O bilhete sobre a mesa era do secretário do jornal, convocando-a para uma entrevista. Agora? As coisas começavam a se complicar. Marta caminhou até o elevador com apreensão, pois nunca havia sido solicitada para uma entrevista individual com o chefe.
Positivamente um dia estranho, atípico. Primeiro, rosas. Depois, cartas amarelas, asseverando que praga domina setor. E agora, esse encontro. Teria a ver com as rosas? Com as cartas amarelas, ou seja, com o método pouco ortodoxo de "Morangos Silvestres"?
Paradigma da modernidade
O secretário fez-lhe um pequeno relato sobre as novas diretrizes que pretendia introduzir para orientar os trabalhos da redação, tendo em vista a missão e os objetivos permantentes do jornal e a necessidade de estimular o desenvolvimento organizacional e a gestão pela qualidade total. A qualidade como fator básico de diferenciação do jornal, como paradigma da modernidade e forma de respeito ao leitor.

- Não há profissionalismo sem o mais absoluto respeito ao leitor, agora e sempre a razão de ser do jornal.
Marta não teve dúvida. Ele estava preparando o terreno para demiti-la. Com certeza tudo fora descoberto... Não conseguiu controlar-se, sentiu-se mal e quase desfaleceu, ali na frente do superior.
- Que está acontecendo?
- Nada, nada. É que eu não dormi bem esta noite.
- Tudo bem, disse o secretário, não irei incomodá-la mais. Achei que deveria colocá-la a par do nosso planejamento estratégico, antes de informar-lhe o motivo da entrevista. A senhora merece toda a consideração do jornal. Mandei chamá-la para comunicar-lhe, pessoalmente, que o conselho de administração aprovou um aumento de cem por cento nos seus vencimentos, depois de considerada, em todas as avaliações, como a melhor colaboradora do jornal neste semestre. Aliás, a promoção sobre "Morangos Silvestres" foi nossa principal iniciativa em todo o ano. A senhora será apontada pela administração como exemplo a ser seguido por todos que trabalham no jornal. Meus parabéns, meus parabéns!
Marta dirigiu-se apressadamente para sua mesa. Ao invés de alegre, estava triste. Não era para menos, pois quase desmaiara na frente do executivo número um do jornal, no momento em que recebia a notícia mais importante da sua vida profissional. Um vexame. Tudo por causa dessas malditas cartas amarelas.
A mesma pessoa
Demóstenes a aguardava.
- "Praga Domina Setor" é um anagrama de "A Grande Impostora".
- A grande impostora? E "Heli Dutra Visconsi"?
- "Heli Dutra Visconsi", outro anagrama, corresponde ao nome russo "Issur Danielovitch".
Issur Danielovitch! A grande impostora! Deus, meu Deus... Muito interessante, meu Deus, muito interessante. Issur Danielovitch era o nome civil de Kirk Douglas, autoproclamado judeu russo de Nova York. Ou seja, as rosas vermelhas, de Kirk Douglas, e as cartas amarelas, de Heli Dutra Visconsi, haviam sido enviadas pela mesma pessoa. Essa pessoa sabia que ela era uma grande impostora, não a melhor empregada do jornal.Inesquecível
Voltou, mais forte, o descontrole, e Marta começou a chorar convulsivamente, sem notar a gente que aos poucos foi se reunindo discretamente a seu redor.
- Por que chora a nossa Rita Hayworth?- De alegria, pois acabou de receber um generoso aumento de salário, em razão de uma avaliação superior pelo conselho de administração.
Deu-se então que Jorginho Estafa, o rapaz boa praça que distribuía a correspondência, puxou as primeiras palmas. O redator de economia cessou o "Veste la giubba" e bateu palmas também. Seguiram-se as adesões da Tatiana, do produtor de eventos musicais, da Maizé e do Armando Rozário. Ah, não esquecer Maria Thereza Noronha, poeta maior. Em poucos segundos, toda a redação aplaudia, com entusiasmo emocionado, a moça de vestido azul, que chorava abraçada àquelas maravilhosas rosas vermelhas e era digna de todos os aplausos. Um dia simplesmente inesquecível.
(fim)


































