sábado, 21 de maio de 2011

GIORDANO BRUNO (II)

MÁRTIR GENUÍNO DA CIÊNCIA

A ambição de Giordano Bruno era construir um embasamento filosófico que se coadunasse com as grandes descobertas científicas de seu tempo. Por sua intuição extraordinária, estava séculos adiante de seu tempo e é considerado um pioneiro da filosofia moderna, tendo influenciado Descartes, Espinosa e Leibniz.
Para ele, as ideias de Aristóteles deveriam ser abandonadas sempre que fossem incompatíveis com a realidade observada.
Aos que estranhavam suas opiniões discordantes, perguntava:

- Quais são os fundamentos da certeza?


Quando o advertiam da incompatibilidade de suas ideias com o que se preconizava nas Escrituras, Giordano Bruno respondia que os textos religiosos não eram referências infalíveis ou obrigatórias, tanto que neles se omitiam completamente as Américas e seus povos, cuja existência dizia ser incompatível com o relato bíblico da Arca de Noé.

- A Biblia deve ser observada por seus ensinamentos religiosos, não por suas declarações sobre Astronomia.


Com pensamentos assim ousados, Giordano Bruno iria pagar um preço elevado, sobretudo porque, excelente orador, tinha capacidade para atrair e convencer multidões. Regressou à Itália para instalar-se em Veneza, convidado por um nobre chamado Giovanni Moncenigo, sem perceber que se tratava de uma armadilha. Foi preso e encarcerado pelo Santo Ofício, permanecendo sete anos sob tortura e humilhação, até ser levado a julgamento perante o Tribunal da Inquisição.
Em sua defesa, apelou para sua condição de filósofo, tal como Aristóteles e Platão, cujas ideias nem sempre coincidiam com o que se continha nos textos sagrados. O cardeal Roberto Bellarmino, consultor do Santo Ofício, propôs-lhe que se retratasse de suas ideias, para, desse modo, escapar da condenação. Bruno respondeu:


- Não tenho motivos para retratar-me.

Clemente VIII

O papa Clemente VIII não se conteve diante dessas palavras e determinou que as autoridades seculares cuidassem do seu caso, tratando-o de "forma tão misericordiosa quanto possível, evitando derramamento de sangue." Uma senha cheia de eufemismo, perversa e irônica, que significava morte na fogueira.
Alguns dias antes da execução, Giordano Bruno teria dito a seus carrascos:


- Essa sentença, pronunciada em nome do Deus da misericórdia, assusta mais a vocês do que a mim!


Queimado vivo, aos 52 anos de idade, em Roma, no Campo das Flores, no ano de 1600, com a boca amordaçada para que não pudesse dirigir-se à multidão, Giordano Bruno imolou-se em nome do livre-pensamento. Morreu sem olhar o crucifixo colocado à sua frente para infligir-lhe uma derradeira humilhação.

- Com ele, a filosofia começaria a libertar-se da religião, favorecendo o nascimento da ciência moderna.

Certa vez Maria Hoyle e eu trocamos impressões sobre as ideias, a importância, a motivação, a coragem e a dignidade de Giordano Bruno, que aceitou o sacrifício em nome da verdade. Um homem que ela gostaria de ter abraçado. Na solidão do seu gabinete, decidimos fazer um minuto de silêncio em sua homenagem, um ato de contrição e respeito, atrasado de 400 anos.


- Giordano Bruno, mártir genuíno da ciência.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

GIORDANO BRUNO (I)

RELIGIÃO E CIÊNCIA

Maria Hoyle aprovava minha iniciativa de mostrar aos alunos o lado humano dos físicos. Ela própria me deu informações sobre Empédocles, Hipácia, Madame Curie, Lavoisier... Assim estimulado, passei a comentar cada vez mais sobre fatos da vida dos cientistas, mostrando nas aulas seu sofrimento, idiossincrasias e excentricidades. Animava-me também a aceitação positiva por parte dos alunos.
Até que um dia cheguei a Giordano Bruno, o filósofo que se opôs à opressão da ciência pela religião. Uma história emocionante, que começou no século XIII, quando os intelectuais religiosos Tomás de Aquino e Alberto Magno fizeram uma combinação do aristotelismo com o cristianismo, a que se costuma chamar de "escolástica", formulando uma visão do mundo que deveria ser aceita por imposição da Igreja Católica. Aquela coisa de Terra imóvel, no centro do Universo, todos os astros girando à sua volta, com órbitas circulares e velocidades constantes.


- Pois Deus, perfeito, não admitiria senão órbitas perfeitas, como o círculo, e movimentos perfeitos, de velocidades constantes.

Roger Bacon


A primeira voz discordante foi a do franciscano Roger Bacon, de Oxford, que chegou a escrever:

- Se dependesse de mim, queimaria todos os livros de Aristóteles, cuja leitura é pura perda de tempo e só nos leva ao erro e à ignorância.

Roger Bacon descrevia o método científico como um ciclo repetido de observação, hipótese, experimentação e necessidade de verificação independente, acreditando que a ciência, construída mediante leis matemáticas, poderia resolver muitos problemas do homem, que, no futuro, seria capaz de deslocar-se em carros motorizados e, quem sabe, até voasse. Seus argumentos contra as ideias de Aristóteles foram reunidos nos livros Opus Majus, Opus Minor e Opus Tertium, que ingenuamente enviou ao papa Nicolau IV, belamente encadernados. Em vez de elogiado, Roger Bacon foi acusado de fabricar "novidades perigosas" e condenado a quatorze anos de prisão.

Giordano Bruno


Sorte ainda pior estava reservada para Giordano Bruno, um intelectual italiano que nasceu em Nola, no sul da Itália, e estudou no Convento Domicano de Nápoles, ordenando-se padre em 1572. Bruno sofreu influência das ideias de Lucrécio, que defendia o atomismo, contra os quatro elementos, de Empédocles, tanto quanto das ideias de Nicolau de Cusa, que, como Roger Bacon, se opunha ao sistema geocêntrico e defendia a prevalência dos cálculos matemáticos para descrição das verdades científicas.

Bruno perambulou pela França, Inglaterra, Suíça, Alemanha e Tchecoeslováquia, dando aulas de filosofia e tudo contestando, o que sempre acarretava reações exacerbadas que o obrigavam a fugir em busca de novos abrigos. Um dos primeiros copernicanos da Itália, Giordano rejeitou a teoria geocêntrica e pelas suas ideias avançadas colocou-se à frente de Copérnico, que, ao tirar a Terra do centro do Universo, continuou, não obstante, a admitir que o Universo era limitado por uma esfera de estrelas fixas, como preconizado vinte séculos antes por Aristóteles. Nas concepções de Giordano, o Universo seria infinito e povoado por milhares de sistemas solares, integrados por planetas, muitos dos quais com vida inteligente.

- Deus e o Universo são uma única e mesma coisa. Tudo é Deus, e Deus está em todas as coisas.

Na Inglaterra, Giordano Bruno foi apresentado por John Florio a Shakespeare, que teria aludido às suas ideias no Hamlet, Cena II do Segundo Ato, quando o príncipe da Dinamarca exclama:

- Oh, Deus! Eu poderia estar encerrado numa casca de noz e, ainda assim, considerar-me rei do espaço infinito, se a mim não me coubesse ter tantos pesadelos.

sábado, 14 de maio de 2011

OU ISTO OU AQUILO

NO REINO DAS PERPLEXIDADES

Nosso assunto, meu e de Maria Hoyle, era mecânica quântica, um ramo da física que gera dúvidas e suscita grandes polêmicas em termos de interpretação e entendimento, mas nunca em termos de resultados, que são sempre precisos e inquestionáveis. O maior expoente nesse campo do conhecimento, o físico dinamarquês Niels Bohr, foi autor de um enunciado que se tornou célebre, mais ou menos na linha do que se segue:

- Qualquer um que não se choque com a Mecânica Quântica é porque não conseguiu entendê-la.

Bohr

Nossa lógica, a da realidade das coisas que são percebidas e a da necessidade de uma causa para explicar os fenômenos (tudo a ver com Aristóteles), não funciona no mundo das partículas subatômicas, exatamente onde prevalecem o muito pequeno e o muito veloz.

- Vejo um carro andando à velocidade de 60 quilômetros por hora como tal porque é relativamente grande e relativamente lento.


Mas a lógica do realismo e da causalidade soçobra quando se trata de partículas subatômicas, que são diminutas e se deslocam a velocidades anormalmente elevadas. Por exemplo, a luz é formada por fótons, que são partículas sem massa, mas com energia, emitidas pelos elétrons. Mas, serão mesmo partículas? Lembre-se que o ambiente agora é o subatômico...

- Sim, disse Isaac Newton, são partículas, como grãos de areia, tanto que a luz ultravioleta, de alta energia, incidindo sobre um metal, desloca elétrons e produz o efeito fotoelétrico. Só uma partícula desloca outra partícula, como uma bola de bilhar chocando-se contra outra.

- Não!, retrucou Huyghens, a luz é uma onda, ou seja, uma linha sinuosa, como se fosse uma cobra, indo para cima e para baixo, configurando o que os matemáticos chamam de senoide. Pois, argumentava Huyghens, um raio de luz incidindo sobre um anteparo com dupla fenda (duas fendas próximas) passa pelas duas fendas, tanto que o observador vê um padrão senoidal de incidência da luz numa tela receptora, colocada para além do anteparo. Só uma linha poderia realizar essa façanha, a de passar ao mesmo tempo em dois lugares diferentes.

Newton e Huyghens

Quem estava com a razão, já que uma cobra nada tem a ver com um grão de areia? Isso mesmo, quem estava com a razão, Newton ou Huyghens?

- Ambos!, gritou Einstein, num dos seus célebres artigos de 1905. Pois a luz ora é partícula, ora onda.


- Como?

- Quem define se a luz é onda ou partícula é o observador. Na experiência do efeito fotoelétrico, o observador, com seu aparato, está preparado para ver partícula; desse modo verá a luz comportando-se como partícula. Na experiência da dupla fenda, o aparato é para ver a luz como onda. Não dá outra: a luz é vista funcionando como onda.


As surpresas não terminam nesse ponto. A tese de doutorado de Louis de Broglie, apresentada na França em 1924, tornou-se a mais famosa de todos os tempos, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento da mecânica quântica, ao postular que toda a matéria, e não apenas a luz, tem um comportamento dual onda-partícula.

- Prótons, elétrons, nêutrons, mésons, tudo, absolutamente tudo, ora é partícula, ora é onda.


Como se a natureza, nos seus fundamentos, tivesse dois modelos (quem sabe não tenha mais de dois!?), dos quais apenas um se apresenta ao observador. Quando átomos e moléculas se reúnem para formar os corpos, com as velocidades civilizadas com as quais estes se nos apresentam, aí então tudo se torna um modelo só, a partir do qual construímos nossa lógica.


- E tem mais, acrescentou Niels Bohr, quem vê partícula, não vê onda; quem vê onda, não vê partícula. A ninguém é dado ver uma coisa e outra ao mesmo tempo.

Alguns físicos dizem jocosamente que há duas histórias, correndo paralelamente, das quais somente uma é percebida. Outros, no exagero, desconfiam de que são muitas histórias simultâneas, não apenas duas. Numa delas nasci com o talento de Mozart e, em outra, joguei futebol como Pelé.

- Numa de minhas vidas, o degas aqui acertou na sena acumulada, não tenho disso nenhuma dúvida!


Cecília Meireles

A afimação de que partícula e onda se excluem reciprocamente à percepção do observador configura o famoso Princípio da Complementaridade, da mecânica quântica. Uma coisa ou outra, nunca as duas. Neste ponto posso adicionar à física meu modesto conhecimento de poesia, que esta, quem sabe, também faz parte da mecânica quântica. Pois esse Princípio da Complementaridade, de Niels Bohr, poderia tranquilamente chamar-se de Princípio de Cecília Meireles, que não precisou de nenhum experimento fotoelétrico, nem de dupla fenda alguma, para estabelecer o que sempre há de prevalecer:

- Ou isto ou aquilo!

quarta-feira, 11 de maio de 2011

AS DUAS FACES DE JANO

O BEM E O MAL

Fui designado assistente de Maria Hoyle, titular da cadeira de mecânica quântica, e me tornei seu sucessor quando se aposentou, vinte meses depois. Uma perda muito grande para o nosso departamento, ela que no século passado havia conquistado um PhD de física pela Colgate University, de Hamilton, e se tornou assistente de Shimon Malin, autor de a “A Natureza Ama Esconder-se”, livro que associa os pensamentos de Platão aos fundamentos da mecânica quântica.


A esse respeito, Maria Hoyle costumava me dizer:

- Está tudo no Timeu, que é o relato de Platão sobre a criação e estrutura do Universo.

Mantinha, atrás de si, um quadro com um texto do “Discurso Sobre o Método’, tão grande era sua admiração por René Descartes:


“Não me cabe, de fato, aceitar como verdadeira nenhuma coisa que eu não conheça evidentemente como tal; devo dividir cada uma das dificuldades em tantas partes quanto possível e necessário para resolvê-las; hei de conduzir os meus pensamentos de forma organizada, começando pelos objetos mais simples, segundo uma ordem de precedência de uns em relação aos outros; ao final, encerrarei cada estudo ou pesquisa com enumerações completas e revisões gerais, para ter certeza de que nada foi omitido. Enfim, como máxima fundamental, hei de procurar sempre vencer antes a mim do que à fortuna, modificar antes os meus desejos do que a ordem do mundo.”


Entre 1629 e 1649 Descartes viveu na Holanda, ao abrigo das perseguições religiosas, pautando-se pelo lema de Ovídio: “vive bem quem vive escondido”. Temia demonstrar que apoiava o sistema heliocêntrico, temeroso de um castigo semelhante ao que foi aplicado a Galileu. Quando lhe perguntavam sobre sua opinião, Descartes respondia de maneira ambígua:

- A Terra decerto não se move, mas é movida.

Não foi molestado e morreu de pneumonia, quando tinha cinquenta e quatro anos. Fora contratado para dar aulas para a rainha Cristina, da Suécia, que tinha o hábito de ouvir suas lições às cinco horas da manhã. Acabou sucumbindo às baixas temperaturas das madrugadas de Estocolmo.
À parte sua importância na minha formação, primeiro na condição de aluno, depois como seu assistente, Hoyle foi para mim um paradigma de cientista responsável, preocupada com a formação dos seus alunos e com evitar o uso inadequado da ciência.

- Pois, queira ou não, nós, profissionais de física, somos todos cientistas.

Dizia que o deus Jano, com suas duas faces voltadas para lados opostos, o passado e o futuro, pode ser invocado para simbolizar que a ciência tem sido utilizada tanto para o bem quanto para o mal. Uma das faces de Jano terá visto, antes, o químico alemão Fritz Haber, um expoente do século XX, como um paladino da humanidade, por ter criado em 1909 um processo de produção de amônia para fertilizantes, sem o qual não haveria alimentos suficientes para as necessidades do mundo. Não fosse pelos fertilizantes nitrogenados, a população mundial não teria alcançado senão cinquenta por cento dos seus níveis atuais, por falta de alimentos.

- Por esta razão, Haber ganhou merecidamente o Prêmio Nobel de Química, em 1918.

Fritz Haber

A outra face de Jano pôde contemplar depois, do lado oposto, que o mesmo Fritz Haber inaugurou a guerra química, usando gás cloro contra os inimigos, o que foi feito pela primeira vez na Batalha de Ypres, na Bélgica, em 22 de abril de 1915, ele próprio a conduzir as operações, a serviço dos alemães.

- Era o início de uma crônica de extermínio que, só na Primeira Guerra Mundial, registra a morte de mais de cem mil soldados, explicava Maria Doyle. Sua mulher, Clara Haber, que também era cientista, suicidou-se com um tiro no peito, em protesto contra a atuação do marido no front da guerra química.

Clara Haber

Os fertilizantes, que ajudam a vida, e a guerra química, que serve à morte, nasceram, pois, pelas mãos do mesmo cientista. Antes, o Prêmio Nobel e depois, o remorso de ter provocado tanta dor e o suicídio da mulher querida. As duas faces de Jano. Em 1927, em carta a um amigo, Fritz Haber fez a seguinte confissão:

- Estou lutando, cada vez mais depauperado, contra meus quatro inimigos: a insônia, as reivindicações financeiras da minha segunda esposa, Charlotte Nathan, minha preocupação com o futuro e a sensação de haver cometido graves erros em minha vida.

sábado, 30 de abril de 2011

MARISA E OS POETAS

A grande dor das coisas que passaram


Marisa era realmente bonita.


- Você é especialista em paradoxos, hein?

- Eu poderia ter comentado alguma coisa sobre Zenão de Eleia, o paradoxo das noites escuras, o paradoxo hidrostático e o paradoxo de Fermi.

- De fato?


- Na hora nada disso me ocorreu, esse o preço do improviso.


Também gostava de Bandeira, Fernando Pessoa, Adélia Prado e Cecília Meireles. Fora certa vez a Itabira, só para pisar na terra de Drummond, e pretendia viajar a Divinópolis, para conhecer Adélia Prado.

-Então você gosta de poesia muito mais do que eu. Você é ligada à literatura?

-Profissionalmente, não. Sou formada em contabilidade.


Adélia Prado

Na continuação do diálogo, fiquei sabendo que precisava estudar sobre matemática financeira, pois os alemães a queriam no departamento de projetos. Respondi que podia ajudar. Impossível não se encantar com uma mulher assim bonita, alegre, cativante. Foi desse modo que tudo começou entre nós.

- Por sorteio, disse-me algumas vezes.

Ligou-me logo na manhã seguinte, e passamos a estudar no seu apartamento de Ipanema, duas horas em três dias da semana. May era uma intelectual fulgurante, e Laura, não menos intelectual, era contida e recatada. Tinham, em comum, o bom hábito de frequentar teatros e de ler livros complicados. Diferentemente delas, Marisa não era intelectual na acepção do termo, embora gostasse exageradamente de poesia.
Foi um namoro divertido, que misturava cálculos financeiros e leitura de versos da Divina Comédia, Pessoa, João Cabral, Lorca, Rimbaud, Paul Valéry. Isto, sim, é que era um paradoxo, dois profissionais da área técnica a invocarem versos dos poetas nos melhores momentos de seu quotidiano.

Manoel de Barros

Reciprocávamos nossos conhecimentos sobre poesia. Certa vez, molhados da garoa que nos surpreendeu numa caminhada pelo Jardim de Alá, lembro-me de ter-lhe dito um verso de Manoel de Barros:

- Você é uma dona que me orvalha sanguemente.


Respondeu-me, para meu espanto, com outro verso de Manoel de Barros:


- Você enverda jia nas auroras e magnifica moscas!

Não conhecia Dante Milano, o poeta escondido, nem Carlos Pena Júnior, o jovem dos bares de Recife. Mas foi ela quem me mostrou a poesia “Serenata”, do peruano Manuel Scorza:


Scorza

Ibamos a vivir toda la vida juntos.
Ibamos a morir toda la muerte juntos.

Adiós.

No sé si sabes lo que quiere decir adiós.
Adiós quiere decir ya no mirarse nunca,
vivir entre otras gentes, reírse de otras cosas, morirse de otras penas.
Adiós es separarse, entendes?, separarse,
olvidando, como traje inútil, la juventud.
Ibamos a hacer tantas cosas juntos!

Ahora tenemos otras citas.

Estrellas diferentes nos alumbran en noches diferentes.

La lluvia que te moja me deja seco a mí.

Está bien: adiós.

Contra el viento el poeta nada puede.
A la hora en que parten los adioses,
el poeta sólo puede pedirle a las golondrinas que vuelen sin cesar sobre tu sueño.

Scorza, que morreu em 1983 em um acidente aéreo, em Madri, eu o sabia como autor de romances, como “Bom Dia para os Defuntos”, e me surpreendi ao conhecer esse seu admirável lado poético. Vi-me representado na poesia, pois sempre supus, em relação às mulheres que conheci, que “íbamos a vivir toda la vida juntos, íbamos a morir toda la muerte juntos”, mas tudo acabou no “adiós”, e não pude mirá-las nunca mais.
Um dia Marisa encantou-se com "Calligrammes", de Apollinaire, um livro raro que eu havia comprado em Paris, numa das minhas viagens com Cecília.

- Para você, disse eu, estendendo-lhe o livro.

- Carlinhos, eu te amo.

Marisa também gostava de ressaltar que Rubem Braga era da opinião de que um dos mais belos versos da língua portuguesa fora escrito por Camões com usar apenas sete palavras corriqueiras do idioma, “a grande dor das coisas que passaram”.

Cora Coralina

Lembro-me de ter dito que gostava muito de um verso de Drummond, “o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana”, que diz tudo com palavras igualmente banais.

- Temos agora a opinião do Rubem Braga e a minha. Falta a sua, Marisa.

- Fico com o verso de Cora Coralina em que o milho se autodefine: “sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece”.


(1) A grande dor das coisas que passaram.

(2)
O hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana.

(3)
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.

Rubem Braga tem toda a prioridade, claro.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

SALVO PELO MANUEL BANDEIRA

MARISA

A festa ia ganhando em febrilidade. Valentina Ruas
imitou Elisete Cardoso, e um rapaz de nome Paquito cantou “Toreador, en garde”, da Carmem, de Bizet.

Até que houve o sorteio de Marisa, chamada a explicar a diferença entre “contradição” e "paradoxo". Parecia preparada, restando-me a impressão de que a brincadeira não era tão improvisada como anunciado. "Contradição", disse com desembaraço, é um conflito entre duas ou mais informações, não interessa de onde partam. O conceito é óbvio, e não me cabe constrangê-los com exemplos do tipo: "se alguém disse que viu Jonas ontem em Copacabana, entra em contradição com a informação de que o referido só regressará da Etiópia na semana que vem."

- No paradoxo, prosseguiu, o que há é a concorrência, num dado evento, de duas condições incompatíveis do ponto de vista lógico: é um paradoxo fabricar veículos cada vez mais rápidos para utilizar no trânsito cada vez mais congestionado, como também é um paradoxo querer morar no Complexo do Alemão para fugir dos traficantes de drogas.

- Ou escolher a profissão de professor para enriquecer, observou Karl P., fazendo uma divertida mesura na minha direção.

Marisa recebeu muitos aplausos e manifestações que aprovavam seu desempenho. Era muito bonita, e isso também ajudava.

Eu também?

Por não conhecer ninguém, salvo meu influente parceiro da praia, não me supunha registrado na burocracia da festa. Daí minha surpresa quando também fui sorteado.

- Sua tarefa é ocupar o microfone por cinco minutos, disse-me Karl P.

Não tive como me esquivar da incumbência, assim inesperada, e quase fui vencido pela perplexidade. Estava nervoso e hesitante, principalmente porque a festa era de elevado nível intelectual, e os sorteados que me precederam haviam se saído muito bem. Salvou-me naquele momento a ideia, que felizmente me ocorreu, de recitar "Desencanto", de Manuel Bandeira:


"Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre."

Fui aplaudido mais do que merecia, por mera gentileza, embora seja justo observar que me safara com aceitável dignidade. Não poderia mais dizer que a poesia nunca me servira ou que tenha me faltado, quando dela necessitei.

Contradição e paradoxo

No encerramento da festa, houve distribuição de prêmios, e os que haviam sido sorteados recebemos das mãos de Karl P. um litro de uísque da sua coleção de doze anos. Foi naquele momento que conversei com Marisa pela primeira vez .

sábado, 23 de abril de 2011

Cora Coralina

ORAÇÃO DO MILHO

-Sou o milho.


(Fui o angu pesado e constante do escravo na escuridão do eito.)
...

Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.
Sou a farinha econômica do proletário.

Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha.

Alimento dos porcos e do triste mu de carga.

O que me planta não levanta comércio, nem avantaja dinheiro.

Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.

Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.

Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal, agradecida a Vós, Senhor, que me fizestes necessário e humilde.
Sou o milho.


Milharal


As bandeiras altaneiras

vão-se abrindo em formação.
Pendões ao vento.
Extravasão da libido vegetal.
Procissão fálica, pagã.
Um sentido genésico domina o milharal.
Flor masculina erótica, libidinosa,
polinizando, fecundando
a florada adolescente das bonecas.
...
(Bonecas verdes, vestidas de noiva, afrodisíacas, nupciais...)



Cora Coralina (1889-1985)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Adélia Prado

Amor Feinho



Eu quero amor feinho.

Amor feinho não olha um pro outro.

Uma vez encontrado é igual fé, não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.

Planta beijo de três cores ao redor da casa e saudade roxa e branca, da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.

Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem e você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:

- Eu quero amor feinho.



Adélia Prado (13 de dezembro de 1935)

sábado, 16 de abril de 2011

DE VOLTA A UMA VIDA NORMAL

UMA FESTA DE ALEMÃES

Fazer um doutorado de física e dar aulas de economia pode parecer muita carga, e é, mas os departamentos, de física e de economia, foram muito flexíveis comigo, de modo que pude cumprir razoavelmente todos os compromissos. Saía pouco e, mais, fiquei o tempo todo sem namorada.
O lado afetivo não se resolve unilateralmente, como no caso do profissional, onde em tese você decide tudo sozinho. A realização afetiva exige completude recíproca, um pré-requesito que multiplica as dificuldades a serem vencidas, por envolver um cotejo de duas personalidades, cada uma com seus recursos de adaptação, que, na hora de construir uma parceria, podem se somar ou se opor.


Em outras palavras, eu teria de encontrar alguém que se harmonizasse comigo, de meia-completude compatível, que, somando-se à minha própria meia-completude, se completasse comigo. Complicado?

- Sem dúvida, embora, apenas, o óbvio racionalizado.

E Laura? Certa vez, cheguei a pensar em visitá-la em Londres, mas acabei desistindo, por achar que deveria ser dela a iniciativa de sugerir que a visitasse. Seja como for, aos poucos deixamos de nos comunicar, o que era um modo tácito, e recíproco, de dar a perceber que uma retomada do nosso namoro já não nos servia, nem nos interessava.

- Fomos vencidos pela distância, cada qual dando prioridade à sua carreira.

Minha vida amorosa era, pois, um dos meus assuntos não resolvidos.
Quando terminei o curso de física, com diploma de doutor, recebi convite do Departamento de Física para ser professor assistente, subordinado a Maria Hoyle. Chegara onde queria, após cumprir meu doutorado com notas excelentes, para além do fato de que granjeara no Departamento de Economia o prestígio de ser um bom professor. Os cursos que lá ministrava corriam sem dificuldade, mais ou menos no automático, exigindo de mim pouco mais do que ministrar as aulas, por serem assuntos do meu domínio, sem demandar grande esforço de planejamento ou de preparação.

- Valia-me a experiência da WED.


Podia agora levar uma vida normal, com horas de lazer suficientes. Até que houve uma festa na Gávea, à qual compareci a convite de Karl P, diretor da GDE, meu conhecido do vôlei de Ipanema. Os alemães costumavam reunir gente alegre e bonita, naquele salão imenso. Muita febrilidade. De repente, os convidados passaram a ser sorteados para a brincadeira de cumprir tarefas, quando todos se divertiam com o desconcerto e o improviso de cada um.


O primeiro sorteio indicou um careca barbudo e muito engraçado, todo vestido de preto, que depois fiquei sabendo ser o chefe dos matemáticos da GDE. Sua tarefa era contar uma história maluca, que lhe viesse à cabeça naquele instante. O cujo não se constrangeu, improvisando uma história que não fazia nenhum sentido:

Quando tocou a vez do quinto postulado, declarei que por um ponto do plano, fora de uma reta, pode-se traçar uma paralela a essa reta, e somente uma.

- Como assim, Romualdo?, estranhou Henry Power, Junior, dirigindo-se a mim de forma pouco delicada. Por um ponto exterior a uma reta, não podemos traçar nenhuma paralela a esta reta, na geometria de Riemann, ou podemos traçar uma infinidade de paralelas a essa reta, na geometria de Lobachevski.

Você também acha que o aluno errou?

Depois, a questão foi sobre os afluentes do Solimões. Mencionei o Javari, o Jutaí, o Juruá, o Purus e o Japurá. Mais não sabia.

- Você se esqueceu do Içá, disse-me o Power, Junior.


Foi então que pensei: estou num filme do Godard ou num enredo do Jorge Luís Borges, quem sabe num safári com a Elsa Martinelli, e não num exame vestibular. Além disso, nada sei sobre o teorema de Green, e esse cara vai me empurrar o que não quero comprar, ao perceber que sou um otário, desuniformizado, mas de carteirinha. Se aqui permaneço, ele me perguntará sobre o esternoclidomastoídeo.
Por isso, fui me levantando, meio sem graça, com a intenção de escafeder-me porta afora.

- What are you doing?

- Preciso me recolher ao futuro, Junior.”


Elza Martinelli

O careca foi aplaudido com entusiamo e ainda ensaiou uns passos de dança, antes de colocar na cabeça uma peruca vermelha, que sacou do bolso do paletó. Divertia-me com tudo aquilo, desacostumado que estava com as reuniões sociais e seus torneios.

- O que eu não não podia supor é que a festa seria muito importante na minha história.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

QUEM SABE ESTAVA SONHANDO?

O Kurtis, ora, o Kurtis!

De Sitter veio à minha sala, numa manhã de segunda-feira.

- Acho que tenho uma novidade boa para você. O Departamento de Economia quer que você dê aulas sobre decisões em regime de incerteza e sobre gerência de contratos, durante este semestre.

Em regime de incerteza

- Como? Decisões em regime de incerteza?

- E contratos empresariais, mas não se assuste. O professor Kurtis pediu demissão no ano passado, e o Departamento de Economia encontra-se numa emergência, pois não encontrou nenhum substituto no mercado.

- Kurtis? Eram cadeiras do Kurtis? Nem imagino por que fui lembrado...

- Porque tem experiência em decisões em regime de incerteza e em negociações contratuais.

- Como assim? Como me descobriram?

- Não há outros nomes além do seu, pois esse assunto é muito recente no país. O Kurtis assistiu a uma palestra que você deu em Buenos Aires e indicou-o para substituto, além do fato de sua aula de candidato ter sido considerada excepcional pelos professores da banca.

- Aceita, cara...

Em estado de perplexidade, não sabia como reagir, nem o que responder.

- Bem... É que...

- Você será muito bem remunerado.

- Não estava pensando nessa questão, mas na responsabilidade de que estarei investido. Embora razoável conhecedor do assunto, isto é, da parte operacional, falta-me experiência para assumir um compromisso dessa envergadura e magnitude.

- Você tem talento para a missão. Quanto à experiência, não se preocupe, pois ela virá com a prática. Faça como D´Alembert, vá em frente que a fé virá depois.

- Nesse caso...
Negociações contratuais

- Suas aulas terão início dentro de duas semanas. Previno-o, porém, de que não será fácil acumular o doutorado de física com essa carga adicional de trabalho.

No Departamento de Economia, o professor-chefe Estênio Florão tornou a proposta ainda mais abrangente. Se eu fosse bem avaliado naquele primeiro semestre, poderia ser efetivado como professor titular, já no semestre seguinte.

- Sabemos da sua competência nesse assunto, pelos textos que você produziu sobre os métodos de Bailey e de Lenzi, computação contínua de juros, declínios hiperbólicos e raízes perdidas de Descartes. Que nos foram trazidos por um economista da WED, que fez um mestrado conosco. Além disso, veio a recomendação do Kurtis, e os professores da banca de física gostaram da sua aula. Decidimos apostar em você...

- Está claro que não terei de abandonar o curso de física...

- Claríssimo.
- O Kurtis te pagou com a cadeira de economia...

Voltei a casa ainda perplexo, consultando-me dos pés à cabeça para ter certeza de que não estava sonhando. Dar aulas remuneradas na Economia e desenvolver minhas idéias sobre incorporação de financiamentos, avaliação dos projetos de investimento com base no perfil de lucro e orientação das decisões tomadas em regime de incerteza. Ah, a estratégia da competência negocial... Sem abandonar a física, isso mesmo, sem abandonar a física. Era encarar a nova situação com naturalidade, pois, inesperada embora, não passava de uma etapa, facilitadora, do caminho que escolhera para mim.

Kurtis

- O Kurtis, essa estranha entidade que eu desconhecia completamente, ficou com minha namorada e me legou suas disciplinas. Isso é que é dança de cadeiras! O Kurtis, ora, o Kurtis!