sábado, 22 de janeiro de 2011

MULHERES GENIAIS (I de III)

Hipácia de Alexandria, mártir da ciência

Hipácia (370- 415), filha do professor Teon, da Universidade de Alexandria, foi educada por seu pai para ser uma mulher perfeita.Tornou-se filósofa, matemática e astronôma, para além de ser considerada a maior oradora de seu tempo. A ela atribui-se a invenção do astrolábio e do planisfério, que são instrumentos usados na Astronomia, e de um hidrômetro, usado na Física. Seu talento para ensinar Astronomia, Filosofia e Matemática atraía admiradores de todo o império romano, tanto pagãos como cristãos. Consta que era constantemente procurada por matemáticos de todo o mundo para encontrar a solução de problemas que não conseguiam resolver.


Obcecada pela Matemática e pelo processo de demonstração lógica, exercia grande influência nos meios filosóficos alexandrinos, tentando unificar o pensamento matemático de Diofante com o neoplatonismo de Plotino.

- Pensar errado é melhor do que não pensar, afirmava Hipácia para seus alunos.

Sua devoção à ciência foi o motivo de sua trágica morte, pois Cirilo, o patriarca de Alexandria, começou a perseguir os seguidores de Platão, aos quais chamava de “hereges”, e colocou Hipácia no topo da lista de pessoas indesejáveis.


Cirilo

Hipácia representava uma ameaça por defender a Ciência e o Neoplatonismo, para além de ser mulher, e muito bonita, o que exacerbava todos os ânimos e aumentava a intolerância contra ela. Numa época em que se procedia à marginalização das mulheres nas funções do poder, uma pagã assumia o símbolo da sabedoria e concorria com as autoridades religiosas da sua cidade. Como admitir que uma mulher pregasse em suas aulas que o Universo era regido por leis matemáticas?

Alexandria

Insuflados pelo patriarca, fanáticos tresloucados investiram contra ela, no ano de 415, num dos episódios mais lamentáveis da história da humanidade, que foi assim descrito pelo historiador inglês Edward Gibbon:

"Num dia fatal, na estação sagrada de Cuaresma, Hipácia foi arrancada de sua carruagem, despida e arrastada nua para a igreja, onde foi desumanamente massacrada pelas mãos de Pedro, o Leitor, e sua tropa de fanáticos selvagens e impiedosos. A carne foi esfolada de seus ossos com ostras afiadas
e seus membros, ainda palpitantes, foram atirados às chamas".


Acredita-se que a obra de Hipácia tenha incluído importantes estudos sobre a Aritmética de Diofante, as Cônicas de Apolônio e o Almagesto. Nada, porém, chegou até nós, talvez como conseqüência da destruição da biblioteca de Alexandria, no ano 642, pelos árabes do General Amr Ibn Al As, que conquistaram o Egito sob o comando do Califa Omar. A partir do episódio de Hipácia, Alexandria perderia o seu esplendor e o Ocidente iria mergulhar no obscurantismo e nele permanecer durante vários séculos.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

POETÂNCIAS

"EU", POR ELES


('É porque nada sou que tudo sinto!' - Augusto Frederico Schmidt)



EU, que faço versos como quem morre...

EU, que perdi o bonde e a esperança...

Bandeira e Drummond

EU, que nada posso lhes prometer, a não ser sangue, suor e lágrimas...

EU, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas...

EU, que te peço perdão por te amar assim tão de repente...

EU, que te quero verde, verde vento, verdes ramas...

Federico García Lorca

EU, que te direi as grandes palavras...


EU, que ganhei (perdi) meu dia...

EU, que guardo no peito a imagem querida do mais verdadeiro, do mais santo amor...

EU, que trago-te flores - restos arrancados da terra que nos viu passar unidos e ora mortos nos deixa, e separados...


EU, uma educação pela pedra, por lições, para aprender da pedra, frequentá-la...

João Cabral de Melo Neto

EU, que serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História...

EU, palhaço das perdidas ilusões...
Orestes Barbosa
EU, que até morrer estarei enamorado de coisas impossíveis...

EU, que errei, fui homem...

EU, que na curva perigosa dos cinquenta derrapei neste amor...

EU, que comigo me desavim, não posso viver comigo, nem posso fugir de mim...

Sá de Miranda

EU, eunuco, reles, verme, incauto e sagaz...

EU, que comecei a morrer muito antes de ter vivido...

EU! Ai do que em mim me chamo EU!

EU? EU sou o Incriado de Deus, o demônio do bem e o destinado do mal, mas EU nada sou!

Vinícius


Observação do gozador,
no quadro-negro

- EU, filho do carbono e do amoníaco, já Bocage não sou!


C + CO(NH2)2


sábado, 15 de janeiro de 2011

POETA POR UM DIA

Walter Raleigh e Florbela Espanca



- Pode bater, homem, pode bater!

Walter Raleigh, o grande herói britânico, escreveu uma poesia-epitáfio pouco antes de ser decapitado a machadadas, a qual tive a ousadia de traduzir:

Assim é o Tempo, que toma com desdém
Juventude e alegria, as coisas que a gente tem,
E nos retribui, sim, mas com velhice e poeira;
Ele, o cujo, na morada escura e derradeira,
Perdido nosso rumo e sem nenhum caminho,
Vai calando nossa história de mansinho:
Mas da terra, da sepultura e do pó, em meio,
A mim o Senhor me resgatará, eu creio.

Uma certeza que me acompanha existência afora, nem sei exatamente por quê, é a de que todo mundo acaba fazendo alguma poesia, mesmo que seja umazinha só, mirrada e despretensiosa. Talvez, assim como Raleigh, na hora da morte. Serei uma exceção a essa regra, eis o que eu pensava, pois sempre estive certo de que não tenho nenhuma afirmação abrangente a fazer, nem para os amigos, nem sobretudo para a humanidade.

- Gosto dos versos dos grandes poetas, neles muitas vezes me vejo refletido, mas falta-me talento para a arte. Embora apreciador das iguarias, nunca me atreverei a cozinheiro.

Asim eu pensava. Devo confessar que esse foi mais um engano de minha parte. Pois, no desespero do mal-entendido que me fizera perder a namorada, chegou minha vez de ser poeta por um dia, e outro dia registrei no papel vinte versos que brotaram de uma só vez na minha mente. Neles confessava meu amor, abrindo-me como se fosse uma Florbela Espanca.

- Procurei o amor que me mentiu

Essa poesia tem de ser mostrada, imaginei, ou deve ir para a lata do lixo. Foi por isso que pensei em ir ao Museu, procurar May e depor-lhe o meu amor. Uma declaração de amor, seguida de uma declamação, de acordo com um teatro que cheguei a ensaiar.

- Fiz uma poesia para você, veja aqui, os primeiros versos da minha vida. Versos ruins, sem dúvida, o que não tem nenhuma importância, nem consequência. Porque não sou poeta, May, mas um homem confessando o seu amor.

Não era tão simples, todavia. Para ir ao Museu, teria de encarar, e vencer, minhas resistências intestinas, meu constrangimento e o horror que padeço pelo vexame. Vou amanhã, não, melhor não, terça-feira é mais apropriado, vou depois de amanhã, quem sabe vou, quem sabe não vou. Até que, tudo aferido e sopesado, prevaleceu meu recato e acabei não indo. Frustrou-se desse modo a minha primeira iniciativa de tentar chegar até a May.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

EFEITO-BORBOLETA

Minha cachorrinha

O acaso decide muita coisa ou, explicando melhor, um incidente corriqueiro pode ter consequência importante, quer nos fenômenos naturais, quer na vida das pessoas. Um exemplo: o Benício deve sua existência à gripe de um carteiro. Deve, sim. Por causa da gripe, a carta não seguiu; por causa da carta que não chegou, Ismael não foi avisado e não compareceu; por causa do Ismael, que não veio,Tereza chorou; João decidiu consolá-la, namorou-a, casou-se com ela e o Benício nasceu.

- Há, portanto, uma condição inicial, irrelevante para todo mundo, mas fundamental para a existência do Benício: a gripe do carteiro.

Para os mais exigentes, o assunto também pode ser tratado cientificamente, dentro de um tópico chamado de “Ciência do Caos”, que procura ordens e padrões nos fenômenos complexos da natureza. Em 1966, o Professor Edward Lorentz, do MIT, publicou um artigo intitulado “Previsibilidade: o bater de asas de uma borboleta no Brasil provoca um tornado no Texas?”. Nele introduziu a teoria do “efeito-borboleta”, uma formulação que mostra matematicamente que pequenos acontecimentos podem ter consequências importantes na explicação dos fenômenos. Foi aquele sopro, a casca de banana, o pneu furado, a bola arremessada para a lateral, a gripe do carteiro, cujos efeitos, ampliados segundo relações não-lineares, exacerbam as consequências, às vezes provocando tornados ou, às vezes, dando vez ao Benício.

- Gripe do carteiro ou efeito-borboleta, seja lá o que for, há também um acaso importante, e definitivo, na minha história com May.


Saíamos certa noite do motel, quando uma desconhecida, irrompendo do nada, deu um empurrão em May e passou a gritar comigo, num gesto de pura alucinação. Confesso constrangidamente que tenho cara de sósia, do tipo mais genérico e vulgar, tantas vezes já me confundiram com outras pessoas. Nunca, porém, o mal-entendido me veio com tanto fervor e destempero.

- Pensa que a coisa vai ficar assim, seu cretino? Você me deixando por essazinha, aí? Não adianta tirar a barba, nem o bigode, que eu te reconheço debaixo de qualquer disfarce, mesmo fantasiado de satanás ou de vice-rei da Catalunha! Eu irei atrás de você até as profundezas do inferno!

De um lado, a mulher equivocada, com sua fúria e desespero, e, do outro, eu, um homem desconcertado, sem saber o que fazer, nem como reagir.


- Mas quem é a senhora?

- Não sabe quem sou eu, essa é boa, muito boa! E, além de tudo, me chamando de senhora! Você sempre me chamou de minha cachorrinha, não se lembra não, seu cretino?


Haja efeito-borboleta para explicar aquela mulher! Cada vez mais desorientado, só a custo me desvencilhei da desvairada. Quase uma libertação. Quase, não mais que isso, pois logo constatei que May havia abandonado o local, desaparecendo completamente.

- À perplexidade daquele momento juntou-se a decepção que se seguiu.

May recusou-se a atender aos meus telefonemas. Não sei se doeu mais a separação ou se a lógica absurda na qual se baseou. Semanas a fio senti uma terrível sensação de impotência, a de um inocente condenado por causa de um lamentável mal-entendido, inerme e inerte diante de um tribunal chamado May, a mulher que eu amava. Que ouviu uma acusação contra mim, de nenhum fundamento, julgou-me e condenou-me, sem sequer conceder-me a generosidade de me ouvir.

sábado, 8 de janeiro de 2011

UMA FESTA DE INTELECTUAIS

SHAKESPEARE E O DENTISTA

Sobravam no ambiente elegância e refinamento. Angelina Soares declamou a poesia “Congresso no Polígono das Secas (ritmo senador; sotaque sulista)”, de João Cabral de Melo Neto. A seguir, os líricos Beniamino Prior e Katia Ricciareli, que então visitavam o Rio de Janeiro, cantaram, à capela, “Parigi, o cara, noi lasceremo”, da Traviata. Completando, houve um torneio de mágicas, muito divertido, e até hoje não sei explicar por quê, nem como, a dama de ouros, dividida em quatro, foi parar, toda reconstituída, na bolsa da Valéria Castegliani.

Mais divertido, porém, foi o sorteio para escolher quem iria propor um enigma relacionado com Shakespeare e suas personagens, ficando a impressão de que quase todos estavam com suas histórias muito bem preparadas. A sorteada foi uma escritora chamada Alice Ben-dov. A história que narrou era sobre um dentista do Leblon, o qual certo dia recebeu uma carta para lá de esquisita:

“Silvestrini, você não passa de um dentista idiota, pois ignora sua própria história. Se desejar conhecê-la, almoce amanhã no Humphrey’s, exatamente à uma. Como você está familiarizado com Shakespeare, se olhar para baixo, saberá o porquê... Tiago Lessone.”


Eis o que Silvestrini pensou dessa carta: “Sou idiota, como não, e muito obrigado por manifestar sua abalizada opinião. Ignoro a minha história? Almoçar à uma, no Humphrey’s? Ora, pois! Como conheço Shakespeare, só por isso, basta olhar para baixo... Para ver a rua? Alguma sorveteria do Hamlet, com picolés da Dinamarca, ou o Rei Lear, com seus bolinhos de bacalhau e geladeiras de segunda mão? Muito barulho por nada? Algum mercador de bugigangas importadas? Ou será a jaqueira do nosso playground? Peço-lhe, querido bardo, a gentileza de informar ao senhor Tiago Lessone, seja ele quem for, que olhei para baixo e, para minha grande surpresa e desorientação, lá estavam os meus pés, em número de dois, calçando sapatos pretos de tamanho 41, assentados tranquilamente sobre o chão do meu consultório, e, mais abaixo, adiante, uma avenida dividida por um canal ornado de flores e de garças elegantes. Peço-lhe, mais, que informe ao Lessone que não tenho nenhum tempo, nem disposição, para comparecer ao Humphrey’s”.

Dias depois, o dentista recebeu outra carta:


“Silvestrini, você não deu importância à minha carta e não compareceu ao Humphrey’s. Sua história não lhe interessa? Segunda chance, amanhã, no Humphrey’s, às 13 horas. Olhe para baixo! Tiago Lesst.”


Havia uma mudança, logo percebida pelo Silvestrini, pois o sobrenome, Lessone, fora trocado para Lesst. Pela segunda vez decidiu não fazer nada. Houve, poucos dias depois, uma terceira carta, recomendando mais uma vez que comparecesse ao Humphrey’s. Só que desta vez a assinatura mudara para Tiago Lessfirst.

No Humphrey's

Tudo muito esquisito... Silvestrini pensou longamente nos três sobrenomes do Tiago, entendeu o recado e decidiu comparecer ao Humphrey’s na hora sugerida pela terceira carta. E lá encontrou sua mulher abraçada com um amante. O dentista não é um homem de grandes explosões, mas acabou separando-se da mulher.

- Por que Silvestrini atendeu à terceira carta?, eis o enigma, arrematou Alice, dirigindo-se aos presentes.


Os convidados tinham trinta minutos para desvendar a história. Houve, no início, muito palpite, desorientação e manifestações equivocadas. Depois, todos permaneceram em silêncio, e tão longa foi a pausa que tive a impressão de que ninguém chegaria à solução. Quando já se encerrava o prazo, entretanto, Susana de Malta, que é tradutora juramentada e mora na Aristides Espínola, apresentou a solução do enigma:

- A instrução de olhar para baixo tinha a ver com o sobrenome cambiante. Não era para olhar os sapatos ou para a rua, mas a parte de baixo da carta, ou seja, a assinatura do Tiago. Tiago “Lessone” é Tiago sem “one”; Tiago “Lesst” é Tiago sem “T”; e Tiago “Lessfirst” é Tiago sem a inicial. Três informações na mesma direção, pois Tiago sem a inicial é Iago. Sim, Iago, a personagem pérfida que insinua para Otelo que Desdêmona tem um romance secreto com Cássio. Na tragédia de Shakespeare, Otelo acredita na intriga e, possuído pelo demônio do ciúme, estrangula Desdêmona e se suicida.


Kiri Te Kanawa, como Desdêmona

- Compreendemos muito bem, ou seja, uma recorrência shakespeariana como forma de alertar sobre a mulher. Silvestrini só entendeu, afinal, porque conhecia a obra de Shakespeare, o que significa que cultura, entre outras nobres finalidades, também serve aos maridos enganados.

- Serve muito, observou Alice. Silvestrini teve mais bom senso que Otelo. Quero dizer, foi menos radical...


- Só que no caso do Silvestrini a denúncia era verdadeira, ao contrário do que ocorre na tragédia de Shakespeare.

- Mais uma agravante contra Otelo. Esse Humphrey’s deve ser um lugar elegante...

- Sim, os clientes fazem as reservas com antecedência, o que permitiu as cartas antecipadas do Tiago sem T para o dentista. E tem mais...O Tiago sem T, se não for o gerente responsável pelas reservas, tem acesso a elas, creio eu.


- E, além disso, conhece Shakespeare...


- Tudo é possível numa história virtual...

Alice e Susana receberam xilogravuras do Scliar, como prêmio. A festa ainda prosseguiu e encerrou-se depois de algumas projeções coloridas do sítio arqueológico de Epidauro, um santuário situado a nordeste do Peloponeso.

Peloponeso, no sul da Grécia

-May...

- Vai me perguntar onde fica o Peloponeso?

- Não, não. Quero apenas dizer que essa turma sabe se divertir.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

UM ROMANCE DE CAMUS

Estrangeiro de si próprio

Camus

Uma semana depois May me ligou novamente, sempre com boas iniciativas.

- Já tenho os ingressos.

- Mas qual o filme?

- Isso também é importante. O Estrangeiro, baseado num romance de Albert Camus.

Nota dez para a May, outra vez. O senhor Meursault decide ir ao enterro da mãe, cuja idade desconhece. Sei lá, sessenta anos. Encontra-se depois com Marie Cardona e vê um filme de Fernandel; Mersault se relaciona com um vizinho, Salamano, que tem um cachorro nojento; e com outro, Raymond Sintès, que é cafetão e tem o hábito de espancar a mulher até o sangramento.


No domingo, Meursault, Marie Cardona e Raymond Sintès vão para a casa de praia de Masson, um amigo de Raymond. Dois árabes atacam Raymond na praia, pois querem vingar-se da surra que deu na prostituta. São repelidos por Raymond e Masson, que, a seguir, voltam para casa. Meursault passeia pela praia sozinho e avista um dos árabes, que exibe a faca, mas sem nenhuma atitude agressiva. Era só Meursault voltar também para casa, e tudo estaria terminado. Mas havia o sol na cara. Mersault atira, e o árabe tomba, fulminado. Depois atira mais quatro vezes contra o corpo inerte do homem caído. O advogado, o juiz e o promotor tentam entender o gesto de Mersault, que, de fato, nunca se arrepende de nada porque é dominado pelo que vai acontecer.

- Eu matei o árabe por causa do sol.

O capelão insiste em falar com o senhor Meursault, pois precisa conquistar sua alma de condenado à morte.



- Deus irá ajudá-lo, Meursault.

- Não quero que ninguém me ajude, e me falta tempo para me interessar pelo que não me interessa.

Uma obra de Camus, mostrando, numa reflexão sobre o absurdo, um homem que se estranha, estrangeiro de si próprio.


- Bota esquisito nisso...

- Muito esquisito.

- Bota esquisito nisso, Carlinhos.

sábado, 1 de janeiro de 2011

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Um pouco do "Resíduo"
(muito pouco)

De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.

Dos gritos gagos.

Da rosa ficou um pouco.
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato se cobriu.

Ficaram poucas roupas, poucos véus rotos,
pouco, pouco, muito pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco do teu queixo no queixo de tua filha. De teu áspero silêncio um pouco ficou, um pouco nos muros zangados, nas folhas, mudas, que sobem.

Se de tudo fica um pouco, mas por que não ficaria um pouco de mim? No trem que leva ao norte,
no barco, nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
Na consoante? No poço?

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

TÉDIO

UM LUGAR AO SOL


Dizia Heráclito de Éfeso que tudo está em permanente fluição, transformando-se a cada instante, tanto que a você não é dado entrar pela segunda vez no mesmo rio. Este já não será o mesmo, nem você.

- Foi o que sucedeu conosco.


Pois é, oito anos são suficientes para qualquer pessoa mudar, do primeiro ao último átomo, inexorável e definitivamente. Com o passar do tempo, Cecília e eu nos tornamos outros, não outros quaisquer e ocasionais, mas outros consumados, consumadíssimos. Nossas conquistas profissionais e materiais aos poucos passaram a não representar mais que uma higiene, a não nos garantir nenhum prazer nem estabilidade: uma higiene que de certo modo até nos desunia. Além disso, os prazeres da cama vão diminuindo lenta e progressivamente, e tenho para mim que não há comunhão de almas e união estável que não sejam garantidas a golpes de paixão e de volúpia. No início, lá atrás, eu queria um filho, mas Cecília me dissuadiu, pois filhos não se compatibilizavam com a dinâmica dos negócios, que sempre se opõem à normalidade da vida familiar. Bastava ver que éramos obrigados a constantes viagens ou a compromissos intermináveis e exaustivos.

De repente, passados os anos, decidiu mudar de ideia, e foi a minha vez de vetar a iniciativa. Ela, uma mulher especialmente inteligente, não se deu conta da irresponsabilidade que seria gerar um filho num casamento que definhava, anódino e desaquecido.

- Devemos continuar pensando com calma sobre esse assunto, Cecília. Vivemos num ritmo muito profissional, que teria de se alterar de forma importante antes de introduzir mais alguém no nosso espaço.

Tédio, quem sabe o tédio não seja exatamente isso?
Não sei, com efeito, das razões objetivas da nossa separação, se é que existiram. Creio que isso é tarefa para psicólogos e psicanalistas, essa gente que entende de alma e sabe como sondar o que temos de profundo e impenetrável. Nos meus insights amadores, concluí prosaicamente que no casamento cada um entra com sua quota de renúncia; são coisas banais, que incomodam, mas seguem toleradas porque o benefício da união é maior que os custos envolvidos. Ceder espaços, conviver com os pequenos defeitos recíprocos, não ter direito à solidão, discutir o que se quer fazer, e também o que não se quer fazer, são miudezas e futilidades que se acumulam ao longo do tempo e paulatinamente vão alterando a equação do casamento. Cecília se aborrecia quando voltávamos antecipadamente de Cabo Frio, na noite de sábado, quando eu tinha um desafio de tênis no domingo de manhã; reclamava das minhas reuniões de trabalho, quase todas as terças, a varar pela madrugada; e do chope, que eu tomava com os amigos nas noites da última quinta-feira de cada mês.

Mas eu também não cedia? Perdi o filme do Ettore Scola para ver Antonio Banderas e, ora pois, a partida final do campeonato para esperar tia Amália no aeroporto, e muitas vezes aturei intermináveis conversas sobre modas e percorri exposições que não me despertavam nenhum interesse. Ah, tive até de suportar um estilista americano, que ficou espantado quando percebeu que o Rio de Janeiro está mais para Nova York do que para Floresta Amazônica.

- Floresta Amazônica?

- Sempre pensei que o Brasil fosse uma ilha no rio Amazonas, infestada de índios e jacarés, mas cheia de cafezais, escolas de samba e mulheres de biquíni.

- Sim...

- Ao sul de Buenos Aires e ao norte de Copacabana.

A isso, tudo acumulado, costumo chamar de fadiga de material, pois não vejo outras razões no contexto da nossa separação. Isso mesmo, na nossa contabilidade conjugal não relaciono nenhum cristal quebrado, nem mágoas ou ressentimentos fundamentais. Rousseau, se me acudisse com alguma de suas autorizadas explicações, talvez atribuísse essa separação improvável à independência financeira dos parceiros, pois só a necessidade consolida e mantém a família; a não-necessidade opõe-se à sua estabilidade, ao tornar o desenlace fácil e operacional. Não descarto, porém, a hipótese de que esteja a malversar o desconcertante Rousseau, cuja obra li, anos atrás, de forma apressada e descomprometida.


Progressão é progressão, e um dia o custo ultrapassa o benefício. Até que ela me veio com aquela história de Montgomery Clift e Shelley Winters, um amor que teve de fenecer para ensejar outro amor, maior e renovado; eu merecia, assim também, encontrar minha Elizabeth Taylor, pois a mim não me faltavam os atributos para um merecido lugar ao sol. Foi assim, civilizadamente assim, que me comunicou que nosso casamento já não lhe interessava. Eu me esquivei de produzir uma ironia, a de lembrar que nessa história do lugar ao sol o personagem de Montgomery Clift terminou sendo arrastado para a cadeira elétrica. Achei, isto sim, que estava sendo protegido pela sorte, pois separar-me era tudo o que então desejava e, pelo que conheço de mim, se minha tivesse sido a iniciativa, mais um remorso teria para administrar.

- Pode ficar com a minha parte.

- Claro que não, Carlinhos.

Ela ficou com a casa no Itanhangá, o único bem material que tínhamos em comum, e me compensou com dinheiro bastante para um apartamento no Leblon. Uma derradeira convivência ainda nos tocou, sem nenhuma animosidade ou irritação. Que nem fariam sentido na nossa história, da qual a separação foi apenas um capítulo necessário. Estranho, porém, foi continuar transitando mais quarenta dias pelos caminhos da casa, pois nenhum cenário permanece neutro, nem impune, em face de um amor exaurido. Até a arte perde o sentido, as cores se esmaecem e, para dizer a verdade, nunca vi a menor graça naquela cortina da sala de visitas, lilás, isso mesmo, lilás, e em momento algum estive de acordo com a moldura que escolheu para o Böcklin que arrematamos no leilão da Bartolomeu Mitre.

Nem mesmo um telefonema ou um protocolar cartão de despedida. Pois um deixou de existir para o outro, aquele estágio na relação de duas pessoas que, para Octavio Paz, poderia chamar-se de nenhumação. No nosso caso, seria mais apropriado falar em nenhumação recíproca, que é a arte de inexistir daqui para lá e de lá para cá...

sábado, 25 de dezembro de 2010

DRUMMOND


Cemitério de Bolso


Do lado esquerdo carrego meus mortos.
Por isso caminho um pouco de banda.


Carlos Drummond de Andrade, 1954

sábado, 18 de dezembro de 2010

CORA CORALINA E CABRAL

ORAÇÃO DO MILHO


Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.
Sou a farinha econômica do proletário.
Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha.
Alimento dos porcos e do triste mu de carga.
O que me planta não levanta comércio, nem avantaja dinheiro.
Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.
Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal agradecida a Vós, Senhor, que me fizestes necessário e humilde.
Sou o milho.

Cora Coralina (1889-1985)


A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;

captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria

ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:

lições de pedra (de fora para dentro,

cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).

No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;

lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.



João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999)