quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

AI DOS VENCIDOS

ERREI, FUI HOMEM...

Casei- me em 2001, logo após ser contratado pela Energy Improvements. Por orientação do diretor de empreendimentos, tomei um curso de oito meses na Fundação Getúlio Vargas, no qual entrei engenheiro civil, sabendo construir prédios, obras hidráulicas, estradas e viadutos, e saí engenheiro de produção, preparado para examinar projetos de investimentos, orientar a tomada de decisões em regime de incerteza e discutir cláusulas contratuais de joint-ventures com companhias internacionais de energia.

Sofia

Imediatamente formei uma equipe de negociações, integrada por dois engenheiro de minas, um economista, um advogado e alguns estagiários. Minha secretária, Sofia, falava vários idiomas, sabia tudo de informática e era admirada por sua beleza excepcional, mas nela enxergava apenas a excelente profissional, pois amava minha mulher, que me bastava, e não tinha olhos para nenhuma outra pessoa.

Sun Tzu

Nossa atuação era de natureza prospectiva. Competia-nos descobrir a oportunidade, estimar os custos e receitas de cada projeto potencial, orientar a decisão a ser tomada pelo conselho de administração, buscar sócios, participar das licitações e negociar os acordos. Primeiro, calculávamos os resultados virtuais dos eventos possíveis,
a respectiva probabilidade de ocorrência e, finalmente, o valor monetário esperado do projeto médio, composto com as propriedades de todos os eventos possíveis. Depois, efetuávamos as negociações dos contratos, que eram assinados com agências do governo ou, quase sempre, com companhias que se associavam às nossas joint-ventures. No decorrer dos meses, com a experiência adquirida, chegamos a desenvolver uma linha de atuação, a filosofia da competência, para não errar nas negociações, pois os estrangeiros vinham cheios de estratagemas, dossiês pessoais e providências facilitadoras.


- Aquela história de Sun Tzu, prazos enganosos, falsos orçamentos, cláusulas de palha e quejandos, que a gente conhecia exclusivamente para nossa defesa, pois o recurso da enganação não se encaixava no nosso repertório como um postulado estratégico.

Todos os pontos deveriam estar negociados antes da assinatura de qualquer protocolo, ou seja, se a negociação não estivesse toda concluída, não haveria solenidade comemorativa de nenhuma natureza, nem encontro dos negociadores estrangeiros com nossos diretores. Também exercitávamos a flexibilidade, com o objetivo de acomodar pretensões justas da outra parte, caso houvesse, sem comprometer os nossos interesses. Decidi também que nós nos prepararíamos à exaustão antes de qualquer negociação, excluindo definitivamente a figura do negociador desprevenido e despreparado. Ficou também estabelecido que cultuaríamos a discrição, não mentindo para os que negociavam conosco, não demonstrando autossuficiência, não ironizando as posições da outra parte e nunca comentando aspectos da negociação com pessoas não envolvidas nas mesmas.

Negociadores

É justo acrescentar que Sofia, extrapolando suas funções, aos poucos mostrou-se de grande valia na formulação de cláusulas alternativas e na redação dos textos. Muitas vezes participava das nossas discussões preparatórias e não raro sugeria caminhos alternativos, que serviam ao êxito das negociações.

Êxito

Funcionou. Funcionou, sim, muito bem. Ouso dizer, a partir dessa experiência, que o planejamento determina o êxito.
Uma vez concluídas as negociações, a execução das obrigações contratuais cabia a outros departamentos, que, para meu orgulho e felicidade, nunca se queixaram de nenhum defeito substantivo em nenhuma cláusula negociada sob minha supervisão. Oito anos de êxito. Eu me considerava um negociador vitorioso, gostava do que fazia e vivia uma permanente sensação de bem-estar. É bom, muito bom, perceber que se tem importância num projeto decididamente vencedor. Um diretor chegou a dizer que eu negociava "como um lorde-chanceler”, o que me deixou orgulhoso, e até envaidecido, mas o que me movia, para além de meu amor por minha mulher, era a obsessão do trabalho bem feito.

Carla
Carla, minha mulher, fazia uma exuberante carreira paralela, como estilista profissional. Nossa parceira familiar sólida e generosa era fundamental para nossas conquistas e êxitos profissionais. Pois nós nos amávamos, para dizer numa palavra tudo. Eu me divertia com a ideia de que ela poderia substituir-me na Improvements, apta que estava para estimar custos e receitas, traçar perfis de lucro e calcular juros e taxas de rentabilidade. E refutar todos os ardis que os do outro lado da mesa lhe opusessem na negociação das cláusulas contratuais.

- Mas a recíproca não era verdadeira, pois eu nada entendia de moda e de desfiles...


Houve, porém, a Sofia...

É preciso, todavia, contar todo o resto, pois errei, fui homem. Sofia, a linda secretária, tornava-se cada dia mais irresistível e, aos poucos e com muita arte, acabou me atraindo para jantares dissimulados e escapadelas desestabilizadoras. Não cabe aqui a menção de pormenores e miudezas, que nem serviriam para melhorar a narrativa, bastando acrescentar que, ao fim e ao cabo, terminei ficando sem as duas mulheres. Carla me colocou imediatamente para escanteio, desaparecendo completamente da minha vida.

- A independência financeira torna o desenlace fácil e operacional...

Desorientado e sem rumo, comecei a equivocar-me nas negociações, escolhi projetos temerários e resultei demitido da Improvements. De pronto Sofia me descartou: claro, eu já não representava uma prenda a ser conquistada.

Estou, em 2009, como comecei, oito anos atrás: sem mulher e sem emprego.

- Ai dos vencidos!

A frase foi dita em 387 a. C. pelo general gaulês Breno, aos romanos derrotados, que reclamavam dos elevados tributos de guerra. Sabia muito o bravo e eficiente general.

sábado, 28 de novembro de 2009

ZENÃO DE ELEIA

FLECHA QUE VOA, MAS NÃO VOA

Zenão de Eleia

O paradoxo da flecha voadora foi construído por Zenão de Eleia (495 - 430 a.C.) para contestar nosso entendimento sobre movimento e pluralidade. Argumentava Zenão que uma flecha disparada fica imóvel em cada instante, pois, do contrário, ocuparia várias posições num só instante, o que é impossível. Se o tempo é feito de uma sequência de instantes, segue-se que a seta permanecerá sempre imóvel, contrariamente ao que se observa. Ou, dizendo de outra maneira, a cada instante de tempo a flecha está em um ponto definido e, portanto, em repouso naquele instante. No instante seguinte ela também estará em repouso e assim sucessivamente, ou seja, em repouso para sempre.

Pode parecer um jogo de palavras, para não dizer um contrassenso, mas esse arrazoado tem grande poder de sedução. Na década de 1920, o filósofo e matemático inglês Bertrand Russell (1872-1970) considerou o paradoxo da flecha voadora como extremamente sutil e profundo.


Paul Valery

Valery

Paul Valery (1871-1945), um poeta que tinha interesse em música, matemática e filosofia, também se encantou com os jogos intelectuais de Zenão. No seu celebrado poema “Le cimetière marin” ("O cemitério marinho"), Valery invoca o paradoxo da flecha em admiráveis versos decassílabos:


Zénon! Cruel Zénon! Zénon d'Êlée!
M'as-tu percé de cette flèche ailée

Qui vibre, vole, et qui ne vole pas!

Le son m'emporte et la flèche me tue!


(Zenão! Cruel Zenão! Zenão de Eleia!

Tu me feriste com tua flecha alada,

Que vibra, voa, mas que não voa nada.

O som me enleva, e a flecha me mata!)


Pluralidade e mudança


- Saibam, senhores, que a pluralidade não existe...

- Seu paradoxo não tem correspondência na realidade, disse um vizinho a Zenão. Todos sabemos que a flecha disparada sempre sai de um ponto e alcança outro, ou seja, há algo errado no seu raciocínio.

- Claro, retrucou Zenão. Mas não basta apontar o absurdo, temos de explicá-lo. E eu explico:
a pluralidade não existe, e a mudança é impossível.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

VERSOS RIDÍCULOS

MINHA CACHORRINHA

Uma certeza que me acompanha existência afora, nem sei exatamente por quê, é a de que todo mundo acaba fazendo alguma poesia, nem que seja umazinha só, mirrada e solitária. No meu caso, isso é meio complicado porque não tenho nenhuma afirmação abrangente a fazer, nem para os amigos, nem sobretudo para a humanidade.

Tenho cara de sósia

Sobreveio, porém, o incidente vivido à porta do motel, que preciso contar desde o começo.
Confesso constrangidamente que tenho cara de sósia, do tipo mais genérico e vulgar, tantas vezes já me confundiram com outras pessoas. Nunca, porém, o mal-entendido veio com tanto fervor e destempero.


Saíamos do motel, quando uma desconhecida, irrompendo do nada, deu um empurrão em May e dirigiu-se a mim de maneira extravagante e agressiva.

- Pensa que a coisa vai ficar assim, seu cretino? Me deixando por essa aí? Não adianta tirar a barba, nem o bigode, que eu te reconheço debaixo de qualquer disfarce, mesmo fantasiado de satanás ou de vice-rei da Catalunha! Eu irei atrás de você até as profundezas do inferno!


De um lado, uma mulher equivocada, plena de fúria e desespero, e, do outro, eu, um homem desconcertado, sem saber o que fazer, nem como reagir.



- Mas quem é a senhora?

- Não sabe quem sou eu, essa é boa, muito boa! E, além de tudo, me chamando de senhora! Você sempre me chamou de minha cachorrinha, não se lembra não, seu cretino?


Cada vez mais desorientado, a custo me desvencilhei da megera, um pesadelo vociferante, que finalmente se afastou, sempre aos gritos, desaparecendo numa curva da Niemeyer. Exausto e humilhado, tive então outra surpresa: May, na confusão, havia abandonado o local, seguindo de táxi para o Leblon.

Um tribunal chamado May

À perplexidade daquele momento juntou-se a decepção dos dias que se seguiram. May se recusou a atender os meus telefonemas. Não sei se doeu mais a separação ou se a lógica absurda na qual se baseou. Senti semanas a fio uma terrível sensação de impotência, a de um inocente condenado por causa de um lamentável mal-entendido, inerme e inerte diante de um tribunal chamado May, a mulher que eu amava. Que ouviu uma acusação contra mim, de nenhum fundamento, me julgou e me condenou, sem sequer me conceder a generosidade de me ouvir.


Apesar disso, ou, quem sabe, exatamente por isso, eu sentia muita falta dela. Afinal, May não tinha culpa de ignorar a minha inocência. Foi então que fiz a poesia, cumprindo o destino de ser poeta por um dia. Poesia tem de ser mostrada, imaginei, ou deve ir para a lata do lixo. Foi por isso que pensei em ir ao Museu, chamar pela May e depor-lhe o meu amor. Uma declaração seguida de uma declamação, de acordo com um teatro que cheguei a ensaiar.

O que declarar:

"Fiz uma poesia para você, os primeiros versos da minha vida. Versos ruins, sem dúvida, o que não tem nenhuma importância, nem consequência. Porque não sou poeta, May, mas um homem confessando o seu amor."

O que declamar:

"A febre, grande ameaça,
Sempre demora, mas passa.
A banda passa na praça,
Tocando com muita graça.
A uva demora, mas passa.
Passa boi, passa boiada,
Passarinho, passarada.
O aluno se vira e passa,
O filme passa no paço,
E, do pascácio que passa,
Não fica nem a carcaça.
Mas você, aqui no peito,
Agarrada como traça,
Impassante, impassada,
Só você é que não passa."

May

Horror ao vexame

Não era simples, todavia. Para ir ao Museu eu teria de arrostar e vencer todas as minhas resistências. O que não aconteceu, pois, t
udo aferido e sopesado, prevaleceu o meu recato. Ir ao Museu, de poesia em punho, onde já se viu, ora essa! Galileu Galilei afirmou que a Natureza tem horror ao vácuo; pois eu, o que tenho é o horror do vexame.

- Vai para a lata do lixo...

- E, convenhamos, os meus versos, sabe-se lá, como os meus versos são ridículos!

sábado, 21 de novembro de 2009

Lieserl

A filha de Albert Einstein

Mileva e Einstein

Albert Einstein, alemão da cidade de Ulm, casou-se com a física Mileva Maric, uma sérvia de Bacska, que conheceu na Escola Politécnica de Zurich. Ele a chamava carinhosamente de Marity. Houve nesse casamento um mistério nunca esclarecido: a filha Lieserl, da qual só se sabe o nome, desapareceu de cena alguns dias depois de ter nascido, na Sérvia, em 1902.
Esse fato só se tornou conhecido 85 anos depois, em 1987, quando as cartas de Einstein foram tornadas públicas por decisão judicial. Cartas que foram trocadas enquanto Einstein procurava emprego na Suíça e Maric esperava a criança na casa dos pais, em Novi Sad, uma cidade da Sérvia às margens do Danúbio. Numa das cartas, de 19 de setembro de 1903, Einstein escreveu:

"Lamento muito pelo que sucedeu a Lieserl. É muito fácil sofrer sequelas permanentes de escarlatina. Se ao menos isso acabasse! Como a criança foi registrada? Devemos tomar precauções para que isso não tenha problemas mais tarde."

Lieserl jamais voltou a ser mencionada em nenhuma das cartas, e fracassaram todas as tentativas de obter pistas sobre sua vida. Não se conhece, de fato, nenhuma palavra de Einstein ou de Mileva sobre o destino de Lieserl, sendo geralmente admitido que Einstein não chegou a ver a filha. Uns poucos acreditam que a menina teria morrido, ainda bebê, mas muita gente suspeita de que tenha sido dada em adoção, em face de problemas financeiros enfrentados pelo casal.
Pois naquele ano de 1902 Einstein, ainda desempregado e aguardando uma colocação no Escritório de Patentes de Berna, colocou o seguinte anúncio em um jornal suíço:

"Aulas particulares de
MATEMÁTICA E FÍSICA
para universitários e secundaristas
dadas especialmente por
ALBERT EINSTEIN, professor
diplomado pela politécnica federal.
GERECHTIGKEITSGASSE, 32, primeiro andar
Aulas experimentais grátis"

Para complicar a história, Einstein e Mileva continuaram juntos por 15 anos e tiveram mais dois filhos, Hans Albert, em 1904, e Eduard, em 1910.

Maric, com os dois filhos de Einstein: Eduard e Hans

Einstein e seu filho Hans

Ovos laterais

Einstein se divorciou de Mileva em 1918 e, na década de 1930, morava
com sua segunda mulher, Elsa Löwentall, em Princeton, nos Estados Unidos. Um amigo residente nessa mesma cidade, Hermann Weyl, recebeu de um professor do Christ Church College, de Oxford, Inglaterra, um telegrama sobre uma mulher que tentava provar ser filha de Einstein:

"Senhorita Herrschdoeffer acha que é filha Einstein. Busca apoio nos altos círculos porque não pode contar com a madrasta, Elsa Löwentall. Não duvide e comunique Einstein pessoalmente. Telegrafe em seguida. Frederick Lindemann."

Ninguém naquela ocasião associou o episódio a Lieserl, cuja existência era então desconhecida de todos. Sabe-se que a secretária de Einstein, Helen Dukas, contratou para investigar o caso
um detetive particular, cujas averiguações teriam indicado que se tratava de um delírio ou de uma impostura de Grete Markstein, que era, na verdade, uma atriz alemã. Einstein escreveu a respeito para um amigo, com uma ressentida pilhéria:

- Dizer que pus ovos para os lados seria engraçado, se não magoasse outras pessoas.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

TERTÚLIAS ELEGANTES

SHAKESPEARE E O DENTISTA

Convidado de um convidado, achava-me ali na condição de quase-penetra. Não estranharia nem um pouco se Fiona Florence e Mastroianni irrompessem abraçados naquela sala imensa, pois sentia-me como se estivesse num filme de Fellini.
Primeiro, Angelina declamou a poesia “Congresso no Polígono das Secas (ritmo senador; sotaque sulista)”, de João Cabral de Melo Neto. Depois, um torneio de mágicas, muito divertido e interessante. O melhor veio, porém, quando se fez um sorteio para ver quem iria propor
um enigma relacionado com Shakespeare e suas personagens, pois quase todos estavam com suas histórias muito bem preparadas.

Cartas

Alice Ben-dov

A sorteada foi uma escritora chamada Alice Ben-dov. Vou tentar reproduzir a história que ela narrou, sobre um dentista do Leblon, que um dia recebeu uma carta para lá de esquisita:

“Silvestre, você não passa de um dentista idiota, pois ignora sua própria história. Se desejar conhecê-la, almoce amanhã no Humphrey’s, exatamente à uma. Como você está familiarizado com Shakespeare, se olhar para baixo, saberá o porquê...
Tiago Lessone.”

Eis o que Silvestre pensou dessa carta:

“Sou idiota, como não, e muito obrigado por manifestar sua abalizada opinião. Ignoro a minha história? Almoçar à uma, no Humphrey’s? Ora, pois! Como conheço Shakespeare, só por isso, basta olhar para baixo... Para ver a rua?
Constatar o quê? Muito barulho por nada? Alguma Sorveteria do Hamlet, com picolés da Dinamarca, um Mercador de Bugigangas Importadas, ou o Rei Lear, com seus bolinhos de bacalhau e geladeiras de segunda mão? Ou será a jaqueira do nosso playground? Peço-lhe, querido bardo, a gentileza de informar ao senhor Tiago Lessone, seja ele quem for, que olhei para baixo e, para minha grande surpresa e desorientação, lá estavam os meus pés, em número de dois, calçando sapatos pretos de tamanho 42, assentados tranquilamente no chão do meu consultório, e, mais abaixo, uma jaqueira que faz o incomensurável favor de nunca ter dado nenhuma jaca. Peço-lhe, mais, que informe ao Lessone que não tenho nenhum tempo, nem disposição, para comparecer ao Humphrey’s”.


Silvestre

Dias depois, o dentista recebeu outra carta:

“Silvestre, você não deu importância à minha carta e não compareceu ao Humphrey’s. Sua história não lhe interessa? Segunda chance, amanhã, no Humphrey’s, às 13 horas. Olha para baixo!
Tiago Lesst.”

Havia uma grande mudança, logo percebida pelo Silvestre, pois o sobrenome, Lessone, fora trocado para Lesst. Pela segunda vez ele decidiu não fazer nada. Houve, poucos dias depois, uma terceira carta, recomendando mais uma vez que ele comparecesse ao Humphrey’s. Só que
desta vez a assinatura mudara para Tiago Lessfirst. Tudo muito esquisito...

Lessone, Lesst ou Lessfirst?


Silvestre pensou longamente nos três sobrenomes do Tiago, entendeu o recado e decidiu comparecer ao Humphrey’s na hora sugerida pela terceira carta. Para sua grande surpresa e desapontamento, no restaurante encontrou sua mulher abraçada com um amante.
Silvestre não é homem de grandes explosões, mas acabou separando-se da mulher.


No Humphrey's
O enigma

- Por que Silvestre atendeu à terceira carta?, eis o enigma, arrematou Alice, dirigindo-se aos presentes.

Os convidados tinham 30 minutos para desvendar a história. Houve, no início, muito palpite, desorientação e manifestações equivocadas. Depois, todos permaneceram em silêncio, e tão longa foi essa pausa que tive a impressão de que ninguém chegaria à solução.
Quando já se encerrava o prazo, entretanto, Susana de Malta, que é tradutora juramentada e mora na Aristides, apresentou a solução do enigma:

- A instrução de olhar para baixo tinha a ver com o sobrenome cambiante. Não era para olhar os sapatos ou a rua, mas a parte de baixo da carta, ou seja, a assinatura do Tiago. Tiago “Lessone” é Tiago sem “one”; Tiago “Lesst” é Tiago sem “T”; e Tiago “Lessfirst” é Tiago sem a inicial. Três informações na mesma direção, pois Tiago sem a inicial é Iago. Sim, Iago, a personagem pérfida que insinua para Otelo que Desdêmona tem um romance secreto com Cássio. Na tragédia de Shakespeare, Otelo acredita na intriga e, possuído pelo demônio do ciúme, estrangula Desdêmona e se suicida.

- Compreendemos muito bem, ou seja, uma recorrência shakespeariana como forma de alertar sobre a mulher. Silvestre só entendeu, afinal, porque conhecia a obra de Shakespeare, o que significa que cultura, entre outras nobres finalidades, também serve aos maridos enganados.

- Serve muito,
observou Alice. Silvestre teve mais bom senso que Otelo. Quero dizer, foi menos radical...

- Só que no caso do Silvestre a denúncia era verdadeira, ao contrário do que ocorre na tragédia de Shakespeare.

- Mais uma agravante contra Otelo. Esse Humphrey’s deve ser um lugar elegante...

- Sim, os clientes fazem as reservas com antecedência, o que permitiu as cartas antecipadas do Tiago sem T para o dentista. E tem mais...O Tiago sem T, se não for o gerente responsável pelas reservas, tem acesso a elas, creio eu.


E o Peloponeso?

Alice e Susana receberam prêmios, cabendo a cada uma xilogravura do Scliar. A festa ainda prosseguiu e encerrou-se depois de algumas projeções coloridas do sítio arqueológico de Epidauro, um santuário situado a nordeste do Peloponeso. Para dizer tudo em poucas palavras, uma rica e sofisticada tertúlia de intelectuais.



-
Fui ao atlas e fiquei sabendo onde fica o Peloponeso, uma península no sul da Grécia

sábado, 14 de novembro de 2009

LAMPIÃO E O PREFEITO

O ATAQUE A MOSSORÓ


No dia 13 de junho de 1927, Lampião (1897 ou 1898 - 1938), que havia dias assediava a cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, enviou uma carta ao prefeito Rodolfo Fernandes, exigindo quatrocentos contos de réis para não atacar a cidade. Como o prefeito recusou a proposta, igualmente por carta, Lampião e seu bando invadiram a cidade.
Seu objetivo era receber o resgate ou saquear a indústria, o comércio, as residências e as instalações do Banco do Brasil.

Carta de Lampião ao prefeito

“Coronel Rodolfo:
Estando eu aqui, o que pretendo é dinheiro. Já foi um aviso para o senhor aí. Se por acaso resolver mandar-me a importância que nós lhe pedimos, evito a entrada aí; não vindo essa importância, eu entrarei até aí. Penso que, a Deus querer, eu entro, e vai haver muito estrago. Por isso, se vier o dinheiro, eu não entro aí. Mas mande resposta logo. Virgulino Ferreira, Capitão Lampião.”

Resposta do Prefeito a Lampião

“Virgulino Lampi
ão: Recebi o seu bilhete e respondo que não tenho a importância que pede; o comércio também não tem. O banco está fechado, pois os seus funcionários se retiraram daqui. Estamos dispostos a suportar tudo que o senhor quiser fazer contra nós. A cidade confia na defesa que organizou. Rodolfo Fernandes, prefeito.”

Praça Rodolfo Fernandes, Mossoró

O ataque

Nesse mesmo 13 de junho deu-se o ataque de Lampião a Mossoró, de acordo com um plano
idealizado pelo cangaceiro potiguar Massilon Leite Benevides, conhecedor da região. Massilon confiou na negligência da população, que não acreditava num ataque de Lampião. Ele não sabia, porém, da determinação do prefeito e dos cidadãos que se dispuseram a defender a cidade contra os marginais, que foram rechaçados e bateram em retirada, deixando para trás um companheiro morto e outro ferido. Nunca mais Lampião se atreveu contra nenhuma cidade do Rio Grande do Norte, ele que, referindo-se à resistência de Mossoró, chegou a fazer o seguinte comentário: “da torre da igreja, até o santo atirava na gente.”

Fim de carreira
Maria Bonita

Lampião continuou sua carreira de invasões e arruaças até ser morto por um grupamento da Polícia Militar alagoana em 28 de julho de 1938, na fazenda de Angicos, no município de Poço Redondo, Sergipe. Com ele morreram sua mulher, Maria Bonita, e os cangaceiros Luís Pedro, Mergulhão, Elétrico, Quinta-Feira, Caixa de Fósforo, Adília, Cajarana e Diferente, e outros 23 cangaceiros se entregaram à volante comandada pelo tenente João Bezerra. Os mortos foram decapitados e suas cabeças ficaram expostas nas escadarias da igreja matriz de Santana do Ipanema, no sertão de Alagoas. De lá foram conduzidas para Maceió e depois para Salvador, onde foram mantidas como "objetos de pesquisa científica", no Instituto Médico Legal de Salvador (Instituto Nina Rodrigues), até a década de 1970.

Diabo Louro

Uma semana depois do massacre da fazenda de Angicos, o cangaceiro Corisco, que carregava o apelido de "Diabo Louro", amigo de Lampião e ex-integrante do seu bando, desfechou violentos ataques retaliatórios contra cidades à margem do Rio São Francisco. Chegou a enviar algumas cabeças cortadas ao prefeito do povoado de Piranhas, Alagoas, com um bilhete audacioso: "se o negócio é de cabeças, vou mandar em quantidade".
Corisco foi morto pela polícia em julho de 1940, na região de Brotas de Macaúbas, no Estado da Bahia.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

LADO BOM É O LADO DE DENTRO

O ATESTADO DE ÓBITO DO UNIVERSO

Elisa, on my mind

Minha estratégia foi pensar na Elisa, o tempo todo. No princípio fiquei um pouco inibido, e até assustado, pois havia uma pequena e inesperada plateia. Eram estudantes do curso básico, talvez uns dez, amealhando experiência para quando chegasse sua vez. Felizmente, logo me dominei e fui cumprindo meu roteiro, tantas vezes ensaiado que mais parecia uma autoridade na matéria do que um Hamlet de segunda mão.

Mayer, boicote e tuberculose

Numa formulação holística, e portanto não-cartesiana, Julius Robert Mayer percebeu que a energia nunca é criada nem destruída, mas transformada de uma para outra forma. Ou seja, percebeu o Primeiro Princípio da Termodinâmica.


Mayer nasceu no distrito de Heilbronn, no estado de Wurttemberg, na Alemanha. Foi o autor dos estudos que permitiram estabelecer uma equivalência entre trabalho mecânico e calor e quase se matou quando soube que o crédito pelas suas descobertas foi conferido ao físico britânico e fabricante de cerveja James Prescott Joule.

Julius Robert Mayer

Robert Mayer foi realmente boicotado, e isto se deveu ao preconceito contra a Naturphilosophie, pois se dizia então, mais do que agora, que os alemães só pensavam na unidade fundamental da natureza, “esse romantismo metafísico de Goethe”.

- Mayer morreu de tuberculose, aos 64 anos.

Carnot, escarlatina e cólera

Também por métodos holísticos, o francês Sadi Carnot descobriu que não é possível a passagem espontânea de calor de um corpo frio para um corpo quente, tanto quanto não é possível a transformação completa de calor em trabalho. Descobriu
, quem diria, o Segundo Princípio da Termodinâmica. O ciclo de Carnot é teórico, reversível, sem atrito.

Ciclo de Carnot


Sadi Carnot era militar, mas também se dedicava à literatura, à música, à dança, à equitação e à matemática. Como físico, seu objetivo era construir a máquina a vapor de máxima eficiência. O pai, Lazare Carnot, economista, militar, filósofo e matemático, chamado durante a Revolução Francesa de “Grande Carnot”, foi autor de importantes trabalhos de geometria, estática e dinâmica.
Sadi passou a ser hostilizado depois que seu pai foi exilado pela Restauração.

- Morreu aos 36 anos, vítima de escarlatina e cólera.


Entropia

Discorri depois sobre entropia
. Disse que, se em dado momento, reconhecermos que a entropia de um sistema isolado não é máxima, podemos afirmar que a entropia era inferior antes desse momento e que será superior em cada momento posterior. De fato, para além da memória humana, só a entropia permite distinguir entre passado e futuro. O crescimento incessante da entropia correlaciona-se com o crescimento incessante do tempo, sendo certo que, ao fim e ao cabo, o Universo assumirá no futuro remoto um assustador estado de homogeneidade térmica, sem nenhuma possibilidade de ordem ou de informação ulteriores.


- Encerro minha aula com a assertiva de que o Segundo Princípio da Termodinâmica é o atestado do futuro óbito do Universo, nada havendo mais triste, nem mais definitivo.

Aula aprovada

Ignácio De Sitter, Rafael Lemaitre e Maria Hoyle, os professores da banca, reuniram-se na sala do reitor durante 30 minutos. Foi De Sitter quem comunicou que minha aula tinha sido aprovada. Eu passava ao lado bom, que é o de dentro. Cinco salários mínimos por mês! Valeu, Elisa!

- Além disso, Carlos Auvergne, queremos convidá-lo para jantar conosco no Humphrey's, seguindo a tradição de trazer para a nossa intimidade os candidatos que são aprovados para fazer o doutorado de Física.

Universos subsequentes


Eu não conhecia o Humphrey's, com seu serviço competente e elegante. Cabia-me desfrutar, sem trauma nem constrangimento. Durante todo o jantar Ignácio De Sitter elogiou insistentemente a minha aula, que classificou como de "Física, enriquecida com História e um pouco de terrorismo."

- A propósito, perguntou ele mantendo o tom de brincadeira, por que a homogeneidade térmica do Universo é tão assustadora?

- Porque tudo se transformará numa formidável sopa de fótons e neutrinos, desorientados e sem nenhuma motivação, retrucou Maria Hoyle, salvando-me de oferecer uma resposta.

- Mas ninguém aqui precisa dispensar a sobremesa para pegar o avião e fugir do Universo morituro, porque isso ainda vai demorar alguns bilhões de anos, acrescentou Lemaitre.

Maria Hoyle gostou também daquela tirada do atestado de óbito:

- A Termodinâmica criou o Universo e depois o matará. Por isso carrega esse atestado de óbito no bolso do colete.

- E, caso queira, poderá usar o mesmo atestado para o Universo subsequente, arrematou De Sitter.

- Certamente o fará, emendei, já integrado à nova família, pois as mesmas leis físicas certamente prevalecem em todos os Universos...

terça-feira, 3 de novembro de 2009

PREPARANDO A AULA

Eu sou o Al Pacino

Faça de conta que você está num barzinho do Baixo e a moça mais bonita da General San Martin de uma só vez lhe pergunta se você curte o Al Pacino e o que é Termodinâmica. Isso mesmo, você vai dar essa aula para a moça mais bonita da San Martin, a Elisa, segurando o giz como quem segura um copo de uísque.

- Sim, sim, também curto o Al Pacino.

Elisa

A aula da minha vida, o uísque da minha vida, a moça da minha vida. E eu, bem... Eu, eu sou o Al Pacino, o herói que vai dar a aula de Termodinâmica para a moça da San Martin.

Treinando o discurso

Lembre-se, Carlinhos idiota, nada de integrais ou de logaritmos neperianos, nem de médias harmônicas ou de transformadas de Laplace. Ensinar por meio de equações matemáticas é muito cômodo, mas tem o pequeno inconveniente de que os alunos ficam sem entender. Exercite, em vez, aquele seu velho aforismo:

- A melhor álgebra é a das palavras, verborrágica.


Devo citar Charles Percy Snow? "Poucos cientistas leem Charles Dickens ou uma peça de Shakespeare; poucos artistas conhecem o Segundo Princípio da Termodinâmica; assim fica muito difícil resolver os problemas do mundo." E acrescento: "fica mesmo".
Não, não, soa muito pretensioso, insinuando que entendo alguma coisa de arte.


Charles Percy Snow

Primeiro Princípio

O Primeiro Princípio da Termodinâmica garante a conservação da energia, é preciso que isso fique muito claro. Não posso esquecer, na hora, de mencionar que o Universo é um sistema fechado e portanto de energia constante, distribuída no petróleo, na luz do sol, nas plantas, nas barragens - energia nuclear, energia mecânica, energia química, energia elétrica... Energia por toda parte, mudando de uma forma para outra, mas conservando-se durante todo o processo.

Segundo Princípio


O Segundo Princípio da Termodinâmica limita as transformações entre calor e trabalho, pois é impossível que uma máquina térmica isolada e independente transfira calor de um corpo frio para um corpo quente, isto é, o moto contínuo de primeira espécie é inviável, assim agora e assim eternidade adentro. O Segundo Princípio pressupõe a morte térmica do Universo, pelo aumento incessante e irreversível de entropia, até que esta atinja seu nível máximo. Todo o Universo na mesma temperatura!

Terceiro Princípio

Mas há também um Terceiro Princípio da Termodinâmica, pelo qual não é possível atingir o zero absoluto utilizando uma sequência finita de processos termodinâmicos. Ou, dizendo melhor, é impossível alcançar a temperatura correspondente ao zero absoluto.

Montaigne

Michel de Montaigne

Claro que, ao citar os pioneiros da Termodinâmica, Mayer e Carnot, devo dizer como foi que eles morreram, de acordo com as informações que recolhi em minhas pesquisas na Biblioteca Nacional. Para avaliar se uma pessoa foi feliz, isto é, se valeu a pena ter vivido, é preciso saber como foi que ela morreu, e quem ensina isso é Montaigne. Se tais coisas não ficarem esclarecidas, isto é, se não se conhece o lado humano e doloroso dos físicos, os alunos podem pensar que a ciência se faz num céu de brigadeiro, sem alma, sem angústia e sem sofrimento. Que a Física surge do nada, como a noite, a chuva, as manhãs de outono, o vento leste, ou pelas artimanhas de alguma máquina, bastando ligá-la na tomada ou alimentá-la de petróleo numa planta de gasolina.

Ricardo III


Vou seguir esse roteiro. Problema, se houver, será responder às perguntas da banca, inesperadas, surpreendentes e ameaçadoras. Mas isso está fora do meu controle. Seja como for, lembre-se de que o professor é um ator num palco, fazendo o Ricardo III. Cinco salários mínimos! Cinco salários mínimos! Meu reino por cinco salários mínimos!

- Concluo, senhoras e senhores, confessando-lhes toda a verdade: eu sou o Al Pacino!

sábado, 31 de outubro de 2009

Cora Coralina e João Cabral

ORAÇÃO DO MILHO

Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.
Sou a farinha econômica do proletário.
Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha.
Alimento dos porcos e do triste mu de carga.
O que me planta não levanta comércio, nem avantaja dinheiro.
Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.
Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal agradecida a Vós, Senhor, que me fizestes necessário e humilde.
Sou o milho.

Cora Coralina (1889-1985)


A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;

captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria

ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:

lições de pedra (de fora para dentro,

cartilha muda), para quem soletrá-la.

*
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).

No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;

lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.



João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

VACA-RAPAZ

MEU PROFESSOR DE INGLÊS


Yrves Vacaria

Não me lembro de nenhum professor especialmente preparado, nem de colegas muito inteligentes. Éramos, de fato, uma assembleia de mediocridades, considerados ambos os lados da mesa. Eu, pobre de mim, sempre gostei de problemas de aritmética, palavras cruzadas e quebra-cabeças e tinha um desempenho saliente em Inglês, o que não chegava a ser nenhuma façanha, nem podia ser avaliado, pois o professor era daqueles que traduziam “cowboy” por “vaca-rapaz” e “what does he do?” por “que faz ele fazer?”

- Doutor Vacaria, não seria melhor traduzir “cowboy” por “vaqueiro” e “what does he do?” por “o que ele faz?”

"Vaca-rapaz"

Como o professor nada respondeu, entendi que havia sido grosseiro e inconveniente. Mais uma vez, sim, mais uma vez. Para minha surpresa, porém, ele voltou ao assunto na aula do dia seguinte, embora de forma indireta e metafórica. Elogiou o padre Eleutério, que sempre se penitenciava dos seus erros, a inteligência de Santo Agostinho, que na fé conheceu a razão e a felicidade, e a humildade de Francisco de Assis, que se dedicou a um ideal de pobreza e por isso recebeu os estigmas das chagas de Cristo.

- À estupidez sempre há de contrapor-se o discernimento, e só os idiotas não mudam. Prevaleçam, pois, a razão e a verdade, mas também a inteligência, para reconhecer os equívocos, e a humildade, para proclamá-los sem nenhum constrangimento. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

A custo consegui entender que Yrves Vacaria de Bastos Viamão estava aceitando a minha sugestão. Desde então “vaca-rapaz” e “o que faz ele fazer?” perderam a vez para “vaqueiro” e “o que ele faz?”, nas aulas de Inglês de Barro Verde. E, mais, fui dispensado dos exames finais e aprovado com nota oito, vírgula três. Assim foi. Acho, porém, um exagero a afirmativa de que sou o responsável pelo epíteto de "professor Vaca-Rapaz" que foi atribuído a Yrves Vacaria.

O resto é silêncio

Disseram-me anos depois que minha intervenção, um show-offismo banal que ajudou a corrigir os rumos anglo-saxônicos dos meus estudos ginasiais, despertou a ternura da Bianca Averróis, conforme na ocasião andou confessando às suas amigas mais íntimas. Ela, que era a moça mais bonita da minha adolescência, viria a ser a musa de todas as colunas sociais, depois que se casou com o milionário Richard Lloyd.
Apaixonada por mim! E eu sem saber de nada, na inocência dos meus 15 anos...

- The rest is silence.
(O nome deste animal é Hamlet)


Sempre foi assim, pois um dos meus defeitos fundamentais tem sido a de desconhecer todas as oportunidades. Elas existem, e eu, o desatento, navegando nas águas profundas da minha ingenuidade. Dizer o quê? Nada.

- The rest is silence.