sábado, 8 de outubro de 2011

ROSAS VERMELHAS PARA RITA HAYWORTH (parte 3/4)

Mentir, se necessário

Marta espreguiçou, deixando-se alongar suave e demoradamente, disposta a não acusar o golpe, nem permitir-se nenhum constrangimento ou remorso. "Morangos Silvestres"... O concurso, que tinha sido uma iniciativa secundária e despretensiosa, inesperadamente atraíra 1.300 concorrentes, rendendo um material de duas mil páginas. Três vezes o"Dom Quixote", cuja leitura vinha adiando havia dez anos. Considerava as críticas de cinema, as dos outros, um exercício de chatice e alienação. Que dizer então de mil e tantas críticas, amadoras, sobre um único filme? Por que, meu Deus, tanta gente se considerava habilitada a criticar Bergman? Uma idéia infeliz, esse concurso!

Calhamaço

Sortear uma das cartas e publicá-la, fosse qual fosse, fora a alternativa viável, sensata, porque indolor e absolutamente inofensiva.
E equânime, é bom acrescentar.
Embora, verdade seja dita, um prêmio estivesse em causa...
Marta, a carta amarela nas mãos, invocou Maquiavel, Richelieu e Cícero, essa gente que, bem usada, defende-nos de mordimentos e inquietações.

Richelieu

A mentira essencial, onde o erro?
É permitido mentir, se necessário, pois devemos fazer tudo que for ditado pela necessidade, não importa se a ação é iníqua ou virtuosa. A carta amarela, desse Heli Dutra Visconsi, era um libelo incompetente, e inútil, que nada significava em face de milhares de leitores que, não tendo se manifestado, concordaram com o desfecho da promoção. Não gostou do resultado? Paciência...Leitores calados, agora e sempre os bons leitores.
Olhou para o envelope e examinou novamente o texto. Nenhum endereço. Marta atirou a carta impertinente na lata do lixo. O problema saía do seu âmbito e passava à jurisdição da Comlurb...

- Mas que diabo seria "Praga Domina Setor?"

Apertou contra o peito as rosas vermelhas. Não se incomodava de ser a Rita Hayworth da redação. Se a turma do esporte tivesse perguntado sobre "O Mágico de Oz", teria se tornado a Judy Garland. "Se Viva Zapata!", um Marlon Brando... de saias?


Exercício de Permutações

Jorginho Estafa, que, de tão apressado, nem reparou naquelas rosas, depôs sobre a mesa outro envelope amarelo. Abriu-o, nervosa, e leu:

"Praga Domina Setor.
Atenciosamente,
Heli Dutra Visconsi"

Outra vez? Ainda bem que o dia começara com as rosas gentis, pois duas cartas amarelas azedam o humor de qualquer um. Foi à lista telefônica e procurou por Heli Dutra Visconsi. Encontrou Visconte e Visconti, muitos, muitos, mas nenhum Visconsi. Esse Heli Dutra Visconsi não existia, isso mesmo, não existia. Existia, porém, uma pessoa que usara esse nome. Duas vezes. Pensou em ameaças codificadas, criptogramas. Cheia de temor, foi à lata do lixo, recolheu a primeira carta e guardou-a na bolsa.
Especialista em logogrifos e rébus, Demóstenes era responsável pelas palavras cruzadas e quebra-cabeças do jornal. Marta procurou-o, lá no fundo da redação. Queria decifrar "Praga Domina Setor" e "Heli Dutra Visconsi", mas não explicou a origem dos enigmas, nem o porquê da sua inquietação.

Demóstenes, a cara epentética e apocopada de charada novíssima, começou imediatamente seu exercício de permutações, com aquela indefectível certeza de que podia decifrar todo e qualquer enigma que envolvesse combinação de letras e conceitos presentes nos dicionários.
(continua)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

ROSAS VERMELHAS PARA RITA HAYWORTH (parte 2/4)

NEM TUDO SÃO FLORES

O prestígio de Marta rapidamente ultrapassou as fronteiras da redação, pois logo se espalhou que ela sabia tudo de cinema e da vida dos astros, de Greta Garbo a Al Pacino e de Clark Gable a Grace Kelly. Que podia falar sobre os carros verdes de Darryl Zanuck, as farras de Orson Welles e Grande Othelo, os filmes americanos que tiveram música de Ari Barroso, o orçamento de "Quando Voam as Cegonhas", de Michel Kalazotov. Todos a ouviam sobre as dificuldades d
e "Deus e o Diabo na Terra do Sol" e os percalços de "Casablanca" ou como Stanley Cramer, que produziu "Matar ou Morrer", tornou-se o produtor que dirigia diretores.

Prestígio gera prestígio. Por mais esdrúxulo que possa parecer, representantes do prefeito procuraram-na para saber das preferências sexuais de Anthony Quinn, que seria o convidado especial do Carnaval. Nenhuma oportunidade para o inesperado, ou seja, risco zero. Quem não se lembrava do episódio da bela Ilka Soares, humilhada, ao lado de Rock Hudson?
Marta explicou-lhes que o caso de Anthony Quinn era diferente, citando seus romances com Maureen O´Hara, Susan Ball, Irene Papas, Ingrid Bergman, Pia Lindstrom e Estelle Taylor, a mulher de Jack Dempsey, este, o temido campeão mundial dos pesos-pesados, sim, senhor.

- Mas Ingrid Bergman não era a mãe de Pia Lindstrom?

- Exatamente. Elas faziam uma espécie de revezamento no leito do mexicano...



Marta, que fora contratada para trabalhar na internacional porque sabia inglês, era agora a responsável no jornal por tudo que se referisse a cinema. Cinema, a paixão assumida desde que vira "Ladrões de Bicicletas", não uma, mas vinte vezes. Vinte vezes chorara na cena da cartomante.

- Se non la trova subito, non la trova più.

O êxtase incontido diante de filmes como "Amarcord", "No Tempo das Diligências", "Milagre em Milão", "O Salário do Medo", "A Um Passo da Eternidade", "Sindicato dos Ladrões", "As Grandes Manobras", "Oito e Meio", "O Ano Passado em Marienbad", "A Grande Ilusão"... A irresistível compulsão de só estudar cinema, o mestrado na Califórnia, as biografias de tantos astros lidas na vigília impossível, as pesquisas sobre os divórcios escandalosos de Hollywood, tudo isso lhe valia agora, pois trabalhava cheia de alegria, ganhava bem e era admirada pelo que fazia.

Não que estivesse perfeitamente adaptada à redação, que isso não era essencial, nem possível, a bem da verdade. Pois ali acontecia de tudo, tudo mesmo, até comércio de importados, exibição de cães amestrados e campeonato de pingue-pongue. Como esquecer do redator pedante que lia sua crônica de inutilidades em voz alta, todos a ouvi-lo, como se tivesse produzido um sermão de Vieira ou um soneto de Camões? E o caso do Presidente, que recebeu tapinhas nas costas e foi constrangido a comprar rifa de radinho de pilha, ou, ainda, a inacreditável desfaçatez do Porfírio, repórter policial e assaltante de bancos, que um dia apareceu com uma mala transbordando de dinheiro e pediu demissão, alegando circunstâncias extraordinárias?
Claro, havia também pequenas e adoráveis gentilezas, o encanto de trabalhar com pessoas solidárias e gentis.
Capazes de rosas vermelhas, que, lindas, falavam diretamente ao seu coração.

- Valeu, redação, valeu muito. Vocês são muito lisonjeiros, e as rosas, maravilhosas. Um dia me explicarão como souberam que eu hoje estaria vestida de azul.


Cartas amarelas


Jorginho Estafa vivia apregoando que Marta só não recebia mais correspondência do que a seção de "Cartas dos Leitores". Pré-estréias, ingressos para festivais, convites, conferências, mesas-redondas, roteiros, tentativas de roteiros, congratulações, sugestões. No meio de tudo, quase junto das rosas, estava a carta amarela, protestando sobre o resultado de "Morangos Silvestres":

"Você deu um tratamento pífio à promoção, premiando alguém que entendeu muito pouco do filme de Bergman. Um amontoado de tolices, disparates, ridicularias e afirmações absolutamente desconexas. O leitor premiado deve ter visto as Mil e Uma Noites, de Pasolini, quem sabe o Mandarim, e não Morangos Silvestres. Praga domina setor.

Atenciosamente,

Heli Dutra Visconsi."
(continua)

sábado, 1 de outubro de 2011

ROSAS VERMELHAS PARA RITA HAYWORTH (parte 1/4)

Pequenas gentilezas

Naquele dia inesquecível, Marta Preghiera Gonçalves encontrou sobre a mesa de trabalho um arranjo de rosas vermelhas, com o cartão misterioso:

"Você está mais Rita Hayworth do que nunca, e nupcial, nesse maravilhoso vestido azul. Kirk Douglas"

Rita Hayworth, nupcial, vestido azul, Kirk Douglas... Mais uma brincadeira, pensou, pois a redação é pródiga em pequenas surpresas de autoria absolutamente inalcançável. Ou será alguém preparando alguma proposta...decente? Em torno, o pauteiro, de bermudas e suspensórios, a velhota especializada em acompanhamento de licitações públicas, a editora de moda e o redator de economia, que vivia da inflação e só trabalhava cantando, ou alguma ópera de Verdi ou as estagiárias do jornal. Bem no centro da redação, a querida e encantadora Maizé, responsável pela diagramação, e o Armando Rozário, circunspecto, com suas fotografias carregadas de emoção.

Rita Hayworth
Casamentos oficiais, vestido azul. Todos sabiam que, dos amantes, Kirk Douglas era um dos escassos sobreviventes, mas não se lembrava de haver mencionado na redação o vestido azul dos casamentos com Orson Welles e Aly Khan.

Kirk Douglas

Um leito compartilhado por estrelas, Joan Crawford, Rita Hayworth, Marilyn Monroe, Gene Tierney, Pier Angeli, Anne Buydens. Imaginou-se escorraçando Anne Buydens e convocando Michael, Eric, Joel e Peter para conhecer as novas regras na mansão da Califórnia. E administrando, com mão de ferro, os 200 milhões de dólares que o velho Kirk, o filho do trapeiro, ganhou como proprietário do roteiro de "Um Estranho no Ninho".
O lado ruim da fantasia era o Kirk Douglas Preghiera Gonçalves já ter ultrapassado os 80 anos, que a perfeição definitivamente não existe.

- Tenho cara de viúva lacrimosa, encarregada de destruir o marcapasso e recolher as cinzas?

A redação

Contemplou mais uma vez as rosas magníficas e pensou, com palavras de Rubem Braga: um belo gesto da terra. Estava no melhor momento de sua vida, uma trajetória que começou com o trabalho do jornal sobre Heleno de Freitas, o elegante, eficiente e temperamental centroavante alvinegro, que os adversários, despeitados, apelidaram de "Gilda". O pessoal do futebol precisava de informações sobre Rita Hayworth, e ela, caloura na redação, afirmou que poderia ajudar. Foram dois dias respondendo na editoria de esportes que Edward Judson, o primeiro marido, oferecia Rita Hayworth de bandeja aos executivos de Hollywood; que ela teve 18 amantes, ou 19, se houver a decisão de dar crédito ao soi-disant Jorginho Guinle; que, tendo ficado decrépita, aos 56 anos não se lembrava de "Sangue e Areia", nem de "Gilda", "Salomé" e "Madame Xangai". Enfim, todos aqueles pormenores, que tanto enriqueceram a matéria esportiva.
Saiu do episódio com o apelido de Rita Hayworth e, melhor, transferida da internacional para a editoria de cinema.

Os Vivos e os Mortos

Logo depois, outra sorte, o seminário sobre John Huston, na PUC. Marta, lá da platéia, socorreu o palestrante e citou a parte final do roteiro de "Os Mortos e os Vivos", filme baseado num conto dublinense de James Joyce:

- Gabriel olhava a neve cair suave através do Universo, cair brandamente sobre todos os vivos e todos os mortos, como se lhes descesse a hora final.

Essa intervenção ocasional e despretensiosa rendeu-lhe um elogio público de Anselmo Duarte e referências abonadoras em textos de Hector Babenco e Rubens Ewald Filho.
(continua)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O HOMEM DESNECESSÁRIO

Hebdomadário, sim, senhor!


As pessoas não têm por que me incomodar, e seu desinteresse por mim só não é maior que a tranquilidade que me advém desse fato. Sozinho, num quarto do segundo andar, privilégio que me custa por mês o adicional de duzentos reais, alterno-me entre obras literárias e física. Ou me ponho a resolver problemas de palavras cruzadas, pois o homem só, quando não está com vontade de ler, nem de estudar, pode desperdiçar seu tempo procurando pela mulher que tasca o linho, pela epidemia que grassou em Paris no ano da graça de 1441, pelo deus do fogo, entre os celtas, pela abertura na carlinga por onde passa o mastro do navio, pela segunda produção de cana, depois de cortada a primeira, pelo maior afluente do volga, ou pela cerveja inglesa fabricada com malte pouco torrado. Achar a palavra salvadora, a que não descruza e se conforma no diagrama, é modesta e solitária vitória, sem direito a aplauso nem recompensa, é verdade, mas não recebo nenhuma censura, nem vaias, nos meus fracassos cruzadísticos, tão vastos e numerosos.

Bancário

Amigos não tenho, tampouco assunto, guarda-chuva ou retrospecto, e ninguém ouviu história de minha boca, nem curta, nem comprida. Sou escasso, por assim dizer, e não é sem razão que poucos hão de saber que sou bancário e, portanto, um cidadão modestamente remunerado. Gostaria de ter sido algo melhor, até tentei, mas o que me tocou foi exatamente caixa de banco, e isso há de me bastar. Não tenho, e até desconheço quais sejam, as relevantes qualidades que justificam os saldos milionários e as exuberantes mulheres dos homens que não são, como eu, desnecessários.

- Odeio homens desnecessários...

Se tivesse uma oportunidade de recomeçar, tentaria a carreira de professor, quem sabe de literatura ou, principalmente, de física. Eu me imagino na sala de aula demonstrando de maneira competente que, em face dos princípios da termodinâmica e das irreversibilidades envolvidas nas trocas de calor entre corpos quentes e corpos frios, o crescimento da entropia será a causa da morte do universo, daqui a alguns bilhões de anos. Dar essa aula é a minha fantasia colorida, de realização improvável, claro, muito claro, mas nem por isso menos colorida.


- A entropia é a morte térmica do universo...

Concurso

Uma saída para mim seria passar em algum concurso. Infelizmente, porém, não passa em concurso um homem como eu, só e desnecessário. Não que os concursos sejam fraudados, isso não. É que para se dar bem em concurso é necessário que o homem não seja só, nem desnecessário. Reconheço a contundente circularidade do que acabo de afirmar, necessário não ser desnecessário, mas a circularidade pode ser inevitável, como a do matemático que estabelece o conceito de probabilidade tomando por base os casos prováveis que reconhece no âmbito de todos os casos possíveis e igualmente prováveis, ou seja, define probabilidade em função da... probabilidade.

Dissipando mal-entendidos

Mas há o lado bom de ser desnecessário, bastando dizer que não tenho de dar espinafrada, nem gorjeta, nem mole, nem bandeira, nem uma de inteligente, nem bons-dias ou cotoveladas.
O homem desnecessário chama-se, por exemplo, Hebdomadário de Oliveira, que é esse o meu nome, exatamente esse. Sou, nesse particular, um homem comprovadamente só, por absoluta fata de outro Hebdomadário.

- Não acredito!

Trago a certidão de nascimento sempre comigo, para aquelas pessoas que não acreditam que alguém possa ser, dos Oliveiras, o Hebdomadário. Sempre que requerido, essa certidão dissipa o mal-entendido de forma competente e definitiva. Hebdomadário de Oliveira, sim, senhor, veja aqui, nascido em Barro Verde, no dia 3 de janeiro de 1969.

(Do livro “O Homem Horizontal”)

sábado, 24 de setembro de 2011

O NOVO DEQUINHA (parte 5/5)

Epílogo

Abraham Lincoln, que de lenhador chegou a presidente dos Estados Unidos, disse certa vez que há sempre um lugar disponível no topo. A Bíblia, que fala mais alto, afirma, porém, que, dos muitos requisitados, poucos serão os escolhidos.
Veio, com efeito, o 15 de dezembro.
Desde cedo na Gávea, o
s rapazes estavam apreensivos, mas cheios de esperança. Após tantos meses de sacrifícios, tudo ficaria definido: o começo da glória ou o fim das ilusões. O primeiro a ser chamado foi o Juan, que entrou na sala do treinador e voltou logo depois, na maior alegria. Na sequência, Fabiano, Pirita, Aluísio e Serginho.
Segundo o Carijó, Dedeu foi avisado pelo auxiliar técnico:

- Sua entrevista será com a psicóloga, doutora Emengarda, não com o treinador.

Viagem aos seios de Duília

Soube então que não seria aproveitado, pois o Flamengo decidira contratar na Bahia um lateral que despontava como um dos grandes nomes da nova geração de jogadores. Que ele dissesse que deixava o Flamengo por razões pessoais. E não se abatesse: havia muitas profissões dignas, e nem todos podiam ser jogadores de futebol. Djavan tentou ser jogador, hoje é cantor e compositor de renome internacional. Júlio Iglésias, Paulo César Sarraceni, Miele, o prefeito César Maia. Aníbal Machado fez o primeiro gol do Atlético Mineiro, antes de escrever o genial conto "Viagem aos Seios de Duília". Um exemplo ainda melhor: Breno, o Breno Mello, não conseguiu jogar no Fluminense, mas foi o protagonista de "Orfeu do Carnaval", um filme de Marcel Camus, premiado em Cannes. Tancredo Neves chegou a Presidente!

- E tem mais. O Flamengo vai lhe dar um documento. Não uma carta de recomendação, que isso não é possível, mas um nada-consta, atestando
que nenhum fato foi registrado no clube em desabono de sua conduta em dez meses de estágio no departamento de futebol. Não deixa de ser uma credencial, nestes tempos bicudos de prevaricação e desonestidade.

Nicanor

No dia seguinte os jornais anunciaram o acidente que vitimou o jovem Dedeu, que saíra da Gávea sem falar com ninguém, portando um nada-consta, no qual não constava nada.

Em nota oficial, o Flamengo lamentou a perda do jogador, que estava sendo cuidadosamente preparado para assumir a posição de lateral direito do time profissional. Na Serra do Mendanha, Nicanor, bêbado, sujo, caído na sarjeta, é agora um homem derrotado. Os embates da vida impediram-no de ser um novo Domingos da Guia, uma injustiça irreparável. Depois, injustiça maior, um ônibus tirou a vida do filho, o seu querido Dedeu, que no Flamengo todos consideravam tão bom quanto o Leandro.
Essa é a história do novo Dequinha. Falta acrescentar que Carijó, o maior amigo de Dedeu e por acaso sobrinho da doutora Emengarda, abriga a secreta convicção de que a morte do companheiro não foi acidental:

- Ele me disse várias vezes que não poderia continuar vivendo, se não fosse contratado pelo Flamengo.
(Fim)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O NOVO DEQUINHA (parte 4/5)

UM ÍDOLO EM ELABORAÇÃO

Em casa, Nicanor não escondia sua impaci
ência. Queria uma definição, e positiva, sobre a situação do filho no Flamengo. Dedeu, temeroso, não tinha coragem de dar-lhe nenhuma esperança. Conhecia muito bem as idiossincrasias do pai, sua propensão tanto para o entusiasmo quanto, principalmente, para a decepção. Por isso o levava com muito cuidado.
Um dia, porém, Carijó apareceu na Serra do
Mendanha e achou de inventar aquela mentira lamentável:

-Seu Nicanor, o professor Carlinhos elogiou muito o Dedeu. Acha que ele se parece muito com o Leandro.

Carlinhos

Era de se ver a alegria do Nicanor, transbordando de satisfação, a antever o futuro glorioso do
filho. A vizinhança logo soube da façanha. Era só esperar, e o veriam no Maracanã, marcando, apoiando, cruzando a bola certeira, venenosa, na cabeça do centro-avante, a quem só caberia testar a bola para dentro do gol.

- A fotogra
fia nos jornais, o assédio dos torcedores, a Europa de olho no menino.

Afirmava para todos que Carlinhos era palavra garantida. Jogador de categoria, que era chamado de Violino, não botava a cabeça na bola para não despentear o cabelo. Ele a buscava com o pé, recolhendo-a lá no alto, pois era no gramado que a bola tinha de ser forçada a transitar. Carlinhos em campo, certeza de time organizado. Como técnico, então, nem se fala, pois deu dois campeonatos brasileiros ao Flamengo.

- Quer ser campeão? Basta contratar o Carlinhos. Pois esse Carlinhos, sim, esse é que entende de futebol.

Janira

Desde esse dia, todos, ali na Grota, passaram a considerar que Dedeu já era um jogador do Flamengo. Era apontado como um exemplo a ser seguido e chegou a ser citado pelo Padre Pestana num daqueles sermões cheios de parábolas e de samaritanos. Certa feita a tia do Gordurinha convidou-o para comer um bolo de limão, repartindo-o com Janira, sua filha mais nova:

- Fiz este bolo, o preferido dela, pensando em vocês dois.

Dedeu tinha bom controle de bola, agilidade, grande força de vontade e tudo fazia com rigorosa disciplina tática, pois não se sentia em condições de fracassar.

Viu progredir o Fabiano, o Juan, o Bruno e Carijó, à proporção que também progredia e ficava cada vez mais confiante. Uma vez fez num treino uma jogada espetacular, que todos elogiaram, até o Paulo César, que, pouco derramado, nunca se abria.

- Isso, garoto! Você está mostrando que conhece to
das as mumunhas e prosopopéias.

Passou a achar que não seria degolado, e, sim, escolhido. S
onhar não custava nada, por que então não sonhar? Era só esperar a definição do elenco. Aos mais pobres, como ele, além de lanche, vale-transporte e assistência médica, o Flamengo proporcionava escola, ajuda de custo e alojamento no Morro da Viúva. Em certos casos, até alugava um apartamento para a família na Zona Sul, para evitar os grandes deslocamentos do jogador.
Embora sem se manifestar abertamente, o tácito D
edeu aos poucos passou a compartilhar o entusiasmo do Nicanor. Já não o refreava como anteriormente, nem se constrangia mais, quando o pai puxava os vivas e pagava intermináveis rodadas de cachaça no Derru Bar, nos domingos ensolarados do Largo da Carniça.

- Viva Dedeu, o futuro ídolo do Flamengo!

Derru Bar
(continua)

sábado, 17 de setembro de 2011

O NOVO DEQUINHA (parte 3/5)

OS TREINAMENTOS

A vida de Dedeu passou a ser exclusivamente o futebol, pois Nicanor fazia questão da total dedicação do filho aos treinamentos. Sentia re
morso, pois o ônus de bancá-lo no Flamengo, com aquele desperdício de dinheiro em passagens de ônibus e de trem, assoberbava a vida do pai.
Gostava da Gávea. Aquele gramado lhe parecia abençoado
, pois pisava onde pisaram semideuses, Zico, Zizinho, Fausto, Leônidas e Dida. Uma história de êxitos e de consagrações, que começavam exatamente ali.

-E Friendereich? O Friendereich também jogou no Flamengo, não jogou?

- Jogou em 1917 e em 1935.

O certo é que aos poucos Dedeu foi se entusiasmando com a idéia de que poderia se tornar, de fato, um jogador profissional. Terminados os exercícios, ele se demorava para ver o treinamento dos profissionais. Muito se encantava com o desempenho do Romário, que batia na bola de frente, de lado, de calcanhar, de ombro, de nuca e até de costas. O craque, notando aquele interesse, passou a conversar com ele, a dar-lhe esperança, a incentivá-lo. O Dedeu, no carro bonito, todo prosa, ao lado do ídolo, quando certa vez Romário lhe deu uma carona até a Central do Brasil.

- O Flamengo é o sonho de todo jogador.

Na sua turma, a da batalha, a amizade era com o Fabiano, o Juan, o Athirson, o Carijó e o Bruno, que, aliás, é filho do Raul Quadros, naquela ocasião um frequentador constante do chope da Gávea. Tinham todos a mesma ambição, a de joga
r profissionalmente pelo Flamengo.
Eles se animavam mutuamente,
elogiavam-se, protegiam-se, exorcizando o fantasma da degola, a angustiante síndrome do 15 de dezembro. Carijó fingia tranqüilidade quando escalava, com voz empostada de locutor, o sistema defensivo do Flamengo no ano 2000.

- Carlos Alberto, Dedeu, Fabiano, Juan e Athirson, com Carijó na cabeça da área.

- Cabeça de quê?

- Cabeça da área.
Isiane

Uma conversa frequente era sobre o que fazer com o dinheiro do primeiro contrato. A maioria pensava numa casa para a mãe, mas havia os que eram pelo carro do ano. O Suélio, um baixinho cheio de marra, o que queria mesmo era casar com a Isiane. Dedeu, que nunca se imaginou possuindo carro nenhum, nem mesmo de segunda mão, dizia que seu desejo era comprar um apartamento para os pais, lá para os lados de Realengo ou, quem sabe, da Tijuca. E vinha o Carijó, sempre ele, com alguma tirada extravagante.

- Vou comprar uma casa e um carro. Mas antes quero ir a um restaurante lá de Bonsucesso, o "Sustança Real", e pedir dois filés com batatas fritas. O primeiro é para matar a fome.

- E o outro?

- De sobremesa, ora essa!

Dequinha

Certa vez, num domingo, houve um jogo-treino com um time de Petrópolis, e Dedeu entrou no segundo tempo. Foi uma festa, com todos se saindo muito bem. Dedeu, que chegou a fazer um gol de falta, foi muito elogiado pelo treinador.
Melhor que tudo, Nicanor assistiu ao jogo no meio de uma pequena torcida.

- Vai, Dedeu! Isso, Dedeu!

- Esse Dedeu é o novo Dequinha!

Mas tinham de esperar o 15 de dezembro, sem outro recurso. Pois os técnicos, muito profissionais, não antecipavam nenhuma opinião, exacerbando a dúvida e aflição de cada um.
(continua)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O NOVO DEQUINHA (parte 2/5)

Dedeu

Nicanor e Dedeu saíram cedo da Serra do Mendanha, caminhando até a estação de Bangu, p
ara pegar o primeiro trem da manhã. Na Gávea, o treino dos juvenis começaria às nove. Enquanto o trem corria, e o subúrbio ia pulando para trás, Nicanor rememorava os grandes nomes do Flamengo: Fausto, Leônidas, Domingos, Zizinho, Bria, Biguá, Jaime de Almeida, Doutor Rúbis, Lico, Dida, Mozer, Aldair, Júnior, Evaristo, Dequinha, Pirilo, Almir, Joel, Carpegiani, Vevé, Raul, Índio, Sinforiano Garcia, Rondinelli, Benitez, Adílio,Tita, Andrade, Leandro. Zico, Zico, Zico. O Mário Venâncio, Deus é que sabe do Mário...

Jaime de Almeida

- Chegou a vez do Dedeu.


Dedeu trazia debaixo do braço a chuteira novinha em folha, uma extravagância que, embora necessária, enforcou a família no crediário insuportável. Olhava assustado para o pai, pois tinha medo de desapontá-lo. A bem da verdade, daria tudo para não estar naquela situação, obrigado a uma glória a ser conquistada a pontapés.

- Eu fui um zagueiro tão bom como Domingos da Guia, disse Nicanor, quando o trem parou na Central.


Já no ônibus, consultou mais uma vez o bolso do macacão, assegurando-se de que não havia esquecido o bilhete do doutor Oest. Quando saltaram perto do Miguel Couto, Nicanor deu um forte abraço em Dedeu e apontou-lhe a porta do Flamengo. Deixou-o seguir sozinho e permaneceu estacado, observando o passo cambaleante do filho em direção à imortalidade.
Dedeu exibiu o bilhete, e o porteiro girou a borboleta, deixando-o passar Gávea adentro.
De longe, Nicanor acompanhou aquela coreografia de sonho: o dia mais importante da sua vida.

A Lagoa, bem pertinho, e no alto o Cristo Redentor. Aquela gente alegre e barulhenta que buscava as piscinas ou se dirigia às quadras, os vestiários, os bares, os cuidados médicos, o gramado tão bem cuidado por um exército de profissionais, tudo o fascinava. Jamais sonhara estar num ambiente assim, ele, do subúrbio remoto, respirando aquele ar de Zona Sul.

- Jogando no Flamengo!

Aceito com cordialidade,
integrou-se facilmente ao grupo, onde prevaleciam a camaradagem e o respeito, pois todos tinham o mesmo ideal, que era fazer do futebol a sua profissão. Dedeu foi logo fazendo amizade com o Carijó, que era bem-humorado e extrovertido.

- Quero ser jogador de futebol para não ser prefeito, dizia-lhe o novo amigo.

- Essa eu não entendi.

- Meu pai deseja que eu seja prefeito. Ou, então, jogador de futebol. Escolhi ser jogador, pois acho muito ruim sair por aí pedindo voto e me gabando de competência. E tem mais...

- Mais o quê?

- O que não falta é mulher bonita na área...

Dedeu não teve nenhuma dificuldade para adaptar-se às rotinas de treinamento, diárias e exaustivas. Paulo César, que precisava de um lateral, imediatamente submeteu-o a exercícios físicos especiais. Depois, os treinos técnicos exaustivos, para chutar com qualquer das pernas ou para centrar de modo que a bola descaísse em folha-seca, numa trajetória feita de intersecções de parábolas que se sucediam e se interpenetravam, o mesmo efeito mágico que Didi usou, em 1957, para derrotar os peruanos no Maracanã. Quando o time perdesse a bola, teria de voltar, em alta velocidade e pelo meio, para ocupar a posição do zagueiro que lhe dava cobertura na lateral.

- Quem não pode cumprir esse fundamento, faz melhor se desistir de jogar futebol, preconizava o treinador.
(continua)

sábado, 10 de setembro de 2011

O NOVO DEQUINHA (parte 1/5)

A Gávea

Tudo se discutia: a beleza de Grace Kelly, a arte de gastar um milhão de dólares, o Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Borges, a melhor maneira de recusar um convite de casamento ou o ritual dos peixes que se suicidam. Aprendi, exatamente lá, que Immanuel Kant nunca se casou, que a mãe de Johannes Kepler, uma bruxa, quase acabou na fogueira, que há 159 litros num barril de petróleo, que é muito fácil avaliar um Renoir, grande foi a importância de Hermes Trimegisto e de Avicena no desenvolvimento da ciência...

- Poucos sabem que o produtor de Matar ou Morrer,
Stanley Krammer, foi o diretor de A Nau dos Insensatos.

- Cultura inútil da melhor qualidade...

O mais comum no chope da Gávea eram, todavia, as histórias sobre futebol. A saga dos nossos heróis, na sua miserável condição humana, no gramado ou fora dele:

-
Você sabia que Marcos Carneiro de Mendonça era historiador, que Leônidas da Silva inaugurava sapatarias, fazendo discursos redigidos por José Maria Scassa, e que Fausto, a Maravilha Negra, só corria metade do jogo, porque era tuberculoso?

- Ubirajara, o negro mais bonito do Brasil, fazia gols de tiro
de meta, mas só quando o vento ajudava. Filho do Tião, aquele da linha de 1946: Adilson, Tião, Pirilo, Perácio e Vevé...

- Jair da Rosa Pinto, o Jajá de Barra Mansa, teve a camisa queimada após o cinco a dois acachapante.

- Macaé, aquele da Miguel Lemos, não compactuava com o regime capitalista de produção e por isso jamais trabalhou. Foi zagueiro do time de aspirantes do Botafogo, campeão de 1943, e dono do cachorro Biriba.

Biguá, Bria e Jaime

- Biguá foi o melhor de todos os jogadores, que não haja sobre isso nenhuma dúvida: culpado de um gol, deitou-se no gramado e comeu a grama...

No caso geral essas crônicas envolvem ídolos, como se vê. Vou contar, porém, uma história sobre alguém mais modesto, o filho do Nicanor, tudo a ver com a legião de desfavorecidos que enxergam no futebol uma oportunidade de ascensão social.

Nicanor


Um presidente do Flamengo não é um presidente qualquer, mas uma personalidade mítica, com poderes mágicos, conduzindo as multidões para o bem ou para o mal, a vaia, o aplauso, a resignação, a euforia, a indignação, as vitórias e as derrotas.
No caso do Pedro Oest, muito mais para as vitórias, os aplausos, a euforia. Pascoal D'Angelo conheceu-o muito bem. Não gostava absolutamente de interferir no trabalho dos profissionais do clube, que têm seus critérios de escolha e um planejado ritual para o aproveitamento de jovens jogadores para o infantil, o infanto-juvenil, o juvenil, os juniores e os profissionais.

Tudo começa pelos olheiros, que se distribuem, anônimos, pelo interior, pelos subúrbios e pelas praias. O convite deve partir oficialmente do Flamengo ao desapercebido jogador distinguido pela recomendação do olheiro. A situação inversa, com o Flamengo procurado pelo candidato ou por seus amigos e parentes, é constrangedora, sob todos os aspectos. Pois jogador oferecido, que não foi submetido à prévia, insuspeita e competente observação profissional, é normalmente jogador sem as qualidades exigidas para integrar os elencos rubro-negros. Zizinho e Garrincha, que respectivamente se ofereceram ao Flamengo e ao Botafogo, são gloriosas exceções que existem para nutrir a alma passionária do torcedor, alimentando-lhe irreversivelmente a fantasia.

No entanto, Pedro Oest teve muita pena do Nicanor, quando este implorava uma oportunidade para o Dedeu. E pensou: "a nação rubro-negra me perdoará mais esta, eu que já errei tanto pelo Flamengo." Ali mesmo, de pé, apoiando-se no balcão da portaria, redigiu o bilhete endereçado ao técnico dos juvenis:

"Caro, Paulo César, o portador é Dedeu, o novo Dequinha. Teste todas as suas qualidades. Se aprovar, integre-o ao elenco. Um abraço, Pedro Oest."
(continua)

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A ESCOLHA (parte 4/4)

Show me the money

Dinheiro no bolso, férias excelentes. A nota triste foi a morte de um amigo querido, cuja missa de sétimo dia iria ser na igreja de Santa Luzia. Foi então que me lembrei das ações da Vale, cuja sede ficava perto da igreja. Assisti à missa com a cautela indesejada no bolso do paletó.
No departamento de acionistas me instruíram para retornar dentro de uma semana e assim receber o papel na forma desejada pelo mercado.


Igreja de Santa Luzia

Continuei pelo resto das férias a minha carreira de dissipador, pois poupar não era preciso, trabalhava num projeto bem-sucedido, granjeara um excelente conceito, ninguém disputava o meu lugar e esperava não testemunhar mais crime nenhum. Para dizer numa palavra: dois mil dólares já não faziam importância no meu orçamento. Por isso quase viajei para Teófilo Otoni sem buscar as ações. Mas o acaso me aproximou novamente da Vale, à qual acabei retornando, pois fui convidado pelo doutor Eurico para almoçar no Clube Militar, que fica a uma centena de metros da mineradora.

Uma cautela atualizada

Nada do que me sucedera anteriormente pode ser comparado ao que me esperava: recebi das mãos do chefe do departamento de acionistas uma cautela atualizada que me fazia possuidor de 73.500 ações preferenciais ao portador da mui leal e digna Companhia Vale do Rio Doce.
A cautela que eu entregara era de 1947 e fazia jus, ao longo de mais de vinte anos de esquecimento, a vastíssimas bonificações, que não haviam sido entregues por serem títulos ao portador, cujo a Vale não tivera como identificar.
Fui levado à presença do presidente da companhia, que fez questão de me conhecer, pois eu era um dos seus principais acionistas.

Inicialmente eu havia estimado que minha herança era de 500 dólares. Na festa do doutor Eurico, depois, esse valor saltara para 2 mil dólares. Fazendo mentalmente os cálculos com base em 73.500 ações, considerada a cotação de 41 dólares por unidade, saí do encontro com o presidente certo de que herdara cerca de três milhões de dólares!
Felizmente, mais uma vez
eu estava enganado: o papel já estava com cotação acima de cem dólares por ação. Autorizei a venda e, 48 horas depois, recebi um cheque de pouco mais de 7,5 milhões de dólares.

Sou, desse modo, um milionário acidental. Graças à generosa escolha que fizeram para mim os que partilharam comigo o espólio do tio Dilermando.
Pedi demissão do meu emprego diretamente ao doutor Eurico, a quem sempre haverei de tributar minhas melhores homenagens, pelo grande senso empresarial e pela justiça com que distribuía os dividendos do seu projeto vitorioso.


Minha fortuna, não sei como, tornou-se conhecida de muita gente. Doutor Eusébio, o inventariante, procurou-me para dizer que havia convencido os herdeiros a aceitar minha sugestão de rever a partilha dos bens do Dilermando. A Cidinha me escreveu para informar que estava disposta a casar-se comigo, ela que brigara com o jogador, o qual, a bem da verdade, não era lá essas coisas e já passara para o time reserva. O irmão do juiz assassinado, que por acaso se tornara o gerente da minha loja de aparelhos de televisão, deslocou-se lá de Maceió e me propôs uma sociedade para criação de uma cadeia de lojas de eletrodomésticos no Nordeste. Até um alemão, representando uma companhia geofísica de Frankfurt Am Main, tentou vender-me interesses de participação num contrato de exploração de petróleo na Guatemala.

Escolhas profissionais

Movimento, porém, foi o que decidi evitar. Comprei vinte apartamentos de luxo na Zona Sul do Rio de Janeiro e entreguei sua administração a uma empresa idônea que deposita os rendimentos líquidos na minha conta bancária, cujo gerente exclusivo os vai aplicando segundo modernos critérios de escolha e gerenciamento de portfólios. Que funcionam muito bem, técnicas de Cambridge e de Oxford, sei lá.

- Pois eu, forçoso é reconhecer com humildade, costumo me sair melhor quando outros escolhem por mim.
(fim)