A IDADE DOS FÍSICOS
Não obstante o entusiasmo pela minha nova carreira, incomodava-me o fato de ser bem mais velho que meus colegas. Quem sabe já tivesse passado do ponto? Decidi certa vez pesquisar sobre a idade produtiva de Newton, Einstein, Maxwell, Bohr, Heisenberg e Gödel, alguns dos fundadores da ciência moderna.
- O resultado foi constatar a precocidade dos iluminados da ciência.
Os principais trabalhos de Isaac Newton foram concluídos antes dos 25 anos, uma boa parte no tempo em que ficou isolado em Woolsthorpe, uma vila rural, ao abrigo da peste que assolou a Inglaterra em 1665 e obrigou ao fechamento da Universidade de Cambridge. Não sem razão, 1665 é chamado de o "anus miraculous" de Newton.
- A peste grassando, avassaladora, e Newton, numa boa, navegando no seu "anus miraculous" e formulando a Lei da Gravitação Universal : tudo se passa como se matéria atraísse matéria, na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias.
Albert Einstein apresentou em 1905, o "anus miraculous" que lhe coube, as teorias sobre a natureza dual da luz, sobre o efeito fotoelétrico, sobre o movimento browniano e sobre a relatividade especial. Tinha então 26 anos. Mesmo tendo de exercer um trabalho burocrático, o de examinar uma e outra proposta na seção de patentes da Suíça, Einstein reformulou as noções de espaço e tempo e pautou uma nova era para a ciência. James Clerk Maxwell, cujas equações uniram a eletricidade ao magnetismo e à ótica, foi considerado gênio aos 24 anos; Werner Heisenberg estabeleceu o princípio da incerteza com 26 anos; Niels Bohr ganhou a medalha de ouro da Academia de Ciências da Dinamarca aos 22 anos, por seus trabalhos sobre tensão superficial da água, muito antes de enunciar o princípio da complementaridade; Kurt Gödel abalou os alicerces da matemática quando tinha apenas 25 anos, provando que há verdades matemáticas que não podem ser demonstradas e, de outro lado, que na matemática não é possível garantir a consistência de um conjunto de postulados escolhidos arbitrariamente.
- Todos jovens, mal saídos da adolescência.
Constatei, porém, uma primeira e gloriosa exceção, ao examinar o caso de Erwin Schrödinger, descobridor de que o comportamento do elétron pode ser explicado por uma equação de onda, que o situa em diferentes posições no espaço. Ao mesmo tempo! O elétron, ou qualquer outra partícula quântica, é percebido não como um “ponto material” dotado de uma posição definida em cada instante, mas como uma entidade matemática chamada “função de onda”. Muito complicado e, não obstante, essa equação é uma das grandes vitórias da inteligência humana. Pois bem, Schrödinger formulou essa teoria em 1926, quando tinha 39 anos, e esse fato podia ser um argumento a meu favor, que só seria físico aos 33 anos.
Descobri posteriormente outra exceção: Max Planck tinha 41 anos quando descobriu a Constante de Planck e propôs a Teoria da Radiação.
- Duas exceções para mim já configuram uma sub-regra, e isso me deu um pouco de alento, conforto e esperança.
Um amigo me perguntou se eu tinha pretensão de ser um Bohr, um Einstein ou, considerando a minha idade, um Schrödinger ou um Planck, pois estranhou essa pesquisa sobre as idades dos gênios.
- Acho que você está querendo ganhar um Prêmio Nobel!
Informei-lhe que meu desejo era ser um bom professor de física. Quanto ao Prêmio Nobel, respondi à ironia dando-lhe a mesma resposta de Edith Pastoril, a nonagenária da Antero de Quental, quando lhe perguntam se acha possível receber uma proposta de casamento:
- Por que não? A gente nunca sabe...
sábado, 9 de abril de 2011
sábado, 2 de abril de 2011
UMA ESCADA PARA O INFINITO
BOLA NA ARQUIBANCADA
Foram três anos de exclusiva dedicação à física, o que também exigiu de mim o estudo da matemática avançada. Ótimo, muito ótimo, pois esta é uma ferramenta que me servirá pelo resto da vida. A física, que não tem assuntos irrelevantes, abrange desde as partículas subatômicas até o Universo incomensurável. Entender um processo elétrico, a formação de uma onda sonora, a dinâmica dos fluidos, a refração da luz, a expansão térmica, a indução eletromagnética, exprimir por meio de equações a órbita de um planeta, medir o tamanho de uma galáxia, descrever matematicamente o comportamento dos gases, saber como relacionar trabalho e energia ou calcular a velocidade de escape de um projétil, conhecer eletricidade, acústica, relatividade, termodinâmica, mecânica quântica, teoria das cordas, teoria dos campos, tudo isso é fascinante, servindo à curiosidade do homem estarrecido diante da grandiosidade do Universo.
- A tarefa dos físicos é buscar sempre um novo patamar de conhecimento, de onde empreenderá nova ascensão, até o patamar seguinte. Patamares infinitos, eis que a obra científica nunca será dada como concluída.
Deu-se mal quem assim não entendeu. Até o início do século XX, os físicos confiavam na sua capacidade de observação e dispunham de um conjunto de leis, a mecânica clássica de Newton, que, conforme se supunha, explicava perfeitamente o Universo. Mecânica, calor, eletricidade, magnetismo, ótica e acústica tinham sido objeto de estudos bem-sucedidos, gerando euforia e superestimação dos êxitos alcançados. Tanto que, em 27 de abril de 1900, o conceituado físico escocês Lorde Kelvin, muito conhecido por haver introduzido o conceito de temperatura absoluta, enviou uma carta às autoridades britânicas informando que a física já conhecia praticamente tudo o que havia de importante no Universo. Aos físicos do futuro caberia, de fato, descobrir os pormenores complementares de uma estrutura perfeitamente conhecida, não mais que isso.
- Bola na arquibancada.
Kelvin
- Max Planck descobriu, ainda em 1900, que a energia se apresenta na forma de pacotes (os quanta);
- com sua relatividade especial, já em 1905, Einstein provou que, em termos de espaço e tempo, tudo depende do referencial considerado, o que coloca em xeque as nossas observações, e, com a relatividade geral, em 1915, reformou a teoria newtoniana, cuja lei da gravitação apenas quantifica corretamente o que Newton percebera como uma atração entre corpos materiais;
- o próprio Einstein, naquele "anus miraculous” de 1905, reconheceu a natureza dual da luz, que é, ao mesmo tempo, onda e partícula, sem saber que estava pavimentando caminho para o trânsito da mecânica quântica, a qual se rege pela indeterminação e pela complementaridade e na qual o determinismo de Aristóteles cede lugar ao acaso das probabilidades;
- Ernest Rutherford descobriu em 1911 que o átomo tem um núcleo cheio de prótons, carregados positivamente;

- Werner Heisenberg constatou em 1927 que as partículas subatômicas não podem ter momento e posição definidos simultaneamente, ferindo a reputação da nossa capacidade de observação;
- Em 1928 Niels Bohr percebeu a coexistência de duas descrições diferentes para um mesmo fenômeno físico, que David Bohm mais tarde chamou de ordem implicada e ordem explicada;
- Murray Gell -Mann em 1950 descobriu os “quarks”, que se unem para formar nêutrons, prótons e mésons;
- Richard Feynman juntou relatividade e mecânica quântica, no início da segunda metade do século XX.
- que dizer, finalmente, da nova cosmologia, que surgiu após a constatação de que o Universo nasceu de um Big Bang? Dos buracos negros, consumidores de informações? Da matéria escura e da energia escura, que ninguém nunca viu, mas juntas respondem por noventa e seis por cento do conteúdo do Universo?
Eu estudava até a exaustão, pois tinha a intenção de entender tudo isso. E, na solidão ambiciosa, refletia pretensiosamente:
- Quero ser um observador qualificado do espetáculo soberano do Universo.
Foram três anos de exclusiva dedicação à física, o que também exigiu de mim o estudo da matemática avançada. Ótimo, muito ótimo, pois esta é uma ferramenta que me servirá pelo resto da vida. A física, que não tem assuntos irrelevantes, abrange desde as partículas subatômicas até o Universo incomensurável. Entender um processo elétrico, a formação de uma onda sonora, a dinâmica dos fluidos, a refração da luz, a expansão térmica, a indução eletromagnética, exprimir por meio de equações a órbita de um planeta, medir o tamanho de uma galáxia, descrever matematicamente o comportamento dos gases, saber como relacionar trabalho e energia ou calcular a velocidade de escape de um projétil, conhecer eletricidade, acústica, relatividade, termodinâmica, mecânica quântica, teoria das cordas, teoria dos campos, tudo isso é fascinante, servindo à curiosidade do homem estarrecido diante da grandiosidade do Universo.
- A tarefa dos físicos é buscar sempre um novo patamar de conhecimento, de onde empreenderá nova ascensão, até o patamar seguinte. Patamares infinitos, eis que a obra científica nunca será dada como concluída.
Deu-se mal quem assim não entendeu. Até o início do século XX, os físicos confiavam na sua capacidade de observação e dispunham de um conjunto de leis, a mecânica clássica de Newton, que, conforme se supunha, explicava perfeitamente o Universo. Mecânica, calor, eletricidade, magnetismo, ótica e acústica tinham sido objeto de estudos bem-sucedidos, gerando euforia e superestimação dos êxitos alcançados. Tanto que, em 27 de abril de 1900, o conceituado físico escocês Lorde Kelvin, muito conhecido por haver introduzido o conceito de temperatura absoluta, enviou uma carta às autoridades britânicas informando que a física já conhecia praticamente tudo o que havia de importante no Universo. Aos físicos do futuro caberia, de fato, descobrir os pormenores complementares de uma estrutura perfeitamente conhecida, não mais que isso.
- Bola na arquibancada.
KelvinKelvin morreu poucos anos depois, sem perceber a extensão do seu equívoco, que se pode avaliar pelos eventos a seguir:
- Max Planck descobriu, ainda em 1900, que a energia se apresenta na forma de pacotes (os quanta);
- com sua relatividade especial, já em 1905, Einstein provou que, em termos de espaço e tempo, tudo depende do referencial considerado, o que coloca em xeque as nossas observações, e, com a relatividade geral, em 1915, reformou a teoria newtoniana, cuja lei da gravitação apenas quantifica corretamente o que Newton percebera como uma atração entre corpos materiais;
- o próprio Einstein, naquele "anus miraculous” de 1905, reconheceu a natureza dual da luz, que é, ao mesmo tempo, onda e partícula, sem saber que estava pavimentando caminho para o trânsito da mecânica quântica, a qual se rege pela indeterminação e pela complementaridade e na qual o determinismo de Aristóteles cede lugar ao acaso das probabilidades;
- Ernest Rutherford descobriu em 1911 que o átomo tem um núcleo cheio de prótons, carregados positivamente;

- Werner Heisenberg constatou em 1927 que as partículas subatômicas não podem ter momento e posição definidos simultaneamente, ferindo a reputação da nossa capacidade de observação;
- Em 1928 Niels Bohr percebeu a coexistência de duas descrições diferentes para um mesmo fenômeno físico, que David Bohm mais tarde chamou de ordem implicada e ordem explicada;
- Murray Gell -Mann em 1950 descobriu os “quarks”, que se unem para formar nêutrons, prótons e mésons;
- Richard Feynman juntou relatividade e mecânica quântica, no início da segunda metade do século XX.
- que dizer, finalmente, da nova cosmologia, que surgiu após a constatação de que o Universo nasceu de um Big Bang? Dos buracos negros, consumidores de informações? Da matéria escura e da energia escura, que ninguém nunca viu, mas juntas respondem por noventa e seis por cento do conteúdo do Universo?
Eu estudava até a exaustão, pois tinha a intenção de entender tudo isso. E, na solidão ambiciosa, refletia pretensiosamente:
- Quero ser um observador qualificado do espetáculo soberano do Universo.
quarta-feira, 30 de março de 2011
FIQUEI SÓ, MAIS UMA VEZ
O PÁSSARO VOOU
Laura defendeu sua tese com o êxito esperado, numa sessão muito concorrida. Assuntos extravagantes, que ela foi destrinçando com grande competência: entronização da velocidade da luz, em detrimento do espaço e do tempo de Newton, que sequer são independentes, substituídos que são pelo espaço-tempo de Minkowski, este, sim, absoluto. Impossível que dois relógios marquem a mesma hora, pois a simultaneidade não existe.Todas as leis da física, e não somente as da mecânica, são idênticas para todos os observadores dotados de movimentos retilíneos uniformes.

Ao fim e ao cabo, aprovado o trabalho pela banca, De Sitter fez um discurso elogioso, enaltecendo o preparo e competência da candidata e, no ato, passou-lhe uma carta da Embaixada Britânica, com uma proposta que físico algum ousaria recusar: trabalhar no King’s College, um dos 31 colégios da Universidade de Cambridge, em Londres. Perspectivas reais de uma carreira promissora, com boa remuneração e excepcional ambiente de trabalho. Caso aceitasse, teria de viajar em menos de uma semana. De Sitter ainda acrescentou:
- Se rejeitar a Inglaterra, há um lugar de professor para você neste Departamento de Física.
Proposta magnífica, sem dúvida. Ruim para mim, eis a dura verdade, pois isso significava que ia ficar sem a namorada, outra vez jogado para escanteio.
- Desta vez, vítimado por um efeito-borboleta chamado Cambridge.
Foi, de qualquer modo, uma despedida emocionada, consentida, em que as partes entendiam que se separavam para cumprir seus destinos. Para além dos nossos momentos inesquecíveis, ficaram-me dela apenas um resumo da teoria da relatividade e um estudo sobre Shakespeare. Confortou-me a ideia de que, daquela data em diante, Laura pesquisaria sobre tudo isso na própria Inglaterra, sem ter de consumir boa parte do seu salário na importação de livros a câmbio desfavorecido.
Ela me escreveu, decorridos alguns dias, para dizer que estava se sentindo muito bem no King's College, que tem reputação internacional e recebe profissionais de todas as partes do mundo. A carta mencionava quatro professores do King's College laureados no século XX com o Prêmio Nobel de Física, a saber, Charles G.. Barkla, em 1917, pelos seus trabalhos sobre raios-X; Owen Richardson, em 1928, pelo seu trabalho sobre emissão termiônica; Edward Appleton, em 1947, pelo seus estudos sobre a atmosfera; e Maurice Wilkins, em 1962, que dividiu o prêmio com James Watson e Francis Crick, pela determinação da estrutura do DNA.
O trabalho de Laura consistiria inicialmente de uma pesquisa sobre resistência de materiais, que interessava à cadeira de mecânica vibratória, da qual, inicialmente, seria assistente e depois, professora adjunta. Das próximas vezes, acrescentou, poderíamos nos comunicar por email, quando tivesse se organizado minimamente e dispusesse de um computador. Respondi imediatamente, garantindo-lhe que ficaria torcendo para que fosse para ela o próximo Prêmio Nobel do King’s College, o primeiro neste século XXI, o que, sobre aumentar o prestígio da Universidade de Cambridge, haveria de deixar mais alegre e mais aquecido este meu pobre peito solitário.
Difícil definir uma pessoa como Laura, a não ser pela justaposição de adjetivos: bonita, meiga, inteligente, culta, capaz e competente. Não voltará nunca, pensei, pois nenhuma organização, muito menos o King´s College, desejará perder uma profissional com essas qualidades. Muito menos os colegas professores, com aquele hábito britânico de enviar flores para a residência das moças bonitas, revelando, desde sempre, diligentes segundas intenções matrimoniais.
- Eu estava só, mais uma vez.
Laura ocupará, para sempre, um lugar especial nas minhas lembranças.
Laura defendeu sua tese com o êxito esperado, numa sessão muito concorrida. Assuntos extravagantes, que ela foi destrinçando com grande competência: entronização da velocidade da luz, em detrimento do espaço e do tempo de Newton, que sequer são independentes, substituídos que são pelo espaço-tempo de Minkowski, este, sim, absoluto. Impossível que dois relógios marquem a mesma hora, pois a simultaneidade não existe.Todas as leis da física, e não somente as da mecânica, são idênticas para todos os observadores dotados de movimentos retilíneos uniformes.

Ao fim e ao cabo, aprovado o trabalho pela banca, De Sitter fez um discurso elogioso, enaltecendo o preparo e competência da candidata e, no ato, passou-lhe uma carta da Embaixada Britânica, com uma proposta que físico algum ousaria recusar: trabalhar no King’s College, um dos 31 colégios da Universidade de Cambridge, em Londres. Perspectivas reais de uma carreira promissora, com boa remuneração e excepcional ambiente de trabalho. Caso aceitasse, teria de viajar em menos de uma semana. De Sitter ainda acrescentou:
- Se rejeitar a Inglaterra, há um lugar de professor para você neste Departamento de Física.
Proposta magnífica, sem dúvida. Ruim para mim, eis a dura verdade, pois isso significava que ia ficar sem a namorada, outra vez jogado para escanteio.
- Desta vez, vítimado por um efeito-borboleta chamado Cambridge.
Foi, de qualquer modo, uma despedida emocionada, consentida, em que as partes entendiam que se separavam para cumprir seus destinos. Para além dos nossos momentos inesquecíveis, ficaram-me dela apenas um resumo da teoria da relatividade e um estudo sobre Shakespeare. Confortou-me a ideia de que, daquela data em diante, Laura pesquisaria sobre tudo isso na própria Inglaterra, sem ter de consumir boa parte do seu salário na importação de livros a câmbio desfavorecido. Ela me escreveu, decorridos alguns dias, para dizer que estava se sentindo muito bem no King's College, que tem reputação internacional e recebe profissionais de todas as partes do mundo. A carta mencionava quatro professores do King's College laureados no século XX com o Prêmio Nobel de Física, a saber, Charles G.. Barkla, em 1917, pelos seus trabalhos sobre raios-X; Owen Richardson, em 1928, pelo seu trabalho sobre emissão termiônica; Edward Appleton, em 1947, pelo seus estudos sobre a atmosfera; e Maurice Wilkins, em 1962, que dividiu o prêmio com James Watson e Francis Crick, pela determinação da estrutura do DNA.
O trabalho de Laura consistiria inicialmente de uma pesquisa sobre resistência de materiais, que interessava à cadeira de mecânica vibratória, da qual, inicialmente, seria assistente e depois, professora adjunta. Das próximas vezes, acrescentou, poderíamos nos comunicar por email, quando tivesse se organizado minimamente e dispusesse de um computador. Respondi imediatamente, garantindo-lhe que ficaria torcendo para que fosse para ela o próximo Prêmio Nobel do King’s College, o primeiro neste século XXI, o que, sobre aumentar o prestígio da Universidade de Cambridge, haveria de deixar mais alegre e mais aquecido este meu pobre peito solitário.
Difícil definir uma pessoa como Laura, a não ser pela justaposição de adjetivos: bonita, meiga, inteligente, culta, capaz e competente. Não voltará nunca, pensei, pois nenhuma organização, muito menos o King´s College, desejará perder uma profissional com essas qualidades. Muito menos os colegas professores, com aquele hábito britânico de enviar flores para a residência das moças bonitas, revelando, desde sempre, diligentes segundas intenções matrimoniais. - Eu estava só, mais uma vez.
Laura ocupará, para sempre, um lugar especial nas minhas lembranças.
sábado, 26 de março de 2011
OS PALHAÇOS
NÃO, PALHAÇO EU NÃO SOU!
Fomos ver os Palhaços, de Ruggero Leoncavallo, uma das óperas mais representadas no mundo. Era a nossa despedida e, como sempre, uma maravilhosa iniciativa da Laura. Começáramos nosso namoro com Cavalleria Rusticana e agora, praticamente, o encerrávamos com os Palhaços. Duas óperas curtas, e geniais, tratando do mesmo tema: a infidelidade conjugal no sul da Itália e suas graves consequências. A gente se emociona desde a cena do Prólogo:
- Si può? Si può? Signore! Signori! Desculpem-me se, sozinho, me antecipo ao espetáculo. Eu sou o Prólogo. Vocês ouvirão gritos de dor e de raiva e verão as manifestações dolorosas do ódio. Prestem atenção às nossas almas, mais que às nossas fantasias, pois somos homens de carne e osso, e respiramos, tanto quanto vocês, o ar deste mundo desamparado. Já lhes expus o conceito; vejam então como o processo se desenvolve. Encenemos, pois!
Canio tem uma companhia teatral que se apresenta nas regiões mais pobres da Calábria, chegando aos vilarejos com muita fanfarra e estardalhaço. Nessas andanças, conhece Nedda, recolhe-a da rua, alimenta-a, casa-se com ela e faz dela a atriz que representa no palco a mulher que trai o palhaço. Um dia, Canio percebe que é palhaço também na vida real, pois descobre que Nedda tem um amante, Silvio, com o qual pretende fugir. Já no camarim, Canio canta seu desespero, quando se prepara para o espetáculo. Traído na peça, a cara pintada, traído na vida real, palhaço de cara limpa, ele, exatamente ele!
- Veste a fantasia! Ri, palhaço, de teu amor arruinado! Ri da dor que está envenenando o teu coração!
Naquela noite, porém, não houve simulação na hora de matar a Colombina. O desvairado Canio aproveita a cena, agarra a mulher e a apunhala de verdade. Morre a infiel sua morte dupla, na peça e na vida real. Sílvio, que corre da plateia em defesa de Nedda, é também apunhalado por Canio, que, transtornado e exaurido, deixa cair o punhal. Neste ponto, Canio dirige-se a ambos os públicos (o da peça, representado pelo coro, e o verdadeiro, que éramos nós, sentados na plateia) e arremata:
- La commedia è finita.
Tragédia real dentro da ficção, tudo muito triste, o que levou Laura às lágrimas. Lembro-me de ter feito uma brincadeira, que por acaso funcionou muito bem.
- Laura...
- Sim, Carlinhos.
- Não se deve confundir "Si può... Si può..." com "Cipó ... Cipó..."
- Você é muito engraçado!
Fomos ver os Palhaços, de Ruggero Leoncavallo, uma das óperas mais representadas no mundo. Era a nossa despedida e, como sempre, uma maravilhosa iniciativa da Laura. Começáramos nosso namoro com Cavalleria Rusticana e agora, praticamente, o encerrávamos com os Palhaços. Duas óperas curtas, e geniais, tratando do mesmo tema: a infidelidade conjugal no sul da Itália e suas graves consequências. A gente se emociona desde a cena do Prólogo:
- Si può? Si può? Signore! Signori! Desculpem-me se, sozinho, me antecipo ao espetáculo. Eu sou o Prólogo. Vocês ouvirão gritos de dor e de raiva e verão as manifestações dolorosas do ódio. Prestem atenção às nossas almas, mais que às nossas fantasias, pois somos homens de carne e osso, e respiramos, tanto quanto vocês, o ar deste mundo desamparado. Já lhes expus o conceito; vejam então como o processo se desenvolve. Encenemos, pois!
- Veste a fantasia! Ri, palhaço, de teu amor arruinado! Ri da dor que está envenenando o teu coração!
Naquela noite, porém, não houve simulação na hora de matar a Colombina. O desvairado Canio aproveita a cena, agarra a mulher e a apunhala de verdade. Morre a infiel sua morte dupla, na peça e na vida real. Sílvio, que corre da plateia em defesa de Nedda, é também apunhalado por Canio, que, transtornado e exaurido, deixa cair o punhal. Neste ponto, Canio dirige-se a ambos os públicos (o da peça, representado pelo coro, e o verdadeiro, que éramos nós, sentados na plateia) e arremata:
- La commedia è finita.
Tragédia real dentro da ficção, tudo muito triste, o que levou Laura às lágrimas. Lembro-me de ter feito uma brincadeira, que por acaso funcionou muito bem.
- Laura...
- Sim, Carlinhos.
- Não se deve confundir "Si può... Si può..." com "Cipó ... Cipó..."
- Você é muito engraçado!
quarta-feira, 23 de março de 2011
UMA VISÃO HOLÍSTICA (II de II)
CONSTRUINDO A PALAVRA INEXISTENTE
O pensamento a ser expresso sempre corresponde a uma "palavra inexistente", daí decorrendo a necessidade de construir um período que lhe seja equivalente. Parte-se de um verbo, o componente essencial, acrescentando-lhe, conforme sua incompletude, um ou mais componentes acidentais. Um estoque de verbos existe, com efeito, à disposição do sujeito expressante, que verifica em cada caso se o verbo escolhido precisa de sujeito e de objetos, além de considerar as circunstâncias a serem informadas, acrescentando-lhe o que for necessário à sua completude: eis a arte de improvisar uma informação completa, a partir de palavras catalogadas no idioma, para corresponder à "palavra inexistente" e dar a conhecer a ação imaginada.
- Os componentes acidentais, simples ou oracionais, somam-se ao verbo, que é o núcleo da "palavra inexistente".
O verbo cuja completude se busca configura e preside a oração principal. Os demais verbos que fazem parte do período, se alguns, pertencem a componentes acidentais oracionais, chamados de orações subordinadas, que equivalem a substantivos, adjetivos ou advérbios.
- A "palavra inexistente" é sempre representada
por um verbo (o da oração principal) e seus penduricalhos.
Suponhamos que alguém dissesse "decidiu". Trata-se, no caso, de um verbo incompleto por subjetivação e objetivação, ensejando algumas perguntas:
(a) "quem decidiu?", pois o verbo escolhido precisa de um sujeito. Resposta: "Maria".
(b) "decidiu o quê?", pois o verbo precisa de um objeto direto. Resposta: "a questão tributária".
(c) "como?", pois o verbo (este, como qualquer outro) não é capaz de expressar as circunstâncias. Resposta: "corajosamente".
Desse modo, a "palavra inexistente" da ação seria representada pela seguinte oração:
Maria decidiu a questão tributária corajosamente.
No caso, o verbo ("decidiu") obteve sua completude com dois substantivos ("Maria", como sujeito, e "questão", como "objeto direto"), um adjetivo ("tributária") e um advérbio ("corajosamente"). Um conjunto de palavras catalogadas nos dicionários e nas gramáticas, que isoladamente nada transmitem; organizadas em torno de um verbo, expressam a ação imaginada.
CONSTRUINDO UM COMPONENTE INEXISTENTE
A "palavra inexistente" é, pois, representada por uma soma de componentes. Tudo parte do componente (1), ou seja, de um verbo, cuja completude pode exigir substantivos, adjetivos e advérbios, que são os componentes acidentais. Pode ocorrer que não exista algum substantivo, adjetivo ou advérbio que seja preciso à completude do verbo, tornando-se necessário construir uma oração subordinada que lhe seja equivalente, o que se faz somando componentes, da mesma forma usada para construir a "palavra inexistente". Surge desse modo um verbo adicional, que não deve ser confundido com o verbo principal.
Construindo um substantivo inexistente
Considere o seguinte enunciado:
Um dos componentes necessários à completude do verbo, na função de objeto direto, foi "tempestade", um substantivo existente no estoque de substantivos do idioma. Elisa "percebeu" um substantivo existente. O período só tem um verbo e, pois, uma só oração. Diferente é o que ocorre no exemplo a seguir:
Neste segundo exemplo, Elisa "percebeu" um substantivo que não existe no dicionário, e o sujeito expressante teve de construí-lo, mediante uma oração subordinada (substantiva): "que o dinheiro desaparecera". Desse modo, o período aparece com dois verbos: "percebeu " e "desaparecera". "Percebeu ", como núcleo da "palavra inexistente", preside a oração principal, enquanto "desaparecera" surge por acidente, numa oração construída para representar um substantivo inexistente.
Construindo um adjetivo inexistente
Um substantivo que funciona como sujeito ou objeto pode ser qualificado por um adjetivo, como "estudioso", no seguinte exemplo:
Uma só oração requereu o enunciado. Às vezes, porém, o adjetivo necessário é inexistente, como no caso do exemplo abaixo:
"Que estuda em bons livros" é uma oração que vale por um adjetivo que não existe no idioma, sendo chamada de oração subordinada adjetiva. Igualmente, "passa" é o verbo da oração principal, e "estuda", um verbo acidental, de uma oração subordinada (adjetiva).
Construindo um advérbio inexistente
Seja a oração:
"Tarde" é um advérbio necessário à completude do verbo. Se, como nos casos do substantivo e do adjetivo, o advérbio necessário não existir, uma oração será construída para representá-lo. Ver o exemplo a seguir:
"Depois que todos saíram" vale por um advérbio que não existe formalmente, constituindo uma oração subordinada adverbial. "Adormeceu" é o verbo da oração principal; "saíram", um verbo acidental e secundário.
Recapitulando
Verbos “completos” não existem; como consequência, e felizmente, o vocábulo-tudo também não existe; daí a necessidade de recorrer às outras categorias gramaticais, substantivos, adjetivos e advérbios, para alcançar a completude a partir de um verbo.
Ação = vocábulo-tudo = "palavra inexistente" = Componente (1) + componentes (2) a (5) necessários à completude do componente (1)
Os cinco componentes mencionados, simples ou oracionais, um dos quais necessariamente um verbo = componente (1), permitem construir basicamente todos os enunciados que exprimem a ação a ser expressa pelo orador.
Veja, por exemplo, o seguinte enunciado:
O Brasil espera serenamente que cada um cumpra o seu dever.
Nenhuma palavra existente seria capaz da façanha de explicar detalhadamente a ação que se expressa nesse enunciado. Há, porém, o verbo “esperar”, incompleto por subjetivação e objetivação. Partindo dessa palavra, “esperar”, com adicionar-lhe os componentes adequados, construímos um período, que corresponde à "palavra inexistente" e expressa o que se pretende. Não temos o vocábulo-tudo, que corresponda à "palavra inexistente", mas temos esse período, de estilo requintado, que lhe é equivalente.
E ENTÃO?
Será necessário, em adição, estudar as noções de verbos de ligação (que são os verbos que exprimem estado, em vez de ação), aposto e vocativo. Essas noções são simples e podem ser aprendidas sem nenhuma dificuldade. As gramáticas servem, enfim, para estudar regras de concordâncias, flexões verbais, graus dos adjetivos e dos substantivos, figuras de linguagem, louçanias etc, tudo para entronização da chamada “norma culta”, que sem dúvida é necessário conhecer, sem que essa bagagem, entretanto, integre a essência sintática do idioma.
O pensamento a ser expresso sempre corresponde a uma "palavra inexistente", daí decorrendo a necessidade de construir um período que lhe seja equivalente. Parte-se de um verbo, o componente essencial, acrescentando-lhe, conforme sua incompletude, um ou mais componentes acidentais. Um estoque de verbos existe, com efeito, à disposição do sujeito expressante, que verifica em cada caso se o verbo escolhido precisa de sujeito e de objetos, além de considerar as circunstâncias a serem informadas, acrescentando-lhe o que for necessário à sua completude: eis a arte de improvisar uma informação completa, a partir de palavras catalogadas no idioma, para corresponder à "palavra inexistente" e dar a conhecer a ação imaginada.
- Os componentes acidentais, simples ou oracionais, somam-se ao verbo, que é o núcleo da "palavra inexistente".
O verbo cuja completude se busca configura e preside a oração principal. Os demais verbos que fazem parte do período, se alguns, pertencem a componentes acidentais oracionais, chamados de orações subordinadas, que equivalem a substantivos, adjetivos ou advérbios.
- A "palavra inexistente" é sempre representadapor um verbo (o da oração principal) e seus penduricalhos.
Suponhamos que alguém dissesse "decidiu". Trata-se, no caso, de um verbo incompleto por subjetivação e objetivação, ensejando algumas perguntas:
(a) "quem decidiu?", pois o verbo escolhido precisa de um sujeito. Resposta: "Maria".
(b) "decidiu o quê?", pois o verbo precisa de um objeto direto. Resposta: "a questão tributária".
(c) "como?", pois o verbo (este, como qualquer outro) não é capaz de expressar as circunstâncias. Resposta: "corajosamente".
Desse modo, a "palavra inexistente" da ação seria representada pela seguinte oração:
Maria decidiu a questão tributária corajosamente.
No caso, o verbo ("decidiu") obteve sua completude com dois substantivos ("Maria", como sujeito, e "questão", como "objeto direto"), um adjetivo ("tributária") e um advérbio ("corajosamente"). Um conjunto de palavras catalogadas nos dicionários e nas gramáticas, que isoladamente nada transmitem; organizadas em torno de um verbo, expressam a ação imaginada.
CONSTRUINDO UM COMPONENTE INEXISTENTE
A "palavra inexistente" é, pois, representada por uma soma de componentes. Tudo parte do componente (1), ou seja, de um verbo, cuja completude pode exigir substantivos, adjetivos e advérbios, que são os componentes acidentais. Pode ocorrer que não exista algum substantivo, adjetivo ou advérbio que seja preciso à completude do verbo, tornando-se necessário construir uma oração subordinada que lhe seja equivalente, o que se faz somando componentes, da mesma forma usada para construir a "palavra inexistente". Surge desse modo um verbo adicional, que não deve ser confundido com o verbo principal.
Construindo um substantivo inexistente
Considere o seguinte enunciado:
"Elisa finalmente percebeu a tempestade."
Um dos componentes necessários à completude do verbo, na função de objeto direto, foi "tempestade", um substantivo existente no estoque de substantivos do idioma. Elisa "percebeu" um substantivo existente. O período só tem um verbo e, pois, uma só oração. Diferente é o que ocorre no exemplo a seguir:
"Elisa finalmente percebeu que o dinheiro desaparecera."
Neste segundo exemplo, Elisa "percebeu" um substantivo que não existe no dicionário, e o sujeito expressante teve de construí-lo, mediante uma oração subordinada (substantiva): "que o dinheiro desaparecera". Desse modo, o período aparece com dois verbos: "percebeu " e "desaparecera". "Percebeu ", como núcleo da "palavra inexistente", preside a oração principal, enquanto "desaparecera" surge por acidente, numa oração construída para representar um substantivo inexistente.
Construindo um adjetivo inexistente
Um substantivo que funciona como sujeito ou objeto pode ser qualificado por um adjetivo, como "estudioso", no seguinte exemplo:
"O aluno estudioso passa facilmente".
Uma só oração requereu o enunciado. Às vezes, porém, o adjetivo necessário é inexistente, como no caso do exemplo abaixo:
"O aluno que estuda em bons livros passa facilmente."
"Que estuda em bons livros" é uma oração que vale por um adjetivo que não existe no idioma, sendo chamada de oração subordinada adjetiva. Igualmente, "passa" é o verbo da oração principal, e "estuda", um verbo acidental, de uma oração subordinada (adjetiva).
Construindo um advérbio inexistente
Seja a oração:
"Ela adormeceu tarde."
"Tarde" é um advérbio necessário à completude do verbo. Se, como nos casos do substantivo e do adjetivo, o advérbio necessário não existir, uma oração será construída para representá-lo. Ver o exemplo a seguir:
"Ela adormeceu depois que todos saíram."
"Depois que todos saíram" vale por um advérbio que não existe formalmente, constituindo uma oração subordinada adverbial. "Adormeceu" é o verbo da oração principal; "saíram", um verbo acidental e secundário.
Recapitulando
Verbos “completos” não existem; como consequência, e felizmente, o vocábulo-tudo também não existe; daí a necessidade de recorrer às outras categorias gramaticais, substantivos, adjetivos e advérbios, para alcançar a completude a partir de um verbo.
Ação = vocábulo-tudo = "palavra inexistente" = Componente (1) + componentes (2) a (5) necessários à completude do componente (1)
Os cinco componentes mencionados, simples ou oracionais, um dos quais necessariamente um verbo = componente (1), permitem construir basicamente todos os enunciados que exprimem a ação a ser expressa pelo orador.
Veja, por exemplo, o seguinte enunciado:
O Brasil espera serenamente que cada um cumpra o seu dever.
Nenhuma palavra existente seria capaz da façanha de explicar detalhadamente a ação que se expressa nesse enunciado. Há, porém, o verbo “esperar”, incompleto por subjetivação e objetivação. Partindo dessa palavra, “esperar”, com adicionar-lhe os componentes adequados, construímos um período, que corresponde à "palavra inexistente" e expressa o que se pretende. Não temos o vocábulo-tudo, que corresponda à "palavra inexistente", mas temos esse período, de estilo requintado, que lhe é equivalente.
E ENTÃO?
Será necessário, em adição, estudar as noções de verbos de ligação (que são os verbos que exprimem estado, em vez de ação), aposto e vocativo. Essas noções são simples e podem ser aprendidas sem nenhuma dificuldade. As gramáticas servem, enfim, para estudar regras de concordâncias, flexões verbais, graus dos adjetivos e dos substantivos, figuras de linguagem, louçanias etc, tudo para entronização da chamada “norma culta”, que sem dúvida é necessário conhecer, sem que essa bagagem, entretanto, integre a essência sintática do idioma.
sábado, 19 de março de 2011
RICARDO III
Matar o rival e cantar a viúva
Os comentários de Joyce sobre Anne Hathaway deixaram-me intrigado, principalmente porque certa vez Laura me disse que não se conhece nenhum detalhe da vida pessoal de Shakespeare. Isso mesmo, o maior autor de todos os tempos protagonizou pelas ruas de Londres uma existência invisível.
- Laura, como foi mesmo essa história da mulher de Shakespeare, no "Ulisses"?
- Joyce enxergava Anne Hathaway por toda parte na obra shakespeariana, até como "megera domada". As ilações parecem decorrer somente da sua leitura de Shakespeare, sem base em fatos reais conhecidos, pois de William Shakespeare se conhece pouquíssima coisa, conforme já comentei com você. A afirmação mais audaciosa de Joyce é a de que Anne, que era oito anos mais velha que Shakespeare, cometeu adultério com o irmão deste, Richard Shakespeare, o que teria a ver com a Cena II, do Ato I, de “Ricardo III”.
- Explica isso...
- Na peça, o "Duque de Gloucester", antes de se tornar "Ricardo III", vai ao velório do rei "Henry VI", que ele próprio assassinara, e se põe a conquistar o coração da lacrimosa "Lady Anne", enteada do morto e viúva do príncipe "Edward IV", que antes "Gloucester" também assassinara. Nessa conquista, "Gloucester" admite os dois assassinatos, alegando que a beleza de "Lady Anne" é o que o levara a cometê-los. "Lady Anne" deixa-se seduzir e dá-lhe sua mão em casamento, iniciando uma conflituosa relação de amor, ódio e sadismo.
- E no "Ulisses?"
- O personagem “Stephan Dedalus” afirma que a viúva “Lady Anne” é Anne Hathaway, esposa do autor, e que “Richard III” (“Gloucester”) é Richard Shakespeare, seu irmão.
- Um triângulo familiar...
-Diz “Stephan Dedalus”, na Biblioteca Nacional:
"(...) Richard, um corcunda filho-da-puta, bastardo, faz corte à viúva Anne (o que não se esconde atrás de um nome?), a seduz e a conquista, uma viúva assanhada filha-da-puta). (...) Richard é o único rei destituído do respeito de Shakespeare (...)."
Para “Stephan Dedalus”, esse adultério é um problema que Shakespeare sempre carregou, até para o túmulo, cujos versos, amaldiçoando quem removesse suas pedras, seriam uma tentativa de evitar que Anne Hathaway fosse enterrada a seu lado.
- Muito estranho... Quantos filhos Shakespeare teve com ela?
- Susanna, Judith e Hamnet. Hamnet, o menino, morreu com apenas onze anos, não se sabe como. Para Joyce, Hamnet pode ser a gênese do nome "Hamlet", a quem o espectro (o próprio autor, para Joyce) diz na peça:
- Se non è vero, è bene trovato...
- Você sabia, Carlinhos, que Kilkenny, tantas vezes citada no "Ulisses", é a menor cidade da Irlanda, seja em área, seja em população?
- Confesso humildemente, neste momento para mim solene, que nunca tinha ouvido falar em Kilkenny. Nem cidade, nem coisa alguma com esse nome. Kilkerry, sim, já ouvi, mas Kilkenny, não. Tenho um amigo, muito legal, chamado Kilkerry.
- Parente de Pedro Kilkerry, o poeta simbolista?
- Um sobrinho distante.
- Kilkenny é uma cidade medieval, às margens do rio Nore. Aliás, cidade de gente famosa: Oliver Cromwell, Jonathan Swift e George Berkeley. Pequena no tamanho, mas grande no conteúdo.
- Tudo isso é muito erudito para mim.
- Basta você se interessar e dedicar ao assunto uma parte do seu tempo.
- O tempo é a minha matéria...
- Pois é, matéria atrai matéria na razão direta das massas.
- E na razão inversa do quadrado das distâncias, não se esqueça.
- Não esquecerei...
Os comentários de Joyce sobre Anne Hathaway deixaram-me intrigado, principalmente porque certa vez Laura me disse que não se conhece nenhum detalhe da vida pessoal de Shakespeare. Isso mesmo, o maior autor de todos os tempos protagonizou pelas ruas de Londres uma existência invisível.
- Laura, como foi mesmo essa história da mulher de Shakespeare, no "Ulisses"?
- Joyce enxergava Anne Hathaway por toda parte na obra shakespeariana, até como "megera domada". As ilações parecem decorrer somente da sua leitura de Shakespeare, sem base em fatos reais conhecidos, pois de William Shakespeare se conhece pouquíssima coisa, conforme já comentei com você. A afirmação mais audaciosa de Joyce é a de que Anne, que era oito anos mais velha que Shakespeare, cometeu adultério com o irmão deste, Richard Shakespeare, o que teria a ver com a Cena II, do Ato I, de “Ricardo III”.
- Explica isso...
- Na peça, o "Duque de Gloucester", antes de se tornar "Ricardo III", vai ao velório do rei "Henry VI", que ele próprio assassinara, e se põe a conquistar o coração da lacrimosa "Lady Anne", enteada do morto e viúva do príncipe "Edward IV", que antes "Gloucester" também assassinara. Nessa conquista, "Gloucester" admite os dois assassinatos, alegando que a beleza de "Lady Anne" é o que o levara a cometê-los. "Lady Anne" deixa-se seduzir e dá-lhe sua mão em casamento, iniciando uma conflituosa relação de amor, ódio e sadismo.
- E no "Ulisses?"
- O personagem “Stephan Dedalus” afirma que a viúva “Lady Anne” é Anne Hathaway, esposa do autor, e que “Richard III” (“Gloucester”) é Richard Shakespeare, seu irmão.
- Um triângulo familiar...
-Diz “Stephan Dedalus”, na Biblioteca Nacional:
"(...) Richard, um corcunda filho-da-puta, bastardo, faz corte à viúva Anne (o que não se esconde atrás de um nome?), a seduz e a conquista, uma viúva assanhada filha-da-puta). (...) Richard é o único rei destituído do respeito de Shakespeare (...)."
Para “Stephan Dedalus”, esse adultério é um problema que Shakespeare sempre carregou, até para o túmulo, cujos versos, amaldiçoando quem removesse suas pedras, seriam uma tentativa de evitar que Anne Hathaway fosse enterrada a seu lado.
- Muito estranho... Quantos filhos Shakespeare teve com ela?
- Susanna, Judith e Hamnet. Hamnet, o menino, morreu com apenas onze anos, não se sabe como. Para Joyce, Hamnet pode ser a gênese do nome "Hamlet", a quem o espectro (o próprio autor, para Joyce) diz na peça:
- Hamlet, eu sou o espírito do teu pai.
- Se non è vero, è bene trovato...
- Você sabia, Carlinhos, que Kilkenny, tantas vezes citada no "Ulisses", é a menor cidade da Irlanda, seja em área, seja em população?
- Confesso humildemente, neste momento para mim solene, que nunca tinha ouvido falar em Kilkenny. Nem cidade, nem coisa alguma com esse nome. Kilkerry, sim, já ouvi, mas Kilkenny, não. Tenho um amigo, muito legal, chamado Kilkerry.
- Parente de Pedro Kilkerry, o poeta simbolista?
- Um sobrinho distante.
- Kilkenny é uma cidade medieval, às margens do rio Nore. Aliás, cidade de gente famosa: Oliver Cromwell, Jonathan Swift e George Berkeley. Pequena no tamanho, mas grande no conteúdo.
- Tudo isso é muito erudito para mim.
- Basta você se interessar e dedicar ao assunto uma parte do seu tempo.
- O tempo é a minha matéria...
- Pois é, matéria atrai matéria na razão direta das massas.
- E na razão inversa do quadrado das distâncias, não se esqueça.
- Não esquecerei...
quarta-feira, 16 de março de 2011
UMA VISÃO HOLÍSTICA (I de II)
COMO CRIAR UMA PALAVRA INEXISTENTE
(a pedido de Laura)
No mundo animal, certas presas emitem um som, “uma palavra existente”, para avisar aos seus semelhantes que o predador está vindo por terra, e um som diferente, “a outra palavra existente”, comunicando que a investida do inimigo se fará pelo ar. Essa comunicação, rudimentar e apenas dual, funciona porque as duas "palavras existentes" informam tudo que as presas podem transmitir: uma de duas “palavras existentes” será sempre escolhida pela presa para comunicar qual das duas ações está na iminência de ocorrer.
- Duas ações a comunicar, duas "palavras existentes".
O recurso de comunicar-se dessa maneira, por meio de uma "palavra-existente", que fosse um vocábulo-tudo, não é exequível (felizmente) no caso dos seres humanos, cujas necessidades de comunicação exigiriam uma quantidade infinita de "palavras existentes", pois infinitas são as informações a transmitir. O que se quer informar corresponde sempre a uma "palavra inexistente". Daí a necessidade de outro modelo, em que a "palavra inexistente" é substituída, em cada caso, por um conjunto improvisado, com adicionar a um verbo palavras existentes que transmitam o pensamento desejado.
- As palavras existentes, quando isoladas, não têm completude e podem transmitir muito pouco, mas agregadamente organizam-se em torno de uma delas, um verbo, para cumprir a tarefa de enunciar o que se pretende.
COMPONENTES
A "palavra inexistente" é, pois, substituída por uma soma de palavras-componentes, aqui enumeradas de (1) a (5), em que o verbo, componente numero (1), é essencial e constitui o núcleo do pensamento a transmitir. Os outros componentes, de (2) a (5), são os substantivos, adjetivos, advérbios e os componentes oracionais, que funcionam acidental e complementarmente, como penduricalhos que servem à completude do verbo.
Neste texto, os verbos serão de três tipos:
verbos quase completos;
verbos incompletos por subjetivação;
verbos incompletos por subjetivação e objetivação.
(a) Verbos quase completos: são os que dispensam sujeito e objetos, como “anoitecer” e “trovejar”. Não são totalmente completos por não exprimirem as circunstâncias da ação, donde a necessidade de acrescentar-lhes um advérbio:
‘“ Trovejou muito.” e “chove torrencialmente.”
Verbos quase completos são os verbos cuja completude exige apenas um advérbio("muito", "torrencialmente"), para exprimir as circunstâncias.
(b) Verbos incompletos por subjetivação, como “nascer”e “crescer”. São os que, para sua completude, além do advérbio, necessitam de sujeito, esta uma função exercida por um substantivo. Exemplo: “Faleceu.” Falta, no caso, indicar quem faleceu e as circunstâncias:
“O menino faleceu subitamente.”
Verbos incompletos por subjetivação são os verbos incompletos cuja completude exige um substantivo ("menino"), como sujeito, e um advérbio ("subitamente"), para exprimir as circunstâncias.
(c) Verbos incompletos por subjetivação e objetivação, como “esperar”, “precisar” e “comprar”. São os que, para sua completude, além de sujeito e de advérbio, necessitam também de objeto direto. Ou de objeto indireto. Ou de ambos. São também os substantivos que exercem as funções de objeto direto e indireto. Exemplos:
“João esperou o trem pacientemente.”
“O professor precisa de você agora.”
“A mulher compra um presente para a filha semanalmente.”
Os verbos incompletos por subjetivação e objetivação, além de sujeito e objeto direto, objeto indireto ou ambos, ainda requerem advérbios, que exprimem as circunstâncias.
Além do verbo, que constitui o núcleo da "palavra inexistente", há portanto os componentes que servem à sua completude, que poderíamos chamar de acidentais: substantivos, adjetivos, advérbios e orações subordinadas, estas para desempenhar a função de substantivos, adjetivos ou advérbios, quando estes, apesar de necessários, forem inexistentes.
Substantivos são as palavras que exercem as funções, mencionadas anteriormente, de sujeito e de objetos. Exemplos:
“O professor comeu a goiaba.”
“O jornaleiro deu milho aos pombos.”

Adjetivos são as palavras que servem para qualificar os substantivos, estes nas respectivas funções mencionadas anteriormente. Exemplo:
“O professor exigente comeu a goiaba envenenada.”
Advérbios são as palavras que servem para exprimir as circunstâncias, conforme já mencionado. Exemplo:
“Fui ao cinema ontem.”
Componentes oracionais são as chamadas orações subordinadas, que servem para exercer as funções, anteriormente mencionadas, de substantivos, adjetivos e advérbios, quando estes ou não existem formalmente ou, se eventualmente existentes, são insuficientes para expressar o que se deseja.
(a) Orações subordinadas substantivas - são as que desempenham o papel de substantivo, na função de sujeito ou de objeto. Exemplo:
“Percebi que ela esqueceu a minha recomendação.”
O autor da frase não encontrou um substantivo que expressasse o que ele quis dizer com a oração subordinada substantiva “que ela esqueceu a minha recomendação.” Poderia ter usado, por exemplo, uma alternativa como “percebi o esquecimento”, o que seria insuficiente para exprimir o que foi dito, ou, alternativamente, “percebi o esquecimento dela a respeito da minha recomendação”, o que, sobre arruinar o estilo, não traria nenhuma economia de palavras.“Que ela esqueceu a minha recomendação” é uma oração (subordinada substantiva) que o orador pôs no lugar de um substantivo necessário ao seu discurso, mas inexistente.
(b) Orações subordinadas adjetivas - são as orações que desempenham o papel de adjetivo, na sua função de qualificar o substantivo. Exemplo:
“O professor que nunca ri desapareceu misteriosamente.”

No exemplo acima o orador não encontrou um adjetivo que expressasse o que ele quis enunciar com a oração subordinada adjetiva “que nunca ri”. Poderia ter dito professor “carrancudo” ou professor “triste”, expressões que, entretanto, não traduzem com fidelidade o que foi dito e até diferem entre si. “Que nunca ri” é uma oração que está no lugar de um adjetivo inexistente, mas necessário ao discurso do orador.
(c) Orações subordinadas adverbiais - são as que desempenham o papel de advérbios, na sua função de exprimir as circunstâncias. Exemplo:
“Chovia quando despertei.”
Ao autor do enunciado acima não ocorreu nenhum advérbio que expressasse o que ele quis informar com a oração subordinada adverbial “quando despertei”. Poderia, alternativamente, ter dito “chovia cedinho” ou “chovia pela manhã”? Sim, se ele tivesse entendido que uma dessas alternativas, caso lhe ocorresse, era equivalente ao que ele enunciou. Não foi o caso, e ele se valeu de uma oração subordinada adverbial, no caso, temporal. “Quando despertei” é uma oração criada pelo orador para ocupar o lugar de um advérbio necessário à completude do verbo, que, entretanto, não existia ou não lhe ocorreu.
(continua em 23 de março)
(a pedido de Laura)
No mundo animal, certas presas emitem um som, “uma palavra existente”, para avisar aos seus semelhantes que o predador está vindo por terra, e um som diferente, “a outra palavra existente”, comunicando que a investida do inimigo se fará pelo ar. Essa comunicação, rudimentar e apenas dual, funciona porque as duas "palavras existentes" informam tudo que as presas podem transmitir: uma de duas “palavras existentes” será sempre escolhida pela presa para comunicar qual das duas ações está na iminência de ocorrer.
- Duas ações a comunicar, duas "palavras existentes".
O recurso de comunicar-se dessa maneira, por meio de uma "palavra-existente", que fosse um vocábulo-tudo, não é exequível (felizmente) no caso dos seres humanos, cujas necessidades de comunicação exigiriam uma quantidade infinita de "palavras existentes", pois infinitas são as informações a transmitir. O que se quer informar corresponde sempre a uma "palavra inexistente". Daí a necessidade de outro modelo, em que a "palavra inexistente" é substituída, em cada caso, por um conjunto improvisado, com adicionar a um verbo palavras existentes que transmitam o pensamento desejado.
- As palavras existentes, quando isoladas, não têm completude e podem transmitir muito pouco, mas agregadamente organizam-se em torno de uma delas, um verbo, para cumprir a tarefa de enunciar o que se pretende.
COMPONENTES
A "palavra inexistente" é, pois, substituída por uma soma de palavras-componentes, aqui enumeradas de (1) a (5), em que o verbo, componente numero (1), é essencial e constitui o núcleo do pensamento a transmitir. Os outros componentes, de (2) a (5), são os substantivos, adjetivos, advérbios e os componentes oracionais, que funcionam acidental e complementarmente, como penduricalhos que servem à completude do verbo.
Verbo = Componente (1)
Neste texto, os verbos serão de três tipos:
verbos quase completos;
verbos incompletos por subjetivação;
verbos incompletos por subjetivação e objetivação.
(a) Verbos quase completos: são os que dispensam sujeito e objetos, como “anoitecer” e “trovejar”. Não são totalmente completos por não exprimirem as circunstâncias da ação, donde a necessidade de acrescentar-lhes um advérbio:
‘“ Trovejou muito.” e “chove torrencialmente.”
Verbos quase completos são os verbos cuja completude exige apenas um advérbio("muito", "torrencialmente"), para exprimir as circunstâncias.
(b) Verbos incompletos por subjetivação, como “nascer”e “crescer”. São os que, para sua completude, além do advérbio, necessitam de sujeito, esta uma função exercida por um substantivo. Exemplo: “Faleceu.” Falta, no caso, indicar quem faleceu e as circunstâncias:
“O menino faleceu subitamente.”
Verbos incompletos por subjetivação são os verbos incompletos cuja completude exige um substantivo ("menino"), como sujeito, e um advérbio ("subitamente"), para exprimir as circunstâncias.
(c) Verbos incompletos por subjetivação e objetivação, como “esperar”, “precisar” e “comprar”. São os que, para sua completude, além de sujeito e de advérbio, necessitam também de objeto direto. Ou de objeto indireto. Ou de ambos. São também os substantivos que exercem as funções de objeto direto e indireto. Exemplos:
“João esperou o trem pacientemente.”
“O professor precisa de você agora.”
“A mulher compra um presente para a filha semanalmente.”
Os verbos incompletos por subjetivação e objetivação, além de sujeito e objeto direto, objeto indireto ou ambos, ainda requerem advérbios, que exprimem as circunstâncias.
Palavras necessárias à completude do verbo
Além do verbo, que constitui o núcleo da "palavra inexistente", há portanto os componentes que servem à sua completude, que poderíamos chamar de acidentais: substantivos, adjetivos, advérbios e orações subordinadas, estas para desempenhar a função de substantivos, adjetivos ou advérbios, quando estes, apesar de necessários, forem inexistentes.
Componente (2): substantivos
Substantivos são as palavras que exercem as funções, mencionadas anteriormente, de sujeito e de objetos. Exemplos:
“O professor comeu a goiaba.”
“O jornaleiro deu milho aos pombos.”

Componente (3): adjetivos
Adjetivos são as palavras que servem para qualificar os substantivos, estes nas respectivas funções mencionadas anteriormente. Exemplo:
“O professor exigente comeu a goiaba envenenada.”
Componente (4) : advérbios
Advérbios são as palavras que servem para exprimir as circunstâncias, conforme já mencionado. Exemplo:
“Fui ao cinema ontem.”
Componente (5): componentes oracionais
Componentes oracionais são as chamadas orações subordinadas, que servem para exercer as funções, anteriormente mencionadas, de substantivos, adjetivos e advérbios, quando estes ou não existem formalmente ou, se eventualmente existentes, são insuficientes para expressar o que se deseja.
(a) Orações subordinadas substantivas - são as que desempenham o papel de substantivo, na função de sujeito ou de objeto. Exemplo:
“Percebi que ela esqueceu a minha recomendação.”
O autor da frase não encontrou um substantivo que expressasse o que ele quis dizer com a oração subordinada substantiva “que ela esqueceu a minha recomendação.” Poderia ter usado, por exemplo, uma alternativa como “percebi o esquecimento”, o que seria insuficiente para exprimir o que foi dito, ou, alternativamente, “percebi o esquecimento dela a respeito da minha recomendação”, o que, sobre arruinar o estilo, não traria nenhuma economia de palavras.“Que ela esqueceu a minha recomendação” é uma oração (subordinada substantiva) que o orador pôs no lugar de um substantivo necessário ao seu discurso, mas inexistente.
(b) Orações subordinadas adjetivas - são as orações que desempenham o papel de adjetivo, na sua função de qualificar o substantivo. Exemplo:
“O professor que nunca ri desapareceu misteriosamente.”

No exemplo acima o orador não encontrou um adjetivo que expressasse o que ele quis enunciar com a oração subordinada adjetiva “que nunca ri”. Poderia ter dito professor “carrancudo” ou professor “triste”, expressões que, entretanto, não traduzem com fidelidade o que foi dito e até diferem entre si. “Que nunca ri” é uma oração que está no lugar de um adjetivo inexistente, mas necessário ao discurso do orador.
(c) Orações subordinadas adverbiais - são as que desempenham o papel de advérbios, na sua função de exprimir as circunstâncias. Exemplo:
“Chovia quando despertei.”
Ao autor do enunciado acima não ocorreu nenhum advérbio que expressasse o que ele quis informar com a oração subordinada adverbial “quando despertei”. Poderia, alternativamente, ter dito “chovia cedinho” ou “chovia pela manhã”? Sim, se ele tivesse entendido que uma dessas alternativas, caso lhe ocorresse, era equivalente ao que ele enunciou. Não foi o caso, e ele se valeu de uma oração subordinada adverbial, no caso, temporal. “Quando despertei” é uma oração criada pelo orador para ocupar o lugar de um advérbio necessário à completude do verbo, que, entretanto, não existia ou não lhe ocorreu.
(continua em 23 de março)
sábado, 12 de março de 2011
BLOOMSDAY, O DIA DE LEOPOLD BLOOM
MALDIÇÃO NO TÚMULO
Um dia Laura resolveu falar sobre o “Ulisses”, de James Joyce, tudo porque lhe disse despretensiosamente que não entendia por que aquela leitura era tão demorada.
- E tudo se comprime num único dia, o 16 de junho de 1904.
- Um único dia, em oitocentas páginas?
- É o dia de Leopold Bloom. Bloomsday, Carlinhos, o único dia da história que tem um dono.
- Deixa-me memorizar, 16 de junho de 1904.
- Foi o que a senhorita Dunne datilografou, e era uma quinta-feira.
- Em todas as folhinhas?
- Em todas as folhinhas da Irlanda, pelo menos.
- Mas, afinal, que faz essa leitura ser tão demorada?
- Às vezes a gente tem de consultar outras obras para conferir como se deu o fim de Pirro ou tem de folhear volumes shakespearianos para saber que "Perdita" não é nenhuma personagem que se perdeu na "Tempestade", nem uma bruxa de "Machbeth". Desafios numerosos ao longo dessas oitocentas páginas.
- Muito interessante isso, saber o fim de Pirro e sobre "Perdita". E quem era "Perdita", afinal?
- A filha de "Leonte" e "Hermíone", em "Conto de Inverno", que foi rejeitada pelo pai ciumento. Quanto a "Pirro", há uma versão de que morreu porque lhe atiraram uma telha na cabeça, na cidade de Argos.
- Morrer assim não deixa de ser uma vitória... do azar.
- Uma vitória de Pirro...
- Você me disse uma vez que "Ulisses" tem passagens deliciosas. Cite uma...
- O nome de Anne Hathaway, mulher de Shakespeare, pode dar um trocadilho malicioso, “Anne hath a way”.
- Isso é um trocadilho malicioso?
- Sim, “Anne tem um caminho”. Uma insinuação de que a mulher de Shakespeare lhe era infiel. Isso teria a ver com a maldição que Shakespeare mandou inscrever no túmulo.
- Pode esclarecer isso? Como era a inscrição?
- Veja aqui esta ilustração:
"Bom amigo, pelo amor de Deus, abstenha-se
De cavar sobre o pó aqui encerrado:
Abençoado seja o homem que alhear-se destas pedras
E maldito, o que mexer nos meus ossos."
- Uma maldição no túmulo do maior de todos os poetas. Que tem a ver isso com a fidelidade da mulher?
- Não queria que a mulher fosse enterrada a seu lado, essa a insinuação de Joyce.
Tudo muito erudito, e eu ficava satisfeito de saber essas coisas, pois a questão da cultura já se tornara importante para mim. Tanto que ainda insistiria com Laura sobre esse tema.
Um dia Laura resolveu falar sobre o “Ulisses”, de James Joyce, tudo porque lhe disse despretensiosamente que não entendia por que aquela leitura era tão demorada.
- E tudo se comprime num único dia, o 16 de junho de 1904.
- Um único dia, em oitocentas páginas?
- É o dia de Leopold Bloom. Bloomsday, Carlinhos, o único dia da história que tem um dono.
- Deixa-me memorizar, 16 de junho de 1904.
- Foi o que a senhorita Dunne datilografou, e era uma quinta-feira.
- Em todas as folhinhas?
- Em todas as folhinhas da Irlanda, pelo menos.
- Mas, afinal, que faz essa leitura ser tão demorada? - Às vezes a gente tem de consultar outras obras para conferir como se deu o fim de Pirro ou tem de folhear volumes shakespearianos para saber que "Perdita" não é nenhuma personagem que se perdeu na "Tempestade", nem uma bruxa de "Machbeth". Desafios numerosos ao longo dessas oitocentas páginas.
- Muito interessante isso, saber o fim de Pirro e sobre "Perdita". E quem era "Perdita", afinal?
- A filha de "Leonte" e "Hermíone", em "Conto de Inverno", que foi rejeitada pelo pai ciumento. Quanto a "Pirro", há uma versão de que morreu porque lhe atiraram uma telha na cabeça, na cidade de Argos.
- Morrer assim não deixa de ser uma vitória... do azar.
- Uma vitória de Pirro...
- Você me disse uma vez que "Ulisses" tem passagens deliciosas. Cite uma...
- O nome de Anne Hathaway, mulher de Shakespeare, pode dar um trocadilho malicioso, “Anne hath a way”.
- Isso é um trocadilho malicioso?
- Sim, “Anne tem um caminho”. Uma insinuação de que a mulher de Shakespeare lhe era infiel. Isso teria a ver com a maldição que Shakespeare mandou inscrever no túmulo.
- Pode esclarecer isso? Como era a inscrição?
- Veja aqui esta ilustração:
"Bom amigo, pelo amor de Deus, abstenha-se De cavar sobre o pó aqui encerrado:
Abençoado seja o homem que alhear-se destas pedras
E maldito, o que mexer nos meus ossos."
- Uma maldição no túmulo do maior de todos os poetas. Que tem a ver isso com a fidelidade da mulher?
- Não queria que a mulher fosse enterrada a seu lado, essa a insinuação de Joyce.
Tudo muito erudito, e eu ficava satisfeito de saber essas coisas, pois a questão da cultura já se tornara importante para mim. Tanto que ainda insistiria com Laura sobre esse tema.
terça-feira, 8 de março de 2011
MANUEL BANDEIRA

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!
Não sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocência.
Antes da minha pubescência
Sabia todos os segredos...
Fui de um... Fui de outro... Este era médico...
Um, poeta... Outro, nem sei mais!
Tive em meu leito enciclopédico
Todas as artes liberais.
Aos velhos dou o meu engulho.
Aos férvidos o que os esfrie.
A artistas, a coquetterie
Que inspira... E aos tímidos - o orgulho.
A estes, caçoo-os e depeno-os:
A canga fez-se para o boi...
Meu claro ventre nunca foi
De sonhadores e de ingênuos!
E, todavia, se o primeiro
Que encontro fere toda a lira,
Amanso. Tudo se me tira.
Dou tudo. E mesmo... dou dinheiro...
Se bate, então como o estremeço!
Oh, a volúpia da pancada!
Dar-me entre lágrimas, quebrada
Do seu colério arremesso...
E o cio atroz se me não leva
A valhacoutos de canalhas...
É porque temo pela treva
O fio fino das navalhas...
Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1886-1968)
sábado, 5 de março de 2011
DRUMMOND EM TEMPO DE MADUREZA
A Flor e a Náusea

Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado.
Campo de Flores

Deus me deu um amor no tempo de madureza, quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
O Quarto em Desordem

Na curva perigosa dos cinquenta derrapei neste amor.
Apelo a Meus Dessemelhantes em Favor da Paz

Poupem-me, por favor ou desprezo, se não querem me poupar por amor.


Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado.
Campo de Flores

Deus me deu um amor no tempo de madureza, quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
O Quarto em Desordem

Na curva perigosa dos cinquenta derrapei neste amor.
Apelo a Meus Dessemelhantes em Favor da Paz

Poupem-me, por favor ou desprezo, se não querem me poupar por amor.

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