quarta-feira, 20 de julho de 2011

ESTREPEI-ME!

Entrou areia

Estou no empreendimento, a desfrutar de todas as mordomias, por obra e favor da minha namorada, Ingrid Saint-Louis de Grevi. Em dois meses, ninguém exigiu nada de mim, tendo bastado minha presença, com, apenas, total disponibilidade para o amor. Daí a surpresa, e desorientação, quando Ingrid me informou que eu teria de comparecer à sala de convenções, imediatamente, para uma entrevista com Maria Moretson.

- Acho que você será submetido a um teste, agora, por determinação do conselho de diretores.

-
Teste, como teste? Conselho de diretores? Agora? Sobre o quê?

- Não sei, mas você vai se sair bem, tenho certeza. É só caprichar...

-
Caprichar, como, se nem sei de que se trata? Eu lhe disse, Ingrid, não sei se você se lembra, que fui reprovado no vestibular. Além de não ser nenhuma sumidade, sempre me dei muito mal nas provas.

- Não seja tão modesto...

- Teste? Que teste?

Dirijo-me à sala de convenções arrastando-me lentamente. Tudo ia tão bem. Entrou areia... A porta do barraco era sem trinco; você partiu de madrugada, não me disse nada, isso não se faz; eu sei que vou te amar, por toda a minha vida, vou te amar; boemia, aqui me tens de regresso e suplicante te peço a minha nova inscrição; eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar; se você não me queria, não devia me procurar; perdão foi feito para a gente pedir; caminhemos, talvez nos vejamos depois; eu não mereço a comida que você pagou para mim; interesseira, não amas ninguém; tinha cá para mim que, agora sim, eu vivia, enfim, um grande amor, mentira!

Teoria da Evolução

Charles Darwin

O que faz uma pessoa numa prova? Exibe-se, e quem se exibe melhor tira nota maior. Exibir-me ou soçobrar, eis a questão... Discuta a teoria da evolução, esse o tema da prova, e o Sidrônio, que desconhecia completamente o assunto, teceu vastas considerações sobre a palavra "evolução" e suas conotações. Citou Malthus, Jéan Renoir e Fernão de Magalhães, incluiu no arrazoado inconsequente as façanhas carolíngias de Pepino o Breve, explicou como Demóstenes superou suas deficiências de orador, evoluindo de maneira importante, analisou a diferença entre academia e ateneu, outra evolução, e dissertou longamente sobre a esfera de Schwarzschild e as geometrias não-euclidianas, pois em tudo está presente a evolução, tanto que até as Escolas de Samba evoluem! Charles Darwin, um evolucionário de primeira linha, que seria dele e da Origem das Espécies, se não tivesse evoluído, e muito, nas longas e tediosas horas a bordo do Beagle?
Páginas e páginas de boas incongruências seguiu produzindo o Sidrônio, sandices e inutilidades, e tantas eram que o adequado seria atribuir-lhe um zero acachapante e definitivo.
Qual foi a sua nota, com efeito? Oito e meio, conceito A, pois o Sidrônio sempre foi um exibido competente. Ele sabia, como ninguém, que o importante é ir ao infinito, gozando cada palavra, subjugando-a, para suprir a ausência de conhecimento e impor o continente sem nenhum conteúdo.

Vieira

Quem me dera ser o Sidrônio, uma vez que fosse...
Perguntam-me sobre os Sermões, de Antônio Vieira, que hei de fazer? Deixar correr a pena com desembaraço e falar sobre paz, amizade, amor, fraternidade, lealdade, generosidade, caridade, esperança e fé, muita fé, essas coisas que cultivamos nos discursos, apenas neles, e que nos emocionam até as últimas lágrimas. E, na sequência, afirmar categoricamente que ninguém pode duvidar de que Vieira, talvez o maior escritor português do século XVII, tenha sempre se pautado pelos melhores valores, na luta insana pela plenitude e eternidade do homem. Quem persistir na dúvida que leia os Sermões, pois, sobre razões sólidas e decisivas, desfrutará do estilo colorido, inconsútil, coerente e vigoroso, a inconfundível marca do mestre Vieira...


Antônio Vieira

Eu conseguiria talvez um sete, quem sabe um sete, vírgula quatro?
Inconsútil? Não, não, retiro esse "inconsútil" pretensioso e sem sentido, pois todo mundo irá perceber que nunca li nada de Vieira.

Estrepei-me

Um Bonde Chamado Desejo

Mas a coisa não é rotunda, assim. Infelizmente vão exigir de mim respostas desimportantes sobre coisas objetivas, ou melhor, respostas objetivas sobre coisas desimportantes, como o papa que em boa hora instituiu a missa do galo, a origem dos vertebrados, os anos de Margareth Tatcher no poder, em que cidade existiu um streetcar chamado Desejo, a cor da ametista, a importância dos capacitores nas instalações industriais, a deusa à qual foi dedicado o Paternon, a capital da Carolina do Norte, além de questões sobre equações trigonométricas, estátuas de Dorífero, econometria, línguas faladas em Vaduz, que é capital do Liechtenstein, teorema das forças vivas e os conjuntos transfinitos do matemático alemão George Cantor, o qual, pelo que sei e depreendo, não cantava em conjunto nenhum.
Você sabe o que é quiáltera?
Como se chama o estreito que liga o Mar Egeu ao Mar de Mármara?

Ah, Mogadíscio é capital de qual país africano?

Não sei nada disso, ou, para dizer numa palavra tudo: estrepei-me.

- Estrepei-me!

sábado, 16 de julho de 2011

MEU PROFESSOR DE INGLÊS

VACA-RAPAZ

Yrves Vacaria

Não me lembro de nenhum professor especialmente preparado, nem de colegas muito inteligentes. Éramos, de fato, uma assembleia de mediocridades, considerados ambos os lados da mesa. Eu, pobre de mim, sempre gostei de problemas de aritmética, palavras cruzadas e quebra-cabeças e tinha um desempenho saliente em Inglês, o que não chegava a ser nenhuma façanha, nem podia ser avaliado, pois o professor era daqueles que traduziam “cowboy” por “vaca-rapaz” e “what does he do?” por “que faz ele fazer?”
- Doutor Vacaria, não seria melhor traduzir “cowboy” por “vaqueiro” e “what does he do?” por “o que ele faz?”

"Vaca-rapaz"

Como o professor nada respondeu, entendi que havia sido grosseiro e inconveniente. Mais uma vez, sim, mais uma vez. Para minha surpresa, porém, ele voltou ao assunto na aula do dia seguinte, embora de forma indireta e metafórica. Elogiou o padre Eleutério, que sempre se penitenciava dos seus erros, a inteligência de Santo Agostinho, que na fé conheceu a razão e a felicidade, e a humildade de Francisco de Assis, que se dedicou a um ideal de pobreza e por isso recebeu os estigmas das chagas de Cristo.
- À estupidez sempre há de contrapor-se o discernimento, e só os idiotas não mudam. Prevaleçam, pois, a razão e a verdade, mas também a inteligência, para reconhecer os equívocos, e a humildade, para proclamá-los sem nenhum constrangimento. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

A
custo consegui entender que Yrves Vacaria de Bastos Viamão estava aceitando a minha sugestão. Desde então “vaca-rapaz” e “o que faz ele fazer?” perderam a vez para “vaqueiro” e “o que ele faz?”, nas aulas de Inglês de Barro Verde. E, mais, fui dispensado dos exames finais e aprovado com nota oito, vírgula três. Assim foi. Acho, porém, um exagero a afirmativa de que sou o responsável pelo epíteto de "professor Vaca-Rapaz" que foi atribuído a Yrves Vacaria.

O resto é silêncio

Disseram-me anos depois que minha intervenção, um show-offismo banal que ajudou a corrigir os rumos anglo-saxônicos dos meus estudos ginasiais, despertou a ternura da Bianca Averróis, conforme na ocasião andou confessando às suas amigas mais íntimas. Ela, que era a moça mais bonita da minha adolescência, viria a ser a musa de todas as colunas sociais, depois que se casou com o milionário Richard Lloyd.


- Apaixonada por mim! E eu sem saber de nada, na inocência dos meus 15 anos.
..

- The rest is silence.
(O nome deste animal é Hamlet)

Sempre foi assim, pois um dos meus defeitos fundamentais tem sido a de desconhecer todas as oportunidades. Elas existem, e eu, o desatento, navegando nas águas profundas da minha ingenuidade. Dizer o quê? Nada.

- The rest is silence.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

CONFISSÕES DE UM VISIONÁRIO

Sucessos de agosto

A terceira e última guerra mundial
ocorrerá num 17 de agosto. Guerra instantânea, total, datilográfica, como explicava o doutor Crisóstomo, nas suas elucubrações intermináveis. Um datilógrafo apertará a tecla "Londres", simplesmente isso, e Londres derreterá. E, assim, sem deferências nem contemplações, Rio de Janeiro, Paris, Moscou, Roma, Berlim, Espera Feliz, Tegucigalpa e Nova York.

- Perderá a guerra menos rapidamente quem se apresentar com melhores datilógrafos e máquinas de belo consolo e retrocesso decidido.


Uma datilógrafa excelente...

16 de agosto.


Amanhã teremos um encontro inevitável com o desenlace. Somos quase sete bilhões de morituros, ávidos de viver, nessas (nossas) 24 horas. É preciso viver, viver muito, enquanto não chega
o canhoneio alucinado. Cada segundo terá de durar uma boa eternidade. Entremos, pois, no melhor restaurante, assistamos ao melhor teatro e descansemos no melhor apartamento. Deitemos fora os termômetros, as pastas de engraxar que lustram sem ressecar, os pregadores de gravatas, os oito primeiros números da série de Fibonacci, os abridores de latas e os carnês de prestações a juros favorecidos.

- Hoje eu não vou fazer a barba.

- Tum-tum, escatungararibê, escatungatinga. Soê, sooê, ererebá,
escatungararibê, escatungatinga!

- Quer dançar comigo?


Aqueles que tiverem bom gosto subirão comigo ao Pão de Açúcar, e juntos lançaremos aviões de papel sobre a Baía da Guanabara. Depois, nós nos consumiremos de amor. Por favor, não nos fale de Bush, nem de Bin Laden, que estes estarão fugindo de si mesmos e de suas biografias, as quais serão todas não autorizadas, agora e sempre.

- Não desembuche o debuxo do bruxo.

Nesse (nosso) dia todo discurso será absolutamente desnecessário. O poliglota, dançando conosco a infatigável valsa da despedida, gritará para as pessoas:

- Folks!

Todos entenderemos "Volks!". Mas ninguém quer saber de Volks porque há Mercedes sobrando. Mercedes e Marias sobrando.

- Ora, Volks!

Mercedes e Maria

Alguns, os corruptos (sempre os há), permanecerão graves, mas quase todos estarão se despedindo alegremente. Mães de uns e filhos de outras se abraçarão emocionados, os olhos absolutamente auspiciosos. Pois hoje, 16 de agosto, é o nosso domingo, dia dos pobres iguais aos ricos e dos ricos iguais a todos. Nem importa que a humanidade tenha uma sobrevida de apenas 24 horas - um instantezinho de felicidade é bastante para realizar a criação, humana e desumana, de uma só vez e completamente.

- Ei, esperem por mim!

Primeiras informações adicionais


No dia 16 não haverá chaves, dinheiro valendo e família, porque chaves dinheiro valendo e família são entidades úteis nas coletividades que não esperam morrer amanhã, e apenas nestas. De minha parte, jogarei fora a doçura sem açúcar que não engorda e rasgarei, enfim, o soneto que tive vergonha de mostrar.



17 de agosto

A felicidade foi ontem. Teremos hoje alucinações maiores que as do recoveiro de Púchkin, varridos da Terra pela nossa própria tecnologia. Que não penses que esta odisseia no chão (re-odisseia) é algum elevado ou shopping center caindo sobre tua cabeça. Pois é fim do mundo mesmo. Na hora da morte, homens e animais, apartamentos de cobertura da Delfim Moreira e falsos profetas vestidos de azul, tudo, absolutamente tudo, desmoronará num único baque.
Os nossos gritos serão abafados pelo troar infernal das bombas deles, e todos viveremos a enorme aventura, inerme, de morrer igualitariamente. É a expiação...

- Expiação?

- É a expiação, pelas nossas guerras convencionais, químicas, de quadrilhas, púnicas, de nervos, mundiais, santas, sem quartel, bacteriológicas, injustas, de preços, atômicas, frias, econômicas, de cem anos, localizadas, sujas, totais e de torcidas.

Outras informações adicionais

Na verdade, salvam-se um homem e uma mulher, que isso aqui é bom demais para ficar desabitado. O homem será escolhido por sorteio, essa a tua chance, caro amigo, mas da mulher serão exigidas qualidades várias, como a beleza da Jeanne Moreau, a coragem de Eneida de Morais e a inteligência da Dione. Engana-se quem pensou em Cláudia Cardinale, cuja não poderá ser salva, lamentavelmente.

- E a
Vera Fischer?

- Também não...

A escolhida, uma latina, formará com outro latino um casal sem nenhuma propensão marginal, nem para consumir nem para guerrear. Uma história a ser contada, um dia, quem sabe...

Consolo

Não teremos missa de sétimo dia
, mas nossos prótons são eternos.

- Adeus!

sábado, 9 de julho de 2011

MULHERES E ESPELHOS

Palavras cruzadas

Além de citar Borges, eu me saíra muito bem no teste das palavras cruzadas. Seja como for, hei de tratar essas coisas com cuidado, pois tenho medo de passar por impostor.

- Que conhecimento, hein, Frank?

- Vamos com calma, Ingrid... A palavra "conhecimento" não é apropriada quando o assunto é palavras cruzadas, pois
no trato diligente o cruzadista o que faz é acumular grande volume de chavões e clichês.

- Não é um conhecimento?

- É uma prática divertida, mas apenas prática. Se você perguntar a um charadista qual o termo correspondente a "para barlavento", com toda certeza ele responderá: "aló". Perguntando depois o que significa "aló", ou "para barlavento", pode ser que não saiba que é uma expressão náutica que indica a direção de onde sopra o vento.


- É assim, é?

- O torneio não passa de uma troca de chumbo, entre quem propõe e quem decifra, maquinal e quase esquizofrênica.
A arte de encaixar a palavra no diagrama, sem preocupação com o conteúdo dos encaixes.

- "Nênia" é melopéia fúnebre...

- Desconcertante...

- Desconcertante?

- Não diga isso para o nosso vice-presidente, que pode ofender-se, pois vive se gabando de ter sido campeão do torneio cruzadístico de Poços de Caldas, lá pela década de 1990. Dos concorrentes, que vinham de todo o Brasil, foi o único a saber que
"auriga" é o nome que se dava antigamente ao cocheiro das bigas.

- Tenho certeza de que sabe também que "nara" é o inferno dos malês,
"Is", o "Absoluto", na filosofia indu, e "santir", um instrumento oriental de forma trapezoidal.

- Instrumento musical ou agrícola?

- Não sei.

- Ah! Ah! Tudo bem... Como foi que você acumulou todos esses conceitos?

- Mediante um prolongado exercício de solidão.


Metáforas

- Outra coisa, Frank. Os espelhos e a cópula são abomináveis porque multiplicam o número dos homens, você não acha isso, acha?

- Os espelhos e a cópula são abomináveis...

Até para citar Borges a gente tem de ter cuidado. Eu, amante profissional, falando mal da cópula e, desse modo, escarrando no leito generoso que me dá amor e me alimenta a vinho de seleção e caviar. Mas o autor citado é Borges, pô, e Borges devia pairar acima dessas susceptibilidades. Mas não paira, não paira, não paira, não.

- Você não acha isso, acha?

Qual a melhor maneira de voltar atrás, para consertar o estrago? É alegar que a palavra, qualquer palavra, não passa de uma fraude, que impede o ser humano de transmitir seus pensamentos com fidelidade? Que a palavra às vezes se opõe ao pensamento, ainda que acidentalmente, porque é mapa, e não território? Que a palavra "água" não molha, nem mata a sede? Que representa, mas às vezes representa mal?
Não, não... Por aí, não, melhor não enveredar por esse caminho, que soa falso, soa indignidade e apelação. Apelação criminosa, execrar a palavra, que na verdade faz o diferencial do ser humano. Melhor tergiversar, que é a arte de afirmar, negando, e de negar, afirmando. Yes, but, usando a cintura. A cintura!

- Isso, de um lado, Ingrid. De outro, porém, os espelhos e a cópula são admiráveis porque multiplicam as mulheres. Além do mais, a cópula é simplesmente adorável quando se tem a ventura de uma parceira maravilhosa como você. Velázquez pensou na multiplicação dos homens quando fez a sua Vênus? Não, certamente não pensou. E decidiu fazê-la de frente para um espelho, que nada tem de abominável porque reproduz, maravilhosa, a sua criação genial: uma mulher, exatamentemente como você e tão Vênus de Velázquez quanto você.

Vênus de Velázquez
- Como você é lisonjeiro...

- Borges falava metaforicamente. Pediram-me uma frase, não me perguntaram se eu estava de acordo com ela e da minha escolha não excluíram as metáforas. Ingrid, bendita a cópula, benditos os espelhos, bendita a frase do Borges...

- Frank, eu te amo...

- Eu te amo também, doce Ingrid, e te amarei para sempre, com todas as forças do meu coração.

Falei muita besteira, mas funcionou. De outra vez, hei de ter mais cuidado na escolha das frases de minha preferência ou estarei novamente desempregado.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

NOTAS DE UM GUARDA-LIVROS (III)

NHAMBIQUARAS

Outro dia, ao cruzar a Cinelândia, reencontrei o Ramiro, gênio capaz de uma Capela Sistina ou de uma Teoria da Relatividade.
Não mudara quase nada, aquela cara trigonométrica e proparoxítona, com um sorriso que mais parecia uma hipotenusa. Engenheiro suma cum laudae da turma de 1966, adquirira grande experiência construindo túneis e viadutos e trabalhou, depois, na construção da... ponte Rio-Niterói. Bingo! Eu, lá atrás, entendia alguma coisa de futuro...

- Diga-me, indaguei, você usou os conhecimentos do professor Kakaze, os 1.512.000 agrupamentos, o cálculo das probabilidades e a distribuição de Gauss?

- Não, nada disso foi necessário.

A obra havia dispensado a parte mateológica da sua inexcedível competência. Usara apenas ferragem, cimento, brita um, brita dois, brita três, tabelas, ábacos, thumb rules...


- O quê?


- Thumb rules, isso que se chama de "chutes"...


- Pombas!
Regras Práticas ou "Chutes" Educados

Terminada a ponte, Ramiro engajou-se no desenvolvimento de campos de petróleo nas costas britânicas do Mar do Norte. Assentamento de plataformas e construção de sistemas flutuantes de produção, projetos que se justificam quando os preços do petróleo estão elevados, como agora.

- Está de férias?, perguntei-lhe, já em tom de despedida.

- Não, voltei de vez. Estou desempregado, mas decidido a conseguir uma ocupação sem grandes tardanças. Concorri ao cargo de engenheiro de manutenção numa fábrica de computadores em Maria da Graça, mas fui recusado no teste. Não soube responder o nome que se dá à unidade de elastância.


- É daraf, comentei, usando meus conhecimentos de palavras cruzadas. O daraf é o inverso do farad, que, por sua vez, é a unidade prática de capacitância.

- Estou, porém, na iminência de conseguir um emprego de oito salários mínimos, mais sobreaviso e periculosidade, numa hidrelétrica no norte de Mato Grosso, junto da reserva indígena dos nhambiquaras. Uma passagem de avião por ano, ida e volta, para visitar o Rio de Janeiro. Vou usar toda a minha experiência na construção de barragens, sem nenhuma agressão ao meio ambiente ou ao
s processos ecológicos essenciais.

Nhambiquaras

Profissionais de mercado

Não consigo imaginar o Ramiro senão brilhando, o giz em riste, sob os aplausos entusiasmados do professor Kakaze.
Mas essa questão dos nhambiquaras me desconcertou, desestabilizando as minhas memórias. Dos quais, nhambiquaras, sei, apenas e cruzadisticamente, que gostam de aaru, que é um bolo no qual se misturam carne de tatu e farinha de mandioca.

- Meu caro pitecantropo, o binômio de Newton é até citado nas poesias do Fernando Pessoa.

Será que o Ramiro brilhava mesmo ou não passava de uma das minhas fantasias?
O professor Kakaze citou realmente o Fernando Pessoa?

Veio então a ideia. É verdade que eu nunca dera importância à poesia e conhecia, se tanto, o Mal Secreto e alguns trechos bem condoreiros do Navio Negreiro. Seja como for, fui à livraria e comprei as obras completas de Fernando Pessoa, o poeta que, em sonhos, sonhos criou. Logo na introdução, fiquei sabendo que foi um homem do comércio, autor de textos para dirigentes de empresas, publicados na Revista de Comércio e Contabilidade, de Lisboa, e de uma vasta Teoria e Prática do Comércio.

- Um profissional de mercado, exatamente como eu!


Li toda obra e encontrei o poema em Álvaro de Campos:

“O Binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
óóóó óóóóóó óó óóóóóóó óóóóóóó
(O vento lá fora.)”


Players e observadores

Um exemplo de player: Vittorio Gassman, o homem que desfrutou o doce arroz amargo... Outros players: Costa e Silva, Rembrandt e Ramiro. Eles entendem de álgebras e metáforas e movem a história, para o bem ou para o mal, o êxito ou o infortúnio. Tentei ser player também, mas não passei de um mero observador.

- Resta-me o consolo de que, sem observadores, este universo não faria nenhum sentido.

sábado, 2 de julho de 2011

NOTAS DE UM GUARDA-LIVROS (II)


COMO SE FAZ UM MILIONÁRIO

Queria ser engenheiro, mas faltou-me embocadura, ou seja, o assunto escapava ao meu entendimento. Não sabendo o que fazer, após um pequeno treinamento botei banca de guarda-livros, e, nesse mister, entre borradores e diários, muito me valeu o aforismo de Sparafucile de Pococô:

- O dinheiro é bolsípeto, pois, se sair de um bolso, entra necessariamente em outro bolso.

- Bolsípeto?

- Se na Física, a força centrípeta puxa para o centro, no mundo das finanças, a força bolsípeta empurra o dinheiro para o bolso. Para o bolso dos espertos, bem entendido...

Madalena e Sparafucile

No início faturava pouco, cobrando um salário mínimo por cliente. Depois, perdida a inocência, passei a exigir honorários cada vez mais elevados, certo de que os clientes não teriam como me opor nenhuma resistência.

-Impor o preço, na cartilha dos bem-sucedidos, implica um decisivo salto de qualidade...

Eu e a bolsa de valores

Foi nessa ocasião que entrei para a classe dos milionários de gabinete, quando gloriosamente me pus a especular na Bolsa de Valores, à sombra da Comissão de Valores Mobiliários, estimulado pela Fazenda, aplaudido, e muito, pelo Planejamento e conven
ientemente documentado pela Associação Nacional dos Analistas dos Mercados de Capitais. Ah, nunca me esqueça de dizer que naquela época tudo o que se amealhava nesse mercado gozava de isenção do imposto de renda.

- Um incentivo providencial, muito justo e conveniente...

Bolsa de Valores do Rio de Janeiro

Minha técnica era a de adquirir barato, e a termo, na adinamia do mercado, e enfiar caro, e à vista, nas fases de euforia. Em outras palavras, comprar quando todos queriam vender e vender quando decidiam voltar às compras, movidos pela ambição de violar princípios termodinâmicos e criar o moto contínuo de primeira espécie. Quem não se lembra de 1971, quando as pessoas trocavam suas casas por ações? O Plano Cruzado, esquecer quem há de?

- Eu, na outra ponta, vendia ações a mancheias...

Se é verdade que se pode perder muito (ou, o que dá no mesmo, ganhar milhões num dia e vê-los desaparecer no dia seguinte), o esperto geralmente se dá bem, muito bem, pois a Bolsa, convenientemente utilizada, pode ensejar um retorno muito superior ao esforço despendido.

- Um jogo desproporcional, desequilibrado, a favor dos... equipados.

- Engana-se o cruzadista que entender
, na vida real que existe cá fora do diagrama quadriculado, que maná é apenas o alimento que Deus mandou em forma de chuva para socorro dos israelitas no deserto...

Arroz doce

Consumado o êxito das minhas especulações, desapareci completamente dos pregões, pois especular é atividade de gente pobre. Ou melhor, de gente ainda pobre. Comprei um apartamento de três andares, mais cobertura, na Avenida Vieira Souto, uma ilha em Cabo Frio e uma centena de salas nos melhores edifícios da Avenida Rio Branco. Passei a acionista majoritário de algumas empresas sólidas e rentáveis, engajadas em negócios de fertilizantes, bebidas e metalurgia, que meus prepostos administram com redobrado zelo e eficiência, na pressuposição e temor de que posso demiti-los a qualquer momento.

- Fiquei rico porque fui incapaz de aprender Matemática.


- Como o sacristão do O. Henry...

Do meu escritório, de frente para o pôster de Silvana Mangano, depois da surra na chuva e molhada de 18 anos, contemplo com nostalgia a obra de 13 quilômetros a cuja construção não tive acesso por não ter entendido a distribuição de Gauss, este o meu fracasso mais retumbante.

- Não me despojarei, porém, do mérito de tê-las antevisto, Silvana e a ponte, tamanhas, nas minhas premonições de adolescente...

terça-feira, 28 de junho de 2011

NOTAS DE UM GUARDA-LIVROS (I)

A PONTE E OS GÊNIOS


Hoje tenho por melhor exercício divagar sobre acontecimentos afastados no tempo, pois o passado é a minha matéria. Mais ou menos na linha do doutor Pedro Nava, para quem o futuro é somente uma expectativa da nossa experiência, sujeita a todos os riscos, e o presente não tem dimensão, sendo apenas este ponto da trajetória, que já passou, nem sei se quem me lê percebeu.

- Só o passado existe como realidade objetiva.

Eu era obrigado a seguir para Araruama nos fins de semana, pois na minha família criança não tinha voz, nem vez. Eram horas intermináveis na fila das barcas, até chegar o momento de embarcar o carro e transpor a baía. Imaginei a ponte imensa e, dos seus numerosos profetas, fui dos poucos que tiveram a ambição de construí-la.

Do pensamento à ação, cheguei a frequentar um curso preparatório para o vestibular de engenharia, no longínquo ano de 1960. Meus planos esbarraram, porém, nos obstáculos que o professor Kakaze ia depondo à minha frente. Lembro-me muito bem da satisfação que lhe proporcionavam os seus teoremas e dos problemas que costumava propor, a todo instante, para testar os conhecimentos daquela turma de principiantes. Que só faziam revelar a minha inaptidão e aumentar a minha angústia. Pobre de mim!
Dia importante, nessa fase de ensaio e muito erro, foi o da questão que se colocou para sempre no epicentro das minhas frustrações:

- Utilizando dez consoantes e cinco vogais, quantos agrupamentos de quatro consoantes e duas vogais distintas podem ser formados?

Tremi, perplexo, sem saber como enfrentar o desafio. O Ramiro, lá na primeira fila, levantou-se rapidamente com o resultado:


- 1.512.000 agrupamentos.

A namorada do Ramiro

Não me contive:

- Então, professor, isso é necessário?

- Certamente, meu caro pitecantropo. Passaremos da análise combinatória ao binômio de Newton, que, de tão importante, é citado até nas poesias do Fernando Pessoa. Depois estudaremos o cálculo das probabilidades e a distribuição de Gauss. A qual há de ser sempre
campanular, você sabia? Sem a distribuição de Gauss não se enriquece o urânio, não se gera, não se transmite e não se distribui eletricidade, não se constroem as grandes estruturas, como o Maracanã, nem os canhões necessários à segurança nacional.

- Nem a ponte Rio-Niterói?


-Nem a ponte Rio-Niterói, ora se!


Voltei para casa cheio de desalento. Sem a distribuição de Gauss, não havia nenhuma salvação. Além disso, 1.512.000 agrupamentos!
Algumas semanas ainda insisti, impotente e desamparado, na luta desigual com integrais e polinômios. O desenlace entre mim e a engenharia, cada vez mais inevitável, consumou-se no dia 8 de junho de 1960, quando o Kakaze indagou pelo logaritmo, na base raiz de dois, do logaritmo de 81, na base raiz de três. Um pesadelo dentro do pesadelo. Enquanto o Ramiro dava, lá na frente, seu espetáculo de competência, escapuli sorrateiramente e, desatinado como um ícaro que percebe na queda a ruína das suas ambições impossíveis, abandonei a engenharia, em caráter irrevogável e irretratável.

- Não obstante a ponte Rio-Niterói?

- Não obstante a ponte Rio-Niterói.

Gênios

Cervantes escreveu o “Dom Quixote”, Rembrandt pintou a “Ronda Noturna”, e Einstein, mesmo assoberbado na seção de patentes de Berna, explicou o movimento browniano e o efeito fotoelétrico, entendeu a natureza dual da luz, a um só tempo partícula e onda, e formulou a desconcertante Teoria da Relatividade.

Ronda Noturna

Com certeza se dirá que foram gênios, e eu, óbvio que seja, muito modestamente acrescento: pessoas dotadas de extraordinária aptidão e avassaladora força de vontade.
Exatamente assim eu via o Ramiro, a quem estava reservado o privilégio das grandes edificações, incluindo, quem sabe, a ponte Rio-Niterói. Cervantes, Rembrandt e Einstein, lá atrás, gênios indisputáveis. Ramiro, cá na frente, na expectativa decorrente da minha experiência, era um gênio em plena e decidida elaboração.

Solidão
Eu, que não sou gênio por falta de talento e até mesmo por falta de vontade, estou sempre resolvendo problemas de palavras cruzadas. Não sei explicar por quê. Imagino que a atividade esteja relacionada com a solidão, tratando-se de empreendimento que não carece de parceiros, nem de testemunhas. Quando depôs sobre os anos de chumbo, Ernesto Geisel atribuiu ao general Costa e Silva o apego excessivo às palavras cruzadas. Posso imaginar o general, entre um e outro ato institucional, fazendo a invocação mística dos hindus com a luz que emana da ponta dos dedos e colocando o demônio tibetano no inferno dos malês, antes da noa, que salvo engano é a penúltima hora canônica.

- Indizível solidão...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

EPÍLOGO

AS DUAS FACES DE JANO

Estas notas ficariam incompletas se não mencionasse que a Western Exploration and Development, a WED, descobriu recentemente a prevaricação da turma de Sean Forthwhite e me enviou uma carta com um pedido de desculpas e uma proposta para que reassumisse o emprego, que recusei, depois de agradecer.
Ah, enviaram-me também um cheque de 261 mil reais, a quantia correspondente ao bônus de participação que eu lhes havia devolvido, acrescido agora de juros remuneratórios. Meu peito se aqueceu, pois me senti reabilitado, como se tivesse triunfado sobre aquela gente poderosa, que pode muito, mas não pode tudo.

A vida nos propõe um lado afetivo e outro profissional, sendo certo que um se resolve ajudando a resolver o outro, só que as decisões fundamentais começam a ser tomadas quando não temos a necessária maturidade, nem experiência. Ou seja, em regime de incerteza, pois a ninguém é dado aguardar a madureza para escolher sua profissão ou posicionar-se afetivamente.

- Disso decorre que algumas pessoas são bem sucedidas, outras nem tanto, o que introduz a necessidade de considerar uma variável adicional: a sorte.

Sorte foi o que não me faltou. Tive poucas experiências profissionais, mas acredito que me posicionei adequadamente, dedicando-me à atividade que mais se ajustou à minha personalidade, respeitando minhas deficiências e qualidades. No lado afetivo fui mais abundante de peripécias, com a ventura de ter conhecido mulheres maravilhosas, para as quais fui mero coadjuvante e das quais sempre serei inarredável admirador. Não seria o mesmo, nem seria tão feliz, se não as tivesse conhecido, a todas. O melhor é que, a seu tempo, em cada caso tudo se ajustou perfeitamente e, por ter me relacionado antes com elas, as quatro mulheres admiráveis, Cecília, May, Laura e Marisa, pude valorizar ainda mais a querida Melisande, que o destino mirabolante reservou para mim.


O deus Jano, aquele deus romano mencionado pela Hoyle, por seus dois rostos contrapostos pode contemplar lados contrários: passado e futuro, saídas e entradas, direita e esquerda, acima e abaixo, o bem e o mal. Há de saber se houve alguma omissão, ou defeito grave, no relato que acabo de construir sobre meu passado, sendo certo que eventuais imperfeições fariam pouca diferença no resultado final, cujo se reflete na serenidade com que rememoro o que acabo de relatar.

- Afinal, conforme li em Aristóteles, nem Deus consegue modificar o passado.

E o futuro, que pode Jano dizer do meu futuro? Pedro Nava considerava o futuro apenas como uma hipótese, uma mera e incontida expectativa da nossa experiência. O memorialista de Juiz de Fora deve estar com a razão, mas, na inexorável progressão, esse “futuro-hipótese” sempre nos chega, às vezes depressa, às vezes devagarinho, encompridando cada vez mais as nossas memórias. E enriquecendo-as. Hei de receber o que me tocar com tranquilidade, na esperança de que na hora dos desafios me sobrem paixão, para decidir, e serenidade, para reconhecer meus erros com tranquilidade.

- Paixão e serenidade, mais que isso não devo pedir.

sábado, 18 de junho de 2011

ENFIM, A VERDADEIRA BORBOLETA

O KURTIS, ORA O KURTIS!

Outro dia, Estênio Florão, conversando comigo sobre amenidades, pôs-se a elogiar o Kurtis, para ele uma pessoa de qualidades excepcionais. Àquela altura até eu tinha simpatia pelo cujo, que me legara suas cadeiras na economia.

- Quando deixou a universidade, o Kurtis mudou-se para a Inglaterra, levando consigo uma sobrinha.

- Uma egiptóloga?

- Acho que sim.

- Sobrinha? Era casado com ela?

- Não, claro que não. Casou-se com uma empresária, mas não cheguei a conhecê-la. A sobrinha, que também não conheci, aproveitou a mudança do tio para fazer um PhD em Cambridge. É tudo que sei.



Ora essa! May era sobrinha do Kurtis, não sua amante, e fora a Londres para estudar! Fazia mais sentido... Fosse o que fosse, isso já não tinha importância, pois havia muito May deixara de existir para mim, vulto, apenas vulto, perambulando esmaecidamente nas entranhas de um passado remoto e amarelado.

- O curioso é que duas ex-namoradas minhas estavam ambas na mesma universidade, em Londres.

Trafalgar Square

Pois tudo se confirmou, numa carta que recebi de Laura na semana passada. Isso mesmo, a Laura lembrou-se de mim! Parabenizava-me pelos meus cincos anos com Melisande e comunicava seu casamento com um professor de Cambridge, mas o que queria contar mesmo era que conhecera em Londres duas dezenas de brasileiros, muitos dos quais se reúnem uma vez por semana em algum bar da Trafalgar Square. Numas dessas reuniões, Laura foi apresentada a May, que também se casou com um professor de Cambridge, fez-se sua amiga e por seu intermédio chegou a conhecer Kurtis e sua mulher, que têm um filho de dez anos, o Nicholas. E esta era a empresária de modas Cecília Lafayette de Castro, não menos que minha ex-mulher!

- Kurtis está casado com a Cecília, ora, pois, pois!


Quando meu nome surgiu, Laura, May e Cecília se deram conta de que tinham namorado o mesmo cidadão do Leblon, o degas aqui, Carlinhos Auvergne, o ex-engenheiro que hoje dá aulas de física e de economia.


Cena

Uma cena que me tem vindo à mente, virtual, claro, é a do Kurtis, jantando num restaurante da Oxford Street com essas três mulheres da minha vida. Faltaria incluir a Marisa, mas esta evaporou...

Eu e elas

Espero que sejam muito felizes, pois há em cada uma um pedaço de mim e, em mim, a doce recordação dos momentos felizes que me proporcionaram.


Uma nova versão

Vou reunindo os fragmentos com o objetivo de obter uma versão da minha pessoa com menos dúvidas e lacunas.

- Quero me conhecer...


Sempre achei, pois bem, que Buenos Aires tinha sido determinante na minha vida. Bingo! Cecília e Kurtis se conheceram em Buenos Aires, durante o congresso de energia, agora não tenho disso nenhuma dúvida! O Nicholas completou dez anos, tendo nascido, portanto, pouco depois que dela me separei.

- Antes da separação, ela, mudando sua posição, insinuou que gostaria de ter um filho, que, sei agora, já estava a caminho, mas fabricado pelo Kurtis.

Posso acrescentar um último ponto, num exercício de especulação.
Tenho para mim, muito para mim, que há uma conexão da Cecília com o escândalo do motel, aquele negócio de “minha cachorrinha”... Cecília deve ter achado que seria desconfortável uma situação de proximidade comigo, o que ocorreria se eu continuasse com May, sobrinha do Kurtis, e armou a confusão. Sei não...

- O efeito-borboleta foi ela, exatamente ela!


Finalmente, justiça se lhe faça, terá havido um dedo seu, e decisivo, na indicação do meu nome, pelo Kurtis, para substituí-lo no departamento de economia. Pois ela sempre prepondera, não erra, nem deixa vestígios. Por que penso assim?

- Cecília e eu temos um pacto de lealdade e generosidade, desde um proveitoso estágio em Austin, capital do Texas, mais de quinze anos atrás.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

ESQUECIMENTO PROVIDENCIAL

PARA MELISANDE, COM AMOR

Outro dia, comemorando cinco anos de casamento, convidamos alguns amigos para uma pequena reunião. Éramos cerca de vinte pessoas, e alguém me pediu que contasse um fato curioso sobre algum cientista. Adquiri, não sem razão, a fama de professor que explica a ciência sem esquecer dos cientistas.

- Tudo bem, vou narrar-lhes um fato engraçado de Wolfgang Paoli.

Rutherford

Comecei relatando que há físicos, preconceituosos, que têm o hábito de desdenhar dos profissionais de outras áreas. O neozelandês Ernest Rutherford, pai da Física Nuclear, disse certa vez: “ciência é física. O resto, coleção de selos.” Só por ironia, Rutherford, que era um brilhante experimentador, ganhou o Prêmio Nobel de química, em 1908.

- Não o de física, mas o de química!

Wolfgang Pauli, o gênio que fez a façanha de descobrir a existência de uma partícula atômica chamada neutrino, com apenas fazendo continhas, pautava-se por sentimentos análogos aos de Rutherford em relação aos outros profissionais. Até nas suas desilusões amorosas. Ao saber que sua esposa, Käthe Margarethe Deppner, trocara-o por um químico, reagiu com as seguintes palavras:

- Se tivesse escolhido um toureiro, tudo bem. Mas, um químico... Não posso entender!

Pauli

Mas a festa era para comemorar meu casamento com Melisande, pela qual eu estava cada vez mais apaixonado. Não estávamos ali para tratar de temas destinados à sala de aula. Na emoção do momento, pensei então nos versos que fizera para May nos meus tempos de solidão e, no estalo, decidi recitá-los para Melisande. May não existia mais na minha vida, e os versos nunca mostrados seriam para a minha desde sempre Melisande. Mudou a mulher, pensei, mas os meus sentimentos são os mesmos.
Reuni os convidados e, com voz embargada, declamei-os fervorosamente, olhando fixamente para ela. Abraçou-me, emocionada, e todos me aplaudiram.

- A única poesia da minha vida, que fiz para comemorar nossos cinco anos de casamento.

Irene não se conteve e exclamou:

- Vocês merecem toda a felicidade do mundo!


Foi então que me lembrei do jantar no Humphrey’s, aquele que ensejou a ventura do meu primeiro encontro com Melisande.

- Irene, minha querida amiga, já que Melisande e eu estamos comemorando cinco anos de um feliz casamento, aproveito o ensejo, neste momento para mim solene, para agradecer-lhe por ter idealizado nosso primeiro encontro, iniciativa nota dez, tanto em planejamento quanto em execução.

- Mas eu não idealizei...

- Não idealizou, como?

- Amigo, permita que confesse a verdade, neste momento para mim igualmente solene. Não premeditei seu encontro com Melisande. Quando me lembrei do compromisso, trinta minutos antes da hora marcada, estava assistindo a um concerto do Rostropovich, no Quitandinha, a 80 quilômetros do restaurante. O recurso foi telefonar para Melisande, que, gentil, compareceu em meu lugar, e estou feliz, muito feliz mesmo, que o evento tenha tido consequência importante na felicidade de vocês. O problema que me impediu de comparecer foi portanto o esquecimento, uma falta grave, gravíssima, que nunca tive coragem de lhe confessar.

Esquecimento providencial...

- Chamo seu esquecimento de “efeito-borboleta”, dos maravilhosos e definitivos. É por isso que sempre digo...

- O quê?

- Já reparei que, quanto mais me esforço, mais sou ajudado pela sorte.