a serem recebidos da estrela Cassiopeia A, perceberam um estranho ruído, vindo de todas as direções do céu e sempre com a mesma intensidade. Um ruído sem nenhuma causa. Em vão procuraram defeitos em todos os componentes do radiotelescópio e de sua antena, chegando mesmo a se preocupar com as fezes (“material dielétrico branco”) depositadas na antena por um casal de pombos que nela se alojara. Na sequência desses eventos, e com o auxílio dos físicos teóricos da Universidade de Princeton, ficou provado que Penzias e Wilson haviam detectado o ruído do Big Bang, ou seja, a explosão primordial que deu origem ao Universo. Esse ruído, que está atualmente sob a forma de ondas de rádio, no espectro conhecido como microondas, acompanha o Universo eternidade adentro e tem o nome de “radiação cósmica de fundo em microondas”(1964).

Arthur Fry

(4) O cientista e inventor norte-americano Arthur Fry tentava fabricar uma supercola e obteve, ao contrário, uma cola muito fraca, que só serviu para marcar as páginas do seu livro de hinos. Assim nasceram os adesivos do tipo post-it (1974).

(5) O Viagra, desenvolvido nos Estados Unidos para o tratamento de problemas cardíacos, apresentou o inesperado efeito colateral de provocar ereções penianas, o que levou o grupo Pfizer a patenteá-lo para uso na disfunção erétil (1996).

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

SIR ISAAC NEWTON ACREDITAVA EM ASTROLOGIA (parte 5/5)

Muitas correlações

Seria meu primeiro dia de trabalho após as férias. Ao caminhar pela orla, como faço todas as manhãs, avistei o cantor pernambucano Alceu Valença, que, num festival de canções de que me recordo remotamente, cantou a música “Trem de Alagoas: Vou Danado para Catende”, com letra do Ascenso Ferreira.

Após o café, passei os olhos nas principais manchetes. No primeiro caderno: “Morre o cantor Frank Sinatra”, “Mercados param no mundo à espera do pronunciamento do primeiro-ministro japonês”, “CPI investigará especulação na Bolsa de Valores” e “Trabalhador carioca entre os melhores do mundo”. Vi depois no caderno de variedades: “Manoel de Barros completa 82 anos” e “Zizi Possi lança o álbum de canções napolitanas "Per Amore”.

Vínculo claro

Eu, que já me intrigara vendo o Alceu Valença na praia, percebi um vínculo muito claro dessas notícias com o meu sonho absurdo e, entre curioso e assustado, pus-me a correlacioná-lo com os eventos que foram sucedendo a meu redor naquele dia.
De fato, quando cheguei ao trabalho, informaram-me do inesperado prejuízo do exercício e do acidente com o duplo cilindro na divisão de embalagens. Resultado: dois operários feridos. Havia divergências sobre as causas do sinistro, mas o sindicato decidira me responsabilizar judicialmente pelo ocorrido.

Ao final do dia exaustivo, o mais curioso: recebi a incumbência de comandar um jantar de negócios, oferecido pela nossa empresa a empresários franceses.


- Onde será?

- No Saint Honoré.


- Caramba!

Santo Honoré

Seguiram-se mais coincidências. Na recepção do hotel, atendeu-me uma loura, queimada de sol, muito parecida com uma das atrizes do filme "Four Rooms", no qual o Tim Roth fez o papel de criado e o próprio Tarantino desempenhou o personagem
chamado de "The Man From Hollywood", que tem o dedo decepado.

Padre Argel, um antigo professor que eu admirava por seus conhecimentos de latim, francês e alemão, fora contratado pelo nosso serviço de relações institucionais e, misturado aos convidados, prestava seus serviços de intérprete remunerado. Ele me garantiu, na ocasião, que era conhecedor do italiano, tanto o dialeto toscano quanto o napolitano. Terminado o jantar, a conta me foi trazida pela loura da recepção: sete mil reais. Sete mil reais!
No dia seguinte, porém, a nossa companhia recebeu de volta o cheque
que eu emitira, pois o Saint Honoré, sentindo-se prestigiado com o evento, decidira dispensar o pagamento: uma cortesia da casa em homenagem aos convidados franceses...


Desconstruindo o sobrenatural

Muitas, portanto, as correlações do sonho com o meu primeiro dia de trabalho. O que isso representava? Seriam desimportantes, não mais do que um mero exercício de wishful thinking? Será que, bem examinadas, as coincidências não passavam mesmo de coincidências, prosaicas simultaneidades previstas no âmbito do universo e esperadas nos termos da mecânica quântica e da relatividade geral?

Não sei como tia Estefânia e Lord Kilbracken, se ainda vivos, explicariam seus sonhos premonitórios. Com certeza nem tiveram essa preocupação.
O mais razoável para mim era desconstruir o sobrenatural. Comecei banalizando o Alceu Valença: pode-se vê-lo todos os dias, caminhando na praia do Leblon, faça sol ou esteja chovendo. Logo, sonhar com o Ascenso e ver o cantor na praia não encerra nenhuma coincidência. E mais: crise nos mercados asiáticos, CPI do Congresso para apurar coisa nenhuma e mais um lançamento de músicas napolitanas pela Zizi Possi, tudo isso são eventos igualmente corriqueiros.


Frank Sinatra devia freqüentar o sonho de milhões de pessoas, pois no inconsciente coletivo se tramava sua vitória contra a enfermidade irreversível. Manoel de Barros fazer 82 anos também não constitui nenhuma aberração, pois todas as pessoas vivas que nasceram em Cuiabá em 1916 comemoram 82 anos exatamente em 1998. Carioca melhor do que japonês, quem porventura não sabia disso? Prejuízos nos balanços, acidentes nas máquinas, questões judiciais, padres que conhecem idiomas e louras dolicocéfalas nas recepções, onde a novidade? Mais uma vez o banal ganha fácil do sobrenatural.
So far, so good...



Será isso mesmo?

Há, todavia, pormenores que não conseguirei banalizar. Sete mil reais eu entreguei à loura da recepção e sete mil reais o gerente devolveu no dia seguinte, um aporte de capital recíproco, puro equity, que eliminou todas as exigibilidades. Além disso, eu nunca havia sido designado para liderar nenhuma recepção e nunca estivera no Saint Honoré, o que me deixou com a sensação de que meu sonho violou hierarquias e inverteu por alguns instantes a seta do tempo.


Recorrendo à história e à literatura

Nostradamus

Muita gente descreveu com antecedência a tragédia do Titanic.
Sir Isaac Newton acreditava em astrologia. Nostradamus, que morreu em 1566, não faz previsões até hoje? Non creo en brujas, pero que las hay, las hay. There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of in your philosophy. Le coeur a ses raisons que la raison ne connait point.

Por via de todas as dúvidas


Passei a dormir com papel e caneta ao lado da cama. Quem sabe um segundo sonho, completo, cheio de peripécias e correlações banalizáveis, mas nem todas?
Tia Estefânia e Lord Kilbracken foram beneficiados, mas de maneira pouco importante, numa época em que não havia sena acumulada. A qual, cavalo matreiro, sempre desencabula em favor de alguém.
Pois é, a gente nunca sabe.
..
(Fim)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

SIR ISAAC NEWTON ACREDITAVA EM ASTROLOGIA (parte 4 /5)

No banco dos réus

Compareci ao tribunal com a intenção de explicar a queda nas vendas, os preços declinantes dos nossos produtos, os juros altos, os problemas da caldeira, a concorrência predatória, o aumento dos impostos, as indenizações trabalhistas e as chuvas inesperadas e inclementes, que destruíram as instalações que mantemos a céu aberto.

- Onde a culpa, se esses eventos não estavam previstos no orçamento?


Meus argumentos eram apenas um vetor da questão, pois seria necessário dar a palavra a outras pessoas, respeitando a diversidade que justifica plebiscitos e permite a existência de hipódromos. Ou seja, essencial era considerar outros vetores. E só depois definir, como vetor resultante, se eu era considerado culpado ou inocente, adjetivos qualificativos, coletivamente exaustivos e mutuamente excludentes. (Neste ponto peço um voto de confiança , mínimo que seja, àqueles que tiveram a ventura de não ter estudado nem cálculo das probabilidades nem cálculo vetorial.)


O juiz ordenou que eu me sentasse respeitosamente no banco dos réus e, sem outras considerações, foi logo perguntando:

- O senhor se encontrou com a loura da praia quantos metros depois de invadir o pregão?

Meu primeiro impulso foi responder que o encontro se dera 417,6 metros depois, tanto que cheguei a exclamar:

- Meritíssimo...

Contei até dez, como sempre faço, e, num reflexo providencial, dei-me conta de que o magistrado, pela maneira como construíra a pergunta, não fazia distinção nenhuma entre espaço e tempo: conhecia, pois, a teoria da relatividade e por certo sabia muito bem que há uma física para cada observador. Eu tinha de responder àquela pergunta sem deixar prosperar nenhuma controvérsia. Não podia mentir, nem parecer que estava mentindo, pois qualquer mal-entendido seria usado contra mim. (Para Richelieu, mentir só se necessário.)

- Meritíssimo, isso depende.

- Depende de quê?

- Depende do referencial.


O juiz deu-se por satisfeito e passou à pergunta seguinte:


- Como o senhor conheceu a loura da praia?


- Ela trabalhou num filme do Tarantino.


- Cães de aluguel?


- Pode ser, pois o filme era com o Rintintin.

O juiz, satisfeito mais uma vez, começou a interrogar as testemunhas. Foi então que o gerente do hotel me acusou de ignorar os sete mil reais que a loura da praia deixara em consignação no Saint Honoré e fora por isso obrigado a enviar a quantia para a minha residência, com todos os inconvenientes que isso acarretou. O relator da CPI, recém-chegado de Brasília, acusou-me de invadir o pregão da Bolsa de Valores, num momento de grande efervecência internacional, e de espionar os trabalhos legislativos, num dia particularmente agitado do Congresso Nacional. O padre do avião acusou-me de ter inveja de Lucio Dalla e de Ascenso Ferreira e de fazer versões contra o mártir São Sebastião, como podiam atestar os que frequentam aviões de carreira e os que fazem caminhadas na praia.

- Uma inveja diária, meritíssimo, uma inveja diária!


O Zé Pretinho e o Chico Pé de Ganso me acusaram de haver aceitado suas sugestões para resolver os problemas da engrenagem e da embalagem. Por minha culpa, não podiam mais queixar-se de que ninguém aceitava suas sugestões.
A loura da praia aproveitou o ensejo e me acusou de haver insinuado que ela tinha um caso com o Tim Maia, só porque trabalhara num filme do Quentin Tarantino, que positivamente não era Cães de Aluguel.

O juiz acusou-me de litigação prevaricativa. (Sem saber o que isso significava, fui depois ao Aurélio e fiquei sabendo que “litigação” e “prevaricativa” são palavras não relacionadas na norma culta. O juiz laboraria melhor se se expressasse em latim, tachando-me de "improbus litigator"...)
Em seguida, o magistrado teve a gentileza de dispensar as testemunhas de defesa e deu início aos debates. Todos me acusavam e, na sua diversidade, usavam diferentes referenciais:


- Ele é imputável!

- Ele é inimputável!


No calor da discussão o juiz fez prevalecer sua autoridade com acionar a campainha.


Nesse ponto o sonho confundiu-se com a realidade, pois acordei ao som estridente do meu despertador. Permaneci uns bons tempos deitado, lembrando-me das peripécias do sonho impossível. Sonho, tudo um sonho absurdo!
(continua)