sábado, 14 de agosto de 2010

LEIS DE PARKINSON

PRINCÍPIO DA BANALIDADE



As tomadas de decisão nos órgãos colegiados foram estudadas por Cyril Northcote Parkinson(1909-1993), aquele da Lei de Parkinson, cujo Princípio da Banalidade, alusivo a essa questão, tem o seguinte enunciado:

"O tempo despendido nas discussões de cada item de uma reunião diminui quando aumenta o custo monetário envolvido."

Em seu livro, Parkinson mostrou o comportamento de um órgão colegiado de uma instituição inglesa, que na mesma reunião discutiu a aquisição de um reator atômico, no valor de 10 milhões de dólares, a construção de um galpão para estacionamento de bicicletas dos operários, no valor de 2.350 dólares, e uma autorização para serviço de cafezinho, com custo de 4,75 dólares por mês. Os dólares mencionados referem-se a 1957.
O tempo para decidir sobre o reator, cuja proposta estava instruída por estudos técnicos e pareceres diversos, foi de apenas 2,5 minutos, pois os encarregados da decisão entendiam pouco de reatores atômicos e de suas finalidades, não registrando a ata da reunião nenhum comentário sobre o projeto ou objeção a ele. Desse modo, o reator foi aprovado.

Por sua vez, o galpão das bicicletas tomou do colegiado o tempo de 45 minutos, uma vez que todos quiseram comentar os aspectos sociais envolvidos, as vantagens dos tetos de ferro galvanizado sobre os de alumínio, o tipo de pintura do galpão, os benefícios de pedalar para a saúde dos empregados e a possibilidade de surgir algum ciclista campeão, o que seria muito bom para a imagem da organização. O galpão foi igualmente aprovado.

O serviço de cafezinho, finalmente, provocou discussões exaustivas sobre a duração dos coffee breaks, os males e os benefícios do café, o custo do pó, o tipo de adoçante, a alternativa de servir chocolate, em vez de café, ou de servir ambos, café e chocolate, e outras questões correlatas, ficando a decisão adiada para a reunião seguinte, pois se solicitou à divisão de pessoal que acrescentasse informações que instruíssem a questão de forma adequada.

Seis horas discutindo sobre o cafezinho

Sedes Suntuosas

Outro estudo de Parkinson refere-se às sedes das organizações, sendo certo que a perfeição da estrutura é alcançada somente quando a instituição considerada já se encontra em estado de decadência ou em estado de ociosidade. A explicação é simples: durante o período de crescimento e expansão, não há tempo para se pensar em instalações perfeitas; o tempo para isso vem mais tarde, quando não houver mais trabalho importante a realizar. De fato, o Vaticano e a Basílica de São Pedro foram concluídos quando o Papado já havia perdido boa parte do seu poder; o mesmo aconteceu com a Liga das Nações, que perdeu sua importância e até deixou de existir logo após a inauguração do Palácio das Nações, em 1938; o Palácio de Versailles, que vinha sendo construído desde 1669, foi inaugurado como sede da Monarquia Francesa em 1756, a apenas 33 anos da Revolução Francesa, que exterminou a dinastia dos Luíses e a própria monarquia; assim também, o Palácio de Buckingham passou a ser a residência de uma monarquia britânica ociosa na mesma ocasião em que esta cedia seu poder a um governo parlamentar, sendo importante acrescentar que o primeiro-ministro, que tem o poder político e administrativo na Inglaterra, habita uma residência aparentemente normal, situada na Downing Street, 10; a própria Inglaterra foi varrida da Índia após construir Nova Delhi, esplêndida na concepção, impressionante nos detalhes, magistral nos planos e impressionante na escala. Ah, o Pentágono, em Arlington, na Virgínia, só ficou pronto na etapa final da II Guerra Mundial, quando já se havia concluído no mal-amanhado Edifício das Munições todo o planejamento militar dos americanos naquele conflito.


Palácio de Buckinghan

Coquitéis

Outra observação curiosa de Parkinson diz respeito ao comportamento das pessoas importantes nas festas e coquetéis. Elas chegam às reuniões entre 30 e 45 minutos após iniciada a festa, entram pelo lado esquerdo do salão, circulam-no no sentido dos ponteiros do relógio e se retiram uma hora antes do seu término.
São pessoas importantes, com efeito, as pessoas que se agrupam do lado esquerdo do salão, quase na sua parte final, 90 minutos a contar do início da festa.
Parkinson dá as explicações: a pessoa importante não entrará antes que haja um número de pessoas suficientemente grande para observar sua chegada, nem depois que outras pessoas já se foram; o sentido horário é o sentido da correnteza humana, por ser o do lado do coração; essas pessoas retiram-se antes do fim da festa, algo como 60 minutos, para que sua saída seja percebida por todos, pois querem muitas testemunhas que atestem a sua presença no evento.
Quem faz diferente não é importante.

- Vamos para o lado esquerdo...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

POR QUE VOU GANHAR NA SENA

COINCIDÊNCIAS ABUNDANTES

Seria meu primeiro dia de trabalho, após as férias. Ao caminhar pela orla, como faço todas as manhãs, avistei o cantor pernambucano Alceu Valença, que, num festival de canções de que me recordo remotamente, cantou a música “Trem de Alagoas: Vou Danado para Catende”, com letra do Ascenso Ferreira.

Após o café, passei os olhos nas principais manchetes. No primeiro caderno: “Morre o cantor Frank Sinatra”, “Mercados param no mundo à espera do pronunciamento do primeiro-ministro japonês”, “CPI investigará especulação na Bolsa de Valores” e “Trabalhador carioca entre os melhores do mundo”. Vi depois no caderno de variedades: “Manoel de Barros completa 82 anos” e “Zizi Possi lança o álbum de canções napolitanas "Per Amore”.

Vínculo claro

Eu, que já me intrigara vendo o Alceu Valença na praia, percebi um vínculo muito claro dessas notícias com o meu sonho absurdo e, entre curioso e assustado, pus-me a correlacioná-lo com os eventos que foram sucedendo a meu redor naquele dia.
De fato, quando cheguei ao trabalho, informaram-me do inesperado prejuízo do exercício e do acidente com o duplo cilindro na divisão de embalagens. Resultado: dois operários feridos. Havia divergências sobre as causas do sinistro, mas o sindicato decidira me responsabilizar judicialmente pelo ocorrido.

Ao final do dia exaustivo, o mais curioso: recebi a incumbência de comandar um jantar de negócios, oferecido pela nossa empresa a empresários franceses.


- Onde será?

- No Saint Honoré.


- Caramba!

Santo Honoré

Seguiram-se mais coincidências. Na recepção do hotel, atendeu-me uma loura, queimada de sol, muito parecida com uma das atrizes do filme no qual o Tim Roth fez o papel de criado e o próprio Tarantino desempenhou o personagem
"The Man From Hollywood", que tem o dedo decepado.

Padre Argel, um antigo professor que eu admirava por seus conhecimentos de Latim, Francês e Alemão, fora contratado pelo nosso serviço de relações institucionais e, misturado aos convidados, prestava seus serviços de intérprete remunerado. Ele me garantiu, na ocasião, que era conhecedor do Italiano, tanto o dialeto toscano quanto o napolitano. Terminado o jantar, a conta me foi trazida pela loura da recepção: sete mil reais. Sete mil reais!
No dia seguinte, porém, a nossa companhia recebeu de volta o cheque
que eu emitira, pois o Saint Honoré, sentindo-se prestigiado com o evento, decidira dispensar o pagamento: uma cortesia da casa em homenagem aos convidados franceses...

Desconstruindo o sobrenatural


Muitas, portanto, as correlações do sonho com o meu primeiro dia de trabalho. O que isso representava? Seriam desimportantes, não mais do que um mero exercício de wishful thinking? Será que, bem examinadas, as coincidências não passavam mesmo de coincidências, prosaicas simultaneidades previstas no âmbito do universo e esperadas nos termos da mecânica quântica e da relatividade geral?

Não sei como tia Estefânia e Lord Kilbracken, se ainda vivos, explicariam seus sonhos premonitórios. Com certeza nem tiveram essa preocupação.
O mais razoável para mim era desconstruir o sobrenatural. Comecei banalizando o Alceu Valença: pode-se vê-lo todos os dias, caminhando na praia do Leblon, faça sol ou esteja chovendo. Logo, sonhar com o Ascenso e ver o cantor na praia não encerra nenhuma coincidência. E mais: crise nos mercados asiáticos, CPI do Congresso para apurar coisa nenhuma e mais um lançamento de músicas napolitanas pela Zizi Possi, tudo isso são eventos igualmente corriqueiros.

Frank Sinatra devia frequentar o sonho de milhões de pessoas, pois no inconsciente coletivo se tramava sua vitória contra a enfermidade irreversível. Manoel de Barros fazer 82 anos também não constitui nenhuma aberração, pois todas as pessoas vivas que nasceram em Cuiabá em 1916 comemoram 82 anos exatamente em 1998. Carioca melhor do que japonês, quem porventura não sabia disso? Prejuízos nos balanços, acidentes nas máquinas, questões judiciais, padres que conhecem idiomas e louras dolicocéfalas nas recepções, onde a novidade? Mais uma vez o banal ganha fácil do sobrenatural.

- So far, so good...


Será isso mesmo?


Há, todavia, pormenores que não conseguirei banalizar. Sete mil reais eu entreguei à loura da recepção e sete mil reais o gerente devolveu no dia seguinte, um aporte de capital recíproco, puro equity, que eliminou todas as exigibilidades. Além disso, eu nunca havia sido designado para liderar nenhuma recepção e nunca estivera no Saint Honoré, o que me deixou com a sensação de que meu sonho violou hierarquias e inverteu por alguns instantes a seta do tempo.


Recorrendo à história e à literatura

Nostradamus

Muita gente descreveu com antecedência a tragédia do Titanic.
Sir Isaac Newton acreditava em astrologia. Nostradamus, que morreu em 1566, não faz previsões até hoje?

- Non creo en brujas, pero que las hay, las hay.


- There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of in your philosophy.


- Le coeur a ses raisons que la raison ne connait point.


Por via de todas as dúvidas


Passei a dormir com papel e caneta ao lado da cama. Quem sabe um segundo sonho, completo, cheio de peripécias e correlações banalizáveis, mas nem todas? Tia Estefânia e Lord Kilbracken foram beneficiados, mas de maneira pouco importante, numa época em que não havia sena acumulada. A qual, cavalo matreiro, sempre desencabula em favor de alguém.
Pois é, a gente nunca sabe.
..

sábado, 7 de agosto de 2010

UNIVERSO EM EXPANSÃO (2/2)

NEM EINSTEIN ACERTAVA TUDO...

A Teoria da Relatividade Geral, de Albert Einstein, apresentada em 1915, indicava que a atração gravitacional teria como consequência o colapso do Universo ("Big Crunch")
, se estivesse atuando isoladamente e em caráter exclusivo. Como nenhum colapso tem perspectiva de ocorrência, a gravidade entre as galáxias deveria estar encontrando forças contrárias, que

(1) contrabalançavam exatamente a gravidade e mantinham o Universo em equilíbrio (Universo estático);

ou

(2) excediam a gravidade e ainda determinavam a expansão do Universo.
Einstein optou pela hipótese (1), rechaçando a expansão do Universo, para o que teve a ideia de introduzir nas suas equações um efeito antigravitacional, a que chamou de constante cosmológica, que teria a missão de impedir a aproximação entre as galáxias. A constante cosmológica seria uma pressão inerente ao espaço, desprezável em distâncias curtas, mas significativa nas imensas distâncias do Universo, capaz de neutralizar a gravidade e de ser por ela neutralizada. Com esse truque, Einstein "salvava" o Universo como estático, da forma como imaginado por Aristóteles e Isaac Newton.

- O Universo é estático, ora pois.

Friedmann
Friedmann

- A solução das equações para o Universo estático é inviável

Houve, porém, o trabalho de Friedmann, em 1922, que considerou a solução da constante cosmológica instável e inconsistente. Para Friedmann, a solução correta das equações de Einstein indicava que o Universo devia estar em expansão e assim continuar indefinidamente, a não ser que em futuro muito distante a força de expansão se tornasse inferior à força da gravidade, de maneira a substituir a expansão pela contração, uma reversão que só seria possível prever se pudéssemos determinar a massa total do Universo.
Universo existe expandindo-se ou contraindo-se, nunca estático. Einstein repudiou inicialmente a tese de Friedmann, desqualificando seus cálculos. Ao fim e ao cabo, porém, e não sem constrangimento, Einstein reconheceu ser matematicamente possível o que Friedmann afirmara, insistindo, porém, que a solução do Universo estático, pela via da constante cosmológica, era não somente igualmente possível, mas a que prevalecia no nosso Universo.

Einstein
- Donde se conclui que o Universo é estático.


Edwin Hubble

Friedmann faleceu em 1925, com 37 anos, vítima de uma febre tifoide, e desse modo não ficou sabendo do resultado do seu debate com Einstein. Que veio sob a forma de uma vitória espetacular de Friedmann, não só por ser Einstein o cientista mais aclamado da história da ciência, como por ter usado no debate as equações do seu ilustre adversário.
O desfecho ocorreu em 1929, quando o astrônomo americano Edwin Hubble, trabalhando com um telescópio de cem polegadas,
no observatório de Monte Wilson, na Califórnia, percebeu que as luzes emitidas pelas 46 galáxias por ele observadas apresentavam desvios para o vermelho, ou seja, essas galáxias estavam se afastando da Terra. O mesmo Edwin Hubble que em 1923 havia feito a proeza de determinar a distância de uma cefeida, na nebulosa de Andrômeda, a 900 mil anos-luz da Terra, provando que Andrômeda é uma galáxia para além da Via Láctea, que tem, de ponta a ponta, "apenas" 100 mil anos-luz.

Efeito Doppler
Christian Andreas Doppler

O desvio para o vermelho, que torna a luz emitida mais avermelhada, decorre do que em Física se conhece como efeito Doppler: se uma fonte luminosa se afasta de um observador, o comprimento da onda da luz emitida aumenta e a luz tende para o vermelho; se a fonte luminosa se aproxima, a luz "desvia" para o azul. (Da mesma forma, se uma fonte sonora se afasta o som percebido fica mais grave; se a fonte se aproxima, o som fica mais agudo.)

Carros, `a mesma distância, mas em movimento, emitem "ré":
o observador ouve "mi", do carro que se aproxima, e "dó", do que se afasta.


Edwin Hubble

- O Universo está em expansão

Além disso, Hubble descobriu algo ainda mais extraordinário: quanto mais distante a galáxia, mais veloz é a sua velocidade de afastamento, o que ficou conhecido como "Lei de Hubble". Uma galáxia se afasta da Terra à razão de 71 quilômetros por segundo para cada megaparsec (3.260.000 anos-luz) que dessa galáxia nos separa; desse modo, uma galáxia que se situa a 10 megaparsecs da Terra desta se afasta à razão de 710 quilômetros por segundo.

Lei de Hubble: velocidade de fuga das galáxias versus distância
(cerca de 71 quilômetros por segundo/megaparsec)

Franca e decidida expansão

- É impossível acertar tudo...

A fuga das galáxias ocorre porque o nosso Universo está em expansão, conforme indicado pelas equações de Einstein, na forma corretamente interpretada por Friedmann. Derrotava-se assim o Universo estático de Aristóteles, não obstante a crença geral e o apoio que recebeu de Aristóteles, Newton e Einstein.

- O Universo em franca e decidida expansão, e você, aqui embaixo, recusando-se a me beijar, disse Woody Allen para a enfermeira.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

TARANTINO E RINTINTIN

No banco dos réus

Compareci ao tribunal com a intenção de explicar a queda nas vendas, os preços declinantes dos nossos produtos, os juros altos, os problemas da caldeira, a concorrência predatória, o aumento dos impostos, as indenizações trabalhistas e as chuvas inesperadas e inclementes, que destruíram as instalações que mantemos a céu aberto.

- Onde a culpa, se esses eventos não estavam previstos no orçamento?


Meus argumentos eram apenas um vetor da questão, pois seria necessário dar a palavra a outras pessoas, respeitando a diversidade que justifica plebiscitos e permite a existência de hipódromos.
(Neste ponto peço um voto de confiança, mínimo que seja, àqueles que tiveram a ventura de não ter estudado nem cálculo das probabilidades nem teoria da relatividade.)

O juiz ordenou que eu me sentasse respeitosamente no banco dos réus e, sem outras considerações, foi logo perguntando:

- O senhor se encontrou com a loura da praia quantos metros depois de invadir o pregão?

Meu primeiro impulso foi responder que o encontro se dera 417,6 metros depois, tanto que cheguei a exclamar:

- Meritíssimo...

Contei até dez, como sempre faço, e, num reflexo providencial, dei-me conta de que o magistrado, pela maneira como construíra a pergunta, não fazia distinção nenhuma entre espaço e tempo: conhecia, pois, a teoria da relatividade e por certo sabia muito bem que há uma física para cada observador. Eu tinha de responder àquela pergunta sem deixar prosperar nenhuma controvérsia. Não podia mentir, nem parecer que estava mentindo, pois qualquer mal-entendido seria usado contra mim.
(Para Richelieu, mentir só se necessário.)


- Meritíssimo, isso depende.

- Depende de quê?

- Depende do referencial.

O juiz deu-se por satisfeito e passou à pergunta seguinte:


- Como o senhor conheceu a loura da praia?


- Ela trabalhou num filme do Tarantino.


- Cães de aluguel?


- Pode ser, pois o filme era com o Rintintin.

O juiz, satisfeito mais uma vez, começou a interrogar as testemunhas. Foi então que o gerente do hotel me acusou de ignorar os sete mil reais que a loura da praia deixara em consignação no Saint Honoré e fora por isso obrigado a enviar a quantia para a minha residência, com todos os inconvenientes que isso acarretou. O relator da CPI, recém-chegado de Brasília, acusou-me de invadir o pregão da Bolsa de Valores, num momento de grande efervecência internacional, e de espionar os trabalhos legislativos, num dia particularmente agitado do Congresso Nacional. O padre do avião acusou-me de ter inveja de Lucio Dalla e de Ascenso Ferreira e de fazer versões contra o mártir São Sebastião, como podiam atestar os que frequentam aviões de carreira, como também os que fazem caminhadas na praia.

- Uma inveja diária, meritíssimo, uma inveja diária!


O Zé Pretinho e o Chico Pé de Ganso me acusaram de haver aceitado suas sugestões para resolver os problemas da engrenagem e da embalagem. Por minha culpa, não podiam mais queixar-se de que ninguém aceitava suas sugestões. A loura da praia aproveitou o ensejo e me acusou de haver insinuado que ela tinha um caso com o Tim Maia, só porque trabalhara num filme do Quentin Tarantino, que positivamente não era Cães de Aluguel.


O juiz acusou-me de litigação prevaricativa.
(Sem saber o que isso significava, fui depois ao Aurélio e fiquei sabendo que “litigação” e “prevaricativa” são palavras não relacionadas na norma culta. O juiz laboraria melhor se se expressasse em latim, tachando-me de "improbus litigator"...)

Em seguida, o magistrado teve a gentileza de dispensar as testemunhas de defesa e deu início aos debates. Todos me acusavam e, na sua diversidade, usavam diferentes referenciais:


- Ele é imputável!

- Ele é inimputável!


No calor da discussão o juiz fez prevalecer sua autoridade com acionar a campainha.

Nesse ponto o sonho confundiu-se com a realidade, pois acordei ao som estridente do meu despertador. Permaneci uns bons tempos deitado, lembrando-me das peripécias do sonho impossível.

- Sonho, tudo um sonho absurdo!

sábado, 31 de julho de 2010

TRÁFICO DE ESCRAVOS

BILL ABERDEEEN


Desde o início do século XIX os ingleses defendiam a extinção do tráfico internacional de escravos, sobretudo por causa da concorrência que o açúcar brasileiro fazia ao açúcar das Antilhas inglesas, pois era usado para aquisição de negros africanos.
Em 1845, o Parlamento Britânico aprovou uma lei, o Bill Aberdeen, que dava à armada inglesa o poder de capturar navios negreiros em alto mar, qualquer que fosse sua
nacionalidade, confiscar sua carga, prender a tripulação e submeter os tripulantes a julgamentos pelas leis britânicas. Navios brasileiros suspeitos de tráfico negreiro passaram a ser interceptados em águas internacionais e levados a julgamento nos tribunais ingleses.

Essa política tornou-se mais agressiva em 1850, quando Lord Palmerston, ministro das relações exteriores do governo do primeiro-ministro John Russell, determinou que a Lei Aberdeen fosse estendida à costa brasileira, não mais se limitando às interceptações internacionais. A Inglaterra se autoconcedia o direito de invadir águas territoriais brasileiras, inspecionar e rebocar navios suspeitos, mesmos aqueles já ancorados nos portos brasileiros.
A armada britânica entrou em ação imediatamente, atuando nas costas da Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e, especialmente, no Porto de Paranaguá, onde o navio britânico HMS Cormorant aprisionou os navios brasileiros Dona Ana, Serea, Astro e a galera Campeadora.
Consta que o Cormorant foi hostilizado por um grupo de civis que acorreram à Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, na Ilha do Mel, em Paranaguá, sem estarem informados de que o forte se encontrava abandonado. Mesmo assim, usando armas e petardos improvisados, conseguiram atingir e danificar o Cormorant, cuja tripulação, surpreendida, afundou dois dos navios que haviam sido aprisionados e fez o Cormorant retirar-se de águas brasileiras, com destino a Serra Leoa, na África.
A lei Eusébio de Queiroz, ainda no ano de 1850, foi uma consequência direta e quase imediata da radicalização dos ingleses, estabelecendo, pelo texto aprovado, o fim do tráfico de negros da África para o Brasil, sendo certo que alguns traficantes insistiram por algum tempo em atuar clandestinamente, até que houve a cessação total dessas atividades.


Eusébio de Queirós

João Hermes Pereira de Araújo, em sua "História da Diplomacia Brasileira", afirma que o Brasil importou:

em 1845: 19.453 escravos;

em 1846: 50.324;

em 1847: 56.172;

em 1848: 60.000;

em 1849: 54.000;

em 1850 (ano da Lei Eusébio de Queiroz): 23.000;

em 1851: 3.287; e

em 1852: 700.
A partir daí o cativeiro no Brasil ficaria limitado aos negros anteriormente escravizados, cuja libertação lamentavelmente ainda tardaria quase 40 anos.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

ANDANDO PELA PRAIA

Somos todos japoneses

Sem a loura da praia, que assim é meu estado normal, voltei à rotina de caminhar pela orla correspondente ao Leblon, Ipanema e adjacências.



Vejo, nessas caminhadas, muitos artistas,
cantores, sexólogos, chaveiros, desenhistas, mecânicos, percussionistas, dançarinos e desembargadores. Esse fato me leva a pensar nas vantagens da divisão do trabalho: cada um faz o que o outro não sabe, e assim vamos convivendo na maior harmonia. Como recorrer aos atuários, aos anjos do asfalto e aos empalhadores, se todos decidissem ser treinadores de goleiros, escafandristas, ventríloquos ou borracheiros? A diversidade, que é uma decorrência das leis físicas e de seus referenciais, reparte as nossas tarefas, para benefício de todos. Nessas horas dou grande valor a um Taylor, a um Ford, a um Pardal e a todos que nos ensinaram a dedicar o máximo da nossa capacidade ao bom funcionamento do sistema, que, como as pessoas, tem de estar vivo e saber que vai continuar vivo.
Daí a validade dos incentivos psicofisiológicos, psicodinâmicos e psicossociais que resolvemos adotar na fábrica. Aos que me perguntam se essas providências deram resultados positivos, costumo responder afirmativamente: a solução do cilindro barulhento e o projeto das embalagens se deveram à ação do Zé Pretinho e do Chico Pé de Ganso, com apenas as máquinas que estavam ociosas na divisão de operações industriais. Sem contratar nenhuma consultoria ou serviço de terceiros. Tudo isso vem encantando os pesquisadores de todo o mundo, até os da Louisiana State University.

Veja, então. Essa vitoriosa aplicação da engenharia humana permitiu mostrar o valor do trabalhador carioca, eficiente, aplicado, laborioso e, paradoxalmente, tão vilipendiado. Após a derrocada dos mercados asiáticos, em particular o de Tóquio, ficou definitivamente comprovado que, em matéria de trabalho, o carioca é o japonês da vida real. Você vai à praia, ao cinema, ao Maracanã: os cariocas que você vê são, na verdade, japoneses.

- Minha senhora....

- Alice.


-
Peço-lhe, dona Alice, a gentileza de tomar conhecimento de que se casou com um japonês.

Infelizmente, porém, mesmo com nossos abundantes japoneses, o êxito não se mede pelo entusiasmo que temos pelas nossas obras. É preciso um balanço, o do navio ao sabor das ondas do mar, o balanço-d'água refletindo um equilíbrio hídrico, o balanço da morena que caminha pelas cálidas areias do Leblon, mas, acima de tudo, o balanço contábil.

- Aí está o problema. O nosso balanço, o contábil, acusou no exercício um prejuízo de cem milhões de dólares. Cem milhões de dólares! Isso não é um balanço, mas um balancim!

Estava eu mergulhado nessas edificantes elucubrações quando, na altura do Posto 10, encontrei o padre do avião, que nunca foi a Sorrento, mas conhece muito bem o dialeto napolitano. Mais que um padre, um padre ubíquo. O qual, muito curioso, foi logo me perguntando:


- Você está com inveja de quem, hoje?


Eu estava naquele instante com inveja tanto do Frank Sinatra, por causa da Ava Gardner, quanto do Ascenso Ferreira. Achei que seria inútil, complicado, extemporâneo e até pornográfico falar a um padre sobre Ava Gardner e, num arroubo de incontida generosidade, ou de sensatez, sei lá, decidi simplificar a questão:

- Saiba Vossa Excelência Reverendíssima que hoje estou com muita inveja do Ascenso Ferreira.

- Por causa de mulher?

- Não, por causa da Sucessão de São Pedro.

- Uma eleição? Uma oração?


- Não, uma poesia.

- Poderia dizê-la para mim?


- É necessário um sotaque bem pernambucano:


“Seu vigário!
Está aqui esta galinha gorda
Que eu trouxe pro mártir São Sebastião.
- Está falando com ele!
- Está falando com ele!”

O padre maldou que eu estava tentando provocá-lo e afirmou, na maior histeria, que nunca mais se relacionaria comigo. Seja como for, continuo com a opinião de que quem fala napolitano, e sabe de Lucio Dalla, com mais razão deveria conhecer a poesia do Ascenso Ferreira, grande poeta recifense nascido na Rua dos Tocos, e nesse mister começar pela leitura de Catimbó e Outros Poemas.

- Enfim, por que diabos fui recitar uma poesia para um padre?

sábado, 24 de julho de 2010

UNIVERSO EM EXPANSÃO (1/2)

O UNIVERSO SERIA ESTÁTICO?

Sabe-se hoje que a parte visível do Universo comporta cerca de 100 bilhões de galáxias, cada uma contendo em média cerca de 100 bilhões de estrelas. Somando tudo, são 10 bilhões de trilhões de estrelas! Com o impressionante detalhe de que as estrelas guardam entre si distâncias extraordinárias: a estrela mais próxima do Sol, a estrela Alfa, da constelação de Centauro, dele dista cerca de quatro anos-luz (38 trilhões de quilômetros!). A distância da Terra ao Sol é de pouco mais de 8 minutos-luz, cerca de 150 milhões de quilômetros, "apenas".

Constelação de Centauro

- Se não existir vida fora da Terra, então o Universo será um grande desperdício de espaço (...), costumava dizer Carl Sagan.

Até 1929 acreditava-se que o Universo era estático, o que significava admitir que suas grandes massas permaneciam mais ou menos equilibradas e distribuídas homogeneamente, uma crença induzida pela invariabilidade aparente da posição das estrelas isoladas, das constelações e das próprias galáxias.
A esse respeito escreveu Aristóteles, quatro séculos antes de Cristo:
Aristóteles
“Desde o início da Humanidade, de acordo com as informações transmitidas no decorrer das gerações, não se encontrou nenhuma alteração no céu distante, nem em nenhuma das suas partes observáveis."

Newton estava de acordo com o Universo estático de Aristóteles, assim como Einstein e a grande maioria das pessoas.


A natureza da gravidade

Em 1915, Einstein formulou a Teoria da Relatividade Geral, demonstrando que o espaço é deformado pela matéria.

- A matéria deforma o espaço, o qual, assim deformado, indica o caminho a ser seguido pela matéria.

Essa a verdadeira natureza da gravidade newtoniana. Na prática, além disso, não prevalece a Geometria Euclidiana, mas a Riemanniana, de Georg Friedrich Riemann, na qual o espaço é curvo e tem quatro dimensões (três dimensões espaciais e uma de tempo) e as retas são substituídas por curvas chamadas "geodésicas".

Como estático?

A partir da Teoria da Relatividade, a concepção do Universo estático começou a ser contestada. As equações de Einstein não permitiam nenhuma solução estacionária, pois, se a gravidade fosse a única força essencial, as grandes massas deveriam se atrair, provocando num futuro qualquer uma grande hecatombe universal, o chamado "Big Crunch".
Como a aproximação das galáxias de fato não ocorre, a conclusão óbvia era a de que o Universo devia ser considerado em expansão, submetido a uma força que suplantava a gravidade e, além disso, determinava a sua evolução.


- Einstein descobriu a expansão do Universo, apenas munido de lápis e papel, uma consagração da inteligência humana...

Podia ter sido assim, mas não foi, pois Einstein não conseguiu aceitar o que era indicado pelas suas geniais equações e deixou-se vencer pelo preconceito.


- Falta algo nas minhas equações, pois o Universo é estático, como todos acreditam e eu também.


Foi por isso que Einstein, numa iniciativa que em ciência se chama ironicamente de “salvar o fenômeno”, apressou-se em introduzir nas suas equações um termo, que chamou de "constante cosmológica", para se opor à atração universal:

- Se fosse só a gravidade, as galáxias deveriam se atrair, provocando o colapso do Universo; há, entretanto, uma força, que chamei de constante cosmológica, deformando o espaço no sentido contrário. A constante cosmológica contrabalança a gravidade, de modo que o Universo é realmente estático. Aristóteles e Newton estavam cobertos de razão.


Friedmann

Friedmann

Em junho de 1922, o cientista russo Alexander Alexandrovich Friedmann enviou um trabalho à Revista de Fisica da Alemanha ("Zeitschrift der Physik") no qual demonstrava que o Universo não poderia ser estático, pois a solução da constante cosmológica proposta por Einstein era instável e inconsistente. Ou seja, como Einstein desprezara suas próprias equações, arranjando um jeito de contorná-las, coube a Friedmann a primazia de prever teoricamente a expansão do Universo.

- O Universo estático é impossível, postulou Friedmann, baseando-se em cálculos matemáticos rigorosos, cujo ponto de partida foi a própria Relatividade Geral.

A reação de Einstein foi refutar precipitadamente o trabalho de Friedmann, ainda em 1922, alegando que o mesmo violava o princípio da conservação da energia, conforme comentário que enviou
à "Zeitschrift der Physik". Essa objeção einsteiniana era equivocada, o que foi demonstrado oito meses depois pelo cientista russo Yuri A. Krutkov, amigo de Friedmann.

- Venci Einstein na discussão sobre Friedmann, e a honra de Petrogrado está salva!, escreveu Krutkov à irmã, em 18 de maio de 1923.

Einstein não teve outra saída senão retratar-se, nos termos da carta que enviou
à "Zeitschrift der Physik", também em 1923:

"Em nota enviada a esta revista, critiquei o trabalho de Friedmann "Sobre a Curvatura do Espaço". Minha crítica fundamentou-se num erro de cálculo cometido por mim, conforme pude constatar com base na carta que acabo de receber do senhor Friedmann e nas conversas que mantive com Yuri Krutkov, em Leiden, na casa do físico holandês Paul Ehrenfest. As equações, de fato, permitem tanto a solução estática como as soluções dinâmicas de Friedmann, cujos cálculos são corretos e esclarecedores."

Gráficos apresentados no trabalho de Friedmann

Apesar da humildade da retratação, reconhecendo seu erro de cálculo e a impertinência da observação que fizera para desqualificar o trabalho de Friedmann, Einstein permaneceu com a convicção de que o Universo era estático, incluindo esta possibilidade entre as soluções possíveis, no próprio texto da retratação.
Mas, afinal, o Universo está se expandindo ou é estático?
(continua)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A MOÇA DE PRETO

PASCALE

A partir da palavra “SALMO”, Estevinho queria chegar à palavra “LINHA”, transitando por palavras intermediárias, cada uma diferindo da anterior por uma letra, e somente uma. Verbos, melhor não... Pensou depois nas questões indecidíveis, que não admitem solução. Numa pequena cidade, o único barbeiro barbeia todas as pessoas que não se barbeiam a si mesmas, e apenas estas. Quem barbeia o barbeiro? Jamais me associaria a um clube que tivesse a insensatez de me aceitar como sócio. O cretense Epimênides afirmou que todos os cretenses são mentirosos. Está na Bíblia...

- Garçom, mais um black and white. Oito anos, por favor.


- Quem barbeia o barbeiro?

Sentiu a mão no ombro. Era a moça de preto.


- Posso sentar?
- Por favor.

- Peço que não estranhe a ousadia. Estava a observá-lo e senti uma vontade irresistível de conversar com você.

- Não seja por isso. Muito prazer em conhecê-la.
- Não sei, não, mas você me parece muito angustiado.
- Estou pensando no paradoxo do mentiroso e curtindo um pouco a solidão.

- Solidão cheia de manias: “garçom, mais um black and white. Oito anos.” Nunca vi black and white que não fosse oito anos...
- Nem eu. Mas não gosto de correr nenhum risco...

- Muito engraçado!


Pascale. Olhou-a atentamente. Era olhos e boca, como uma mulher de Manuel Bandeira. Quem sabe francesa? Há francesas que abordam homens nos bares, falam Português e tomam banho. Aos 34 anos, Estevinho vivera todas as situações: casara-se, desquitara-se, casara-se novamente, divorciara-se, juntara-se algumas vezes.
Mulheres que partiam, mulheres que chegavam. Algumas, de férias, por prazo definido, ou, como dizia, mulheres dia três, que vão embora no dia quatro, para Porto Alegre, Munique, Juiz de Fora, Florença, Houston ou Além Paraíba. Pois é necessário retornar ao trabalho ou aos braços de um noivo impaciente e cheio de saudade.

- Aceita um uísque?

- Só se for oito anos...

Na cama


Um homem e uma mulher que tomam uísque juntos, no Leblon, são cúmplices de um ideal inexorável: a cama. Quanta obra-prima existe, livros, filmes, peças e canções, sobre mesas, pianos, luvas, colares, retratos e outros variados objetos, usados como metáfora do amor ou de sua ausência. Há um texto de Rubem Braga exaltando o guarda-chuva. Sobre cama, todavia, tudo que Estevinho conhecia era a história de um homem traído, que, ao separar-se da mulher, doou-lhe tudo, absolutamente tudo, menos a cama. Pois se a cama fosse com ela, além da mulher, teria perdido a própria alma.
Pascale

Pois é, minha pátria é minha cama, pensou Estevinho, quando viu Pascale, deitada a seu lado. Nua assim, deitada assim, magnífica assim. Simplesmente deslumbrante! Uma mulher bonita começa pelos olhos, continua nos lábios, alteia-se em montes soberbos, estende-se por vales insondáveis e acaba... não acaba não, isso mesmo, uma mulher bonita não acaba nunca. A mulher é a perfeição. Se Aristóteles não disse isso, eis uma imperdoável omissão de Aristóteles.
Volúpia, entrega, prazer, apoteose à primeira potência, apoteoses ao quadrado, apoteoses ao infinito, eis o enredo do amor, que é a melhor das capacidades humanas. Um instante de amor, Estevinho, vale por uma boa eternidade.


Dia três


Muito esperta, a Pascale. Não levou nem cinco minutos para sair de ”SALMO” e chegar a “LINHA”:


SALMO, PALMO, PALMA, PALHA, PILHA, PINHA, LINHA

Pascale: olhos e boca

Subitamente, percebi que estava apaixonado. Mais uma vez. Pensei mon amour, je t´aime, com todas as forças do meu despedaçado, combalido e aviltado coração. Olhei-a emocionadamente e disse Pascale, eu te amo. E ela? Apenas sorriu, transbordando de ternura. Gostara muito de mim, do meu jeitão, da minha cama. Não era por nada não, tinha de ir-se.
Pois é, como sempre, mulher dia três: Pascale é casada, muito bem casada, e professora de História da Filosofia numa importante universidade francesa.

Fazer o quê, Estevinho?

quarta-feira, 21 de julho de 2010

UM ENCONTRO FRUSTRADO

A loura da praia

Cor do texto
A loura da praia me cumprimentou quando me aproximei da Rua do Ouvidor.
Não pretendia responder ao cumprimento, mas tive um pressentimento esquisito e perguntei:

- Você é a loura que trabalhou no filme do Tarantino?
(Não sei por quê, mas, para mim, toda loura trabalha em filme do Tarantino.)

- Sou eu mesma.

- No filme com o Tim Robbins.


- Tim Roth.

(Eu sempre confundo o Tim Roth com outro Tim.)

Foi então que marcamos um encontro para quarta-feira, às 21 horas, no Saint Honoré. Cada um, a loura da praia e eu, ficou de comparecer com sete mil reais, um aporte de capital recíproco, puro equity, que eliminaria todas as exigibilidades.
Na segunda-feira, porém, fui convocado pela Câmara dos Deputados, pois de mim se exigiam explicações categóricas sobre o ataque especulativo ao mercado de índices da Bolsa de Milão.


- Mercado de quê?

- Mercado de índices...

Eu era fundamental para desvendar o enigma. Tomei o avião tranquilamente, certo de que, dados os esclarecimentos solicitados, estaria voltando no mesmo dia para o Rio de Janeiro. Em Brasília fui informado de que o meu depoimento fora adiado para o dia seguinte, terça-feira,
a pedido do Relator da Comissão Parlamentar de Inquérito, de maneira que tive de me hospedar num hotel de primeira classe. Na terça fui informado de novo adiamento, dessa vez para quinta, o que me reteve mais dois dias na capital.


Cheguei ao recinto da Câmara na hora aprazada e percebi, com alegria incontida, que havia grande curiosidade pelo que me cabia declarar. Pela primeira vez na vida, eu era a solução. A sala de reuniões encheu-se de deputados, senadores, jornalistas,
acróbatas, empresários, psicagogos, músicos, preparadores físicos, lobistas e eletricitários, de modo que, não havendo espaço para acomodar tanta gente, o presidente da CPI assim determinou:

- Retirem-se do recinto todas as pessoas que não sejam detentoras de mandato.


Ninguém duvide da autoridade de um presidente. Fui retirado do recinto, pobre de mim, e, no mesmo dia, retornei ao Rio de Janeiro. No avião, um padre me perguntou se eu tinha inveja de alguém.


- Diariamente, respondi.


- Hoje o senhor está com inveja de quem?

- Do Lucio Dalla, que compôs aquela música, “Caruso”. Não sou bom em italiano, mas sei que a música tem a ver com o Golfo de Sorrento, na Baía de Nápoles.

- Conheço.


- O Golfo de Sorrento?


- Não, a música. Eu sou bom em italiano e posso asseverar que a letra fala em “te voglio bene assaie, ma tanto tanto bene sai.”


- Eu diria que o senhor é bom em dialeto napolitano.


Quando cheguei ao meu apartamento, no Leblon, vi sobre a mesa-de-cabeceira os sete mil reais que eu sacara para somar aos sete mil reais da loura da praia no encontro que havíamos marcado para quarta-feira, no Saint Honoré. Minha estada em Brasília frustrara os nossos planos. Tivesse, ao menos, o endereço, o teletrim, o fax, o email ou o telefone da loura da praia! O twitter, o facebook, o orkut, o teleprompter, o scanner, o software, nada disso estava a meu alcance. Se fiquei aborrecido? Escrevi uma poesia, cantando os amores frustrados da minha vida, incluindo o da moça do Colecionador. (Sempre que me aborreço, escrevo uma poesia que canta os amores frustrados da minha vida, incluindo o da moça do Colecionador.)



Não a transcrevo, clareando os garranchos acima, porque seria um abuso insuportável propor uma poesia de minha lavra, assim impunemente, com tanto livro do Manoel de Barros à disposição dos que queiram exercitar-se na arte de ler poesia: Poesia ao Rés do Chão, Poemas Concebidos Sem Pecado, Face Imóvel, Compêndio para Uso dos Pássaros, Gramática Expositiva do Chão, Arranjos para Assobio, Livro de Pré-Coisas , O Guardador de Águas, e por aí vai.


Resumindo tudo

Fiquei com a poesia, muito garranchosa, e os sete mil reais, mas sem a loura da praia.

sábado, 17 de julho de 2010

O GOL DE PLACA DE IMMANUEL KANT

Teoria do Céu
Imannuel Kant

Imannuel Kant (1724 - 1804) confessou que duas coisas enchiam seu espírito de admiração e reverência: “o céu estrelado acima de mim” e “a lei moral dentro de mim”.
Para entender o céu estrelado, Kant estudou o livro de Isaac Newton, "Princípios Matemáticos da Filosofia Natural", e publicou, aos 31 anos, uma obra audaciosa e de título complicado, “História Natural Universal e Teoria dos Céus, Ou um Ensaio sobre a Constituição e Origem Mecânica de Todo o Universo Tratada Segundo os Princípios de Newton”, mais conhecida por “Teoria do Céu”. Trata-se de um livro, de 1755, contendo importantes intuições cosmológicas. Entre elas, a de que a Via Láctea seria apenas uma entre uma infinidade de galáxias, cada uma com uma grande quantidade de estrelas e de sistemas solares.

O Grande Debate

Muitos astrônomos, como William Herschel
(1738–1822), acreditavam que a Via Láctea era a única aglomeração de estrelas do Universo. Defendiam que as nebulosas eram estrelas jovens dentro da Via Láctea, ao passo que os alinhados com Kant defendiam que essas nebulosas eram outras galáxias, situadas para além da Via Láctea.

William Herschel

A Academia Nacional de Ciências de Washington organizou em abril de 1920 um debate entre as duas correntes, que, ao fim e ao cabo, era na verdade uma discussão sobre o lugar da humanidade dentro do Cosmos. A galáxia única foi defendida pelos astrônomos do Observatório de Monte Wilson, representados por Harlow Shapley (1885-1972), enquanto a tese de que as nebulosas eram galáxias independentes foi defendida pelo experiente astrônomo Heber Curtis (1872-1942).

Heber Curtis

O Grande Debate pouco acrescentou, pois faltavam dados observacionais que ajudassem a decidir sobre a questão. Alguns astrônomos, pessimistas, chegaram a admitir que essa questão não seria jamais esclarecida, por situar-se numa fronteira indecidível, onde “o intelecto humano começa a falhar". Erro comparável, em contexto equivalente, ao de Augusto Comte, que manifestou em seu Curso de Filosofia Positiva a opinião de que nunca seríamos capazes de estudar a estrutura química e mineralógica das estrelas.

Harlow Shapley

Gol de Placa

Em 4 de outubro de 1923, Edwin Hubble (1889-1953), com seu telescópio de 2,5 metros de diâmetro, descobriu na nebulosa de Andrômedra uma cefeida sete mil vezes mais luminosa do que o Sol e, pela técnica desenvolvida por Henrietta Leavitt, aquela do “Harém de Pickering”, concluiu que essa estrela estava a 900 mil anos-luz da Terra. Ou seja, a cefeida de Andrômeda estava fora da Via Láctea, que tem de ponta a ponta não mais que 100 mil anos-luz.
A nebulosa de Andrômedra e outras nebulosas constituíam, pois, outras galáxias.
Hubble só anunciou sua descoberta na reunião de 1924 da Associação Americana para o progresso da Ciência.

Hubble

Céu estrelado

A intuição de Kant estava, pois, correta: o Universo não se restringe à Via Láctea, formado que é por cerca de 100 bilhões de galáxias, cada uma com cerca de 100 bilhões de estrelas, sendo a mais próxima do Sol a estrela Alfa da constelação de Centauro, que dista do Sol quatro anos-luz, cerca de 38 trilhões de quilômetros.