quarta-feira, 10 de agosto de 2011

MARIE CURIE (PARTE 2/2)

Escândalo

Como cientista importante, desempenhando um papel reservado aos homens, Marie Curie era um alvo preferencial. Pois a emancipação das mulheres era vista, na França do início do século XX, como indicação de decadência nacional e até como sintoma de desvirilização dos homens.

- Quando se trata dos direitos da mulher, comentou então a líder feminista Hubertine Auclert, unem-se, em oposição, revolucionários e reacionários, crentes e ateus.

Marie Curie

Este o pano de fundo, quando Marie Curie envolveu-se amorosamente com o físico Paul Langevin, um professor, como ela, da École de Physique et Chimie, e também um físico de talento, autor de uma importante teoria sobre elétrons e eletromagnetismo.
Langevin, que vivia um tumultuado casamento com Emma Jeanne Desfosses, com quem se casara em 1898 e com a qual teve quatro filhos, aproximou-se de Marie Curie pouco antes de 1910, após a morte de Pierre Curie. Ao comentar esse episódio, escreveu a biógrafa Susan Quinn:

"O que tornava perigosa a ligação entre Paul Langevin e Marie Curie era o fato de não atender às convenções da Belle Époque. Admitia-se, e até se esperava, que os homens burgueses tivessem uma amante; mas a amante permanecia nos bastidores, permitindo à esposa ficar ao lado do marido, na sociedade educada. Desde que o homem casado fosse discreto e escolhesse esposa e amante que desempenhassem zelosamente seus papéis, ele podia manter um caso, com impunidade. O Código Napoleônico, que endossava o privilégio masculino, era, em tais casos, tolerante com o marido."

Marie Curie
era, com efeito, uma amante que discrepava do modelo tolerado, pois estava longe de ser uma mulher a ser escondida, sem recursos, sem aspirações, sem nome, nem personalidade. Configurava-se, desse modo, uma situação em que Paul Langevin deveria renunciar a uma das duas mulheres, sob pena de submeter-se a um vexame, pois, se os casos reservados eram tolerados, os que chegavam ao conhecimento público enxovalhavam todos os envolvidos.

Paul Langevin e Albert Einstein

Muito provavelmente por causa dos filhos, Langevin não teve coragem de separar-se de Emma Jeanne, que passou a chantageá-lo com a ameaça de repassar à imprensa cartas que ele escrevera para Marie Curie e, finalmente, entrou com um processo contra ele, por abandono do lar. No dia 4 de novembro de 1911, "Le Journal", um dos diários de maior circulação de Paris, publicou matéria de primeira página, com uma foto de Marie Curie e a manchete :

UMA HISTÓRIA DE AMOR: MADAME CURIE E O PROFESSOR LANGEVIN

No dia seguinte, o "Le Petit Journal" falava de Emma Jeanne como uma mãe em prantos, a defender desesperadamente seu lar, mortificada pela opinião pública, desejando perdoar e esquecer, pois estava a processar o marido apenas por causa dos filhos.
Estavam edificadas as bases para uma campanha de difamação e agressões contra Marie Curie, que numa manhã de 1911 levou uma multidão enfurecida para diante de sua residência, a gritar:

- Abaixo a estrangeira, ladrona de marido!

Foi a festa da imprensa sensacionalista, na qual não faltaram insinuações, mentiras, chacotas e até pressões de figuras importantes para que Marie deixasse o país. As discussões do episódio provocaram nada menos que cinco duelos na França, um dos quais envolvendo o próprio Langevin, contra o jornalista Gustave Téry, e no qual nenhum dos dois contendores quis disparar contra o outro.

Selo polonês: Maria Sklodowska

Foi nesse contexto que, em 7 de novembro de 1911, a Reuters noticiou que Marie acabava de conquistar o Prêmio Nobel de Química de 1911, adicionando-se, este, ao Prêmio Nobel de Física de 1903. Ocorreu então o inusitado: um silêncio quase total da imprensa francesa, que seis dias depois iria celebrar como gloriosa a conquista do Prêmio Nobel de Literatura por parte do belga Maurice Maeterlinck, estabelecido na França desde 1896. Um membro da Academia de Ciências, Svante Arrhenius, escreveu-lhe uma carta com a recomendação de que desistisse de aceitar o prêmio. Isso mesmo, uma recomendação para que renunciasse ao Prêmio Nobel!
Marie Curie
mereceu, porém, muitas manisfestações de apoio por parte de cientistas, como Albert Einstein e Ernest Rutherford, e recebeu seu prêmio em Estocolmo, em 11 de dezembro de 1911.

Desfecho

Emma Jeanne e Paul Langevin reconciliaram-se em 1914, e o escândalo terminou. Mais tarde, Langevin teve outra amante, com aquiescência da mulher, mas escolhida segundo o modelo tradicional: uma obscura secretária, sem condições de ultrapassar sua condição de amante.

Marie Curie

Marie Curie

Durante a primeira Guerra Mundial, Marie Curie, sem reclamar nenhuma remuneração, comandou um serviço para uso do raio X em intervenções médicas e cirúrgicas, com postos radiológicos móveis, que salvaram a vida de milhares de franceses. Mais que isso, Marie doou o dinheiro do Prêmio Nobel para o esforço de guerra francês.
Depois da guerra, fundou o Instituto do Rádio de Paris, tornando-se uma benfeitora da Humanidade.

Em 28 de abril de 1921, pouco antes de sua viagem triunfal aos Estados Unidos, as pessoas mais importantes da França compareceram ao teatro da Ópera, de Paris, para prestar-lhe uma homenagem, comandada pelo presidente Aristide Briand, na qual a atriz Sarah Bernhardt leu uma "Ode a Madame Curie":

Você nunca liderou um exército,
Nem jamais emitiu ordens severas.
Mas seu ardor sincero, penetrante,
Brilha mais que todas as chamas.

Ode a Madame Curie

Recebeu extraordinária consagração nos Estados Unidos em 1921: foi aclamada nas ruas, nas universidades, saudada pela imprensa, pelos cientistas e pelas organizações feministas.
Em 1922 foi eleita para a Academia Francesa de Medicina, da qual foi a primeira mulher.
Em 1923 passou a receber uma pensão vitalícia do governo francês.

Vigésima sexta cientista da História...

Em 4 de julho de 1934, faleceu, num hospital de Saint-Gervais, de leucemia, resultante de seu contato com material radioativo, ela, que muitos consideram a mulher mais importante do século XX, e que o historiador John Simmons, autor do livro "Os 100 Maiores Cientistas da História", situou em vigésimo sexto lugar, em ordem de importância, imediatamente após Max Planck e à frente de Huyghens, Gauss, Mendeleiev, Euclides e Fleming.


sábado, 6 de agosto de 2011

MARIE CURIE (PARTE 1/2)

Genialidade e preconceito

Marie Curie

Marie Curie (1867-1934), cujo nome de batismo era Maria Salomea Sklodowska, nasceu na Polônia, filha de um professor de física, num momento em que o país estava sob domínio da Rússia.
Após concluir o curso secundário, trabalhou como governanta, em Varsóvia, até juntar o dinheiro da passagem para a França. Naquele ano de 1891, a Sorbonne era frequentada por 1.800 estudantes, dos quais apenas 23 eram mulheres, quase todas estrangeiras.
Aplicada às mulheres, a palavra "estudante" tinha na França do fim do século XIX uma conotação rebaixadora e depreciativa. Maria Sklodowska, que tinha 24 anos, matriculou-se na Universidade de Paris, tornando-se a primeira mulher a obter um título de física pela Sorbonne, em 1893, tendo um ano depois recebido também um diploma de matemática.
O casamento de
Maria Sklodowska com o professor Pierre Curie, em 1895, a partir do qual a polonesa passou a ser conhecida como Marie Curie, deu início a uma excepcional parceria científica, pois, trabalhando em conjunto, conseguiram isolar dois elementos radioativos, o rádio e o polônio, a partir de uma rocha chamada uranita, o que lhes valeu, a ambos, o Prêmio Nobel de Física, de 1903.
Atropelado por uma charrete, Pierre Curie faleceu em 1906, o que não impediu Marie Curie de dar prosseguimento aos trabalhos pioneiros na área da radioatividade, com os quais conquistou também o Prêmio Nobel de Química, de 1911. Marie Curie foi a primeira pessoa a ser contemplada duas vezes com o Prêmio Nobel. A outra foi o químico americano Linus Pauling, que ganhou o Nobel de Química em 1954 e o Nobel da Paz em 1962, este último por sua oposição ao uso de armas atômicas.
Marie foi, porém, a única pessoa a ser laureada duas vezes por trabalhos na área científica. Foi também a primeira mulher a dar aula na Sorbonne, nos 600 anos da instituição, quando sucedeu ao marido na cadeira de Física Geral, a partir de 1906.

Pierre e Marie Curie

A filha de Marie Curie, Irene, e o marido desta, Fréderic Joliot, foram laureados com o Prêmio Nobel de Química, de 1935, pelos seus trabalhos sobre a produção artificial de radioatividade. Cinco Prêmios Nobel na mesma família!

Preconceito

Por sua condição de mulher, e estrangeira, Marie Curie muitas vezes despertava sentimentos hostis na sociedade francesa. Isso ficou claro quando foi indicada pela primeira vez ao Prêmio Nobel, juntamente com o marido Pierre Curie e com o físico Henri Becquerel, não por acaso os três pioneiros da radioatividade. Para impedir que Marie fosse premiada, quatro membros da Academia Francesa de Ciências (a saber, Henri Poincaré, Éleuthère Mascart, Gabriel Liepmann e Gaston Darboux) redigiram uma moção de apoio aos nomes de Pierre Curie e Henri Becquerel, ignorando propositadamente o nome de Marie Curie. Os signatários eram sabedores de que Pierre, em termos de radioatividade, sempre fora um assistente de Marie, ele, sem dúvida, um físico bem conceituado, que em 1880 havia descoberto o efeito piezoelétrico (propriedade dos cristais de produzirem eletricidade, quando submetidos à pressão), para além de ter dado importantes contribuições para a interpretação do magnetismo.

Henri Poincaré

Prevaleceu, entretanto, o bom-senso e Marie Curie foi premiada, com o Nobel, pela Academia de Ciências da Suécia, juntamente com os outros dois, em novembro de 1903. Ao prêmio, seguiu-se uma espécie de perplexidade nacional francesa: uma mulher entre as ganhadoras do Prêmio Nobel! O jornal "Paris Sport" fez então a seguinte observação:

"(...) a mulher a abandonar, de agora em diante, suas tradicionais ocupações com o lar, para se entregar aos estudos concretos ou abstratos, que, até aqui, foram privilégio do homem... "


Outra manifestação de preconceito ocorreu com sua candidatura à Academia de Ciências da França. Tudo porque era uma mulher pleiteando um lugar entre os imortais franceses. Marie Curie, porém, não podia ser descartada sem mais nem menos, in limine, ganhadora que fora de um Prêmio Nobel e membro, já então, das academias sueca, holandesa, tcheca e polonesa, da Sociedade Filosófica Americana e da Academia Imperial de San Petesburgo.

O Institut de France datava do século XVII, quando Richelieu fundou a Académie Française, e na ocasião da candidatura de Madame Curie era integrado por cinco academias (uma das quais a Academia de Ciências). Em 4 de janeiro de 1911, por 85 votos a favor e 60 votos contrários, o Institut de France, com 163 membros reunidos em assembleia conjunta, decidiu recomendar à Academia de Ciências que mantivesse "a tradição imutável de não permitir a eleição de mulheres para o Instituto." (Essa "tradição imutável" incluía até a proibição da presença de mulheres nas dependências do Institut de France.)
A Academia de Ciências não acatou a recomendação e aceitou a candidatura de Marie Curie, o que suscitou um intenso debate nacional; para concorrer com ela, foi lançado o nome do físico Edouard Branly (1844-1940), que fizera invenções na área do telégrafo sem fio, utilizadas por Marconi na construção do rádio.

Edouard Branly

Há uma correlação interessante do episódio de Marie Curie versus Branly com o caso Dreyfus, um oficial judeu do exército francês, condenado à prisão perpétua em 1894, sob a acusação de haver passado segredos militares aos alemães, e deportado para a Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Tudo no âmbito de uma onda de nacionalismo e antissemitismo que assoberbou a Europa no fim do século XIX. Em 1898, Émile Zola assumiu a defesa de Dreyfus, publicando na primeira página do jornal Aurore a famosa carta aberta "J' accuse!" ao presidente Félix Faure, de 13 de janeiro de 1898. O caso dividiu a França entre dreyfusistas, associados aos esquerdistas, republicanos e anticlericalistas, e os antidreyfusistas, tidos como conservadores, monarquistas e clericalistas, epítetos que perduraram por alguns anos, mesmo depois de oficialmente decidida a questão. Descobriu-se em 1906 que Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy, outro oficial francês, era o verdadeiro espião a serviço dos alemães, o que ensejou a libertação de Dreyfus e sua reintegração ao exército.

Alfred Dreyfus

Muitos associavam Marie Curie ao capitão Dreyfus, situando-a do lado dos dreyfusistas, ela que era mulher cientista, aspirante audaciosa à Academia de Ciências, ateia, estrangeira e "apontada" como judia. Tanto que no dia da votação da Academia Francesa de Ciências, que iria escolher entre Marie Curie e Branly, o expoente do conservadorismo Léon Deaudet fez publicar na primeira página do jornal L'Action Française uma (hoje) curiosa matéria com o título "Dreyfus contra Branly":

"Sim, sim... Dreyfus contra Branly. Tal é, de fato, a luta bizarra que se esconde sob esta disputa de Marie Curie versus Branly... Os imbecis que acreditam estar encerrado o caso Dreyfus deveriam entender: a luta épica do gênio nacional contra o demônio estrangeiro está presente em cada ocasião, seja esportiva, literária, teatral, musical, científica, social, política e econômica, sob mil formas, disfarçando sempre os mesmos atores... No presente caso, os irados dreyfusistas ainda insistem em apoiar Marie Curie."

Alguns jornais, sem coragem de assumir seu preconceito de forma direta, esmeraram-se em produzir argumentos eufemísticos contra Marie Curie: "sua candidatura é uma trama de protestantes e israelitas contra o católico Branly", conforme o jornal "L'Action Française". Uma romancista popular, Madame Regnier, deu então a sua opinião:

- Não se deve tentar... tornar a mulher igual ao homem! "Igual ao homem", como essas palavras soam terríveis!

Cinquenta e oito acadêmicos compareceram para a votação histórica, no dia 24 de janeiro de 1911. O resultado da eleição, que foi acompanhada por uma multidão excepcional, foi a vitória de Branly por 30 votos, contra 28 dados a Marie Curie. Em 31 de janeiro daquele ano, a "Compte Rendus", publicação semanal da Academia, fez o seguinte comentário:

- Monsieur Branly, a convite do Monsieur Président, ocupou um lugar entre seus confrades.
(continua)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A PENSÃO DA TIJUCA

OBSERVANDO OS INSENSATOS

É divertido vê-los chegar, assim humildes, como o Araújo, que ontem aqui aportou de mala quase vazia, trazendo nas mãos um espelho, um cavaquinho e dois cabides de arame.

- Quanto custa o quarto mais barato?

Depois, integrados, desinibem-se e esparramam-se pensão afora, com seus malogros e ambições, grandes defeitos e poucas qualidades. São, como eu, perdedores, vultos, apenas vultos, e, deles, o pouco que sei considero demasiado.

A pensão

Servir na Bósnia

Eu os vejo diariamente, na hora das refeições. Nenhuma importância há de haver no guarda-livros, que estuda canto, na esperança de representar o Otelo; na Ivonete, que era caixa de farmácia no Largo da Segunda-Feira e agora, mesmo desempregada, usa perfumes caros e só traja vestidos importados, nas suas caminhadas suspeitas pela Conde de Bonfim; no Sargento Castro de Paula, cujo sonho é servir na Bósnia, por alguns dólares da ONU, e na sua mulher, dona Eulália, a portuguesa branquicela, que tudo tempera com azeite de oliva, até a sobremesa; no Sebastião Valadares, que ateou fogo no armazém vazio após esconder as mercadorias num depósito de Caxias e, em vez de receber a indenização reclamada, está a enfrentar um adverso processo judicial; no Zé Terra, um pernambucano enfezado que bate na mulher, a Jupira; e no Sorianito Gonzalez, que é mexicano e apanha da sua todas as noites.

Incêndio do inexistente

Reversão dialógica

Ah, antes que me escape, Carlos Arruda de Proença é, dos hóspedes, o mais extravagante, com sua mania de usar expressões complicadas, das quais não me esqueço de "mateologia holística", "reversão dialógica" e "tmeses ataviadoras". Ele se recusa a esclarecê-las, mesmo não sendo entendido por ninguém.

- Louçanias, senhores, meras louçanias de linguagem. Não existem para ser explicadas, nem me cabe nenhuma obrigação de dar milho aos pombos.

Outro dia, quando se conversava sobre decisões políticas controvertidas, deixou escapar alguma coisa em Latim, "beati monoculi in regione caecorum", provocando reações irônicas do Zé Terra e de dona Eulália.

- Na minha terra quem fala bonito é o prefeito.

- Em Portugal a lei da vida é muito outra, pois escreveu, não leu, o pau comeu. Lá o pau come solenemente!

- Vocês são estupefativos, rebateu o Proença.

- O quê?

- Gente de visão plúmbea, ímproba e mitigada.

E não é só

Há também na pensão um Licurgo dos Santos Reis, alfaiate de roupas militares, que às vezes inicia suas refeições com rezas assim:

Profanaste os vasos santos
Nas torpezas de um festim.
Teus dias estão contados
Como os da bela Seboim.
Não sabias, ò cão danado,
Que tenho o corpo fechado?
Tu fizeste e pagarás,
Vade retro, Satanás.

Rezas ou pragas, nem sei direito.

Praga

No mês passado apareceu aqui o Abdmelaus Karuche de Alicante, conhecido como Abdias, um estudante profissional que se gaba de sempre conseguir generosas bolsas de estudo, de acordo com trâmites que conhece com exclusividade. Polpudas e sumarentas bolsas, garante ele, que as acumula, a todas, na maior desfaçatez. Estudou engenharia, literatura e geografia, mas seu interesse atual está na filosofia, que orgulhosamente chama de a ciência de Platão.
Justiça seja feita, esse Abdias realmente estuda, e estuda muito, adquirindo informações a serviço de coisa nenhuma, a fundo perdido, pois disse repetidas vezes que não trabalhará jamais.

Assassinou o sono
Ts'ai Lun

Sentado em meu canto, na maior parte do tempo desligo-me desse ambiente, que em certas ocasiões se torna inóspito e agressivo. Eles falam da ONU, das companhias de seguros, de Otelo, das mulheres que gostam de apanhar, do azeite de oliva, das bolsas de estudo e das louçanias de linguagem, e eu, fingindo que os ouço, viajo infinito afora, imaginando por que Einstein assumiu-se com a velocidade da luz para estabelecer as bases da teoria da relatividade, se é verdade que o eunuco chinês Ts'ai Lun inventou o papel ou como Macbeth, o nobre escocês que assassinou o sono, houve de morrer pelas mãos daquele que não nasceu de mulher, quando as florestas se puseram a caminhar.

(Adaptado do livro "O Homem Horizontal")

sábado, 30 de julho de 2011

O PROFESSOR DE HARVARD

O CRÉDITO DE CADA UM

Júlia

Júlia preside a sessão e neste momento apresenta o conferencista William Bird, ela que se empenhou para garantir-me este lugar na plateia. Essa gentileza me comete a responsabilidade de me interessar pelo assunto.

-Quem sabe vão ensinar a arte de ganhar dinheiro na Bolsa de Valores?

Sorte que esse Bird, professor de Harvard e colunista do Washington Post, já morou no Brasil e fala Português sem nenhum sotaque. Li uma vez que foi dele o primeiro artigo sobre o uso das curvas de utilidade na avaliação econômica dos projetos de risco. Uma fraude requintada, que descaracteriza a responsabilidade pelas decisões assumidas. Pois, ocorrendo o prejuízo, a falha será do projeto, pertinaz e refratário, e de suas insuficientes e traiçoeiras probabilidades. Nesse caso, consumado o desastre, bastará você dizer para os acionistas, com toda a modéstia e humildade:

- Lamento muito... Prevaleceu o risco embutido no valor monetário esperado.

Se, entretanto, o improvável ocorrer e o projeto for bem-sucedido, você será reconhecido como um gênio, assim humilde, a circular generosamente entre os mortais e sério candidato a uma recompensa estabelecida pelo conselho de administração, nas avaliações anuais de desempenho.

- Bônus de desempenho para o super-homem da utilidade destemida.

Adam Smith

William Bird começa com a pergunta que dá o tom da conferência:

- Por que não faltam técnicos nas plataformas geladas do Mar de Behring, nem embaixadas em Guiné-Bissau ou arroz em Nova York?

Adam Smith

A resposta será dada pela aula, ou seja, nada de Bolsa de Valores. Por que contrataram um professor americano para ensinar sobre isso? Tenho para mim, muito para mim, que esse negócio de Adam Smith todo mundo sabe, o pipoqueiro, a prostituta, o corredor de meia-maratona, o agrônomo, o estalajadeiro e a prima da tia da Cláudia Cardinale. Estudei isso superficialmente no primeiro ano da faculdade, junto com estatística, logística dos transportes, perfumaria e outras generalidades.

- Por que há uma mão invisível, a do mercado, que coloca arroz e frangos em Nova York e embaixadas em Guiné-Bissau. Exatamente isso, nem mais, nem menos do que isso. Para qualquer bem ou serviço, há uma curva de quantidade demandada, a verde, que se assemelha ao ramo positivo de uma hipérbole equilátera, e uma curva de quantidade ofertada, a vermelha, de sentido contrário, a fazer-lhe o contraponto. Num mercado em funcionamento, as duas curvas se cruzam. E é bom que o façam, pois, do contrário, o mercado desaparece e... adeus bem ou serviço! O ponto de encontro das duas curvas define e o preço e a quantidade realmente negociada do bem ou serviço em questão, não importa se sal de cozinha, sanduíche de mortadela, apartamentos de cobertura ou perfume francês.

Curvas do sanduíche de mortadela

A linguagem dos economistas é cheia de louçanias, belas como uma tela de Matisse. Ramo positivo de uma hipérbole equilátera, quantidade demandada, lei dos rendimentos decrescentes, necessidades geométricas de Malthus...

- Os fatores da produção são a natureza, o trabalho e o capital, prossegue o professor. Num certo sentido, porém, esses fatores reduzem-se a dois, natureza e trabalho, com a exclusão do capital, pois este resulta do trabalho em face da natureza, da capacidade de prever o futuro e da vontade de poupar e fazer provisão.

- Os fatores de produção são sempre remunerados?

-
Numa economia livre, certamente. Tudo que se recebe a título de remuneração do trabalho, do capital e da natureza forma a renda nacional. Nesse sentido, alguns cuidados são essenciais, conforme alertou sensatamente Hubert Védrine, ministro francês, em recente discurso perante a Comunidade Econômica Europeia. Ele o fez jocosamente, provocando o riso das autoridades presentes.

- Na Comunidade Europeia, jocosamente?


- Sim, muito jocosamente. Há, há, há! Védrine lembrou que é impatriótico casar com a governanta, pois um salário é imediatamente cancelado, diminuindo a renda nacional.

Hubert Védrine

Todos riem. Não sei por quê, as pessoas, quando em grupo, têm mais disposição para o riso, e todos os chistes são bem-sucedidos. É aí que entra o Freud: sozinho sou uma coisa, no grupo sou outra diferente, e na multidão sou uma gota dentro de uma nuvem. Choverei também, se a decisão for a de promover uma tormenta.


- Estão rindo? Será que vocês ousariam pedir recibos às suas mulheres? Se o fizessem, poderiam abater suas mesadas dos rendimentos tributáveis, mas elas teriam de fazer declaração de renda!

- Boa idéia, professor, boa idéia!
Piada de economista é sempre assim, magnificar a renda nacional, não casar com a governanta, deduzir a mulher no imposto de renda...

William Bird confere o seu "fee"

Terminada a aula, Bird é aplaudido entusiasticamente, como se tivesse cantado uma ária de Nabucco ou formulado uma das leis de Newton. Ele, o Bird, embolsou seis mil dólares, um “fee” nada desprezí (zá) vel, livre de impostos e despesas de qualquer natureza. Ou, como escreveu na carta em que aceitou o convite de Júlia, “free of taxes and expenses whatsoever”.
Júlia enriqueceu seu portfólio. Os assistentes, quase todos doutorandos, receberam créditos universitários e menções curriculares.
E eu? Isso mesmo, e eu, que faço aqui?

- Acho que estou apaixonado pela Júlia.

(Trecho, adaptado, de "O Homem Horizontal")

quarta-feira, 27 de julho de 2011

SACAÇÕES RECIPROCADAS

Há muitos Zés por aí

Eu nem me lembrava do teste, quando Ingrid me acudiu com a notícia.

- Você a
rrebentou!

- Minha preferência e opinião foram aprovadas?

- O departamento de pessoal, o Depes, viu muita cultura na sua frase preferida e
uma formulação extraordinária na questão opinativa.

- Formulação extraordinária, como assim?

- Ninguém contrapôs Fernando Pessoa a Einstein, antes de você.

- Mas eu não contrapus...


- Contrapôs, sim, com toda a propriedade. O DI...


- DI?


- Departamento de Inteligência. O DI deu um parecer reconhecendo que você tem toda a razão, pois o Livro do Desassossego e a Teoria da Relatividade constituem as duas sacações reciprocadas mais importantes do século XX.


- Sacações reciprocadas?


- Sim, Frank. O Livro do Desassossego é o contraponto literário da Teoria da Relatividade. Veja só esta passagem do Pessoa: "tudo que é alto passa alto e passa; tudo que é de apetecer está longe e passa longe". Não tem cara de relatividade poética e de poesia relativística?

Não posso deixar prosperar esse julgamento incompetente, que me supervaloriza, pois adiante me cobrarão por isso. Muita coisa errada há nesssa avaliação, extrapolando perigosamente todos os limites razoáveis.

- Não sei se o DI está de gozação, ou se falando sério. Apenas disse despretensiosamente, e sob a pressão de parecer que tinha uma opinião, que Fernando Pessoa e Albert Einstein eram grandes pensadores, mas não me ocorreu sugerir nenhum contraponto à Teoria da Relatividade, muito menos um contraponto literário. Não tenho capacidade, nem embocadura, nem aptidão, para fazer correlações dessa magnitude. A bem da verdade, nunca ouvi falar em sacações reciprocadas.

- Ora, Frank...

- Se há sacação reciprocada entre Einstein e Pessoa, trata-se de um caso típico de serendipidade, exatamente como nas descobertas da penicilina e do viagra.

- Serendipidade, qual nada, mérito seu. Não seja assim modesto. Outra coisa: quem é Zé?

Houve por aí o Zé da Zilda, o Zé Alencar e o Zé de Alencar, o Zé de Anchieta, o Zequinha de Abreu, tanto quanto o Zé de Abreu, o Zé do Patrocínio, o Zé Maria lateral, o Zé Kéti, o Zé Bonifácio de Andrada e Silva, o Zé Boquinha, o Zequinha Sarney, o Zé Trindade, o Zé de Arimatéia, o Zé Bové, a Maria José, Zeca Pagodinho e Zeca Camargo, Zé de Habsburgo, Paulo José, São José e inúmeros outros Zés, notórios e qualificados. Quem vai se interessar por um Zé que foi somente Zé? O melhor é dizer que o Zé é um modelo, um protótipo, encerrando o assunto sem maiores tergiversações.

Zé do Caixão

- Ingrid, é melhor esquecer o Zé.

- Esquecer?

- Esquecer, pois o Zé é um arquétipo, não um indivíduo em particular. Quis apenas fazer uma modesta homenagem aos homens inteligentes, grandes pensadores, que atravessam a existência no mais puro anonimato e perdem-se na primeira esquina do tempo. Ou, por outra, foi uma maneira de manifestar que houve numerosos grandes pensadores e que nomear três, sobre arriscado, não deixa de ser uma temeridade e, mais que isso, uma injustiça com milhares de pessoas extraordinárias cujos nomes simplesmente desconhecemos.

- Sem dúvida.
- Aquele pedaço de osso...

- É impossível saber qual pessoa pensou mais, não é óbvio? Como ter certeza de que não pensou mais o homem primitivo que primeiro pôs-se de pé ou aquele que usou pela primeira vez um pedaço de osso para defender-se? Ou o que percebeu a conveniência de usar o pedaço de osso como alavanca, para remover obstáculos e levantar pesos? E o outro, na imensidão do passado, que inventou a roda, combinando-a com a alavanca para formar o veículo, ou seja, a máquina de transportar? Como descartar os homens que inventaram o papel, a máquina a vapor, o guarda-chuva, os números indo-arábicos e o zero, a luz elétrica, o automóvel, a regra de Chió, o avião, o rádio, a bola de bilhar, o crivo de Eratóstenes, a semana inglesa, o computador, a curva de Gauss, o pedal da bicicleta, a televisão, o cordão dos sapatos, o teorema de Tales e o quadro-negro?

- Pode me chamar de Zé...

- E então?

- Digamos que o "Zé" é o meu genérico; toda vez que me ocorrer um grande pensador da humanidade, dele direi que é um ótimo Zé, eximindo-me do remorso de tê-lo omitido no teste da Maria Moretson.

.- Se Platão vier com alguma reclamação...

- Reclamação justa e pertinente. Eu lhe diria: não o esqueci de forma alguma, senhor Platão, pois você é o Zé, cuspido e escarrado.

- Zé Genérico, sim, senhor, você é muito prevenido!

sábado, 23 de julho de 2011

Oaristo ou aoristo?

Os espelhos e a cópula

Chego à sala de convenções ainda em estado de perplexidade. Seja o que for, e como for, prefiro sair da refrega com ferimentos leves e não ser humilhado, pois
em mim horror ao vexame é cláusula pétrea.

- Senhora Moretson... Queria dizer que não sabia do teste, muito menos sobre a natureza dos seus assuntos.

- Não anunciar o teste faz parte de uma estratégia. Os assuntos escolhidos são palavras cruzadas, uma questão preferencial e uma questão opinativa.


- Até que mando alguma coisa em palavras cruzadas, mas nunca ouvi falar de questões preferenciais e opinativas.


- Não se preocupe. Vamos às palavras cruzadas.

- Sim, mas, sei lá...


Uirapuru

- Designação genérica dos vegetais?

- Caá.

- Pássaro da Nova Zelândia?

- Moa.

- Crustáceo cinzento dos mangues?

- Aratu.

- Despesa total?

- Sumpto.

- Moeda de Zâmbia?

- Cuacha.
"Amantes", de Picasso: oaristo
- Diálogo entre amantes e modo verbal grego?

- Oaristo e aoristo.


- Pássaro que só canta enquanto constrói o ninho?


- Uirapuru.

- Muito bem.

Sou atravessado por uma confortadora sensação de bem-estar. Na veia! Na veia! Eu tinha dentro de mim, cá no íntimo, que as palavras cruzadas ainda me seriam úteis, utilíssimas, e não me enganei! Que ela me pergunte mais, pois sei inúmeros clichês, acumulados em muitos anos de decidida e consolidada solidão. Profícua solidão! Venha de lá, dona Moretson, que Lara é a ilustre casa de Castela, Galápagos, o habitat natural das tartarugas gigantes, Eris, a deusa da discórdia, ser, o verbo de Hamlet, origma, o abismo de Atenas onde se lançavam os criminosos...

Questão preferencial

-
Muito bem, mesmo. Mas o que vale realmente neste teste são as duas questões a seguir, a preferencial e a opinativa.

Continuo sem entender nada...

- Questões preferenciais e opinativas, que quer dizer com isso
, afinal?

- São aquelas respondidas com preferências e opiniões.

- Já sei, dou minha preferência e minha opinião, e a senhora decide se estou certo ou errado, é isso?

- Claro que não. Queremos ter uma noção da sua visão, abrangência e alcance.

Para mim, quem tem alcance é canhão, mas posso estar errado, o que, tratando-se de mim, não configura nenhuma novidade.

John Maynard Keynes

- Vamos à primeira questão; escreva uma frase que seja da sua preferência, não importa o assunto.

- Uma frase qualquer?

Jamais pensei numa questão desse tipo e continuo achando tudo muito esquisito.
Penso, isto é, sofro, porque pensar é um processo que dói, muito e fundamente.O Lamarck tem uma frase excelente, mas qual é mesmo a frase do Lamarck? Que se dane o Lamarck, mais uma vez. Sete anos de pastor Jacó servia a Labão, pai de Raquel, serrana bela, mas não servia ao pai, servia a ela, e a ela só por prêmio pretendia. Não, não, não, nada disso, pois trata-se de uma fofoca da Bíblia, não obstante Camões. Por sua inaptidão para o trabalho, meu filho Charles Darwin será uma vergonha para si mesmo e para toda a família. Também não, que isso é um curto-circuito, não uma frase. E se eu citar, de Jack Welch, que até os elefantes podem dançar? Ou, de Lorde Keynes, que a longo prazo estaremos todos mortos?Ou, de Freud, que a noção do impossível não existe para um indivíduo que faz parte de uma multidão?
Não, nenhuma dessas. A um só tempo recuo de Welch, Keynes e Freud, nada de elefantes, de mortos, de multidões enfurecidas ou de pais equivocados. Até que me ocorre escrever a frase de Borges, que repasso para Maria Moretson:

Os espelhos e a cópula são abomináveis porque multiplicam o número dos homens.

Jorge Luís Borges
Questão opinativa

- Vamos à segunda questão, sentencia a Moretson, guardando na pasta a frase que lhe entreguei. Na sua opinião...

- Modesta opinião.

... quais os três maiores pensadores de todos os tempos?

- Os maiores pensadores de todos os tempos, de que serve a minha opinião?

- Basta dizer as três pessoas que no seu entendimento pensaram mais que as outras, abrangendo toda a trajetória da humanidade.

- As pessoas que pensaram mais que todas as outras, na história da humanidade? Nunca me ocorreu pensar nessas pessoas, que isso é um voo para além do meu alcance. Quem sabia sobre isso era o Paulo Francis.

- Queremos sua opinião, não a do Paulo Francis.

Só a minha opinião interessa, mas quem podia nesse tema era mesmo o Francis. Numa varredura mental apressada e sem compromisso, e de nenhum balizamento, consulto os luminares de todos os tempos, para frente, para trás e lateralmente, vivos, mortos, no purgatório, no céu, no inferno, na História, na Geografia, no Deserto de Saara, na Tosca e na Força do Destino, ao longo da Linha Maginot, em Canudos, no Rei Lear, em Aracaju, Caxias e Tegucigalpa. Nomes abundantes acodem à minha mente, Leonardo da Vinci, Dostoiévski, Teresa de Calcutá, Johann Sebastian Bach, Slobodan Milosevic, Mahatma Ghandi, Errol Flynn, Maomé, Corneille, Sílvio Santos, Marconi, Sócrates, Ésquilo, Maurice Chevalier, Rembrandt, Torquemada, Tycho Brahe, Avicena, Zélia Cardoso de Melo, Gauss, Zé Bové, Adam Smith, Anaxágoras, Madame de Sevigné, Richelieu e Elisete Cardoso. Tanta gente, e eu, aqui, sem saber quais seriam os três. Preciso parir uma opinião, provisória ou desimportante que seja, eu que nunca tenho opinião sobre nada. Uma opinião, todo o meu reino daria por uma humilde opinião!
Subitamente sou invadido por uma sensação de ousadia e decido dizer que opiniões são opiniões, e não teoremas.

- Os que desejam o certo, Maria Moretson, vão ao dicionário ou perguntam ao Bill Gates.

- Como?

- Na minha opinião, os maiores pensadores foram Albert Einstein, Fernando Pessoa e o Zé.

- O Zé?
Maria Moretson
- Sim, o Zé.

Ela me olha com surpresa, mas dá o teste por encerrado. Vou me retirando da sala de convenções, muito confiante, sem saber exatamente por quê, e só agora reparo na beleza extraordinária de Maria Moretson. Será que está flertando comigo?

quarta-feira, 20 de julho de 2011

ESTREPEI-ME!

Entrou areia

Estou no empreendimento, a desfrutar de todas as mordomias, por obra e favor da minha namorada, Ingrid Saint-Louis de Grevi. Em dois meses, ninguém exigiu nada de mim, tendo bastado minha presença, com, apenas, total disponibilidade para o amor. Daí a surpresa, e desorientação, quando Ingrid me informou que eu teria de comparecer à sala de convenções, imediatamente, para uma entrevista com Maria Moretson.

- Acho que você será submetido a um teste, agora, por determinação do conselho de diretores.

-
Teste, como teste? Conselho de diretores? Agora? Sobre o quê?

- Não sei, mas você vai se sair bem, tenho certeza. É só caprichar...

-
Caprichar, como, se nem sei de que se trata? Eu lhe disse, Ingrid, não sei se você se lembra, que fui reprovado no vestibular. Além de não ser nenhuma sumidade, sempre me dei muito mal nas provas.

- Não seja tão modesto...

- Teste? Que teste?

Dirijo-me à sala de convenções arrastando-me lentamente. Tudo ia tão bem. Entrou areia... A porta do barraco era sem trinco; você partiu de madrugada, não me disse nada, isso não se faz; eu sei que vou te amar, por toda a minha vida, vou te amar; boemia, aqui me tens de regresso e suplicante te peço a minha nova inscrição; eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar; se você não me queria, não devia me procurar; perdão foi feito para a gente pedir; caminhemos, talvez nos vejamos depois; eu não mereço a comida que você pagou para mim; interesseira, não amas ninguém; tinha cá para mim que, agora sim, eu vivia, enfim, um grande amor, mentira!

Teoria da Evolução

Charles Darwin

O que faz uma pessoa numa prova? Exibe-se, e quem se exibe melhor tira nota maior. Exibir-me ou soçobrar, eis a questão... Discuta a teoria da evolução, esse o tema da prova, e o Sidrônio, que desconhecia completamente o assunto, teceu vastas considerações sobre a palavra "evolução" e suas conotações. Citou Malthus, Jéan Renoir e Fernão de Magalhães, incluiu no arrazoado inconsequente as façanhas carolíngias de Pepino o Breve, explicou como Demóstenes superou suas deficiências de orador, evoluindo de maneira importante, analisou a diferença entre academia e ateneu, outra evolução, e dissertou longamente sobre a esfera de Schwarzschild e as geometrias não-euclidianas, pois em tudo está presente a evolução, tanto que até as Escolas de Samba evoluem! Charles Darwin, um evolucionário de primeira linha, que seria dele e da Origem das Espécies, se não tivesse evoluído, e muito, nas longas e tediosas horas a bordo do Beagle?
Páginas e páginas de boas incongruências seguiu produzindo o Sidrônio, sandices e inutilidades, e tantas eram que o adequado seria atribuir-lhe um zero acachapante e definitivo.
Qual foi a sua nota, com efeito? Oito e meio, conceito A, pois o Sidrônio sempre foi um exibido competente. Ele sabia, como ninguém, que o importante é ir ao infinito, gozando cada palavra, subjugando-a, para suprir a ausência de conhecimento e impor o continente sem nenhum conteúdo.

Vieira

Quem me dera ser o Sidrônio, uma vez que fosse...
Perguntam-me sobre os Sermões, de Antônio Vieira, que hei de fazer? Deixar correr a pena com desembaraço e falar sobre paz, amizade, amor, fraternidade, lealdade, generosidade, caridade, esperança e fé, muita fé, essas coisas que cultivamos nos discursos, apenas neles, e que nos emocionam até as últimas lágrimas. E, na sequência, afirmar categoricamente que ninguém pode duvidar de que Vieira, talvez o maior escritor português do século XVII, tenha sempre se pautado pelos melhores valores, na luta insana pela plenitude e eternidade do homem. Quem persistir na dúvida que leia os Sermões, pois, sobre razões sólidas e decisivas, desfrutará do estilo colorido, inconsútil, coerente e vigoroso, a inconfundível marca do mestre Vieira...


Antônio Vieira

Eu conseguiria talvez um sete, quem sabe um sete, vírgula quatro?
Inconsútil? Não, não, retiro esse "inconsútil" pretensioso e sem sentido, pois todo mundo irá perceber que nunca li nada de Vieira.

Estrepei-me

Um Bonde Chamado Desejo

Mas a coisa não é rotunda, assim. Infelizmente vão exigir de mim respostas desimportantes sobre coisas objetivas, ou melhor, respostas objetivas sobre coisas desimportantes, como o papa que em boa hora instituiu a missa do galo, a origem dos vertebrados, os anos de Margareth Tatcher no poder, em que cidade existiu um streetcar chamado Desejo, a cor da ametista, a importância dos capacitores nas instalações industriais, a deusa à qual foi dedicado o Paternon, a capital da Carolina do Norte, além de questões sobre equações trigonométricas, estátuas de Dorífero, econometria, línguas faladas em Vaduz, que é capital do Liechtenstein, teorema das forças vivas e os conjuntos transfinitos do matemático alemão George Cantor, o qual, pelo que sei e depreendo, não cantava em conjunto nenhum.
Você sabe o que é quiáltera?
Como se chama o estreito que liga o Mar Egeu ao Mar de Mármara?

Ah, Mogadíscio é capital de qual país africano?

Não sei nada disso, ou, para dizer numa palavra tudo: estrepei-me.

- Estrepei-me!

sábado, 16 de julho de 2011

MEU PROFESSOR DE INGLÊS

VACA-RAPAZ

Yrves Vacaria

Não me lembro de nenhum professor especialmente preparado, nem de colegas muito inteligentes. Éramos, de fato, uma assembleia de mediocridades, considerados ambos os lados da mesa. Eu, pobre de mim, sempre gostei de problemas de aritmética, palavras cruzadas e quebra-cabeças e tinha um desempenho saliente em Inglês, o que não chegava a ser nenhuma façanha, nem podia ser avaliado, pois o professor era daqueles que traduziam “cowboy” por “vaca-rapaz” e “what does he do?” por “que faz ele fazer?”
- Doutor Vacaria, não seria melhor traduzir “cowboy” por “vaqueiro” e “what does he do?” por “o que ele faz?”

"Vaca-rapaz"

Como o professor nada respondeu, entendi que havia sido grosseiro e inconveniente. Mais uma vez, sim, mais uma vez. Para minha surpresa, porém, ele voltou ao assunto na aula do dia seguinte, embora de forma indireta e metafórica. Elogiou o padre Eleutério, que sempre se penitenciava dos seus erros, a inteligência de Santo Agostinho, que na fé conheceu a razão e a felicidade, e a humildade de Francisco de Assis, que se dedicou a um ideal de pobreza e por isso recebeu os estigmas das chagas de Cristo.
- À estupidez sempre há de contrapor-se o discernimento, e só os idiotas não mudam. Prevaleçam, pois, a razão e a verdade, mas também a inteligência, para reconhecer os equívocos, e a humildade, para proclamá-los sem nenhum constrangimento. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

A
custo consegui entender que Yrves Vacaria de Bastos Viamão estava aceitando a minha sugestão. Desde então “vaca-rapaz” e “o que faz ele fazer?” perderam a vez para “vaqueiro” e “o que ele faz?”, nas aulas de Inglês de Barro Verde. E, mais, fui dispensado dos exames finais e aprovado com nota oito, vírgula três. Assim foi. Acho, porém, um exagero a afirmativa de que sou o responsável pelo epíteto de "professor Vaca-Rapaz" que foi atribuído a Yrves Vacaria.

O resto é silêncio

Disseram-me anos depois que minha intervenção, um show-offismo banal que ajudou a corrigir os rumos anglo-saxônicos dos meus estudos ginasiais, despertou a ternura da Bianca Averróis, conforme na ocasião andou confessando às suas amigas mais íntimas. Ela, que era a moça mais bonita da minha adolescência, viria a ser a musa de todas as colunas sociais, depois que se casou com o milionário Richard Lloyd.


- Apaixonada por mim! E eu sem saber de nada, na inocência dos meus 15 anos.
..

- The rest is silence.
(O nome deste animal é Hamlet)

Sempre foi assim, pois um dos meus defeitos fundamentais tem sido a de desconhecer todas as oportunidades. Elas existem, e eu, o desatento, navegando nas águas profundas da minha ingenuidade. Dizer o quê? Nada.

- The rest is silence.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

CONFISSÕES DE UM VISIONÁRIO

Sucessos de agosto

A terceira e última guerra mundial
ocorrerá num 17 de agosto. Guerra instantânea, total, datilográfica, como explicava o doutor Crisóstomo, nas suas elucubrações intermináveis. Um datilógrafo apertará a tecla "Londres", simplesmente isso, e Londres derreterá. E, assim, sem deferências nem contemplações, Rio de Janeiro, Paris, Moscou, Roma, Berlim, Espera Feliz, Tegucigalpa e Nova York.

- Perderá a guerra menos rapidamente quem se apresentar com melhores datilógrafos e máquinas de belo consolo e retrocesso decidido.


Uma datilógrafa excelente...

16 de agosto.


Amanhã teremos um encontro inevitável com o desenlace. Somos quase sete bilhões de morituros, ávidos de viver, nessas (nossas) 24 horas. É preciso viver, viver muito, enquanto não chega
o canhoneio alucinado. Cada segundo terá de durar uma boa eternidade. Entremos, pois, no melhor restaurante, assistamos ao melhor teatro e descansemos no melhor apartamento. Deitemos fora os termômetros, as pastas de engraxar que lustram sem ressecar, os pregadores de gravatas, os oito primeiros números da série de Fibonacci, os abridores de latas e os carnês de prestações a juros favorecidos.

- Hoje eu não vou fazer a barba.

- Tum-tum, escatungararibê, escatungatinga. Soê, sooê, ererebá,
escatungararibê, escatungatinga!

- Quer dançar comigo?


Aqueles que tiverem bom gosto subirão comigo ao Pão de Açúcar, e juntos lançaremos aviões de papel sobre a Baía da Guanabara. Depois, nós nos consumiremos de amor. Por favor, não nos fale de Bush, nem de Bin Laden, que estes estarão fugindo de si mesmos e de suas biografias, as quais serão todas não autorizadas, agora e sempre.

- Não desembuche o debuxo do bruxo.

Nesse (nosso) dia todo discurso será absolutamente desnecessário. O poliglota, dançando conosco a infatigável valsa da despedida, gritará para as pessoas:

- Folks!

Todos entenderemos "Volks!". Mas ninguém quer saber de Volks porque há Mercedes sobrando. Mercedes e Marias sobrando.

- Ora, Volks!

Mercedes e Maria

Alguns, os corruptos (sempre os há), permanecerão graves, mas quase todos estarão se despedindo alegremente. Mães de uns e filhos de outras se abraçarão emocionados, os olhos absolutamente auspiciosos. Pois hoje, 16 de agosto, é o nosso domingo, dia dos pobres iguais aos ricos e dos ricos iguais a todos. Nem importa que a humanidade tenha uma sobrevida de apenas 24 horas - um instantezinho de felicidade é bastante para realizar a criação, humana e desumana, de uma só vez e completamente.

- Ei, esperem por mim!

Primeiras informações adicionais


No dia 16 não haverá chaves, dinheiro valendo e família, porque chaves dinheiro valendo e família são entidades úteis nas coletividades que não esperam morrer amanhã, e apenas nestas. De minha parte, jogarei fora a doçura sem açúcar que não engorda e rasgarei, enfim, o soneto que tive vergonha de mostrar.



17 de agosto

A felicidade foi ontem. Teremos hoje alucinações maiores que as do recoveiro de Púchkin, varridos da Terra pela nossa própria tecnologia. Que não penses que esta odisseia no chão (re-odisseia) é algum elevado ou shopping center caindo sobre tua cabeça. Pois é fim do mundo mesmo. Na hora da morte, homens e animais, apartamentos de cobertura da Delfim Moreira e falsos profetas vestidos de azul, tudo, absolutamente tudo, desmoronará num único baque.
Os nossos gritos serão abafados pelo troar infernal das bombas deles, e todos viveremos a enorme aventura, inerme, de morrer igualitariamente. É a expiação...

- Expiação?

- É a expiação, pelas nossas guerras convencionais, químicas, de quadrilhas, púnicas, de nervos, mundiais, santas, sem quartel, bacteriológicas, injustas, de preços, atômicas, frias, econômicas, de cem anos, localizadas, sujas, totais e de torcidas.

Outras informações adicionais

Na verdade, salvam-se um homem e uma mulher, que isso aqui é bom demais para ficar desabitado. O homem será escolhido por sorteio, essa a tua chance, caro amigo, mas da mulher serão exigidas qualidades várias, como a beleza da Jeanne Moreau, a coragem de Eneida de Morais e a inteligência da Dione. Engana-se quem pensou em Cláudia Cardinale, cuja não poderá ser salva, lamentavelmente.

- E a
Vera Fischer?

- Também não...

A escolhida, uma latina, formará com outro latino um casal sem nenhuma propensão marginal, nem para consumir nem para guerrear. Uma história a ser contada, um dia, quem sabe...

Consolo

Não teremos missa de sétimo dia
, mas nossos prótons são eternos.

- Adeus!

sábado, 9 de julho de 2011

MULHERES E ESPELHOS

Palavras cruzadas

Além de citar Borges, eu me saíra muito bem no teste das palavras cruzadas. Seja como for, hei de tratar essas coisas com cuidado, pois tenho medo de passar por impostor.

- Que conhecimento, hein, Frank?

- Vamos com calma, Ingrid... A palavra "conhecimento" não é apropriada quando o assunto é palavras cruzadas, pois
no trato diligente o cruzadista o que faz é acumular grande volume de chavões e clichês.

- Não é um conhecimento?

- É uma prática divertida, mas apenas prática. Se você perguntar a um charadista qual o termo correspondente a "para barlavento", com toda certeza ele responderá: "aló". Perguntando depois o que significa "aló", ou "para barlavento", pode ser que não saiba que é uma expressão náutica que indica a direção de onde sopra o vento.


- É assim, é?

- O torneio não passa de uma troca de chumbo, entre quem propõe e quem decifra, maquinal e quase esquizofrênica.
A arte de encaixar a palavra no diagrama, sem preocupação com o conteúdo dos encaixes.

- "Nênia" é melopéia fúnebre...

- Desconcertante...

- Desconcertante?

- Não diga isso para o nosso vice-presidente, que pode ofender-se, pois vive se gabando de ter sido campeão do torneio cruzadístico de Poços de Caldas, lá pela década de 1990. Dos concorrentes, que vinham de todo o Brasil, foi o único a saber que
"auriga" é o nome que se dava antigamente ao cocheiro das bigas.

- Tenho certeza de que sabe também que "nara" é o inferno dos malês,
"Is", o "Absoluto", na filosofia indu, e "santir", um instrumento oriental de forma trapezoidal.

- Instrumento musical ou agrícola?

- Não sei.

- Ah! Ah! Tudo bem... Como foi que você acumulou todos esses conceitos?

- Mediante um prolongado exercício de solidão.


Metáforas

- Outra coisa, Frank. Os espelhos e a cópula são abomináveis porque multiplicam o número dos homens, você não acha isso, acha?

- Os espelhos e a cópula são abomináveis...

Até para citar Borges a gente tem de ter cuidado. Eu, amante profissional, falando mal da cópula e, desse modo, escarrando no leito generoso que me dá amor e me alimenta a vinho de seleção e caviar. Mas o autor citado é Borges, pô, e Borges devia pairar acima dessas susceptibilidades. Mas não paira, não paira, não paira, não.

- Você não acha isso, acha?

Qual a melhor maneira de voltar atrás, para consertar o estrago? É alegar que a palavra, qualquer palavra, não passa de uma fraude, que impede o ser humano de transmitir seus pensamentos com fidelidade? Que a palavra às vezes se opõe ao pensamento, ainda que acidentalmente, porque é mapa, e não território? Que a palavra "água" não molha, nem mata a sede? Que representa, mas às vezes representa mal?
Não, não... Por aí, não, melhor não enveredar por esse caminho, que soa falso, soa indignidade e apelação. Apelação criminosa, execrar a palavra, que na verdade faz o diferencial do ser humano. Melhor tergiversar, que é a arte de afirmar, negando, e de negar, afirmando. Yes, but, usando a cintura. A cintura!

- Isso, de um lado, Ingrid. De outro, porém, os espelhos e a cópula são admiráveis porque multiplicam as mulheres. Além do mais, a cópula é simplesmente adorável quando se tem a ventura de uma parceira maravilhosa como você. Velázquez pensou na multiplicação dos homens quando fez a sua Vênus? Não, certamente não pensou. E decidiu fazê-la de frente para um espelho, que nada tem de abominável porque reproduz, maravilhosa, a sua criação genial: uma mulher, exatamentemente como você e tão Vênus de Velázquez quanto você.

Vênus de Velázquez
- Como você é lisonjeiro...

- Borges falava metaforicamente. Pediram-me uma frase, não me perguntaram se eu estava de acordo com ela e da minha escolha não excluíram as metáforas. Ingrid, bendita a cópula, benditos os espelhos, bendita a frase do Borges...

- Frank, eu te amo...

- Eu te amo também, doce Ingrid, e te amarei para sempre, com todas as forças do meu coração.

Falei muita besteira, mas funcionou. De outra vez, hei de ter mais cuidado na escolha das frases de minha preferência ou estarei novamente desempregado.