quarta-feira, 9 de novembro de 2011

ENCONTROS E DESENCONTROS

Uma de fresco

Na boate, Estevinho deparou-se com Regininha, a moça mais bonita da General Artigas. Dançaram como se fossem velhos parceiros, os corpos num só corpo. Aí, deu aquela de fresco:

- Você é deslumbrante, Regininha. A mulher capaz de fazer a felicidade de qualquer homem.

Ficou nisso, que Estevinho era assim mesmo, derramado, mesmo quando não estava a fim.

Regininha

Meses depois, o telefonema.

- Vou me casar no sábado. Isto é, eu me caso se você assim decidir.


- Não estou entendendo, Regininha.


- Vou me casar no sábado, com Ernesto Augusto de Vidigal, se você autorizar. Você autoriza?

- Olha, a brincadeira é até divertida, mas estou muito ocupado e vou desligar.

- Então, você autoriza?

- Que mané autoriza não-sei-o-quê.

- Ciao.

- Ciao.


No sábado Regininha foi encontrada morta. Ao lado, a carta alucinada.

"Devo informar aos meus familiares, à polícia e a quem mais interessar que fui assassinada por José Cláudio Antônio Nicola Estradivário Pastasciutta, conhecido como Estevinho, que mora no 800 da Visconde de Albuquerque."

Sacana, que Deus a tenha. Revólver na mão, quarto fechado por dentro, tudo indicava suicídio irrevogável e irretratável, dos categóricos e inapeláveis. Mas a carta, como explicar a carta? Meu nome nos jornais, aquele trabalhão para provar a inocência, a revista interminável do apartamento, os numerosos comparecimentos à delegacia, os risinhos do escrivão, o mau humor do delegado, as despesas impossíveis. Citações, agravo de instrumento, apelação, habeas data, mandado de injunção, preclusão, certidões. Só não me exigiram incunábulos, nem palimpsestos, que vai ver nem se aplicam nesses casos.

- Inocência putativa, sentenciou o juiz.

Putativa!

Inocente, mas culpado, passei a viver o sobressalto de ser incomodado a qualquer momento. Tudo porque dei uma de babaca:

- Você é deslumbrante, Regininha. A mulher capaz de fazer a felicidade de qualquer homem.

No bar

Estevinho dava sorte com mulheres bonitas, talvez porque estivesse sempre disponível. Foi num bar da Dias Ferreira que conheceu Pascale.

- José Cláudio Antônio Nicola Estradivário Pastasciutta?

- Sei que é um nome vasto e complicado, mas tem sua explicação. Meus ancestrais, em Cremona, dedicaram-se desde muitos séculos à fabricação de espaguete, talharim, ravióli e canelone. O nome da família - Ticiani- foi paulatinamente substituído por Pastasciutta. Um nome que me enche de orgulho, pois, longe de ser uma folha ao vento, tem passado e futuro, história e substância. Como todo italiano, meu pai tinha muito orgulho de sua terra, particularmente de Cremona, o mais importante centro mundial de fabricação de instrumentos de corda, segundo uma tradição que começou com Nicola Amati, no século XVII, continuou com Giuseppe Guarnerius e Antonio Stradivarius, no século XVIII, e se estende até os dias de hoje. Cremona é a terra natal de Claudio Monteverdi, violista e criador da ópera italiana. Quando nasci, recebi um nome que homenageava toda essa gente ilustre de Cremona. Carrego um penduricalho, mas um penduricalho histórico!

Monteverdi (1567-1643)

Pascale se encantou com a desenvoltura de Estevinho, a maneira simpática de explicar suas excentricidades. Como imaginar alguém carregando um nome ligado à história de Cremona?

A surpresa

Do bar diretamente para a cama, Estevinho e Pascale acabaram vivendo um tórrido romance de fim de semana. Era francesa, uma mulher elegante, inteligente e sensível, quase uma dádiva, naquela fase de carência e insegurança de Estevinho.
Ao vê-la deitada no sofá da sala,
assim nua e magnífica, Estevinho olhou-a com ternura, e não se conteve:


Pascale

- Você é deslumbrante, Pascale. A mulher capaz de fazer a felicidade de qualquer homem.

- Exatamente o que você disse para a Regininha, Estevinho.

Há entre o céu e a terra coisas para além do que supõe a nossa filosofia, meu caro Estevinho. Bebi muito? Essa Pascale existe mesmo? Estou sonhando? Regininha está viva, e quem morreu fui eu? Onde estou? Por quem os sinos dobram?
Os sinos não dobram, estou no apartamento da Visconde de Albuquerque, estou vivo, morta está a
Regininha, Pascale existe mesmo e está na minha poltrona, bebi muito e há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia. O negócio é ficar calmo, fingir naturalidade e mostrar interesse a meio pau.

- Como você sabe que eu disse isso para a Regininha?

- Regininha era minha irmã gêmea.

Ora, diabo, essa foi de lascar! Atiro-me pela janela, escrevo uma carta para Marlene Dietrich, demonstro seis vezes o teorema de Pitágoras ou compro uma geladeira a prestações? Como se conjuga explodir na primeira pessoa? Calma, calma, deixa a Pascale desfazer o pacote e que não haja nele serpentes, nem explosivos.

- Agora sei por que você me parecia familiar: há no seu rosto muita coisa da Regininha!

- Nosso encontro não foi espontâneo, Estevinho. Procurei-o no bar para conversar sobre ela.

A chegada da verdade, pelo remorso da família, isso, exatamente isso. Filhas de pai francês e mãe brasileira, Pascale e Regininha tiveram uma infância abastada no Leblon. Quando os pais se separaram, Regininha e a mãe permaneceram no Rio de Janeiro, mas Pascale voltou com o pai para a França. Mãe e filha dissiparam tudo que o francês lhes deixara, com grandes complicações para ambas. A conseqüência foi que aos poucos Regininha se tornou garota de programa. Cobrava 500 dólares para passar uma tarde com executivos. Tudo lucrativo e reservado, pois era requisitada por gente que não economizava dinheiro e comportava-se com toda a discrição.

Quem diria, a Regininha, hein? Eu, morando aqui perto, não estava sabendo de nada. Prostituta, a Regininha Duvivier era prostituta!

- Aconteceu, porém, que a Regininha conheceu o Ernesto Augusto numa festa. Começaram a namorar e ficaram noivos. Ele é muito rico e decidiu promover um jantar de cerimônia para apresentá-la a seus amigos e parentes. Deu-se então que um dos convidados, o banqueiro Leopoldo, reconheceu a Regininha.

- Era um dos seus clientes?

- Isso, não menos que isso. Na manhã seguinte, o noivado foi rompido.

- Motivo pelo qual decidiu ligar para mim.

- Ligou para mim também. Você não havia dito que ela era a moça capaz de fazer a felicidade de qualquer homem? Morreu sem saber que você diz isso para todas as mulheres.

- Isso não é verdade!

- Usaria você como desculpa, a de que trocara o Ernesto pelo galante Estevinho.

- Como não me deixei seduzir, ficou sem saída e decidiu matar-se.

- Por aí.

- Por que a carta me incriminando?

- Uma atitude lamentável, que ninguém conseguiu explicar. Talvez um fato policial para despistar os amigos, os parentes e a vizinhança: perder a vida, mas salvar as aparências.

Se entendi corretamente, Regininha quis me usar como noivo. Não deu. Então me usou como boi de piranha (sem trocadilho, por favor), com grande sucesso. Sacana, mil vezes sacana. Tenho decididamente cara de panaca, aliás, de pastasciutta, mas, convenhamos, meu santo é forte.
Regininha fora a minha algoz, e Pascale, sua irmã gêmea, era agora o meu consolo.
Mais que consolo, uma recompensa.
Reuni todas as forças do meu coração, abracei-a e dis
se as palavras mais sinceras da minha vida:

- Pascale, eu te amo!

sábado, 5 de novembro de 2011

Immanuel Kant, um gol de placa

Uma intuição genial

Kant

Após os trabalhos de Copérnico, Tycho Brahe, Johannes Kepler, Galileu e Newton, a estrutura do sistema solar, já no século XVIII, estava totalmente desvendada, não havendo dúvida de que os planetas, com seus satélites, giram em torno do Sol em trajetórias elípticas, com velocidades variáveis, conforme as Leis de Kepler.

- O restante do Universo, para além do Sistema Solar, como seria o restante do Universo
, que, já então, também se sabia não ser imutável?

Teoria dos Céus

Immanuel Kant (1724 - 1804) confessou naquela ocasião que duas coisas enchiam seu espírito de admiração e reverência:

“o céu estrelado acima de mim”

e

“a lei moral dentro de mim”.


Para entender o céu estrelado, Kant estudou o livro de Isaac Newton, "Princípios Matemáticos da Filosofia Natural", e publicou, aos 31 anos, uma obra audaciosa e de título complicado, “História Natural Universal e Teoria dos Céus, Ou um Ensaio sobre a Constituição e Origem Mecânica de Todo o Universo Tratada Segundo os Princípios de Newton”, mais conhecida por “Teoria dos Céus”.
Trata-se de um livro, de 1755, contendo importantes intuições cosmológicas. Entre elas, a de que o tempo teve um começo, o que está de acordo com as modernas teorias físicas; outra intuição notável estava em linha com as ideias de Giordano Bruno, a de que no Universo haveria uma infinidade de galáxias, cada uma com uma infinidade de estrelas e sistemas solares, naquela época em que a Via Láctea era considerada como a única galáxia existente, configurando sozinha todo o Universo.


O Grande Debate


O tema suscitado por Kant foi conquistando adeptos com o surgimento dos grandes telescópios e suas abundantes observações, como:

a descoberta do planeta Urano, em 1781, pelo alemão Whilhelm Herschell;


William Parsons, um milionário irlandês
, a partir de 1845, observou várias nebulosas por intermédio do seu telescópio "Leviatã de Parsonstown";

e

já no século XX, George Ellery Halle, construiu
telescópios de sessenta e cem polegadas em Monte Wilson, perto de Pasadena, na Califórnia, com o que se ampliou consideravelmente o volume de descobertas no céu.

Observar o céu e descobrir novas nebulosas tornou-se uma festa. Nesse ponto a dúvida era generalizada: essas estruturas estariam dentro da Via Láctea ou fora dela?
Não se conheciam as distâncias até as nebulosas, embora se estimasse
que fosse de 100 mil anos-luz a maior dimensão da Via Láctea. Nessa controvérsia, muitos astrônomos defendiam que as nebulosas eram estrelas jovens dentro da Via Láctea, ao passo que os alinhados com Kant argumentavam que se tratava de outras galáxias, situadas para além da Via Láctea.
A Academia Nacional de Ciências de Washington organizou em abril de 1920 um debate entre as duas correntes, que, ao fim e ao cabo, era na verdade uma discussão sobre o lugar da humanidade dentro do Cosmos.

Harlow Shapley

A galáxia única foi defendida pelos astrônomos do Observatório de Monte Wilson, representados por Harlow Shapley, um astrônomo graduado em Princeton, enquanto a tese de que as nebulosas eram galáxias independentes foi defendida pelo experiente astrônomo Heber Curtis, professor da universidade de Michigan.

Heber Curtis

O Grande Debate pouco acrescentou, pois faltavam dados observacionais que ajudassem a decidir sobre a questão. Alguns astrônomos, pessimistas, chegaram a admitir que essa questão não seria jamais esclarecida, por
situar-se numa fronteira indecidível, onde “o intelecto humano começa a falhar". Erro comparável, em contexto equivalente, ao de Augusto Comte, que manifestou em seu Curso de Filosofia Positiva a opinião de que nunca seríamos capazes de estudar a estrutura química e mineralógica das estrelas.

Henrietta Leavitt

Henrietta Leavitt, que era totalmente surda, em1895 ofereceu-se para trabalhar, sem nenhuma remuneração, no Observatório Astronômico de Harvard, onde executou tarefas simples até ser admitida, em 1902, como assessora permanente, com o salário de 30 centavos de dólar por hora.
Henrietta Leavitt interessou-se por estrelas variáveis, que são estrelas que aumentam e diminuem de brilho regularmente, como a estrela de Algol, na Constelação de Perseu, por isso mesmo chamada, às vezes, de Demônio Piscante.

Constelação de Perseu

Henrietta descobriu mais de 2.400 estrelas variáveis, cerca de metade do total então conhecido. Entre as estrelas variáveis, estão as cefeidas, que variam entre brilho máximo e brilho mínimo em um intervalo de tempo constante; depois de muito pesquisar, ela fez uma descoberta revolucionária, correlacionando o brilho de uma cefeida com o logaritmo do tempo em dias entre seu brilho aparente máximo e seu brilho aparente mínimo.
Bastava determinar o período que decorre entre brilho máximo e brilho mínimo, por inspeção visual, para ter o brilho real de uma cefeida, mediante a utilização da correlação obtida por Henrietta, em contraposição ao seu brilho aparente percebido desde a Terra.
Essa descoberta era revolucionária porque permitia aos astrônomos, já a partir da década de 1920, calcular a exata distância que nos separa de qualquer estrela cefeida.

Henrietta Leavitt

Henrietta Leavitt morreu de câncer em 1921, quase sem ser percebida, mas hoje muitos a consideram a “mais brilhante mulher que já passou por Harvard”. Onde, é bom repetir, trabalhou cerca de sete anos sem receber nenhum salário, assoberbada por problemas de saúde e pelas suas obrigações domésticas. As denominações do Asteroide ""5383 Leavitt" e da Cratera Lunar "Leavitt" foram dadas em sua homenagem.

Gol de Placa

Em 4 de outubro de 1923, Edwin Hubble, com seu telescópio de 2,5 metros de diâmetro, no Monte Wilson, descobriu na nebulosa de Andrômedra uma cefeida sete mil vezes mais luminosa do que o Sol e, pela técnica desenvolvida por Henrietta Leavitt, concluiu que essa estrela estava a 900 mil anos-luz da Terra.

Edwin Hubble

Ou seja, a cefeida de Andrômeda estava fora da Via Láctea, que de ponta a ponta não tem mais que 100 mil anos-luz.
A nebulosa de Andrômeda e outras nebulosas constituíam, pois, outras galáxias.

Hubble anunciou sua descoberta na reunião de 1924 da Associação Americana para o Progresso da Ciência.
A intuição de Kant estava, pois, correta: o Universo não se restringe à Via Láctea, formado que é por cerca de 100 bilhões de galáxias, cada uma com cerca de 100 bilhões de estrelas, sendo a mais próxima do Sol a estrela Alfa da constelação de Centauro, que dista do Sol quatro anos-luz, cerca de 38 trilhões de quilômetros.

- Kant assinalou um gol de placa!

sábado, 29 de outubro de 2011

CONVERSA JOGADA FORA

Enxugando gelo

Era sábado, e o correio estava fechado. Só faltava essa, pensou, atirando a carta na lata do lixo. Sentou num banco da praça, a esmo. Eu tenho o dobro da idade que tu tinhas quando eu tinha a idade que tudo tens; falta a segunda equação e, portanto, falta tudo. Quem diabo foi Bartolomeu Mitre? Visconde de Albuquerque? Ataulfo de Paiva?

- Esta praça poderia muito bem chamar-se Carlos Drummond de Andrade, ora se, mas pouca gente percebeu isso. Estou sem mulher, estou sem discurso, estou sem teogonia, hoje beijo, amanhã não beijo e segunda-feira ninguém sabe o que será.

Tinha de fazer alguma coisa, em vez de ficar ali, enxugando gelo, e decidiu caminhar até o barbeiro.

Poente do Leblon

- Godô, cabelo e barba, por favor.

- Deixa comigo, doutor.

O barbeiro, como sempre, assumiu a conversa em caráter de exclusividade, falando tudo e coisa nenhuma. Sou Flamengo, no verão as mulheres ficam mais bonitas, não tenho ido a Itaperuna, Barack Obama não é como o Bill Clinton, que não respeitava nem papagaio embriagado, os melhores chopes do Leblon são os do Bracarense, Jobi e Clipper e, na cidade, o do Bar Luís, o Ney Matogrosso, que tem tudo para não ser tão modesto, corta cabelo aqui, o João Ubaldo Ribeiro também, o Alceu Valença mora aqui na rua, mas não corta cabelo em lugar nenhum, um dia ainda saberei o que significa crise cambial, a palavra mais sugestiva que conheço é bunda, amanhã vou bater uma bola federal...

- Você joga bola aos domingos?


Jogava. Todos os domingos, disputava duas ou três partidas
no campinho da Pavuna, tomava dez latas de cerveja, comia duas horas de feijoada com muita caipirinha e dormia até a manhã de segunda-feira. Estevinho ponderou que era um hábito perigoso, bom seria consultar um cardiologista, fazer um teste ergométrico, pois os atletas de fim-de-semana muitas vezes se surpreendem, vítimas de enfarto, e podem morrer durante o jogo.

- Ora, doutor, faço isso desde os 18 anos, estou com 38, nem sei se tenho coração. Esse negócio de médico não é necessário quando o cabra é macho. Meu pai jogou até os 60 anos e mais não joga porque tem um problema no joelho.

Na saída, dei uma gorjeta generosa e ainda acrescentei, alto e bom som:


- Se fosse você, Godô, só jogaria após exame médico e autorização de um cardiologista, pois você pode morrer em pleno campo.

Trinta e Três...
Claire Danes
Havia um pouco de show-offismo nas minhas palavras, mas disse aquilo de boa fé. O Godô estava falando sem parar havia vinte minutos, e eu, absolutamente calado. Sei lá... De vez em quando é necessário falar também, interessar-se, ser solidário. Mas, diabo... Por que não interrompi quando o assunto foi Bill Clinton? Ney Matogrosso? João Ubaldo era também um tema adequado, pois gosto muito daquela do cachorro que se chamava Logoeudigo. Cachorro ou gato? Claire Danes, Jessica Biel... Mas eu decidi dar conselho, cacete.

Angústia e libertação

Na segunda-feira recebi a notícia: Godô faleceu jogando futebol, no domingo. Toda a barbearia e a Rita Ludof inteira atestaram que o barbeiro não morrera espontaneamente. Jogava desde os 18 anos e nunca tinha acontecido nada. Aí veio o tal de Estevinho e disse: você pode ter um ataque cardíaco em pleno jogo.

- Todo mundo ouviu, o Ricardinho, o Miranda, o Ernani, o Pintinho e o Zeca Torres. O Quincas não ouviu porque tinha ido à farmácia. Nossos outros clientes, o doutor Zé Moacir, o Terêncio Marques, o Antônio Maciel, todos, todos mesmo, podem confirmar: ele matou o Godô.


- Agourento de uma figa!

Mau-olhado

O Quincas garantiu que em Baependi tem um alfaiate que bota mau-olhado: se ele olha um passarinho na gaiola, o passarinho amanhece morto, não há escapatória. Se disser vai chover amanhã, sai de baixo que amanhã vem temporal, enchente, desabamento, aflição e morte. Certa vez o celerado afirmou que era certo faltar carne em Baependi, e no mesmo dia os bois de corte comeram ração envenenada e morreram.


- Gente com essa qualidade gosta de fazer o mal, e somente o mal.


- Olho vivo, seu Venâncio, olho vivo.


Seu Venâncio ficou impressionado e, para salvar o negócio, mandou vir o padre, que benzeu a barbearia e derramou água benta na cadeira do Godô. De mãos dadas, todos rezaram com redobrado fervor um Padre-Nosso e um Salve-Rainha.

Depois do episódio, Estevinho mudou de barbearia e não teve
mais coragem de passar pela Rita Ludolf. A morte de um ciclista, matar ou morrer, morte em Veneza, morte e vida severina, os vivos e os mortos, a morte passou por perto, as sete máscaras da morte, a morte do caixeiro-viajante, disque M para matar, quem matou Baby Jane?

- Eu, Estevinho Pastasciutta, matei o barbeiro.

Arrastando o peso

Foram semanas de provação. Por fora, os que tomaram conhecimento da morte do Godô o estigmatizavam como agourento e portador de mau-olhado; por dentro, pior ainda, o remorso o consumia, pois aos poucos foi aceitando que suas palavras haviam, de fato, causado aquela morte injusta e desnecessária.
Quase se mudou do Leblon, deixou de circular e passou a ler tudo o que aparecia à sua frente. Às vezes, isolado, dedicava-se a pesquisas idiotas, como a dos nomes do bairro. Cultura inútil, das redondas e consagradoras: Ataulfo de Paiva foi um grande jurista e intelectual fluminense do século XIX, que ocupou a cadeira 25 da Academia Brasileira de Letras; o general Venâncio Flores, o presidente do Uruguai que se aliou ao Brasil, na Guerra do Paraguai; o general Artigas, um militar que se tornou o grande herói da independência do Uruguai; o general Urquiza, o primeiro presidente constitucional da Argentina, empossado em 1854. Minha ambição era chegar a Aristides Espínola, talvez outro general.

- Até que um dia recebi uma carta do Terêncio Marques, um dos que assistiram à cena com o Godô. Recorrera uma vez aos meus serviços profissionais e ainda guardava o endereço do meu escritório. Era uma carta salvadora e liberatória, cujo texto jamais poderei esquecer.

Quae sera tamen

“ Você está sofrendo por um crime que não cometeu. Por ter desaparecido da barbearia e da Rita Ludolf, não tomou conhecimento da verdade, que não demorou a surgir: o Godô não morreu enfartado, mas envenenado pela mulher. A policia exigiu a autopsia, constatou o envenenamento e obteve a confissão da criminosa.”

Safava-me, assim, da refrega, com apenas alguns arranhões e ferimentos leves, após tanta angústia e aborrecimento. Viva eu cá na terra sem remorso!

Visconde de Albuquerque

- Você tem de fazer o que tem de fazer, e somente isso, dizia meu avô, o velho Lionheart Pastasciutta, que era muito chegado às tiradas acacianas e tautológicas. Portanto, nunca dê conselhos!

Ah, o Visconde de Albuquerque foi derrotado pelo Padre Feijó, na eleição nacional para Regente Único, na minoridade de D. Pedro II, em 7 de abril de 1835. Apurados os votos dos cidadãos "ativos" de todo o País, verificou-se que o paulista Diogo Antônio Feijó contara com a preferência de 2.826 votantes, contra os 2.251 que preferiram o nome do pernambucano Antônio Francisco de Paula Holanda Cavalcanti de Albuquerque, o Visconde de Albuquerque. Feijó renunciou em dois anos, após enfrentar um grave período de agitação no País (Cabanagem, no Pará; Sabinada, na Bahia; Balaiada, no Maranhão; e Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul).

- Sábio
Lionheart!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

HARÉM DE PICKERING

MULHERES GENIAIS

Em 1877
o Observatório Astronômico de Harvard, dirigido por Edward Charles Pickering, iniciou um ambicioso programa de fotografia celeste. Decepcionado com a falta de concentração e incapacidade dos homens para dar atenção aos detalhes, Pickering acabou por convocar para auxiliá-lo na empreitada uma numerosa equipe de mulheres, que, para ele, eram mais responsáveis, pontuais e meticulosas.

Williamina Fleming

Lideradas pela escocesa Williamina Fleming, as mulheres engajadas nesse projeto formaram o que ficou conhecido como o "Harém de Pickering", encarregando-se de examinar as fotos colhidas pelos telescópios e fazer os cálculos relacionados com os dados observados.
As mulheres corresponderam plenamente à expectativa de Pickering. Duas delas, em particular, extrapolaram suas atribuições de simples computadoras de dados de estrelas e passaram a ocupar lugar de destaque na história da Astronomia: Annie Jump Cannon e Henrietta Leavitt.

Annie Jump Cannon (1863 - 1941)

Annie Jump Cannon, antes uma professora de Física, ingressou no Harém de Pickering em 1896, onde passou a catalogar cerca de 5 mil estrelas por mês, separando-as por cor, brilho e localização. Ela compensava sua surdez quase total com um extraordinário aumento do sentido da visão. De fato, seu “olho” para estrelas não foi jamais igualado e lhe permitiu examinar cerca de 400.000 estrelas, num trabalho absolutamente individual.

Annie Jump Cannon

É dela a divisão das estrelas, por massa e luminosidade, em sete classes espectrais - O, B, A, F, G, K e M - uma seqüência que gerações de astrônomos americanos desde muitos anos memorizam mediante utilização de uma célebre frase mnemônica “Oh, Be A Fine Girl - Kiss Me!”. Isso equivale a qualquer coisa como “Ó, Seja Uma Garota Bacana - Beije-Me!”.
Annie foi uma campeoníssima no quesito “primeira mulher”, pois foi a primeira mulher a receber um doutorado honorário da Universidade de Oxford, a primeira mulher a receber um título de membro da Sociedade Astronômica Americana e a primeira mulher a receber a Medalha de Ouro Draper, da Academia Americana de Ciências.

Henrietta Leavitt (1868 - 1921)

A exemplo de Annie Jump Cannon, Henrietta Leavitt era totalmente surda, o que lhe dificultava disputar oportunidades no mercado de trabalho. Em 1895 ela se ofereceu para trabalhar, sem nenhuma remuneração, no Observatório Astronômico de Harvard, onde executou tarefas simples até 1902, quando foi admitida como assessora permanente, com o salário de 30 centavos de dólar por hora.

Henrietta Leavitt

Henrietta Leavitt interessou-se por estrelas variáveis, que são estrelas que aumentam e diminuem de brilho regularmente, como a estrela de Algol, na Constelação de Perseu, por isso mesmo chamada, às vezes, de Demônio Piscante.

Perseu

Henrietta descobriu mais de 2.400 estrelas variáveis, cerca de metade do total então conhecido. Entre as estrelas variáveis, estão as Cefeidas, que variam entre brilho máximo e brilho mínimo em um intervalo de tempo constante; depois de muito pesquisar, ela fez uma descoberta revolucionária, correlacionando o brilho de uma Cefeida com o logaritmo do tempo em dias entre o brilho aparente máximo e o brilho aparente mínimo da Cefeida considerada.
Bastava determinar o período que decorre entre brilho máximo e brilho mínimo, por inspeção visual, para ter o brilho real de uma Cefeida mediante a utilização da correlação obtida por Henrietta, em contraposição ao seu brilho aparente percebido desde a Terra.

Essa descoberta permitiu aos astrônomos, a partir da década de 1920, calcular a exata distância que nos separa de qualquer estrela Cefeida e, em conseqüência, descobrir que nossa galáxia não era a única do Universo, mas apenas uma no meio de uma centena de bilhões de galáxias, pois há Cefeidas em todas as galáxias.

- São dez bilhões de trilhões de estrelas!

Homenagem tardia é melhor do que nenhuma

Henrietta Leavitt morreu de câncer em 1921, quase sem ser percebida, mas hoje muitos a consideram a “mais brilhante mulher que já passou por Harvard”. Onde, é bom repetir, trabalhou cerca de sete anos sem receber nenhum salário, assoberbada por problemas de saúde e pelas suas obrigações domésticas.
As denominações do Asteróide 5383 Leavitt e da Cratera Lunar Leavitt foram dadas em sua homenagem.


sábado, 22 de outubro de 2011

OURO NAS ESTRELAS

BOLA FORA

Nebulosa Carina
(Telescópio Hubble, 2009)


Augusto Comte (1798-1857) manifestou em seu "Curso de Filosofia Positiva", escrito entre 1830 e 1842, a opinião de que nunca seríamos capazes de estudar a estrutura química e mineralógica das estrelas. Poderíamos conhecer, se tanto, seus movimentos, distâncias e características geométricas, como volume, forma e tamanho.

- Comte subestimou a ciência.

Augusto Comte

Em 1859, dois anos após a morte de Comte, os alemães Robert Bunsen e Gustav Kirchoff inventaram um instrumento que recebeu o nome de espectroscópio, capaz de decompor a luz proveniente das estrelas nas suas cores e projetá-las numa figura característica. A cada cor corresponde um comprimento de onda, sendo a luz da estrela uma mistura de muitas cores, isto é, de suas ondas de luz individuais.

Gustav Kirchoff e Robert Bunsen

O espectroscópio faz com a luz de qualquer estrela uma decomposição parecida com a decomposição da luz do Sol pelas gotas de chuva, no tão familiar fenômeno do arco-íris.
Cada estrela tem sua luz, e portanto o seu particular espectro de luz, que depende apenas da sua composição química. Como se fosse uma impressão digital ou um código de barras, que se chama de “linhas de Fraunhofer”; basta ter as linhas de Fraunhofer da estrela para conhecer inteiramente a sua constituição química e minerológica.


- Isto é, podem ser obtidas de forma prática e até corriqueira as informações que Comte considerou fora do nosso alcance para sempre!

Joseph von Fraunhofer

As estrelas estão a distâncias espetaculares, mas sua luz é a mensagem que nos enviam sobre sua composição química detalhada. Ficamos sabemos desse modo que elas são feitas dos mesmos materiais existentes na Terra. As linhas de Fraunhofer de uma estrela também nos informam sobre sua temperatura, pressão e tamanho.
Devemos notar, porém, que a espectrografia não se presta para conhecer a composição química, nem qualquer outro dado, da Lua ou dos planetas, que são astros iluminados e sem luz própria.


Fraunhofer demonstrando o espectroscópio

Como trazer ouro das estrelas

O alemão Gustav Robert Kirchoff (1824 - 1887) destacou-se em vários segmentos da Física, sobretudo no campo da eletricidade e dos estudos energéticos relacionados com as radiações do corpo negro. Conta-se que se tornou muito popular e conhecido, pois era o cientista que procurava metais nas estrelas. Certa vez um vizinho debochado perguntou-lhe sobre a utilidade das suas pesquisas:

- De que vale procurar ouro no Sol, se você não vai conseguir trazê-lo para a Terra?


Muitas vezes laureado pelas academias científicas, Kirchoff recebeu certa vez uma medalha de ouro como prêmio por uma das suas pesquisas.

Ouro colhido nas estrelas

Consta que Kirchoff procurou o vizinho petulante para mostrar-lhe a recompensa:


- Eis aqui o ouro das estrelas!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

SONHO DE ESPECULADOR (1/1)

De Grace Kelly a Julia Roberts

- Em menos de 24 horas?

Sou um vitorioso de Wall Street. Ninguém entende mais do que eu de ações e de Índice Filadélfia de Semicondutores, nem de Nasdaq, mercado futuro, margens, opções e derivativos. Adivinhei que a Cisco e a Juniper iriam dar a grande virada e por isso, só por isso, acabo de ganhar doze milhões e trezentos e dezessete mil dólares, em menos de 24 horas. Em menos de 24 horas, senhoras e senhores!

- Show me the money! Show me the real money!


Saio da Bolsa de Nova York e caminho, quase no automático, até o 696 da Madison Square, o restaurante Nello. Acomodo-me na mesa mais discreta, recebo um cumprimento de Grace Kelly, e peço ao maître que ofereça vinho e destilados às mesas mais próximas. Gosto de sentir a alegria do povo.

- Oferecer, como?

- Ofereça, senhor, ofereça.

- Até para Al Pacino?, indaga-me o maître, apreensivamente, mas cheio de curiosidade.

- Não sei quem é Al Pacino, respondo, mas pode servir à vontade.

Os clientes percebem que sou um ganhador. Dinheiro para esse cara é artigo abundante, como areia na praia. Enquanto uns optam pelo Lafite Rothschild 1982, outros pedem o Chateau Margaux 1995.

- São vinhos de mais de mil dólares a garrafa, observa o maître.

- Sirva a dezessete graus Celsius, por favor.

-Dezessete graus Celsius?

- Sim, equivalentes a pouco mais de 62 graus Fahrenheit.

Todos me olham perplexos e agradecidos, mas não lhes dou atenção.

- E para o senhor?

- Peito de frango grelhado, legumes na água e sal e uma garrafa de água mineral, sem gás. De sobremesa, uma fatia de mamão bem maduro. Sim, papaia, sim, sim.

Terminada a refeição, assino um cheque em branco. Acho que a Julie Delpy está flertando comigo.

- Preencha-o no valor da conta, acrescentando-lhe uma gorjeta de vinte mil dólares.

- Vinte mil dólares? Nem o Rockfeller dá gorjetas assim...

- Rockfeller, só conheci um, o John, que tinha o péssimo hábito de discutir a conta do almoço com o garçom.
O problema dele foi a Lei Shermann. Pobre John...

- Sim, senhor.

- Tenho a lei a meu lado e não me humilho com ridicularias.

Antes de sair, sou efusivamente cumprimentado por Alberto de Mônaco, que é ruim de mulher e sempre paquera por aqui, e dou um autógrafo para Julia Roberts, que, se não me engano, faz tudo por dinheiro. Menos beijar na boca...

sábado, 15 de outubro de 2011

ENTENDA O NOBEL DE FÍSICA DE 2011

Saiba, primeiro, sobre matéria escura e energia escura

Saul Perlmutter, Brian Schmiddt e Adam Riess

A matéria luminosa do Universo - que "vemos" porque emite radiação eletromagnética, a saber, luz, ondas de rádio, raios X e raios gama - é uma fração insignificante do seu conteúdo total,
este sobretudo constituído de “matéria escura” e de “energia escura”, das quais ainda se conhece muito pouco.

Matéria escura


Foi descoberta a partir de 1930, quando o astrônomo suíço Fritz Zwick notou que as galáxias do aglomerado de Coma moviam-se muito rapidamente, o que era incompatível com as leis de Newton.

- Algo estranho... A velocidade excessiva do movimento deveria desmanchar o aglomerado, declarou Zwick.

Em 1962 a astrônoma Vera Rubin observou que a Via Láctea girava tão rapidamente que, se não houvesse uma força agrupadora, deveria desintegrar-se imediatamente. Era a mesma conclusão de Zwick, mas agora em relação à nossa própria galáxia.

- Como a desintegração não ocorre, pelas leis de Newton nossa galáxia teria de ser dez vezes mais pesada do que se supõe.

A própria Vera Rubin, prosseguindo nas suas observações, percebeu o mesmo comportamento em outras onze galáxias, segundo trabalho publicado em 1978; nesse mesmo ano, o radioastrônomo holandês Albert Bosma reportou um comportamento análogo em dezenas de outras galáxias.

-Um verdadeiro paradoxo, que ficou conhecido como "the galaxy rotation problem"
, pois as galáxias estariam a girar de maneira conflitante com as leis da Física.

Vera C. Rubin

Girando muito depressa, como pode?

Para explicar essa anomalia, chegou a ser proposta uma "dinâmica newtoniana modificada" (MOND), que não prosperou. A explicação hoje aceita pelos cientistas é a de que há uma matéria invisível no entorno das galáxias, a "matéria escura", dez vezes mais pesada do que as próprias estrelas, e cuja intensa gravidade explica o comportamento acelerado de cada galáxia.

-Invisível, porque escura, e escura porque não interage com a luz.

Uma hipótese é, de fato, que a matéria escura seja formada por estrelas marrons, estrelas de nêutrons, buracos negros e outras estruturas invisíveis, constituídas de nêutrons e prótons (“matéria bariônica”), mas há os que afirmam tratar-se de neutrinos (matéria não-bariônica) muito quentes.
A matéria escura pode ser medida pela maneira por que faz curvar a luz das estrelas, como consequência da sua gravidade. Muito recentemente, foram elaborados mapas de distribuição da matéria escura no Universo, tomando por base as fotografias colhidas pelo telescópio espacial Hubble, em 1998. Segundo esses estudos, a matéria escura compõe 23 % do conteúdo total de matéria e energia do Universo.

Energia escura
Telescópio Hubble

Por outro lado, a observação distante, que permite ver os corpos celestes como eram bilhões de anos atrás, conduziu à descoberta de energia escura. Além de matéria escura, há também energia escura! De fato, o telescópio espacial Hubble, em 1998, observou as supernovas (explosões de estrelas em sua fase terminal) que existiram no Universo primordial, o que levou à descoberta de que o Universo no passado remoto se expandia menos do que atualmente.

- Ou seja, o Universo está se acelerando! Todos pensavam que estava se desacelerando!

A concepção de que o Universo estaria se desacelerando era atribuída à ação da gravidade, atuando em caráter exclusivo, com os corpos celestes a se atraírem e freiando a expansão.
Mas agora, depois de 1998, foi necessário ressuscitar a constante cosmológica de Einstein.
Conforme proposta, a constante cosmológica seria uma pressão inerente ao espaço, uma energia do vácuo, desprezável em distâncias curtas, mas significativa nas imensas distâncias do Universo, capaz de neutralizar a gravidade e de ser por esta neutralizada; por isso o Universo haveria de ser estático, como supunha Einstein, no início da discussão.

- Para Einstein, força de expansão = força de atração.

Viva a constante cosmológica!

Nos anos 1930, quando se provou que o Universo não era estático, mas que se expandia, é que se supôs que a expansão do Universo estava se desacelerando, com base nas concepções de Friedmann. Decretou-se a falência da constante cosmológica, quando Einstein declarou:

- A constante cosmológica foi o maior erro da minha vida...

Pois bem, a aceleração do Universo, como observado em 1998, traz de volta a constante cosmológica. Não como Einstein imaginou, apenas capaz de contabalançar a gravidade, mas com muito mais poder e importância: passou-se a admitir uma energia de vácuo que justifica a aceleração do Universo.


- Enfatizando: força de expansão maior que força de atração, por causa de uma constante cosmológica maior do que a sugerida por Einstein.

- Ou seja, uma volta triunfal da constante cosmológica, depois de décadas de ostracismo.

A energia da constante cosmológica, que é a energia do espaço vazio, corresponde exatamente ao que se chama de "energia escura", cuja quantidade total é proporcional ao volume do Universo.
Os cálculos dos cientistas indicam que a energia escura compõe 73 % de toda a matéria e energia do Universo.

Uma vida muito acelerada
Em resumo

(a) A matéria escura explica a velocidade de rotação das galáxias.
A matéria responde por 27 por cento do conteúdo do Universo, sendo 23 por cento de matéria escura e apenas 4 por cento de matéria convencional (matéria visível e matéria iluminada).

(b) A energia escura explica a aceleração do Universo. Responde por 73 por cento do conteúdo do Universo.


Prêmio Nobel de Física de 2011

Pelos estudos que comprovararam a aceleração do Universo pela ação da energia escura, três cientistas dividiram o Prêmio Nobel de Física de 2011: Saul Perlmutter, do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley e da Universidade da Califórnia, Brian Schmidt, do Universidade Nacional Australiana, e Adam Riess, da Universidade Johns Hopkins, situada em Baltimore, Maryland.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

ROSAS VERMELHAS PARA RITA HAYWORTH (parte 4/4)

Respeito Ao Leitor

O bilhete sobre a mesa era do secretário do jornal, convocando-a para uma entrevista. Agora? As coisas começavam a se complicar. Marta caminhou até o elevador com apreensão, pois nunca havia sido solicitada para uma entrevista individual com o chefe.

Que será?

Positivamente um dia estranho, atípico. Primeiro, rosas. Depois, cartas amarelas, asseverando que praga domina setor. E agora, esse encontro. Teria a ver com as rosas? Com as cartas amarelas, ou seja, com o método pouco ortodoxo de "Morangos Silvestres"?

Paradigma da modernidade

O secretário fez-lhe um pequeno relato sobre as novas diretrizes que pretendia introduzir para orientar os trabalhos da redação, tendo em vista a missão e os objetivos permantentes do jornal e a necessidade de estimular o desenvolvimento organizacional e a gestão pela qualidade total. A qualidade como fator básico de diferenciação do jornal, como paradigma da modernidade e forma de respeito ao leitor.


- Não há profissionalismo sem o mais absoluto respeito ao leitor, agora e sempre a razão de ser do jornal.

Marta não teve dúvida. Ele estava preparando o terreno para demiti-la. Com certeza tudo fora descoberto... Não conseguiu controlar-se, sentiu-se mal e quase desfaleceu, ali na frente do superior.

- Que está acontecendo?

- Nada, nada. É que eu não dormi bem esta noite.

- Tudo bem, disse o secretário, não irei incomodá-la mais. Achei que deveria colocá-la a par do nosso planejamento estratégico, antes de informar-lhe o motivo da entrevista. A senhora merece toda a consideração do jornal. Mandei chamá-la para comunicar-lhe, pessoalmente, que o conselho de administração aprovou um aumento de cem por cento nos seus vencimentos, depois de considerada, em todas as avaliações, como a melhor colaboradora do jornal neste semestre. Aliás, a promoção sobre "Morangos Silvestres" foi nossa principal iniciativa em todo o ano. A senhora será apontada pela administração como exemplo a ser seguido por todos que trabalham no jornal. Meus parabéns, meus parabéns!

Marta dirigiu-se apressadamente para sua mesa. Ao invés de alegre, estava triste. Não era para menos, pois quase desmaiara na frente do executivo número um do jornal, no momento em que recebia a notícia mais importante da sua vida profissional. Um vexame. Tudo por causa dessas malditas cartas amarelas.

A mesma pessoa

Demóstenes a aguardava.

- "Praga Domina Setor" é um anagrama de "A Grande Impostora".

- A grande impostora? E "Heli Dutra Visconsi"?

-
"Heli Dutra Visconsi", outro anagrama, corresponde ao nome russo "Issur Danielovitch".

Issur Danielovitch! A grande impostora! Deus, meu Deus... Muito interessante, meu Deus, muito interessante. Issur Danielovitch era o nome civil de Kirk Douglas, autoproclamado judeu russo de Nova York. Ou seja, as rosas vermelhas, de Kirk Douglas, e as cartas amarelas, de Heli Dutra Visconsi, haviam sido enviadas pela mesma pessoa. Essa pessoa sabia que ela era uma grande impostora, não a melhor empregada do jornal.

Inesquecível

Voltou, mais forte, o descontrole, e Marta começou a chorar convulsivamente, sem notar a gente que aos poucos foi se reunindo discretamente a seu redor.

- Por que chora a nossa Rita Hayworth?

- De alegria, pois acabou de receber um generoso aumento de salário, em razão de uma avaliação superior pelo conselho de administração.

Deu-se então que Jorginho Estafa, o rapaz boa praça que distribuía a correspondência, puxou as primeiras palmas. O redator de economia cessou o "Veste la giubba" e bateu palmas também. Seguiram-se as adesões da Tatiana, do produtor de eventos musicais, da Maizé e do Armando Rozário. Ah, não esquecer Maria Thereza Noronha, poeta maior. Em poucos segundos, toda a redação aplaudia, com entusiasmo emocionado, a moça de vestido azul, que chorava abraçada àquelas maravilhosas rosas vermelhas e era digna de todos os aplausos. Um dia simplesmente inesquecível.
(fim)

sábado, 8 de outubro de 2011

ROSAS VERMELHAS PARA RITA HAYWORTH (parte 3/4)

Mentir, se necessário

Marta espreguiçou, deixando-se alongar suave e demoradamente, disposta a não acusar o golpe, nem permitir-se nenhum constrangimento ou remorso. "Morangos Silvestres"... O concurso, que tinha sido uma iniciativa secundária e despretensiosa, inesperadamente atraíra 1.300 concorrentes, rendendo um material de duas mil páginas. Três vezes o"Dom Quixote", cuja leitura vinha adiando havia dez anos. Considerava as críticas de cinema, as dos outros, um exercício de chatice e alienação. Que dizer então de mil e tantas críticas, amadoras, sobre um único filme? Por que, meu Deus, tanta gente se considerava habilitada a criticar Bergman? Uma idéia infeliz, esse concurso!

Calhamaço

Sortear uma das cartas e publicá-la, fosse qual fosse, fora a alternativa viável, sensata, porque indolor e absolutamente inofensiva.
E equânime, é bom acrescentar.
Embora, verdade seja dita, um prêmio estivesse em causa...
Marta, a carta amarela nas mãos, invocou Maquiavel, Richelieu e Cícero, essa gente que, bem usada, defende-nos de mordimentos e inquietações.

Richelieu

A mentira essencial, onde o erro?
É permitido mentir, se necessário, pois devemos fazer tudo que for ditado pela necessidade, não importa se a ação é iníqua ou virtuosa. A carta amarela, desse Heli Dutra Visconsi, era um libelo incompetente, e inútil, que nada significava em face de milhares de leitores que, não tendo se manifestado, concordaram com o desfecho da promoção. Não gostou do resultado? Paciência...Leitores calados, agora e sempre os bons leitores.
Olhou para o envelope e examinou novamente o texto. Nenhum endereço. Marta atirou a carta impertinente na lata do lixo. O problema saía do seu âmbito e passava à jurisdição da Comlurb...

- Mas que diabo seria "Praga Domina Setor?"

Apertou contra o peito as rosas vermelhas. Não se incomodava de ser a Rita Hayworth da redação. Se a turma do esporte tivesse perguntado sobre "O Mágico de Oz", teria se tornado a Judy Garland. "Se Viva Zapata!", um Marlon Brando... de saias?


Exercício de Permutações

Jorginho Estafa, que, de tão apressado, nem reparou naquelas rosas, depôs sobre a mesa outro envelope amarelo. Abriu-o, nervosa, e leu:

"Praga Domina Setor.
Atenciosamente,
Heli Dutra Visconsi"

Outra vez? Ainda bem que o dia começara com as rosas gentis, pois duas cartas amarelas azedam o humor de qualquer um. Foi à lista telefônica e procurou por Heli Dutra Visconsi. Encontrou Visconte e Visconti, muitos, muitos, mas nenhum Visconsi. Esse Heli Dutra Visconsi não existia, isso mesmo, não existia. Existia, porém, uma pessoa que usara esse nome. Duas vezes. Pensou em ameaças codificadas, criptogramas. Cheia de temor, foi à lata do lixo, recolheu a primeira carta e guardou-a na bolsa.
Especialista em logogrifos e rébus, Demóstenes era responsável pelas palavras cruzadas e quebra-cabeças do jornal. Marta procurou-o, lá no fundo da redação. Queria decifrar "Praga Domina Setor" e "Heli Dutra Visconsi", mas não explicou a origem dos enigmas, nem o porquê da sua inquietação.

Demóstenes, a cara epentética e apocopada de charada novíssima, começou imediatamente seu exercício de permutações, com aquela indefectível certeza de que podia decifrar todo e qualquer enigma que envolvesse combinação de letras e conceitos presentes nos dicionários.
(continua)