sábado, 24 de setembro de 2011

O NOVO DEQUINHA (parte 5/5)

Epílogo

Abraham Lincoln, que de lenhador chegou a presidente dos Estados Unidos, disse certa vez que há sempre um lugar disponível no topo. A Bíblia, que fala mais alto, afirma, porém, que, dos muitos requisitados, poucos serão os escolhidos.
Veio, com efeito, o 15 de dezembro.
Desde cedo na Gávea, o
s rapazes estavam apreensivos, mas cheios de esperança. Após tantos meses de sacrifícios, tudo ficaria definido: o começo da glória ou o fim das ilusões. O primeiro a ser chamado foi o Juan, que entrou na sala do treinador e voltou logo depois, na maior alegria. Na sequência, Fabiano, Pirita, Aluísio e Serginho.
Segundo o Carijó, Dedeu foi avisado pelo auxiliar técnico:

- Sua entrevista será com a psicóloga, doutora Emengarda, não com o treinador.

Viagem aos seios de Duília

Soube então que não seria aproveitado, pois o Flamengo decidira contratar na Bahia um lateral que despontava como um dos grandes nomes da nova geração de jogadores. Que ele dissesse que deixava o Flamengo por razões pessoais. E não se abatesse: havia muitas profissões dignas, e nem todos podiam ser jogadores de futebol. Djavan tentou ser jogador, hoje é cantor e compositor de renome internacional. Júlio Iglésias, Paulo César Sarraceni, Miele, o prefeito César Maia. Aníbal Machado fez o primeiro gol do Atlético Mineiro, antes de escrever o genial conto "Viagem aos Seios de Duília". Um exemplo ainda melhor: Breno, o Breno Mello, não conseguiu jogar no Fluminense, mas foi o protagonista de "Orfeu do Carnaval", um filme de Marcel Camus, premiado em Cannes. Tancredo Neves chegou a Presidente!

- E tem mais. O Flamengo vai lhe dar um documento. Não uma carta de recomendação, que isso não é possível, mas um nada-consta, atestando
que nenhum fato foi registrado no clube em desabono de sua conduta em dez meses de estágio no departamento de futebol. Não deixa de ser uma credencial, nestes tempos bicudos de prevaricação e desonestidade.

Nicanor

No dia seguinte os jornais anunciaram o acidente que vitimou o jovem Dedeu, que saíra da Gávea sem falar com ninguém, portando um nada-consta, no qual não constava nada.

Em nota oficial, o Flamengo lamentou a perda do jogador, que estava sendo cuidadosamente preparado para assumir a posição de lateral direito do time profissional. Na Serra do Mendanha, Nicanor, bêbado, sujo, caído na sarjeta, é agora um homem derrotado. Os embates da vida impediram-no de ser um novo Domingos da Guia, uma injustiça irreparável. Depois, injustiça maior, um ônibus tirou a vida do filho, o seu querido Dedeu, que no Flamengo todos consideravam tão bom quanto o Leandro.
Essa é a história do novo Dequinha. Falta acrescentar que Carijó, o maior amigo de Dedeu e por acaso sobrinho da doutora Emengarda, abriga a secreta convicção de que a morte do companheiro não foi acidental:

- Ele me disse várias vezes que não poderia continuar vivendo, se não fosse contratado pelo Flamengo.
(Fim)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O NOVO DEQUINHA (parte 4/5)

UM ÍDOLO EM ELABORAÇÃO

Em casa, Nicanor não escondia sua impaci
ência. Queria uma definição, e positiva, sobre a situação do filho no Flamengo. Dedeu, temeroso, não tinha coragem de dar-lhe nenhuma esperança. Conhecia muito bem as idiossincrasias do pai, sua propensão tanto para o entusiasmo quanto, principalmente, para a decepção. Por isso o levava com muito cuidado.
Um dia, porém, Carijó apareceu na Serra do
Mendanha e achou de inventar aquela mentira lamentável:

-Seu Nicanor, o professor Carlinhos elogiou muito o Dedeu. Acha que ele se parece muito com o Leandro.

Carlinhos

Era de se ver a alegria do Nicanor, transbordando de satisfação, a antever o futuro glorioso do
filho. A vizinhança logo soube da façanha. Era só esperar, e o veriam no Maracanã, marcando, apoiando, cruzando a bola certeira, venenosa, na cabeça do centro-avante, a quem só caberia testar a bola para dentro do gol.

- A fotogra
fia nos jornais, o assédio dos torcedores, a Europa de olho no menino.

Afirmava para todos que Carlinhos era palavra garantida. Jogador de categoria, que era chamado de Violino, não botava a cabeça na bola para não despentear o cabelo. Ele a buscava com o pé, recolhendo-a lá no alto, pois era no gramado que a bola tinha de ser forçada a transitar. Carlinhos em campo, certeza de time organizado. Como técnico, então, nem se fala, pois deu dois campeonatos brasileiros ao Flamengo.

- Quer ser campeão? Basta contratar o Carlinhos. Pois esse Carlinhos, sim, esse é que entende de futebol.

Janira

Desde esse dia, todos, ali na Grota, passaram a considerar que Dedeu já era um jogador do Flamengo. Era apontado como um exemplo a ser seguido e chegou a ser citado pelo Padre Pestana num daqueles sermões cheios de parábolas e de samaritanos. Certa feita a tia do Gordurinha convidou-o para comer um bolo de limão, repartindo-o com Janira, sua filha mais nova:

- Fiz este bolo, o preferido dela, pensando em vocês dois.

Dedeu tinha bom controle de bola, agilidade, grande força de vontade e tudo fazia com rigorosa disciplina tática, pois não se sentia em condições de fracassar.

Viu progredir o Fabiano, o Juan, o Bruno e Carijó, à proporção que também progredia e ficava cada vez mais confiante. Uma vez fez num treino uma jogada espetacular, que todos elogiaram, até o Paulo César, que, pouco derramado, nunca se abria.

- Isso, garoto! Você está mostrando que conhece to
das as mumunhas e prosopopéias.

Passou a achar que não seria degolado, e, sim, escolhido. S
onhar não custava nada, por que então não sonhar? Era só esperar a definição do elenco. Aos mais pobres, como ele, além de lanche, vale-transporte e assistência médica, o Flamengo proporcionava escola, ajuda de custo e alojamento no Morro da Viúva. Em certos casos, até alugava um apartamento para a família na Zona Sul, para evitar os grandes deslocamentos do jogador.
Embora sem se manifestar abertamente, o tácito D
edeu aos poucos passou a compartilhar o entusiasmo do Nicanor. Já não o refreava como anteriormente, nem se constrangia mais, quando o pai puxava os vivas e pagava intermináveis rodadas de cachaça no Derru Bar, nos domingos ensolarados do Largo da Carniça.

- Viva Dedeu, o futuro ídolo do Flamengo!

Derru Bar
(continua)

sábado, 17 de setembro de 2011

O NOVO DEQUINHA (parte 3/5)

OS TREINAMENTOS

A vida de Dedeu passou a ser exclusivamente o futebol, pois Nicanor fazia questão da total dedicação do filho aos treinamentos. Sentia re
morso, pois o ônus de bancá-lo no Flamengo, com aquele desperdício de dinheiro em passagens de ônibus e de trem, assoberbava a vida do pai.
Gostava da Gávea. Aquele gramado lhe parecia abençoado
, pois pisava onde pisaram semideuses, Zico, Zizinho, Fausto, Leônidas e Dida. Uma história de êxitos e de consagrações, que começavam exatamente ali.

-E Friendereich? O Friendereich também jogou no Flamengo, não jogou?

- Jogou em 1917 e em 1935.

O certo é que aos poucos Dedeu foi se entusiasmando com a idéia de que poderia se tornar, de fato, um jogador profissional. Terminados os exercícios, ele se demorava para ver o treinamento dos profissionais. Muito se encantava com o desempenho do Romário, que batia na bola de frente, de lado, de calcanhar, de ombro, de nuca e até de costas. O craque, notando aquele interesse, passou a conversar com ele, a dar-lhe esperança, a incentivá-lo. O Dedeu, no carro bonito, todo prosa, ao lado do ídolo, quando certa vez Romário lhe deu uma carona até a Central do Brasil.

- O Flamengo é o sonho de todo jogador.

Na sua turma, a da batalha, a amizade era com o Fabiano, o Juan, o Athirson, o Carijó e o Bruno, que, aliás, é filho do Raul Quadros, naquela ocasião um frequentador constante do chope da Gávea. Tinham todos a mesma ambição, a de joga
r profissionalmente pelo Flamengo.
Eles se animavam mutuamente,
elogiavam-se, protegiam-se, exorcizando o fantasma da degola, a angustiante síndrome do 15 de dezembro. Carijó fingia tranqüilidade quando escalava, com voz empostada de locutor, o sistema defensivo do Flamengo no ano 2000.

- Carlos Alberto, Dedeu, Fabiano, Juan e Athirson, com Carijó na cabeça da área.

- Cabeça de quê?

- Cabeça da área.
Isiane

Uma conversa frequente era sobre o que fazer com o dinheiro do primeiro contrato. A maioria pensava numa casa para a mãe, mas havia os que eram pelo carro do ano. O Suélio, um baixinho cheio de marra, o que queria mesmo era casar com a Isiane. Dedeu, que nunca se imaginou possuindo carro nenhum, nem mesmo de segunda mão, dizia que seu desejo era comprar um apartamento para os pais, lá para os lados de Realengo ou, quem sabe, da Tijuca. E vinha o Carijó, sempre ele, com alguma tirada extravagante.

- Vou comprar uma casa e um carro. Mas antes quero ir a um restaurante lá de Bonsucesso, o "Sustança Real", e pedir dois filés com batatas fritas. O primeiro é para matar a fome.

- E o outro?

- De sobremesa, ora essa!

Dequinha

Certa vez, num domingo, houve um jogo-treino com um time de Petrópolis, e Dedeu entrou no segundo tempo. Foi uma festa, com todos se saindo muito bem. Dedeu, que chegou a fazer um gol de falta, foi muito elogiado pelo treinador.
Melhor que tudo, Nicanor assistiu ao jogo no meio de uma pequena torcida.

- Vai, Dedeu! Isso, Dedeu!

- Esse Dedeu é o novo Dequinha!

Mas tinham de esperar o 15 de dezembro, sem outro recurso. Pois os técnicos, muito profissionais, não antecipavam nenhuma opinião, exacerbando a dúvida e aflição de cada um.
(continua)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O NOVO DEQUINHA (parte 2/5)

Dedeu

Nicanor e Dedeu saíram cedo da Serra do Mendanha, caminhando até a estação de Bangu, p
ara pegar o primeiro trem da manhã. Na Gávea, o treino dos juvenis começaria às nove. Enquanto o trem corria, e o subúrbio ia pulando para trás, Nicanor rememorava os grandes nomes do Flamengo: Fausto, Leônidas, Domingos, Zizinho, Bria, Biguá, Jaime de Almeida, Doutor Rúbis, Lico, Dida, Mozer, Aldair, Júnior, Evaristo, Dequinha, Pirilo, Almir, Joel, Carpegiani, Vevé, Raul, Índio, Sinforiano Garcia, Rondinelli, Benitez, Adílio,Tita, Andrade, Leandro. Zico, Zico, Zico. O Mário Venâncio, Deus é que sabe do Mário...

Jaime de Almeida

- Chegou a vez do Dedeu.


Dedeu trazia debaixo do braço a chuteira novinha em folha, uma extravagância que, embora necessária, enforcou a família no crediário insuportável. Olhava assustado para o pai, pois tinha medo de desapontá-lo. A bem da verdade, daria tudo para não estar naquela situação, obrigado a uma glória a ser conquistada a pontapés.

- Eu fui um zagueiro tão bom como Domingos da Guia, disse Nicanor, quando o trem parou na Central.


Já no ônibus, consultou mais uma vez o bolso do macacão, assegurando-se de que não havia esquecido o bilhete do doutor Oest. Quando saltaram perto do Miguel Couto, Nicanor deu um forte abraço em Dedeu e apontou-lhe a porta do Flamengo. Deixou-o seguir sozinho e permaneceu estacado, observando o passo cambaleante do filho em direção à imortalidade.
Dedeu exibiu o bilhete, e o porteiro girou a borboleta, deixando-o passar Gávea adentro.
De longe, Nicanor acompanhou aquela coreografia de sonho: o dia mais importante da sua vida.

A Lagoa, bem pertinho, e no alto o Cristo Redentor. Aquela gente alegre e barulhenta que buscava as piscinas ou se dirigia às quadras, os vestiários, os bares, os cuidados médicos, o gramado tão bem cuidado por um exército de profissionais, tudo o fascinava. Jamais sonhara estar num ambiente assim, ele, do subúrbio remoto, respirando aquele ar de Zona Sul.

- Jogando no Flamengo!

Aceito com cordialidade,
integrou-se facilmente ao grupo, onde prevaleciam a camaradagem e o respeito, pois todos tinham o mesmo ideal, que era fazer do futebol a sua profissão. Dedeu foi logo fazendo amizade com o Carijó, que era bem-humorado e extrovertido.

- Quero ser jogador de futebol para não ser prefeito, dizia-lhe o novo amigo.

- Essa eu não entendi.

- Meu pai deseja que eu seja prefeito. Ou, então, jogador de futebol. Escolhi ser jogador, pois acho muito ruim sair por aí pedindo voto e me gabando de competência. E tem mais...

- Mais o quê?

- O que não falta é mulher bonita na área...

Dedeu não teve nenhuma dificuldade para adaptar-se às rotinas de treinamento, diárias e exaustivas. Paulo César, que precisava de um lateral, imediatamente submeteu-o a exercícios físicos especiais. Depois, os treinos técnicos exaustivos, para chutar com qualquer das pernas ou para centrar de modo que a bola descaísse em folha-seca, numa trajetória feita de intersecções de parábolas que se sucediam e se interpenetravam, o mesmo efeito mágico que Didi usou, em 1957, para derrotar os peruanos no Maracanã. Quando o time perdesse a bola, teria de voltar, em alta velocidade e pelo meio, para ocupar a posição do zagueiro que lhe dava cobertura na lateral.

- Quem não pode cumprir esse fundamento, faz melhor se desistir de jogar futebol, preconizava o treinador.
(continua)

sábado, 10 de setembro de 2011

O NOVO DEQUINHA (parte 1/5)

A Gávea

Tudo se discutia: a beleza de Grace Kelly, a arte de gastar um milhão de dólares, o Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Borges, a melhor maneira de recusar um convite de casamento ou o ritual dos peixes que se suicidam. Aprendi, exatamente lá, que Immanuel Kant nunca se casou, que a mãe de Johannes Kepler, uma bruxa, quase acabou na fogueira, que há 159 litros num barril de petróleo, que é muito fácil avaliar um Renoir, grande foi a importância de Hermes Trimegisto e de Avicena no desenvolvimento da ciência...

- Poucos sabem que o produtor de Matar ou Morrer,
Stanley Krammer, foi o diretor de A Nau dos Insensatos.

- Cultura inútil da melhor qualidade...

O mais comum no chope da Gávea eram, todavia, as histórias sobre futebol. A saga dos nossos heróis, na sua miserável condição humana, no gramado ou fora dele:

-
Você sabia que Marcos Carneiro de Mendonça era historiador, que Leônidas da Silva inaugurava sapatarias, fazendo discursos redigidos por José Maria Scassa, e que Fausto, a Maravilha Negra, só corria metade do jogo, porque era tuberculoso?

- Ubirajara, o negro mais bonito do Brasil, fazia gols de tiro
de meta, mas só quando o vento ajudava. Filho do Tião, aquele da linha de 1946: Adilson, Tião, Pirilo, Perácio e Vevé...

- Jair da Rosa Pinto, o Jajá de Barra Mansa, teve a camisa queimada após o cinco a dois acachapante.

- Macaé, aquele da Miguel Lemos, não compactuava com o regime capitalista de produção e por isso jamais trabalhou. Foi zagueiro do time de aspirantes do Botafogo, campeão de 1943, e dono do cachorro Biriba.

Biguá, Bria e Jaime

- Biguá foi o melhor de todos os jogadores, que não haja sobre isso nenhuma dúvida: culpado de um gol, deitou-se no gramado e comeu a grama...

No caso geral essas crônicas envolvem ídolos, como se vê. Vou contar, porém, uma história sobre alguém mais modesto, o filho do Nicanor, tudo a ver com a legião de desfavorecidos que enxergam no futebol uma oportunidade de ascensão social.

Nicanor


Um presidente do Flamengo não é um presidente qualquer, mas uma personalidade mítica, com poderes mágicos, conduzindo as multidões para o bem ou para o mal, a vaia, o aplauso, a resignação, a euforia, a indignação, as vitórias e as derrotas.
No caso do Pedro Oest, muito mais para as vitórias, os aplausos, a euforia. Pascoal D'Angelo conheceu-o muito bem. Não gostava absolutamente de interferir no trabalho dos profissionais do clube, que têm seus critérios de escolha e um planejado ritual para o aproveitamento de jovens jogadores para o infantil, o infanto-juvenil, o juvenil, os juniores e os profissionais.

Tudo começa pelos olheiros, que se distribuem, anônimos, pelo interior, pelos subúrbios e pelas praias. O convite deve partir oficialmente do Flamengo ao desapercebido jogador distinguido pela recomendação do olheiro. A situação inversa, com o Flamengo procurado pelo candidato ou por seus amigos e parentes, é constrangedora, sob todos os aspectos. Pois jogador oferecido, que não foi submetido à prévia, insuspeita e competente observação profissional, é normalmente jogador sem as qualidades exigidas para integrar os elencos rubro-negros. Zizinho e Garrincha, que respectivamente se ofereceram ao Flamengo e ao Botafogo, são gloriosas exceções que existem para nutrir a alma passionária do torcedor, alimentando-lhe irreversivelmente a fantasia.

No entanto, Pedro Oest teve muita pena do Nicanor, quando este implorava uma oportunidade para o Dedeu. E pensou: "a nação rubro-negra me perdoará mais esta, eu que já errei tanto pelo Flamengo." Ali mesmo, de pé, apoiando-se no balcão da portaria, redigiu o bilhete endereçado ao técnico dos juvenis:

"Caro, Paulo César, o portador é Dedeu, o novo Dequinha. Teste todas as suas qualidades. Se aprovar, integre-o ao elenco. Um abraço, Pedro Oest."
(continua)

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A ESCOLHA (parte 4/4)

Show me the money

Dinheiro no bolso, férias excelentes. A nota triste foi a morte de um amigo querido, cuja missa de sétimo dia iria ser na igreja de Santa Luzia. Foi então que me lembrei das ações da Vale, cuja sede ficava perto da igreja. Assisti à missa com a cautela indesejada no bolso do paletó.
No departamento de acionistas me instruíram para retornar dentro de uma semana e assim receber o papel na forma desejada pelo mercado.


Igreja de Santa Luzia

Continuei pelo resto das férias a minha carreira de dissipador, pois poupar não era preciso, trabalhava num projeto bem-sucedido, granjeara um excelente conceito, ninguém disputava o meu lugar e esperava não testemunhar mais crime nenhum. Para dizer numa palavra: dois mil dólares já não faziam importância no meu orçamento. Por isso quase viajei para Teófilo Otoni sem buscar as ações. Mas o acaso me aproximou novamente da Vale, à qual acabei retornando, pois fui convidado pelo doutor Eurico para almoçar no Clube Militar, que fica a uma centena de metros da mineradora.

Uma cautela atualizada

Nada do que me sucedera anteriormente pode ser comparado ao que me esperava: recebi das mãos do chefe do departamento de acionistas uma cautela atualizada que me fazia possuidor de 73.500 ações preferenciais ao portador da mui leal e digna Companhia Vale do Rio Doce.
A cautela que eu entregara era de 1947 e fazia jus, ao longo de mais de vinte anos de esquecimento, a vastíssimas bonificações, que não haviam sido entregues por serem títulos ao portador, cujo a Vale não tivera como identificar.
Fui levado à presença do presidente da companhia, que fez questão de me conhecer, pois eu era um dos seus principais acionistas.

Inicialmente eu havia estimado que minha herança era de 500 dólares. Na festa do doutor Eurico, depois, esse valor saltara para 2 mil dólares. Fazendo mentalmente os cálculos com base em 73.500 ações, considerada a cotação de 41 dólares por unidade, saí do encontro com o presidente certo de que herdara cerca de três milhões de dólares!
Felizmente, mais uma vez
eu estava enganado: o papel já estava com cotação acima de cem dólares por ação. Autorizei a venda e, 48 horas depois, recebi um cheque de pouco mais de 7,5 milhões de dólares.

Sou, desse modo, um milionário acidental. Graças à generosa escolha que fizeram para mim os que partilharam comigo o espólio do tio Dilermando.
Pedi demissão do meu emprego diretamente ao doutor Eurico, a quem sempre haverei de tributar minhas melhores homenagens, pelo grande senso empresarial e pela justiça com que distribuía os dividendos do seu projeto vitorioso.


Minha fortuna, não sei como, tornou-se conhecida de muita gente. Doutor Eusébio, o inventariante, procurou-me para dizer que havia convencido os herdeiros a aceitar minha sugestão de rever a partilha dos bens do Dilermando. A Cidinha me escreveu para informar que estava disposta a casar-se comigo, ela que brigara com o jogador, o qual, a bem da verdade, não era lá essas coisas e já passara para o time reserva. O irmão do juiz assassinado, que por acaso se tornara o gerente da minha loja de aparelhos de televisão, deslocou-se lá de Maceió e me propôs uma sociedade para criação de uma cadeia de lojas de eletrodomésticos no Nordeste. Até um alemão, representando uma companhia geofísica de Frankfurt Am Main, tentou vender-me interesses de participação num contrato de exploração de petróleo na Guatemala.

Escolhas profissionais

Movimento, porém, foi o que decidi evitar. Comprei vinte apartamentos de luxo na Zona Sul do Rio de Janeiro e entreguei sua administração a uma empresa idônea que deposita os rendimentos líquidos na minha conta bancária, cujo gerente exclusivo os vai aplicando segundo modernos critérios de escolha e gerenciamento de portfólios. Que funcionam muito bem, técnicas de Cambridge e de Oxford, sei lá.

- Pois eu, forçoso é reconhecer com humildade, costumo me sair melhor quando outros escolhem por mim.
(fim)

sábado, 3 de setembro de 2011

A ESCOLHA (parte 3/4)

Hawthorne me alcançou

Fora da efervescência da fábrica, não mais que um alabama, eu tinha atribuições periféricas e modestas. Mesmo assim eu me senti engajado no projeto, um pequenino vetor ajudando na composição da resultante. Estava disposto a suar a camisa.

Audrey Hepburn, nenhuma contra-indicação

Eram duas dezenas de títulos a serem defendidos.
Visitava os médicos e farmácias de diversas cidades, distribuía amostras dos remédios e recitava seus usos e propriedades. Para cada um dos vinte produtos, a posologia, as reações adversas, as contra-indicações e os procedimentos recomendados em casos de superdosagem. Nunca me esquecerei do produto mais indicado para a profilaxia e tratamento dos distúrbios circulatórios periféricos, vertigem, zumbido, nistagmo, náuseas e vômitos. Ou do creme a ser usado nas manifestações cutâneas decorrentes de sifílis, tuberculose e infecções fúngicas, bacterianas ou viróticas.

- Se o caso for de prisão de ventre, temos a solução: supositório de glicerina.


Cautela obsoleta

Inicialmente couberam-me Araçatuba, Birigüi, Lins e adjacências, no interior de São Paulo. Atuei depois em Teresópolis, Magé, Guapimirim e na região que começa em Petrópolis e se estende até Leopoldina. Coloquei força na coisa e me dei bem. Na festa anual da companhia, que se celebrava no feriado de 7 de setembro, fui chamado ao Rio de Janeiro pelo doutor Eurico, o vice-presidente da companhia, que elogiou o meu trabalho com inesperada veemência. As vendas nas cidades onde eu atuava, antes infensas aos nossos produtos, alcançaram níveis que excediam todas as expectativas.
A diretoria decidira contemplar-me com duas mil ações da companhia.

- Um prêmio pela sua produtividade, disse-me o doutor Eurico. Se nossas ações já fossem negociadas no mercado, estariam bastante valorizadas com essa avassaladora alta dos papéis em bolsa.

Naquele momento lembrei-me das 49 ações da Vale. O vice-presidente me informou que na véspera o meu papel estivera cotado a 41 dólares. Ou seja, podia vendê-las por cerca de dois mil dólares, uma achega nada desimportante ao meu orçamento de caixeiro-viajante.

IBOVESPA

Foi por isso que no dia seguinte procurei uma corretora de valores no centro da cidade. Lauro Chometon atendeu-me com muita cortesia e profissionalismo, mas jogou um balde de água fria nas minhas pretensões de realizar o capital: a cautela das minhas ações estava desatualizada, e eu teria de levá-la ao departamento de acionistas da Vale, ali na rua Santa Luzia, para trocá-la por outra que fosse aceita pelo mercado. Não o fiz, pois viajei imediatamente para trabalhar a praça que compreendia Muriaé, Governador Valadares, Teófilo Otoni, Vitória da Conquista e arredores. Foram seis meses de trabalho duro, mas profícuo. Graças ao meu desempenho, as vendas na região subiram quase trezentos por cento.

Muriaé
Ostentação autorizada

Eu recebia seguidos telegramas de congratulações do doutor Eurico, que me recomendou que me hospedasse no melhor hotel de cada cidade visitada.
Sentia-me alcançado pela experiência de Hawthorne, pois auferia um tratamento à altura do meu rendimento. Recebendo uma generosa diária que em muito ultrapassava as minhas necessidades, assumi uma vida de ostentação autorizada, tinha amigos importantes e era assediado por moças ricas e bonitas. Confesso que cheguei a bendizer o fato de haver sido arrolado para testemunhar o assassinato do juiz, pois aquela gerência dos aparelhos de televisão só tinha servido para retardar o meu encontro com a bem-aventurança. Comissões cada vez maiores eram depositadas na minha conta bancária no Rio de Janeiro. Eu antevia, no 7 de setembro seguinte, o doutor Eurico a me entregar mais ações da companhia, que guardaria como troféu junto da cautela da Vale, dado que não tinha como negociá-las, nem disso tinha a menor necessidade.

Carro do ano

Com menos de trinta anos ninguém pensa no futuro: confesso que tinha ouvido falar em letras imobiliárias ou coisa parecida, mas só muito depois tomei conhecimento da existência de cadernetas de poupança, que rendiam juros e correções monetárias.
Nada disso se situava no meu horizonte, nem tinha relação com os meus procedimentos.

Elisinha

- Pela primeira vez posso frequentar os melhores clubes, comer nos bons restaurantes e, se me der vontade, dirigir um carro do ano, foi o que pensei quando voava para merecidas férias no Rio de Janeiro. É verdade que também pensava na Elisinha.
(continua)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A ESCOLHA (parte 2/4)

Proposta irrecusável

Passados três meses, fui chamado a depor em juízo. Estava disposto a contar toda a verdade, pois ninguém poderia me impedir de relatar o que fora visto por mim e pelas testemunhas não arroladas. Redigi, e depois decorei, o que iria dizer ao excelentíssimo senhor Juiz.

- Tudo transcorria normalmente no bar do Ponto Quente, quando surgiu o Epitácio e gritou: Abdias! O doutor Abdias se voltou, com a xícara de café na mão direita e o pires na mão esquerda. Epitácio fez seis disparos, à queima-roupa, sem dar à vitima nenhuma oportunidade. Gostaria de acrescentar, meritíssimo, que duas dezenas de pessoas estavam presentes, viram o que vi, mas fui o único a ser arrolado como testemunha.

O juiz me recebeu à porta do seu gabinete e, tão logo ficamos a sós, disse-me o seguinte:

- Tenho uma proposta. Se o senhor aceitar, ficará livre dessa enrascada.


- Seja qual for sua proposta, meritíssimo, considere-a aceita por mim.

Foi assim que renunciei à gerência da loja de aparelhos de televisão em favor de alguém cujo nome nem cheguei a saber e em 24 horas já estava de volta ao Rio de Janeiro. Eu tinha de recomeçar minha vida, e prontamente, dado que minhas economias eram escassas e insuficientes, pois eu dissipara com perdulária facilidade tudo que ia conseguindo com a venda dos aparelhos. Por isso me lembrei do tio falecido e decidi reclamar a minha parte da herança.

- Aqui está o que lhe coube, disse-me o doutor Eusébio, passando-me o envelope.

No qual havia 49 ações da Vale do Rio Doce.

- Como assim? Vim pela minha parte na herança do tio Dilermando.

- O que lhe cabe são essas ações.


Fiquei sabendo que os herdeiros optaram por um sorteio dirigido. Os apartamentos foram sorteados entre os que preferiam apartamentos, assim como as casas, os dólares e as barras de ouro. Como eu não estava presente e ninguém conhecia as minhas preferências, coube-me o envelope com as 49 ações da Vale do Rio Doce. Não adiantaria nenhum protesto porque tudo estava homologado na Justiça, com a concordância de todos os herdeiros, a minha inclusive, tendo em vista as procurações que eu havia assinado.



Vi no jornal a cotação do papel: cerca de nove dólares por ação (numa daquelas moedas já extintas). No frigir dos ovos, a minha grande herança não alcançava 500 dólares, o preço de um dos robustos aparelhos de televisão que estivera vendendo em Maceió. Dessa vez eu tinha a reconfortante desculpa de que a má escolha não fora feita diretamente por mim.
Fazer o quê? Deixei de lado as ações e fui à luta.

Força, companheiro

Estava com 27 anos e disposto a enfrentar todas as situações, pois sou burro, não preguiçoso. Por sorte consegui o emprego de propagandista dos remédios de uma indústria farmacêutica que introduzira no Brasil as experiências de Hawtorne.
Engenharia humana, harmonia do grupo, treinamento, incentivos, qualidade total. Um projeto onde se aboliram as regras gerais, as rotinas paralisantes e as receitas que nunca falham. Inicialmente o trabalhador mais experiente foi declarado instrutor dentro de sua unidade, partindo do princípio de que cada um deveria ser responsável pelo treinamento dos demais. Veio depois o "cross-training": os trabalhadores de uma unidade eram levados a aprender as tarefas de outras unidades. Pensou-se que era uma manobra para reduzir pessoal. Quando a companhia passou a conferir prêmios aos que podiam desempenhar mais de uma função, e não demitiu ninguém, todos se sentiram seguros e importantes, pois participavam de um projeto vitorioso.

- Sabe o resultado final?

- Gostaria de saber...

- Uma indústria farmacêutica de capital nacional, que, sem nenhum incentivo oficial, podia competir em pé de igualdade com os fabricantes estrangeiros. É a capacidade social do trabalhador que determina o seu nível de competência e eficiência e não sua capacidade de executar movimentos eficientes dentro do tempo estabelecido. Quanto maior a integração social do grupo, maior a disposição para trabalhar. (continua)

sábado, 27 de agosto de 2011

A ESCOLHA (parte 1/4)

O caso do cabrito

Nem sempre fui feliz nas minhas escolhas, conforme passo a demonstrar:

Sou torcedor do América.
Meu primeiro carro foi um Gordini.

Votei em Jânio Quadros.

Comprei quotas do Carnê Fartura e ações da “holding” da Marcopolo.
Vi “Quintet”, quando podia ter visto “Depois do Vendaval”.

Estudei romeno e “job control language”.

Passei férias em Zurich e namorei a Cidinha.

O deputado que ajudei a eleger trocou o mandato por um cartório, e o senador da minha predileção, quem diria, desviou verbas importantes do orçamento na
cional - uma prática antiga, embora só agora institucionalizada no Brasil.

Maureen O'hara

- Ai, pois, da Sofia, se dependesse de mim para fazer a sua escolha!

Houve, porém, uma escolha que não fiz: fizeram-na por mim. Eu era um dos dezoito herdeiros de um tio repentinamente falecido, cuja fortuna incluía apartamentos, casas, lojas, joias, quadros valiosos, títulos e dólares. Como residia em Maceió, deleguei ao inventariante, doutor Eusébio, que era um dos herdeiros, plenos poderes para fazer a divisão dos bens segundo lhe parecesse mais justo. Assinei todas as procurações necessárias, ficando acertado que, tão logo meus negócios alagoanos me permitissem, eu viajaria para o Rio de Janeiro para assumir a parte que me coubesse. Devo dizer que isso se passou em 1970. Era gerente de uma loja de aparelhos de televisão, o que me proporcionava bons rendimentos, tanto que meu lugar era cobiçado por muita gente boa da cidade, incluindo parentes de usineiros, de deputados, de senadores e até do governador.

Praia de Pajuçara

A vida em Maceió era escamada e cheia de peripécias. Ia ao futebol com o Tuíta, que me fez escolher o CRB (escolha que não fugiu ao meu padrão, pois o CSA derrotou o CRB em todos os clássicos a que assisti).
Se saía com a Cidinha, toda a cidade seguia nossos passos, pois nenhum carioca era digno de confiança, podendo, a qualquer momento, corromper reputações e arruinar famílias inteiras. Basta dizer que o Adelino Peres foi preso por atentado ao pudor, e expulso da cidade, por estar beijando a Beatriz na praia do Farol. Posso citar também o assassinato do doutor Eliseu, que seduziu a moça da Sinimbu e com ela não quis se casar. Os cinco irmãos fizeram questão de atirar ao mesmo tempo, pelas costas, e deram uma exibição de sapateado sobre o corpo agonizante do sedutor.

- Onde?

- No centro da cidade, para que todos testemunhassem a legítima defesa da honra.
Ocorreu então que o ônibus atropelou o cabrito. O dono do animal, inconformado, assassinou o motorista do coletivo a sangue-frio e foi condenado a seis anos de prisão, com outras graves consequências: o juiz do caso pagou a sentença com a própria vida. Fui testemunha da cena: o doutor Abdias tomava café no Ponto Quente, quando foi interpelado pelo Epitácio, irmão do proprietário condenado. Ao se voltar, o juiz recebeu uma descarga de seis tiros, à queima-roupa, sem que pudesse esboçar nenhum gesto de defesa.


Pois é, presenciar o crime teve importantes consequências na minha vida. Dezenas de pessoas viram o que vi, mas só eu fui arrolado como testemunha do homicídio, pois era um carioca que interferia negativamente nas oportunidades de emprego da cidade e ainda por cima namorava a moça mais bonita da cidade, sabe-se lá com quais levianas intenções.
Fui informado de que isso representava a minha sentença de morte. Testemunhasse em qualquer sentido, seria executado pela parte contrariada.

- Não tenha disso nenhuma dúvida!


Recusei-me a prestar declarações à polícia, pois fui logo dizendo que me reservava o direito de depor exclusivamente em juízo. Funcionou, e muito bem, pois o delegado não fazia nenhuma questão de tomar a termo o meu testemunho, pois ele próprio temia por sua vida.


Cidinha

Durante três meses vivi o tormento do homem sem nenhuma saída, sozinho num mundo povoado de gente vazia. Nas ruas as pessoas me olhavam com curiosidade, pois viam em mim um cadáver em plena elaboração, circulando provisória e indevidamente. Cidinha imediatamente me abandonou pelo jogador alagoano que atuava pelo Corinthians e era enaltecido nas páginas esportivas dos jornais de São Paulo.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

UMA FRANCESA NA MINHA POLTRONA

Uma sinfonia de Mahler

Sentiu a mão no ombro. Era a moça de preto.

- Posso sentar?


- Por favor.

- Peço que não estranhe a ousadia. Estava a observá-lo e senti uma vontade irresistível de conversar com você.

- Não seja por isso. Muito prazer em conhecê-la.

- Não sei, não, mas você me parece muito angustiado.


- Estou pensando no paradoxo do mentiroso e curtindo um pouco a solidão.


- Solidão cheia de manias: “garçom, mais um black and white. Oito anos.” Nunca vi black and white que não fosse oito anos...


- Nem eu. Mas não gosto de correr nenhum risco...

- Muito engraçado!


Pascale. Olhou-a atentamente. Era olhos e boca, como uma mulher de Manuel Bandeira. Quem sabe francesa? Há francesas que abordam homens nos bares, falam Português e tomam banho. Aos 34 anos, Estevinho vivera todas as situações: casara-se, desquitara-se, casara-se novamente, divorciara-se, juntara-se algumas vezes.
Mulheres que partiam, mulheres que chegavam. Algumas, de férias, por prazo definido, ou, como dizia, mulheres dia três, que vão embora no dia quatro, para Porto Alegre, Munique, Juiz de Fora, Florença, Houston ou Além Paraíba. Pois é necessário retornar ao trabalho ou aos braços de um noivo impaciente e cheio de saudade.

- Aceita um uísque?

- Só se for oito anos...

Na cama


Um homem e uma mulher que tomam uísque juntos, no Leblon, são cúmplices de um ideal inexorável: a cama. Quanta obra-prima existe, livros, filmes, peças e canções, sobre mesas, pianos, luvas, colares, retratos e outros variados objetos, usados como metáfora do amor ou de sua ausência. Há um texto de Rubem Braga exaltando o guarda-chuva. Sobre cama, todavia, tudo que Estevinho conhecia era a história de um homem traído, que, ao separar-se da mulher, doou-lhe tudo, absolutamente tudo, menos a cama. Pois se a cama fosse com ela, teria perdido a própria alma,
além da mulher.


Pascale

Pois é, minha pátria é minha cama, pensou Estevinho, quando viu Pascale, deitada a seu lado. Nua assim, deitada assim, magnífica assim. Simplesmente deslumbrante! Uma mulher bonita começa pelos olhos, continua nos lábios, alteia-se em montes soberbos, estende-se por vales insondáveis e acaba... não acaba não, isso mesmo, uma mulher bonita não acaba nunca. A mulher é a perfeição. Se Aristóteles não disse isso, eis pois uma imperdoável omissão de Aristóteles.
Volúpia, entrega, prazer, apoteose à primeira potência, apoteoses ao quadrado, apoteoses ao infinito, eis o enredo do amor, que é a melhor das capacidades humanas. Um instante de amor, Estevinho, vale por uma boa eternidade.


Dia três


Estevinho olhou com ternura a francesa agora deitada no sofá da sala, ainda nua e magnífica. Não se conteve:

- Você é deslumbrante, Pascale. A mulher capaz de fazer a felicidade de qualquer homem.

- Exatamente o que você disse para a Regininha, Estevinho.


Hamlet

Há entre o céu e a terra coisas para além do que supõe a nossa filosofia, meu caro Estevinho. Bebi muito? Essa Pascale existe mesmo? Estou sonhando? Regininha está viva, e quem morreu fui eu? Onde estou? Por quem os sinos dobram? Calma, calma, que os sinos não dobram, estou no apartamento da Visconde de Albuquerque, vivo, pois morta está a Regininha, Pascale existe mesmo e está deitada na minha poltrona, bebi muito e há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia. O negócio é ficar calmo, fingir naturalidade e mostrar interesse a meio pau.

- Como você sabe que eu disse isso para a Regininha?

- Regininha era minha irmã gêmea.


Ora, diabo, essa foi de lascar! Atiro-me pela janela, escrevo uma carta para Marlene Dietrich, demonstro seis vezes o teorema de Pitágoras ou compro uma geladeira a prestações? Como se conjuga explodir na primeira pessoa? Easy, boy, deixa a Pascale desfazer o pacote e que não haja nele serpentes, nem explosivos.


- Agora sei por que você me parecia familiar: há no seu rosto muita coisa da Regininha!


- Nosso encontro não foi espontâneo, Estevinho. Procurei-o no bar para conversar sobre ela.


Regininha

A chegada da verdade, pelo remorso da família, isso, exatamente isso, que Pascale foi logo confessando. Filhas de pai francês e mãe brasileira, Pascale e Regininha tiveram uma infância abastada no Leblon. Quando os pais se separaram, Regininha e a mãe permaneceram no Rio de Janeiro, mas Pascale voltou com o pai para a França. Mãe e filha dissiparam tudo que o francês lhes deixara, com grandes complicações para ambas. A consequência foi que aos poucos Regininha tornou-se garota de programa. Cobrava 500 dólares para passar uma tarde com executivos. Tudo lucrativo e reservado, pois era requisitada por gente que não economizava dinheiro e comportava-se com toda a discrição.
(Quem diria, a Regininha, hein? Eu, morando aqui perto, não estava sabendo de nada. Prostituta, a Regininha Duvivier era prostituta!
)

- Aconteceu, porém, que a Regininha conheceu o Ernesto Augusto numa festa. Começaram a namorar e ficaram noivos. Ele é muito rico e decidiu promover um jantar de cerimônia para apresentá-la a seus amigos e parentes. Deu-se então que um dos convidados, o banqueiro Leopoldo, reconheceu a Regininha.


- Era um dos seus clientes?


- Isso, isso mesmo. Na manhã seguinte, o noivado foi rompido.


- Motivo pelo qual decidiu ligar para mim.


- Ligou para mim também. Você não havia dito que ela era a moça capaz de fazer a felicidade de qualquer homem? Morreu sem saber que você diz isso para todas as mulheres.


- Isso não é verdade!


- Usaria você como desculpa, a de que trocara o Ernesto pelo galante Estevinho.

- Como não me deixei seduzir, ficou sem saída e decidiu matar-se.


- Por aí.


- Por que a carta me incriminando?


- Uma atitude lamentável, que ninguém conseguiu explicar. Talvez um fato policial para despistar os amigos, os parentes e a vizinhança: perder a vida, mas salvar as aparências.


Se entendi corretamente, Regininha quis me usar como noivo. Não deu. Então me usou como boi de piranha, com grande sucesso. Eu, o boi de uma piranha. Sacana, mil vezes sacana. Tenho decididamente cara de panaca, mas, convenhamos, meu santo é forte.


- Quer dizer que você me abordou no bar porque me conhecia?


- Sabia de você e estava à sua procura, mas nunca o vira antes disso.


- Sinto-me aliviado, depois de saber de toda a história... Você me procurou por isso, obrigado.


- E tem mais uma coisa.

- Mais uma coisa? Sobre o quê?


- Sobre a morte do barbeiro...

That’s it. Desandou tudo. Desmaiar, voar, sapatear, uivar, ir à guerra, dar milho aos pombos ou proclamar a república, nada pode salvar-me, pois sou um condenado às aflições e hei de merecê-las rigorosamente até o fim. Jusque au bout. Logo vi que não ia ficar de graça. Para ela, também para ela, eu, Estevinho Pastasciutta, matei o Godô.


- Você veio para me atormentar?

- Muito pelo contrário, vim para informar-lhe que você não matou o barbeiro, como antes não havia matado a Regininha.


- Como assim?


- Estou passando uns tempos com uma tia que mora na Rita Ludolf. Sei, como todos na rua, do conselho que você deu ao Godô e tenho certeza de que você está sofrendo. Por um crime que não cometeu. Por ter desaparecido, sem deixar nenhuma pista, não tomou conhecimento da verdade, que não demorou a surgir: o Godô não morreu enfartado, mas envenenado pela mulher, que já confessou o crime.


- Foi isso, é?



- Você comentou com o Godô sobre o risco de jogar futebol sem autorização médica. Uma observação sensata, claro. Se a morte tivesse decorrido de um ataque cardíaco, estaríamos diante de uma coincidência e nada mais...

- Eu sei, mas nem todo mundo é como você, capaz de...


- Refutar pensamentos mágicos. Você não é assassino, nem de noivas suicidas, nem de barbeiros vítimados pelo veneno de suas consortes.


Pascale, mulher "dia três"

- Bota com sorte nisso!

Pascale, linda maravilhosa, livrou-me naquele instante de todos os meus remorsos, laboriosamente amealhados. Pensei mon amour, je t’aime, com todas as forças do meu despedaçado, combalido e aviltado coração. Olhei-a novamente, senti que era a mulher que eu desejava, abracei-a e disse as palavras mais sinceras da minha vida:


- Pascale, eu te amo!

Ela sorriu, transbordando de ternura. Gostara muito de mim, das minhas histórias, da minha lagosta e da minha cama. Não era por nada não, mas tinha de ir-se. Mulher "dia três" é a que retorna dia quatro para o trabalho ou para os braços do marido. No caso de Pascale retornou para ambos, pois é casada, muito bem casada, e professora da Universidade de Paris.

- Reste avec moi.

- Pas de tout.

Fazer o quê?, foi a pergunta que me ocorreu. Para a qual havia uma alternativa, e somente uma:

- Comprar um descascador de batatas ou escutar uma sinfonia de Mahler.