quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Ludivine Sagnier

Sonhos de um candidato

albert.einstein@ulm.com

Olhei para o passageiro que viajava a meu lado e vi que se tratava de Albert Einstein.

- Albert Einstein?

- Sim, respondeu o outro, passando-me um cartão com os seguintes dizeres:


Dúvidas? Sunset Society,
albert.einstein@ulm.com


Espreguiçando demoradamente, fiquei perscrutando o sonho extravagante. Quem diria... Eu, euzinho, numa viagem de Hong Kong para Paris! Primeira classe, aeromoças belas e gentis, s´il vous plaît para cá, s´il vous plaît para lá, voulez vous du vin? E Einstein, ali do lado, de cartão em punho, albert.einstein@ulm.com, para todas as dúvidas.

- Que diabo seria Sunset Society?



Schopenhauer

É em sonhos assim que a gente incorre, desembocadamente e sem nenhum freio, quando tem de dar uma aula de Física perante uma banca de doutores. Para Schopenhauer, a vida é um longo sonho ou, o que é equivalente, vida e sonho são páginas comuns de um livro complicado. E o sonho cabia muito bem naquela véspera, pois, aula aprovada, curso de doutorado quase garantido. Cinco salários mínimos por mês, durante três anos.

- Cinco salários mínimos!

Na tua piscina

Não me recordo, no sonho, de haver desembarcado em Paris. Tomei um chope em Montmartre e dei um olé pelo Quartier Latin? Tomara que eu tenha topado com a Ludivine Sagnier, na entrada do Louvre, ou melhor, no Jardim de Luxemburgo. Para, enfim e cara a cara, depor-lhe a grande ambição da minha vida.


- Mas, afinal, que ambição é esta, Carlinhos?

- Nadar na tua piscina, Lu.

- Ça va.

Divine

Mecânica teria sido melhor, ora se! Era começar pelo princípio da inércia, passar pelo balde de Newton, discutir o caráter absoluto do movimento da Terra e o pêndulo de Foucault. No Universo tudo se passa como se matéria atraísse matéria, quem diria, na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias. A toda ação, uma reação, desde então e para sempre. Simetrias e invariâncias, o Princípio de D’Alembert, o tempo, Santo Agostinho, Kant, Stephen Hawkings, nosso passado tem forma de pera, o presente já passou, e o futuro é uma expectativa que reflete a nossa experiência... passada.

-Bem, isso já é Pedro Nava.

Termodinâmica, fazer o quê? Manter a calma, esse o segredo, e só mencionar assuntos por mim dominados, omitindo todo o resto. Se ocorrer a oportunidade, definir grandeza, pois definir grandeza é a festa de todo professor de Física:

- Grandeza é o atributo de um objeto ou atributo de um atributo de um objeto, no qual, atributo, se podem reconhecer diferentes graus de intensidade. Se não for atributo, não é grandeza; se não puder assumir diferentes graus de intensidade, também não é grandeza.


Terminada a aula, espero que todos se confraternizem comigo, a exaltar meus conhecimentos, repetindo a cada instante que Termodinâmica é isso aí, de aula assim é que os alunos precisam. Depois, a banca há de me convidar para jantar, e todos quererão saber como foi que me saí com a Ludivine.

- Não sei...


- Não sabe?

- Quer dizer... Não sei se fui bem ou se fui mal. Sei apenas que poderia ter me saído pior.

- Ou seja, você arrebentou. E ela?


- A Lu? É divina...

sábado, 13 de fevereiro de 2010

MÁRIO QUINTANA

O AUTORRETRATO

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...



às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...



e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!



(
Em Apontamentos de História Sobrenatural)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

CHAMPOLLION E A PEDRA DE ROSETA

Hieróglifos
Pedra de Roseta

A escrita hieroglífica do antigo Egito foi decifrada pelo exame da pedra de Roseta, na qual se encontrava um texto grafado em três versões, hieróglifos, demótico e grego. Essa pedra foi descoberta num local situado a 30 quilômetros de Alexandria, em 1799, por Boussard, um dos sábios franceses que acompanharam Napoleão ao Egito.
A escrita demótica, que era uma forma simplificada de hieróglifos, tinha sido adotada em torno do ano 700 a. C. e vigorou até a chegada dos romanos ao Egito. O texto reproduz um decreto do corpo sacerdotal do Egito, de 196 a.C., atribuindo honras ao rei Ptolomeu V Epifânio (205 a 180 a.C.), como retribuição por benefícios recebidos.

Disputa


Champollion

Muitos pesquisadores tentaram decifrar os hieróglifos tomando por base a pedra de Roseta. O mais bem-sucedido foi Jean-François Champollion (1790 - 1832), um genial linguista francês que conhecia pelo menos 12 línguas, incluindo o copta, que sucedeu o egípcio antigo. Comparando, na pedra de Roseta, as escritas demótica e hieroglífica com sua versão em grego, Champollion decifrou os hieróglifos em 1822.
Numa verdadeira disputa com Champollion, o médico britânico Thomas Young
propôs em 1823 um novo sistema, e alternativo, para a escrita hieroglífica.

Thomas Young

Defensores de uma e de outra solução enfrentaram-se durante quatro décadas. A questão se definiu em 1866, quando um novo texto hieroglífico foi encontrado, o Decreto de Canopus, de autoria de Ptolomeu III Evergeta, de 237 a. C. O decreto, que impunha uma reforma do calendário para introduzir o ano bissexto, foi decifrado de maneira conclusiva com o auxílio do sistema de Champollion, não remanescendo desde então nenhum espaço para dúvidas ou contestações. Champollion já estava morto, desde 4 de março de 1832.

Onde está a pedra

Com a derrota de Napoleão no Egito, a pedra de Roseta tornou-se propriedade da Inglaterra, nos termos do Tratado de Alexandria, de 1801, bem como outras antiguidades que os franceses haviam localizado naquele país.

Museu Britânico

Desde 1802 a pedra de Roseta encontra-se no Museu Britânico, em Londres, que existe desde 7 de junho de 1753 e é o mais antigo museu público do mundo.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

DEI MAIS UMA DE DOM QUIXOTE

ASCENSÃO E QUEDA

Minha função me dava mais visibilidade do que poderia imaginar e, com o passar dos anos, fui adquirindo prestígio dentro da organização. Até que, um dia, o Board of Directors, que tudo dirigia lá de Nova York, decidiu me promover a diretor técnico de todas as atividades da WED na América do Sul. Um salto espetacular, que nunca passara, nem de leve, pelas minhas cogitações. Claro, achei muito bom, e bom continuaria se o acesso às informações que passei a ter na nova função não me fizesse ver que o mar era mais alvoroçado do que eu supunha, tendendo para o tempestuoso. A WED era muito grande e cheia de possibilidades, mas nela eu percebia imperfeições, que, entretanto, não impediam geração de lucros e abundantes distribuições de dividendos para os acionistas.

- É que os defeitos são absorvidos se o projeto é vitorioso e, se muito vitorioso, não são sequer percebidos.

A secretária de Mr. Forthwhite

Também é verdade que os chefes de divisão inventavam trabalho uns para os outros, tanto quanto cresciam geometricamente os cargos de confiança, não importando se a organização estava progredindo, estabilizada ou dando prejuízo, aplicando-se na plenitude os desígnios da lei de Parkinson. Mas a ação inocente, de mera decantação de processos autônomos a se diluírem no exercício da burocracia, terminava por aí, pois havia uma clara guerra de interesses e permanentes exercícios de bajulação. Alguns chefes de departamento trabalhavam exaustivamente, e por todos os meios, para assumir alguma posição na direção central. A qual se enchia de gente mais estúpida que o vice-presidente, Sean Forthwhite, de modo que este permanecia sempre como o mais inteligente do seu círculo.


Cheio de iniciativas esdrúxulas, Forthwhite tinha poder suficiente para levá-las adiante. Amanhecesse com uma sugestão, impraticável que fosse ou estapafúrdia, todo o sistema se ajustava para provar que se tratava de uma idéia absolutamente pertinente e inovadora; a materialidade da proposta passava ao controle dos chefes de departamento, que imediatamente geravam curvas estranhas em que a moeda era energizada em todas as contas por índices de utilidades que multiplicavam retornos e reduziam custos.

- Estamos aplicando os conceitos de Daniel Bernoulli.

Daniel Bernoulli

Infelizmente, porém, esses torneios generosos não costumam ser acolhidos pela realidade das condições de campo. Cumpre-se então a derrota inevitável. Após a execução do projeto, que jamais poderia dar certo por sua frágil concepção e superficialidade, começava a busca dos que deveriam ser escalados para assumir a responsabilidade pelo fracasso.


- Frustrou-se o êxito da operação, ora essa, por causa da incúria desses incompetentes, sabotadores morais, que não souberam implementar uma idéia revolucionária do vice-presidente. Uma idéia absolutamente revolucionária!

Para além de tudo isso, aos poucos fui percebendo que havia dolo também. Os princípios de governança estavam muito longe de serem neutros e inelásticos, e muitas vezes os interesses da corporação eram malbaratados por atitudes duvidosas e ilícitas. Trabalhar, antes um grande prazer, passou a ser um exercício que me angustiava, pois eu não podia concordar com as empresas de papel, que tinham executivos da WED remunerados com generosos acréscimos salariais por acumularem diretorias que não existiam, nem com as viagens de negócios dos diretores a Londres e Paris, que se emendavam com as férias da família na Côte D’Azur. Ou com as cisões ou fechamentos de capital feitos com prejuízo dos acionistas minoritários, muitas vezes resgatando suas ações mediante indenizações calculadas a valores históricos e corroídos pela inflação.
Também não consegui engulir a mudança, no meio do exercício, do critério para avaliação de desempenho dos executivos, uma fraude, afirmando uma eficiência que não tínhamos. Tudo feito com a conivência e beneplácito do conselho de administração da subsidiária brasileira. Foi a gota que fez transbordar o meu reservatório de decepções.
Era permanecer calado, mas intranquilo, ou jogar tudo para o alto, dos dois males o que fosse menos ruim. Foi menos ruim jogar tudo para o alto.

- Estamos enganando Nova York, foi o que eu disse a Sean Forthwhite.

- Mas você também recebeu bônus de desempenho, Carlinhos.

- Sim, mas devolvi tudo à WED. Veja aqui o recibo que me foi dado pela Tesouraria.

“Recebemos de Carlos Auvergne de Carvalho a quantia de 192 mil reais, correspondente à integral e voluntária devolução do bônus que a Western Energy Development lhe pagou como prêmio pela sua performance e desempenho no decorrer do exercício de 1998.”

Durei exatos 14 meses na nova função até que, para surpresa de todos, decidi pedir demissão.


- Sinto muito, senhores, mas a partir de hoje não trabalho mais para a WED.


- Que vou fazer agora?

Mais uma vez eu bancava o Dom Quixote e, por isso, só por isso, retornava à minha condição de desempregado. Oito anos de trabalho jogados na lata do lixo. Perdido, e angustiado como um Hamlet, eu só fazia ruminar a frase preferida de meu avô, o velho Auvergne:

- Eu me estrepo, mas não tergiverso.

sábado, 30 de janeiro de 2010

A MOÇA DA ANTERO DE QUENTAL

O EMPARELHAMENTO IMPROVÁVEL

Tenho obsessão pela Simona, a moça mais bonita da Antero de Quental, cuja, entretanto, nem suspeita da minha existência. Ela frequenta a praia na altura da Venâncio Flores, onde, de longe, contemplo suas linhas exuberantes, que a mim me parecem ser um dos motivos da grande afluência masculina naquele ponto da areia. Aos poucos vou reunindo informações sobre ela, colhidas discretamente, em diligências laboriosas e eficientes.Tenho a ambição de que o acaso nos aproxime um dia.

- Quem sabe a encontro na sala de espera de algum consultório dentário?


Darwin

Ela estuda Biologia e tem grande interesse pelo darwinismo. Tive a ideia de fazer o que chamo de emparelhamento, estudando seus assuntos preferidos. Preciso ter o que conversar quando o acaso nos reunir na mesma antessala. Foi por isso que comprei "O Gene Egoísta", do Richard Dawkins, e já sei sobre replicadores e sobre a importância de sua longevidade, fecundidade e fidelidade de cópia.

Imagino Simone a conversar comigo, comentando que, há quatro bilhões de anos, surgiram no mar moléculas que tinham a capacidade de se autorreproduzirem. Elas se organizaram em máquinas de sobrevivência, que somos nós, animais e vegetais. Uma sobrevivência sustentada num regime de feroz competição, pois até o altruísmo é um ato egoísta dos genes. Nesse ponto da conversa, posso emparelhar, discorrendo sobre a importância da longevidade, fecundidade e fidelidade de cópia, nos rumos da seleção natural. Simona, claro, vai me perguntar:

- Bem observado, você também estuda Biologia?

- Uma questão de cultura geral, pois sou estudante de Economia.

Eugene Onegin

Certa vez Simona esteve na Sale's e importou o DVD da ópera "Eugene Onegin", de Tchaikovsky. Confesso que não sabia da existência de nenhuma ópera de
Tchaikovsky, muito menos com esse nome. Nascia assim mais uma oportunidade de emparelhamento, e foi por isso que encomendei o mesmo DVD, despendendo na empreitada 63 reais.

Uma ópera lírica, baseada numa novela de Alexander Pushkin. Eugene Onegin é um galã entediado e irresponsável, que conquista o coração da bela camponesa Tatiana, cuja irmã, Olga, é noiva do poeta Vladimir Lensky, grande amigo de Onegin. Num exercício de afetação e galantaria, Onegin esnoba Tatiana e decide conquistar Olga durante um baile em que se comemora o aniversário de Tatiana. Lensky, enciumado e revoltado com o cinismo do amigo, desafia-o para um duelo, e neste é mortalmente ferido por Onegin. O qual viaja depois para outras terras, atormentado por ter provocado a morte do amigo, e se dá conta de que está irreversivelmente apaixonado por Tatiana.


Neste ponto, eu faria o emparelhamento competente, acrescentando:

- Sei o resto da história. Anos mais tarde, Onegin vai a uma festa de nobres em San Petersburg e nela reencontra Tatiana, agora casada com o príncipe Gremin. Confessa-lhe seu amor, mas é recusado por Tatiana, que ainda o ama, mas declara-lhe que em nenhuma hipótese será infiel ao seu marido.

- Você conhece a obra, hein?

- Curto muito o
Tchaikovsky. Essa ópera é baseada num conto de Pushkin, que o construiu com base na história de seu vizinho Pyotr Chaadae.

Quem sabe?

Outro dia, porém, soube que Simona tem o hábito de viajar todo ano para Londres, onde participa de torneios de hipismo, competindo com nobres de toda a Europa, o que só é possível porque seu pai é um industrial muito rico.
Isso eu não sabia. Foi então que a ficha caiu, pois essa informação me mostrou que há um abismo entre nós, cerceativo e quase intransponível.


-
Entendo... Uma questão de emparelhamento econômico e financeiro.

-
Fora do alcance dos meus sofridos 63 reais. Pelo sim, pelo não, passei a jogar na sena acumulada.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

CAMINHANDO PARA A INCERTEZA

O céu estrelado acima de mim

Kant

As duas referências fundamentais de Kant, "o céu estrelado acima de mim" e "a lei moral dentro de mim", constituem uma alegoria da perplexidade do homem perante o Universo grandioso e avassalador. Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Não havia na remota Antiguidade como definir nosso papel em face do Universo, e não resistimos à ideia de responder a essas questões com nos autoconferir condição e estatuto privilegiados.

- Fomos criados no Paraíso e, a seguir, colocados no centro do Universo.

O conhecimento científico, adquirido progressivamente, foi servindo para nos ajustar à realidade. Desse modo, o homem sofreu um duro revés quando as teorias de Copérnico o desentronizaram do centro do Universo e teve outra decepção com
Darwin, que, acabando com a fantasia do Paraíso e do homem modelado diretamente por Deus, condenou-nos a uma corrida evolutiva em disputa com outros seres vivos, sem nenhum caminho ou direito preferencial.

Darwin

Na década de 1920, Edwin Hubble constatou a expansão do Universo, tudo se afastando do centro, e o homem viu-se relegado à periferia, habitando um planeta mediano, que gira em torno de uma estrela da Via Láctea, que contém mais de 200 bilhões de outras estrelas e dá o vexame de existir ao lado de outros 100 bilhões de galáxias!

- Eis a perplexidade da lei moral, dentro de mim, diante do céu estrelado, acima de mim.

Nossas percepções


Nossa autoestima teve de ser ainda rebaixada após o conhecimento que nos foi trazido pela teoria da relatividade e pela mecânica quântica, pois aprendemos que não somos independentes das nossas medições, não existem espaço e tempo absolutos, e o princípio da causalidade, que desde Aristóteles tanto nos encantava, mostrou-se inadequado para explicar os processos atômicos individuais.
No mundo subatômico, a natureza trabalha com dois modelos alternativos e mutuamente excludentes, dos quais, conhecendo um, não me é dado conhecer o outro, de acordo com o princípio da complementaridade de Niels Bohr. Luz, próton, elétron, nêutron, tudo pode ser partícula ou onda: quem vê partícula não vê onda e quem vê onda onda não vê partícula.

Poincaré

E não é só, pois o francês Henri Poincaré no alvorecer do século XX deu início à teoria do caos, mostrando que a maioria dos fenômenos se interrelaciona mediante equações complicadas, aumentando a insegurança do homem e sua incerteza perante o Universo. Pois em quase tudo há realimentação interna, interação constante e toda sorte de perturbações não-lineares, como observamos a cada instante na meteorologia, nas flutuações dos preços nas bolsas de valores, nas correntezas e no crescimento das populações animais. Ou seja, muito efeito-borboleta à solta, prevaricando por aí e assoberbando a lei moral dentro de mim.

A matemática

Ah, restavam-nos, ainda, a matemática e a palavra. Por exemplo, a matemática pode provar tudo com sua lógica, a partir de postulados criteriosos, como na geometria euclidiana. Verdade?

- Não, não é verdade, provou o matemático Kurt Gödel, em 1931, demonstrando que
existem verdades matemáticas que não podem ser provadas, caracterizando a matemática como insuficiente.

Einstein e Gödel, dois expoentes da Politécnica de Zurich

Gödel também demonstrou que há verdades matemáticas que não podem ser provadas, caracterizando-se como indecidíveis. Ou seja, a matemática pode ser insuficiente e incompleta como, às vezes, até inconsistente, pois é impossível garantir a consistência de postulados arbitrariamente escolhidos.

E a palavra?

Leibniz propôs que os filósofos se reunissem para definir certas palavras, como moralidade, liberdade, espaço, tempo, e, após, discutissem suas ideias sem nenhuma ambiguidade.

Bertrand Russell

Na mesma linha, Bertrand Russell pretendeu criar um “atomismo lógico”, partindo dos átomos, e destes para as moléculas, e depois para substâncias e objetos. Desse modo, poderíamos chegar a afirmações abrangentes a respeito do mundo que fossem livres de inconsistências e ambiguidade.
É nesse ponto que entra Wittgenstein, demonstrando a inutilidade dessa tentativa, pois a palavra é boa para contar piadas, falar de amor, cantar, contar vantagem, mas tem reduzido valor para discutir a filosofia do mundo. Pois o
sentido do mundo é exterior ao mundo e está fora do nosso alcance.

O reflexo

No seu livro "From Certainty to Uncertainty", publicado em 2002, o físico inglês F. David Peat afirma que essas mudanças de entendimento sobre nossas relações com o Universo têm consequências que se estendem para além da ciência, influindo decisivamente na arte, na literatura, na filosofia e nas relações sociais.

F. David Peat

É que o céu estrelado pesa sobre a lei moral, e a derrocada dos mitos antropocêntricos se reflete no baixo nível de criatividade das artes e da literatura, com o aumento das nossas dúvidas e perplexidades e pela falta de afirmações abrangentes a serem feitas ou de grandes mitos a serem revelados.

sábado, 23 de janeiro de 2010

PLAYERS E OBSERVADORES

NO MEIO DOS NHAMBIQUARAS

Outro dia, ao cruzar a Cinelândia, reencontrei o Ramiro, gênio capaz de uma Capela Sistina ou de uma Teoria da Relatividade.
Não mudara quase nada, o sorriso que mais parecia uma hipotenusa, naquela cara trigonométrica e proparoxítona. Engenheiro suma cum laudae da turma de 1966, adquirira grande experiência construindo túneis e viadutos e trabalhou, depois, na construção da... ponte Rio-Niterói. Bingo! Eu, lá atrás, entendia alguma coisa de futuro...

- Diga-me, indaguei, você usou os conhecimentos do professor Kakaze, os 1.512.000 agrupamentos, o cálculo das probabilidades e a distribuição de Gauss?

- Não, nada disso foi necessário.

A obra havia dispensado a parte mateológica da sua inexcedível competência. Usara apenas ferragem, cimento, brita um, brita dois, brita três, tabelas, ábacos, thumb rules...


- O quê?

- Thumb rules, isso que se chama de "chutes"...


- Pombas!
Regras Práticas ou "Chutes" Educados

Terminada a ponte, Ramiro engajou-se no desenvolvimento de campos de petróleo nas costas britânicas do Mar do Norte. Assentamento de plataformas e construção de sistemas flutuantes de produção, projetos que se justificam quando os preços do petróleo estão elevados, como agora.

- Está de férias?, perguntei-lhe, já em tom de despedida.

- Não, voltei de vez. Estou desempregado, mas decidido a conseguir uma ocupação sem grandes tardanças. Concorri ao cargo de engenheiro de manutenção numa fábrica de computadores em Maria da Graça, mas fui recusado no teste. Não soube responder o nome que se dá à unidade de elastância.

- É daraf, comentei, usando meus conhecimentos de palavras cruzadas. O daraf é o inverso do farad, que, por sua vez, é a unidade prática de capacitância.

- Estou, porém, na iminência de conseguir um emprego de oito salários mínimos, mais sobreaviso e periculosidade, numa hidrelétrica no norte de Mato Grosso, junto da reserva indígena dos nhambiquaras. Uma passagem de avião por ano, ida e volta, para visitar o Rio de Janeiro. Vou usar toda a minha experiência na construção de barragens, sem nenhuma agressão ao meio ambiente ou ao
s processos ecológicos essenciais.

Nhambiquaras

Profissionais de mercado

Não consigo imaginar o Ramiro senão brilhando, o giz em riste, sob os aplausos entusiasmados do professor Kakaze.
Mas essa questão dos nhambiquaras me desconcertou, desestabilizando as minhas memórias. Dos quais, nhambiquaras, sei, apenas e cruzadisticamente, que gostam de aaru, que é um bolo no qual se misturam carne de tatu e farinha de mandioca.

- Meu caro pitecantropo, o binômio de Newton é até citado nas poesias do Fernando Pessoa.

Será que o Ramiro brilhava mesmo ou não passava de uma das minhas fantasias? O professor Kakaze citou realmente o Fernando Pessoa?

Veio então a ideia. É verdade que eu nunca dera importância à poesia e conhecia, se tanto, o Mal Secreto e alguns trechos bem condoreiros do Navio Negreiro. Seja como for, fui à livraria e comprei as obras completas de Fernando Pessoa, o poeta que, em sonhos, sonhos criou. Logo na introdução, fiquei sabendo que foi um homem do comércio, autor de textos para dirigentes de empresas, publicados na Revista de Comércio e Contabilidade, de Lisboa, e de uma vasta Teoria e Prática do Comércio.

- Um profissional de mercado, exatamente como eu!


Li toda obra e encontrei o poema em Álvaro de Campos:



“O Binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
óóóó óóóóóó óó óóóóóóó óóóóóóó
(O vento lá fora.)”


Players e observadores

Um exemplo de player: Vittorio Gassman, o homem que desfrutou o doce arroz amargo... Outros players: Costa e Silva, Rembrandt e Ramiro. Eles entendem de álgebras e metáforas e movem a história, para o bem ou para o mal, o êxito ou o infortúnio. Tentei ser player também, mas não passei de um mero observador. Resta-me o consolo de que, sem observadores, este universo não faria nenhum sentido.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A METÁFORA DO JOGO DE XADREZ

ENTENDENDO A NATUREZA



Thomas Henry Huxley, médico e cientista inglês, chamado de "Buldogue de Darwin", e Richard Feynman, que muitos consideram o maior físico da história dos Estados Unidos, usaram o jogo de xadrez como imagem da realidade natural. Existe um Universo, cujas leis não são evidentes e têm de ser descobertas pelo homem inteligente; e, mais, não temos outro recurso senão o de acompanhar o jogo - protagonizado pela Natureza- antes de entendê-lo, o que significa errar muitas vezes antes de acertar com as suas regras.

Thomas Henry Huxley (1825-1895)

Charles Darwin formulou a Teoria da Evolução
entre 1836 e 1858: as espécies evoluem mediante processos naturais, a partir de algumas poucas formas primitivas simples, quem sabe a partir de uma única forma. Quando suas idéias se tornaram conhecidas, foram combatidas pelos religiosos vitorianos, gerando uma controvérsia que culminou com um debate, diante de um público de 800 pessoas, na Universidade de Oxford, em 30 de junho de 1860.
Nesse debate, os ortodoxos foram representados pelo Rev
erendo Samuel Wilberforce, Bispo de Oxford, e Charles Darwin, por Thomas Huxley.

Huxley

"O tabuleiro de xadrez é o mundo, as peças são os fenômenos do Universo, as regras do jogo são o que convencionamos chamar de as leis da Natureza. O jogador do outro lado está oculto para nós. Sabemos que seu jogo é sempre limpo, justo e paciente. Mas também sabemos, pela nossa experiência, que ele nunca perdoa um erro, nem faz a menor concessão à ignorância."

( Thomas Huxley, em "A Liberal Education", 1868)


Richard Feynman (1918-1988)

Richard Fe
ynman, recebedor do Prêmio Nobel de Física de 1965, notabilizou-se por ter criado a Eletrodinâmica Quântica e por trabalhos importantes sobre interações fracas, trabalhos sobre interações fortes e trabalhos sobre a superfluidez do hélio líquido. Exímio professor, foi o criador do "diagrama de Feynman". Passou uma temporada no Brasil, onde, tocando tamborim com maestria no bloco carnavalesco Inocentes de Copacabana, foi campeão do carnaval em 1952.

Richard Feynman

"Podemos imaginar que esse arranjo de coisas móveis que constitui o mundo seja algo como uma grande partida de xadrez jogada pelos deuses, e nós somos os observadores do jogo. Não conhecemos as regras, e tudo que podemos fazer é observá-lo. É claro que, se insistirmos na observação, acabaremos captando algumas das regras, e estas formam a física fundamental. Quando conhecermos todas as regras, estaremos "entendendo" o mundo."

(Richard Feynman, em "Feynman Lectures on Physics", 1963)

sábado, 16 de janeiro de 2010

DOCE ARROZ AMARGO

Premonições, maná e bolsa de valores

Qualquer pessoa normal entende a lógica da contabilidade, pois o grande Luca Paciolo, criador das partidas dobradas, era um homem positivamente menos complicado do que o professor Kakaze. Para começar, a terminologia é simples e direta. Não se cogita de nenhum logaritmo, nem de derivada, mas do ativo disponível. O passivo circulante ocupa o lugar das equações trigonométricas e das integrais indefinidas, e não há espaço para inequações de nenhuma natureza, sendo certo, com justa razão, que os dois pratos da balança deverão permanecer em rigorosa paridade.
Fora isso, basta ter um pouco de organização, para não misturar informações, e de paciência, para consultar tabelas, como quem vai ao dicionário.

- Ah, vale também um pouco de bom senso, para nunca somar o que deve ser subtraído, pois essa inversão implica um erro multiplicado por dois.


- Fora da contabilidade também.

Logo percebi que a atividade estava a meu alcance e, incapaz de viver das palavras cruzadas, decidi trabalhar como contador. Botei banca de guarda-livros, apenas ciente dos prolegômenos contábeis, e nesse mister, entre borradores e diários, muito me valeu o aforismo de Sparafucile de Pococô:

- O dinheiro é bolsípeto, pois, se sair de um bolso, entra necessariamente em outro bolso.

- Bolsípeto?

- Movido por uma força de natureza centrípeta, como aquela que a gente estuda na Física. Seria até melhor dizer "bolsímpeto".

No início faturava pouco, cobrando um salário mínimo por cliente. Depois, perdida a inocência, passei a exigir honorários cada vez mais elevados, certo de que os clientes não teriam como me opor nenhuma resistência. Impor o preço, na cartilha dos bem-sucedidos, implica um decisivo salto de qualidade...

Eu e a bolsa de valores

Foi, então, que entrei para a classe dos milionários de gabinete, quando gloriosamente me pus a especular na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, à sombra da Comissão de Valores Mobiliários, estimulado pela Fazenda, aplaudido, e muito, pelo Planejamento e conven
ientemente documentado pela Associação Nacional dos Analistas dos Mercados de Capitais. Ah, nunca me esqueça de dizer que naquela época tudo o que se amealhava nesse mercado gozava de isenção do imposto de renda.

- Um incentivo providencial, muito justo e conveniente...

Bolsa de Valores do Rio de Janeiro

Minha técnica era a de adquirir barato, e a termo, na adinamia do mercado, e enfiar caro, e à vista, nas fases de euforia. Em outras palavras, comprar quando todos queriam vender e vender quando decidiam voltar às compras, movidos pela ambição de violar princípios termodinâmicos e criar o moto contínuo de primeira espécie. Quem não se lembra de 1971, quando as pessoas trocavam suas casas por ações? O Plano Cruzado, esquecer quem há de?

- Eu, na outra ponta, vendia ações a mancheias...

Se é verdade que se pode perder muito (ou, o que dá no mesmo, ganhar milhões num dia e vê-los desaparecer no dia seguinte), o esperto geralmente se dá bem, muito bem, pois a Bolsa, convenientemente utilizada, pode ensejar um retorno muito superior ao esforço despendido.

- Um jogo desproporcional, desequilibrado, a favor dos... equipados.

- Engana-se o cruzadista que entender
, na vida real que existe cá fora do diagrama, que maná é apenas o alimento que Deus mandou em forma de chuva para socorro dos israelitas no deserto...

Arroz doce

Consumado o êxito das minhas especulações, desapareci completamente dos pregões, pois especular é atividade de gente pobre. Ou melhor, de gente ainda pobre. Comprei um apartamento de três andares, mais cobertura, na Avenida Vieira Souto, uma ilha em Cabo Frio e uma centena de salas nos melhores edifícios da Avenida Rio Branco. Passei a acionista majoritário de algumas empresas sólidas e rentáveis, engajadas em negócios de fertilizantes, bebidas e metalurgia, que meus prepostos administram com redobrado zelo e eficiência, na pressuposição e temor de que posso demiti-los a qualquer momento.

- Fiquei rico porque fui incapaz de aprender Matemática...


Do meu escritório, de frente para o pôster de Silvana Mangano, depois da surra na chuva e molhada de 18 anos, contemplo com nostalgia a obra de 13 quilômetros a cuja construção não tive acesso por não ter entendido a distribuição de Gauss, eis o meu fracasso mais retumbante.

- Não me despojarei, porém, do mérito de tê-las antevisto, Silvana e a ponte, tamanhas, nas minhas premonições de adolescente...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

SANTO SUDÁRIO

A RELÍQUIA

A peça de linho, de 1,10 m por 4,35m, que se encontra guardada numa capela da Catedral de Turim seria a mortalha de Jesus Cristo ? Os sudaristas afirmam que sim, e os céticos garantem que não, duas correntes, antagônicas, cujos argumentos se baseiam em razões exaustivas e provas que se excluem mutuamente. Essa relíquia, conhecida pelos nomes de Síndone, Sabana, Mandylion, Santo Sudário ou simplesmente Sudário, foi fotografada pela primeira vez em 1898, por Secondo Pia, que obteve, como imagem, o negativo, em frente e verso, do corpo de um homem morto, inteiramente nu, com barba e cabelos longos, lembrando o Cristo crucificado.

História
Igreja de Lirey

O Sudário teria sido levado no Século I para Edessa, na Turquia, onde recebeu o nome de Mandylion, e lá permaneceu até 944, quando os bizantinos o transportaram para Constantinopla. A peça desapareceu de Constantinopla em 1204, levada para a Europa talvez pelos Templários, e ressurgiu na França, nas mãos do cruzado Geoffroy de Charny, que em 1356 o fez guardar na Igreja de Lirey.
Em 1453 Margarita de Charny doou-o a Ana de Lusignano, esposa de Ludovico de Savoia, que o manteve guardado na Igreja de Chambéry. Em 1694 o Sudário foi levado definitivamente para Turim, onde se encontra guardado na Capela do Arquiteto Guarino Guarini, anexa à catedral de Turim. Em 1983 a Casa de Savoia doou o Santo Sudário ao Vaticano, que, não obstante, manteve-o em Turim.

Cruz de Savoia

Céticos

Os céticos acreditam que a peça não passa de uma falsificação do Século XIV. Em 1988 fragmentos do Sudário foram submetidos ao teste do carbono 14, por três universidades, a saber, Oxford, na Inglaterra, Arizona, nos Estados Unidos, e Zurich, na Suíça, que indicaram tratar-se de objeto com origem entre os anos de 1260 e 1390. Walter McCrone, um dos mais famosos microscopistas do mundo, afirmou não haver encontrado nenhum vestígio de sangue no Sudário, além do fato de que não há nele nenhuma indicação de aloé e mirra, que teriam untado o corpo de Cristo, segundo o Evangelho de São João.

Turim
Sudaristas

Por seu turno, os sudaristas, também conhecidos como redentoristas, procuram desqualificar esses testes, alegando que os mesmos se basearam em amostras contaminadas, porque deterioradas pela presença de carbono e fumo, decorrente de um incêndio sofrido pelo Sudário em 1532. Os químicos americanos Alan Adler e John Heller encontraram hemoglobina nos fragmentos do Sudário e contestam a afirmação de McCrone de que a imagem corresponde a uma tinta formada por pigmentos ocre e vermelho, tratando-se, pelo contrário, do escurecimento das fibras do tecido por causa da hidratação da celulose. A mancha corresponde, assim, a sangue coagulado sobre a pele de um homem ferido, que não seria possível obter por meios artificiais. Pólens de flores que crescem na região do Mar Morto na época da Páscoa foram encontrados no Sudário, que, adicionalmente, contém resíduos de pólen da França e da Turquia. Muitos se dedicam profissionalmente aos estudos sobre o Sudário, sendo conhecidos como sindonologistas, cada um com sua especialização, que pode ser em anatomia, química, biologia, fotografia, computação gráfica ou palinologia. Há cerca de 400 grupos de sindonologistas, um dos quais, o STURP (Shroud of Turin Research Project - Projeto de Pesquisa do Sudário de Turim), formado por 40 cientistas, emitiu em 1983 um relatório contendo o resultado de 100 mil horas de estudo, com a afirmação de que suas pesquisas não atestam "nenhum indício de que a relíquia seja falsa".

STURP: pesquisando sobre o Sudário

João Paulo II

O Papa João Paulo II visitou o Sudário em Turim em 1988 e, contornando a controvérsia com grande habilidade, declarou, na ocasião, que “a Igreja confia aos cientistas a tarefa de investigar e responder adequadamente às questões relacionadas com o manto que, segundo a tradição, cobriu o corpo do Redentor, quando foi descido da cruz. O homem refletido no Sudário é a imagem do sofrimento humano, que nos convida à reflexão sobre o mistério da dor e de suas causas. Para os que creem, o Santo Sudário é o espelho do Evangelho.”