sábado, 3 de outubro de 2009

AS CORES DO ARCO-ÍRIS

O lamento do poeta


Luz branca decomposta

Em seu poema "Lamia", publicado em 1820, o poeta inglês John Keats (1795 – 1821) lamentou que Isaac Newton tenha destruído todo o encantamento do arco-íris, ao demonstrar experimentalmente que a luz branca do Sol é uma mistura de cores que podem ser separadas por um prisma de vidro.

Versos de John Keats

Do not all charms fly
At the mere touch of cold philosophy?
There was an awful rainbow once in heaven:
We know her woof, her texture; she is given
In the dull catalogue of common things.
Philosophy will clip an Angel’s wings,
Conquer all mysteries by rule and line,
Empty the haunted air, and gnomed mine -
Unweave a rainbow.

Keats

(Todos os encantos não se dissipam
Ao mero toque da triste filosofia?
Existia um maravilhoso arco-íris no céu:
Conhecemos agora sua trama, sua textura
No frio catálogo das coisas triviais.
A filosofia decepará as asas de um Anjo,
Decifrará os mistérios item por item,

Eliminará o encanto do ar e o tesouro escondido -
Desvendará o arco-íris.)

No poema de Keats, a palavra "filosofia" equivale a "física", que outrora era chamada de "filosofia natural".

Desvendando o arco-íris

Richard Dawkins é um professor de Oxford, nascido em Nairóbi, no Quênia, em 1941, destacando-se como divulgador científico e defensor radical da Teoria da Evolução, de Charles Darwin, sendo por isso chamado de "rottweiler de Darwin", epíteto alusivo a Thomas Huxley, que em seu tempo foi chamado de "buldogue de Darwin".
Dawkins é autor de livros importantes, todos best-sellers mundiais, sendo o principal “O Gene Egoísta”, sobre a teoria da evolução, publicado em 1976. Outros são: “O Fenótipo Estendido” “O Relojoeiro Cego”, O Rio Que Saía do Éden”, “A Escalada do Monte Improvável”, “Desvendando o Arco-íris” e “O Capelão do Diabo”. Seus livros mais recentes são "Deus, um Delírio", em que postula a inexistência de Deus, e "A Grande História da Evolução", uma peregrinação retroativa pela história da vida, até alcançar sua origem, quatro bilhões de anos atrás.

- Keats não poderia estar mais errado, comenta Richard Dawkins no prefácio do seu livro "Desvendando o Arco - íris", e meu desejo é conduzir para o lado contrário todos os que pensam como ele. Ciência, na verdade, pode ser inspiração para os grandes poetas.


Dawkins

"Desvendando o Arco - íris" é, com efeito, um livro destinado a atrair os leitores para os temas fascinantes da ciência.

sábado, 26 de setembro de 2009

RELATIVIDADE E NAZISMO

CEM CIENTISTAS CONTRA EINSTEIN

Em sua juventude, Einstein, nascido na Alemanha, desligou-se da família quando esta transferiu-se para Milão e decidiu estudar na Suíça. No mesmo ano em que recebeu um doutorado de Física na Universidade de Zurique, apresentou, em 1905, suas teorias sobre o caráter dual da luz, sobre o efeito fotoelétrico, sobre o movimento browniano e sobre a relatividade especial, quando tinha 26 anos.

Universidade de Zurique
Resumidamente

Caráter dual da luz: a luz pode apresentar-se ou como onda ou como partícula, dependendo da experiência que estiver sendo conduzida pelo observador. A Física Quântica
surgiu a partir dessa constatação, e muitos dizem que a natureza tem dois modelos mutuamente excludentes, apenas um apresentando-se para o observador.

Efeito fotoelétrico: a incidência da luz de alta energia sobre um metal desloca seus elétrons, criando eletricidade.

Movimento browniano:
grãos de pólen boiando num copo de água se movimentam constantemente, como consequência dos choques dos grãos com as moléculas da água.

Relatividade especial: a velocidade da luz é máxima e tem caráter absoluto; o espaço e o tempo não são absolutos, nem independentes, constituindo uma única entidade geométrica, o espaço-tempo, com quatro dimensões (as três dimensões do espaço mais a dimensão do tempo). A velocidade da luz não é afetada pela velocidade da fonte, que a produz, nem pela velocidade do observador, que a recebe, contrariando frontalmente a mecânica clássica; a passagem do tempo ocorre em diferentes velocidades para observadores em diferentes esquemas em movimento.


Einstein e Gödel,
expoentes da Universidade de Zurique


A teoria da relatividade espacial mudou inteiramente a noção que se tinha de espaço e de tempo e seria complementada, pelo próprio Einstein, em 1915, com a teoria da relatividade geral, na qual se introduziu a gravidade. A relatividade geral esclarece que a matéria não atrai matéria, mas deforma o espaço; este, deformado, indica o caminho a ser seguido pela matéria.

Campanha

A campanha contra os judeus na Alemanha começou muito antes da ascensão de Hitler ao poder, em 1933. Desde 1920 a teoria da relatividade, de Albert Einstein, era tachada pelo partido nazista como parte da “física judia”. A partir de 1930, Einstein e outros intelectuais judeus começaram a ser efetivamente perseguidos. Foi publicado na Alemanha, em 1931, um livro chamado “Cem Cientistas Contra Einstein”, que não passava de um panfleto anti-semita. Einstein reagiu ao mesmo com as seguintes palavras:

- Se eu estivesse errado, bastaria um.

No ano seguinte, com a cabeça a prêmio, Einstein mudou-se com a segunda mulher, a prima Elsa Löwenthal, para os EUA.
Nunca mais voltou à Europa.


Queima de livros, obscurantismo total e absoluto



Berlim: queima de livros

No dia 10 de maio de 1933, os nazistas da Liga dos Estudantes Alemães fizeram em Berlim a queima espetacular de 10 mil livros, diante da Universidade Humboldt, na atual praça Bebelplatz, que abriga hoje "o memorial da queima de livros". Entre os livros queimados, estavam os de Albert Einstein, Stefan Zweig, Heinrich e Thomas Mann, Sigmund Freud, Kafka e Heine.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A VELHINHA DA ANTERO DE QUENTAL

SOU CANDIDATO AO PRÊMIO NOBEL?

Acabo de ser aprovado no vestibular de Física, eu que voltei aos estudos há apenas oito meses. E, por ser mais velho que meus colegas, tenho medo de ter passado do ponto. Foi esse o motivo que me levou a pesquisar sobre a idade produtiva de Newton, Einstein, Maxwell, Bohr, Heisenberg e Gödel, os fundadores da ciência moderna.

Isaac Newton

Embora não seja candidato a gênio, constatei o que não queria: a precocidade dos iluminados da ciência. É só conferir:

(1)
Os principais trabalhos de Isaac Newton foram concluídos antes dos 25 anos, uma boa parte no tempo em que ficou isolado em Woolsthorpe, uma vila rural, ao abrigo da peste que assolou a Inglaterra em 1665 e obrigou ao fechamento da Universidade de Cambridge. Não sem razão, 1665 é chamado de "anus miraculous" de Newton.

- A peste grassando, avassaladora, e Newton, numa boa, navegando no seu
"anus miraculous" e formulando a Lei da Gravitação Universal.

(2) Albert Einstein apresentou
em 1905, "anus miraculous" que lhe coube, as teorias sobre a natureza dual da luz, sobre o efeito fotoelétrico, sobre o movimento browniano e sobre a relatividade especial. Tinha então 26 anos. No seu trabalho burocrático, entre examinar uma e outra patente, Einstein reformulou as noções de espaço e tempo e pautou uma nova era para a ciência.

- Fora da Física, Einstein só pensava em Mileva Maric, a sua "Boneca".

(3) James Clerk Maxwell, cujas equações uniram a eletricidade ao magnetismo e à ótica, foi considerado gênio aos 24 anos; Werner Heisenberg estabeleceu o princípio da incerteza com 26 anos; Niels Bohr ganhou a medalha de ouro da Academia de Ciências da Dinamarca aos 22 anos, por seus trabalhos sobre tensão superficial da água, antes de enunciar o princípio da complementaridade; Kurt Gödel abalou os alicerces da Matemática quando tinha apenas 25 anos.

Necessidade financeira

Mileva e Einstein

Muito simples, pensei, com a minha mania de induções e generalizações rápidas.
Entre os 20 e os 30 anos situa-se a idade do casamento, e surge a necessidade de conseguir o sustento da família. Não resta ao gênio senão fazer o que sabe, que é colocar em prática a sua genialidade. Einstein, por exemplo, casou-se em 1903 com a sérvia Mileva Maric, pouco antes de impor-se ao mundo, e o conjunto de façanhas de 1905 foi necessário para conseguir o dinheiro do aluguel, sendo certo, entretanto, que o Prêmio Nobel de Einstein só viria em 1921, no valor de 32.250 dólares da época.

- Se o negócio for movido a necessidade estou do lado bom, que é o lado de dentro. Apesar dos meus 32 anos...

Uma coisa ou outra

Examinei depois o caso de Erwin Schrödinger, descobridor de que o comportamento do elétron pode ser explicado por uma equação de onda, que o situa em diferentes posições no espaço. Ao mesmo tempo! Muito complicado e, não obstante, uma vitória da inteligência humana. Pois bem, Schrödinger formulou essa teoria em 1926, quando tinha já 39 anos, e esse fato pode ser um argumento a meu favor, que só serei físico aos 35 anos. O bravo Schrödinger elaborou seu trabalho quando passava uma temporada com uma amante misteriosa nos Alpes suíços, a qual ficou conhecida nos meios científicos como a Dama de Arosa.

- Querida, veja a equaçãozinha que eu criei...

Equação de onda
(Manuscrito de Schrödinger)

Erwin Schrödinger

Cabe, portanto, um adendo à minha indução. A consolidação do gênio ocorre entre os 25 e os 30 anos e resulta de uma necessidade financeira, que era essa a situação de Einstein e Gödel; uma forma alternativa de motivação de genialidade também pode ter lugar, em qualquer idade, se o gênio estiver se
afirmando perante a amada, como na situação de Shrödinger nos Alpes, o qual, aliás, nunca teve nenhum problema financeiro.

- Continuo dentro. Falta só a Dama de Arosa...

Dama de Arosa

Sou candidato ao Prêmio Nobel?

Um amigo me perguntou se tenho pretensão de ser um Bohr, um Einstein ou, considerando a minha idade, um Schrödinger, pois estranhou essa pesquisa de idades e amantes.

- Acho que você está querendo ganhar um Prêmio Nobel!

Edith Pastoril
Informei-lhe que meu só desejo é ser um bom professor de Física. Quanto ao Prêmio Nobel, dou a mesma resposta de Dona Edith Pastoril, a nonagenária da Antero de Quental, quando lhe perguntam se acha possível receber uma proposta de casamento:

- Por que não? A gente nunca sabe...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

QUATRO POETAS DE NOME MANUEL

IDENTIFIQUE O MANUEL PELOS VERSOS


Manuel I

Para entender a poesia nós temos dois caminhos:
O da sensibilidade, que é o entendimento do corpo,
E o da inteligência, que é o entendimento do espírito.
Eu escrevo com o corpo;
Poesia não é para compreender, mas para incorporar.


Manuel II

- Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!


Manuel III

Íamos viver toda a vida juntos.
Íamos morrer toda a morte juntos.
Não sei se sabes o que significa a palavra adeus.
Adeus quer dizer já não olhar-se nunca mais,
Viver entre outras gentes,
Rir-se de outras coisas,
Morrer-se de outras penas.
Adeus é separar-se, entende?
Separar-se, esquecendo a juventude, como traje inútil.
Adeus.


Manuel IV

- Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fanático corria:
Outro Aretino fui... A santidade
Manchei! Oh!, se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!


Confira


I: Manoel de Barros


II: Manuel Bandeira


III: Manuel Scorza


IV: Manuel Maria Barbosa du Bocage

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Já beócio não sou!

Gorki e Camus

Foi do Museu que May me ligou.

May

- Quero convidá-lo para ver uma peça.

- Peça, sobre o quê? Quando?

- "Pequenos Burgueses", de Máximo Gorki, hoje à noite. Sobre os Bessemenovs, uma família russa em decadência.

- Mas...

- Nem pense em recusar, pois já adquiri os ingressos.

Pequenos burgueses

Máximo Gorki

May, ao volante, tomou o rumo do Teatro Villa-Lobos. Foi durante o percurso que ela me explicou que Máximo Gorki teve uma vida miserável, trabalhando como lavador de pratos, pescador, vendedor de frutas, muitas vezes sobrevivendo até como vagabundo. Chegou a tentar o suicídio, no desespero de quem se sente perdido, no meio de muita gente corrupta e miserável. Ele se consagrou, porém, ao escrever os "Pequenos Burgueses", pois a decadência dos Bessemenovs, com todas as suas contradições, era uma amostra do que acontecia na Rússia que antecedeu a Revolução Comunista.
Tudo foi, para mim, um alumbramento:
o teatro, o ambiente, o ritual. E a peça, não sei se tinha visto alguma assim densa e interessante. Um pai arbitrário, uma filha deprimida, um filho pretensioso e Nill, o trombeta de Deus! Era a classe média assoberbada pelo tédio, numa sociedade em plena e decidida decomposição.

Modelo idiota

Saí do teatro ainda mais convencido de que era necessário introduzir o viés da cultura em minha vida, jogando na lata do lixo aquele modelo idiota em que eu só pensava em integrais, vetores, transformadas de Laplace, eletricidade e mecânica. Nesse processo de ruminar minha inferioridade, lembrei-me de Charles Percy Snow, o intelectual inglês para o qual poucos cientistas leem Charles Dickens ou uma peça de Shakespeare, e poucos artistas conhecem o Segundo Princípio da Termodinâmica.

- Assim, concluía Snow, fica muito difícil resolver os problemas do mundo.

- Fica mesmo, concordo, aqui do meu cantinho. Não que eu me considere um cientista na acepção integral da palavra, mas não posso continuar sendo um analfabeto cultural em plena cidade do Rio de Janeiro.

O estrangeiro

Uma semana depois May ligou-me novamente, sempre assumindo as iniciativas.

- Já tenho os ingressos.

- Mas qual o filme?

- Isso também é importante. "O Estrangeiro", baseado num romance de Albert Camus.

- Albert Camus?

Ora, pois. O senhor Meursault decide ir ao enterro da mãe, cuja idade desconhece. Sei lá, sessenta anos. Encontra-se depois com Marie Cardona e vê um filme de Fernandel; Mersault relaciona-se com um vizinho, Salamano, que tem um cachorro nojento; e com outro, Raymond Sintès, que é cafetão e tem o hábito de espancar a mulher até o sangramento.
No domingo, Meursault, Marie Cardona e Raymond vão para a casa de praia de Masson, um amigo de Raymond. Dois árabes atacam Raymond na praia, pois querem vingar-se da surra que ele deu na prostituta. São repelidos por Raymond e Masson, que, a seguir, voltam para casa.
Meursault passeia pela praia sozinho e avista um dos árabes, que exibe a faca, mas sem nenhuma atitude agressiva. Era só Meursault voltar também para casa, e tudo estaria terminado. Mas havia o sol na cara. Mersault atira, e o árabe tomba, fulminado. Depois atira mais quatro vezes contra o corpo inerte do homem caído.
O advogado, o juiz e o promotor tentam entender o gesto de Mersault, que, de fato, nunca se arrepende de nada porque é dominado pelo que vai acontecer.


- Foi o sol...

- Eu matei o árabe por causa do sol.

O capelão insiste em falar com o senhor Meursault, pois precisa conquistar sua alma de condenado à morte.

- Deus irá ajudá-lo, Meursault.

- Não quero que ninguém me ajude, e falta-me tempo para me interessar pelo que não me interessa.

Indiferença perante a vida. desdém por todas as circunstâncias. Uma obra de Camus, mostrando, numa reflexão sobre o absurdo, um homem que se estranha, estrangeiro de si próprio.

- Muito esquisito.

- Bota esquisito nisso, Carlinhos.

Minha opção

Ana Netrebko, uma Traviata

Dar mais atenção aos cadernos internos do jornal,

ler Proust, a Divina Comédia e o Dom Quixote,


ir ao Municipal,

ser capaz de reconhecer uma ária da Traviata ou uma sonata de Beethoven,

aprender Francês, que isso de só saber Inglês já está ficando ridículo, e
jogar bridge.

Ilíada, Finnegans Wake,

mitologia grega e escandinava,

Noberto Bobbio, Kierkegaard e Condillac.

E, claro, vinhos, filosofia e economia política.

Ficar atento às oportunidades culturais.

Manuel Maria Barbosa du Bocaje

E gritar, como um Bocage desvairado do Baixo Leblon:

- Gente ímpia, rasgai os meus versos e crede na eternidade, que já beócio não sou!

Ou não estarei à altura da May.

sábado, 5 de setembro de 2009

IMAGEM DO UNIVERSO (39/n)

BURACOS NEGROS

O corpo não cai se sua velocidade for
maior que a de escape (ramo superior)


Se um corpo for lançado para o alto, com velocidade de lançamento não superior a 11,2 quilômetros por segundo, o progresso do seu movimento é obstruído pelo campo gravitacional da Terra e o corpo cai sobre a superfície da mesma. Se superior a 11,2 km/s, o corpo escapa à ação gravitacional da Terra e a esta não volta mais. Todos os objetos na Terra sujeitam-se à mesma velocidade de escape de 11,2 km/s, independentemente de sua massa, seja esta de um quilograma ou de uma tonelada.
A velocidade de escape depende da massa e do campo gravitacional do corpo celeste e da distância do objeto a ser lançado ao centro de gravidade do referido corpo celeste.

- A velocidade de escape da da Lua é de de 2,4 km/s, a de Júpiter, de 61 km/s, e a do Sol, de 620 km/s.


Nem a luz


Chama-se de "buraco negro" ao corpo celeste cuja velocidade de escape é igual à velocidade da luz; como nada pode superar a velocidade da luz, segue-se que nada escapa do buraco negro, nem mesmo a própria luz. Torna-se impossível ver um astro desse tipo, pois sua luz não nos alcança, o que explica o nome que lhe foi atribuído.

- Os buracos negros são consumidores de informações.

Os buracos negros podem ter vários tamanhos. Alguns, nos centros das galáxias, teriam se formado pelo colapso do núcleo galático e podem pesar bilhões de massas solares. São buracos negros supermaciços. Há também buracos negros estelares, que resultam da última etapa da evolução das estrelas, sempre que sua massa for suficientemente elevada (superior a duas massas solares), na sua evolução para gigantes vermelhas e supernovas. As estrelas de nêutrons resultam das supernovas e, ao fim e ao cabo, transformam-se em buracos negros.

Estrelas de nêutrons

Os buracos negros foram previstos pelo astrônomo inglês John Michell (1724-1793), em 1793, numa suposição baseada na lei da gravitação de Newton. Em 1795, Pierre-Simon de Laplace (1749-1827), em seu livro de divulgação "Exposição do Sistema do Mundo" manifestou a convicção de que a gravidade atua sobre a luz, da mesma forma que atua sobre os outros corpos. Eis o que escreveu Laplace:

" Uma estrela brilhante que tenha densidade igual à da Terra e um diâmetro equivalente a 250 vezes o diâmetro do Sol, por causa de sua gravidade, não permite que os raios de sua luz viajem para nos alcançar; é muito possível que os corpos celestes mais brilhantes do Universo nos sejam totalmente invisíveis."

Laplace

Laplace acertou na mosca, ele que era muito bom matemático. Pois a estrela brilhante do seu exemplo teria uma velocidade de escape igual a 27 mil vezes a velocidade de escape da Terra, isto é, v. e. = 27.000 x 11,2 = 302, 4 mil k/s (maior que a velocidade da luz).

Karl Schwarzschild

Foi, entretanto, o alemão Karl Schwarzschild (1873-1916) quem construiu a solução matemática do buraco negro, com base na relatividade de Einstein. Pelas suas equações, apresentadas em 1915, nada impede que o buraco negro continue a contrair-se até sua implosão em um ponto no centro do buraco negro. A esse ponto de infinita pressão, densidade e curvatura do espaço-tempo chama-se de "singularidade".

Perplexidade


- Honorificabilitudinitatibus...

A mistura impossível de Relatividade e Física Quântica
Recua no tempo e converge para o Big Bang,
O qual tudo acomoda, constrangendo todas as teorias.
Trata-se, como dizem, de uma singularidade,
De muita gravidade e pouca conversa,
Onde o espaço, envergonhado, põe-se a ferver,
E as hipotenusas ficam abraçadinhas com seus catetos.
Avassalado pelo espetáculo soberano da Natureza,
Não vislumbro a Nebulosa de Andrômeda,
Odeio a precessão dos equinócios
E tudo que sei é a Segunda Lei de Newton.
Desentendo com muita competência o grande,
o pequeno
e o veloz,
Mas tenho pena e medo dos buracos negros,
Que tudo sabem, mas não dizem.
Já me alertaram, porém, que nada se perde,
Nada se cria, tudo se transforma.
Dizer o quê? Honorificabilitudinitatibus...
Confesso, afinal e muito tristemente,
Que sou culpado, muito culpado, de não ter nascido Deus.


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

PALAVRAS IMORTAIS

PELA FRASE, DESCUBRA O PERSONAGEM


(1)

- Aos vencedores, as batatas.

(2)

- Eu poderia estar encerrado numa casca de noz e ainda assim
considerar-me rei do espaço infinito, se a mim não me coubessem tantos pesadelos.


(3)

- Cada qual cuide do seu enterro, impossível não há.

(4)

- Melhor me fica, a mim, uma foice na mão que um cetro de governador.


(5)

- Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!

(6)

- Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

(7)

- Quem é a bola?


(8)

- Se querer fosse poder, as choupanas se tornariam mansões
e as capelas, catedrais exuberantes.

(9)

- Não tem dúvida, não tem dúvida, estou na idade da razão.


(10)


- Maiores são os poderes do povo!


Confira aqui:

(1) "Quincas Borba" (em "Quincas Borba", de Machado de Assis)

(2) "Hamlet" (em "Hamlet, o Príncipe da Dinamarca", de Shakespeare)

(3) "Quincas Berro Dágua" (em "Velhos Marinheiros", de Jorge Amado).

(4) "Sancho Panza" (em "Dom Quixote De La Mancha", de Cervantes).

(5) "Ricardo III" (em "A Tragédia de Ricardo III", de Shakespeare)

(6) "Brás Cubas" (em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis)

(7)"Grã-fina das Narinas de Cadáver" (em "Panorama das Chuteiras Imortais", de Nélson Rodrigues)

(8) "Portia" (em "Mercador de Veneza", de Shakespeare)

(9) "Mathieu" (em "A Idade da Razão", de Sartre)

(10) "Corisco" (em "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha)


sábado, 29 de agosto de 2009

A IMAGEM DO UNIVERSO (parte 38/n)

Sobre galáxias e estrelas

Uma galáxia é um ajuntamento de estrelas, gás e poeira, que se unem por ação da gravidade. Sabe-se hoje que a parte visível do Universo comporta cerca de 100 bilhões de galáxias, cada uma contendo em média cerca de 100 bilhões de estrelas. Somando tudo, são 10 bilhões de trilhões de estrelas! Com o impressionante detalhe de que as estrelas guardam entre si distâncias extraordinariamente elevadas: a estrela mais próxima do Sol, a estrela Alfa, da constelação de Centauro, dele dista 4,2 anos-luz (cerca de 40 trilhões de quilômetros!).

Constelação de Centauro

- Se não existir vida fora da Terra, então o Universo será um grande desperdício de espaço (...), costumava dizer Carl Sagan.

As galáxias têm variados aspectos, mas Edwin Hubble classificou-as segundo três tipos: galáxias elípticas, galáxias espirais e galáxias irregulares.
Nossa galáxia, a Via Láctea, é uma galáxia espiral, de diâmetro igual a 100 mil anos-luz e espessura de 16 mil anos-luz, contendo entre 200 e 400 bilhões de estrelas. O Sol, uma delas, é a estrela que comanda nosso sistema solar, o qual, como um todo, desloca-se no espaço a uma velocidade de 16 quilômetros por segundo, em direção a Vega, a estrela mais brilhante da constelação de Lira. O diâmetro do Sol é mais de um milhão de vezes o diâmetro da Terra, sua massa é maior que 330 mil vezes a massa da Terra, e dele distamos cerca de 150 milhões de quilômetros. Sua luz demora mais de oito minutos para chegar até nós e é tão intensa que não nos deixa ver os outros astros durante o dia. O telescópio com que os cientistas estudam o Sol tem um filtro especial para proteger sua visão.

Via Láctea

Galáxia elíptica

Galáxia irregular

O que ocorre nas estrelas?

Uma estrela se forma quando uma gigantesca nuvem de gás hidrogênio começa a ser comprimida por ação da gravidade. A força da gravidade aquece o gás gradativamente, fazendo com que a energia gravitacional seja convertida em aceleração do movimento dos átomos de hidrogênio, ou seja, em energia cinética. Cada hidrogênio, no seu núcleo, tem apenas um próton, cuja carga positiva repele os prótons dos outros hidrogênios. Desse modo, inicialmente os prótons conseguem ficar separados, numa luta vitoriosa da sua energia eletromagnética contra a energia gravitacional.
Entretanto, quando, por ação da gravidade, a temperatura supera dez milhões de graus absolutos (graus Kelvin), a energia cinética dos prótons passa a sobrepujar a sua repulsão eletrostática, tendo como consequência que os prótons começam a se chocar uns com os outros. No choque, os núcleos de hidrogênio fundem-se em hélio, liberando uma enorme quantidade de energia
, pois o próton do hidrogênio pesa mais que o próton do hélio, havendo uma sobra de massa (cerca de 0,7% do hidrogênio fundido), que se converte em energia nos termos da fórmula de Einstein (e = mc2). Essa energia preserva a estrela, pois contrabalança a atração gravitacional, que tende a puxar a estrela da sua periferia para o centro, e dela se originam o calor e a luz emitidos pela estrela.

- Uma estrela é uma cozinha nuclear, que queima hidrogênio
para sobreviver, resultando dessa queima uma cinza nuclear na forma de hélio refugado.

Com o decorrer de bilhões de anos, os átomos de hidrogênio vão sendo consumidos, sempre acumulando mais hélio, até que a fusão de hidrogênio cessa e a a cozinha nuclear para de funcionar. Não há mais a sobra de massa resultante da fusão nuclear, nem, portanto, energia para contrabalançar a gravidade, e esta tende a esmagar a estrela.

Gigante vermelha

Gigante vermelha

Mas a temperatura da estrela assim comprimida se eleva a tal ponto que a estrela adquire a capacidade de queimar o próprio hélio, convertendo-o em outros elementos, como carbono e lítio. A estrela diminui muito o seu tamanho, mas sua temperatura torna-se muito mais elevada e sua atmosfera se expande de forma extraordinária. Nesse ponto a estrela deixa de ser uma estrela amarela normal e passa a ser uma "gigante vermelha". É o que acontecerá com o Sol, daqui a cinco bilhões de anos, quando nesse processo sua atmosfera ultrapassará a órbita de Marte.

- Gigante vermelha é uma estrela queimando hélio.

Anã branca

Anã branca

Quando o hélio é todo queimado, a cozinha nuclear novamente para de funcionar, a gravidade volta a predominar, obrigando a gigante vermelha a encolher-se numa "anã branca", que pode ter um tamanho menor que um décimo de milésimo de seu tamanho original, embora preserve praticamente toda a massa original da estrela. Uma anã branca é o núcleo que resta da estrela depois que ela ejeta as suas camadas exteriores. Se a estrela original for pequena, sua anã branca será um pequeno astro moribundo cuja gravidade não segura os gases da periferia, que se espalham.

- Anã branca é o produto final de uma estrela que não tem
massa suficiente para transformar-se numa supernova.

Supernova

Supernova: uma estrela explodindo

Há, porém, o caso de estrelas muito pesadas (algumas vezes mais pesadas que o Sol), que podem continuar fundindo elementos que resultaram da fusão do hélio, numa luta desesperada contra a gravidade, resultando no processo elementos cada vez mais pesados, até chegar à produção de ferro. Quando se alcança esse estágio, em poucas horas o núcleo é transformado em ferro, a energia da estrela é sugada, a pressão cai e as camadas externas começam a despencar em direção ao centro da estrela. Vão de encontro ao núcleo sólido de ferro, onde quicam e são ejetadas para o espaço sideral a altas velocidades, numa explosão que se chama de "supernova". A explosão pode expulsar para o espaço até 9/10 da matéria de uma estrela, num processo em que os elétrons colapsam com o núcleo, chocando-se com os prótons e originando nêutrons.

- A supernova é, pois, a explosão catastrófica de uma estrela que exauriu seu combustível nuclear.

Estrela de nêutrons (Pulsar)

Pulsar

Durante algum tempo, a supernova se apresentará com um brilho superior ao de uma galáxia de cem bilhões de estrelas. Com a energia da explosão da supernova, e no calor e pressão da mesma, são produzidos todos os elementos mais pesados que o ferro, que são lançados no espaço juntos com os escombros da explosão.
Os gases liberados no espaço dão origem a uma nova nebulosa (na qual poderão surgir novas
estrelas).
Ao fim e ao cabo, a supernova se transforma numa estrela de nêutrons, totalmente morta, girando e emitindo radiação, como se fosse um farol dentro do Universo, por isso às vezes chamada de "estrela que pisca" ou "pulsar"(nome que se originou da expressão "pulsating radio sources").

-Uma estrela de nêutrons, que resulta portanto do colapso de uma estrela que passou pelo estágio de supernova, tem uma área equivalente à da cidade de Campinas, mas com uma densidade tão grande que uma colher de chá de sua matéria pode pesar um bilhão de toneladas.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

SOU UM ANALFABETO CONTUMAZ

Pelo calçadão do Leblon

Sei apenas que preciso estudar mais, porque essa coisa de só saber Física inferioriza e dificulta minha vida perante as pessoas. Meu só caminho é padecer sobre os livros, de todos os assuntos, devorando-os, em vez de ficar prevaricando ou malbaratando meu ócio por aí.

May e eu

Foi o que pensei quando conheci
May, e decidimos caminhar pelo calçadão do Leblon. Ela é egiptóloga, eu que nem desconfiava da existência dessa atividade.

- E você, Carlinhos, qual a sua profissão?

- Engenheiro malsucedido, pois abandonei o ofício e decidi fazer um doutorado de Física. Engenharia é profissão corriqueira e até meio óbvia. Mas, egiptóloga, que faz exatamente uma egiptóloga?

- Bem, atualmente estou envolvida num projeto internacional relacionado com o faraó Tutancâmon, do século XIV a. C., coordenado pelo Museu de Ciência de Londres. Sua tumba, descoberta em 1922, em Tebas, no Vale dos Reis, continha uma quantidade extraordinária de joias e é considerada um dos maiores tesouros arqueológicos de todos os tempos.


- Museu de Ciência, lá em Londres?

Tutancâmon

Perguntei o que ela já me informara, nada menos edificante. Fazer o quê, dizer o quê? Tinha até me esquecido que existiu alguém chamado Tutancâmon, e essa palavra não escutava havia bem uns vinte anos. E, se me lembro, o que o meu professor de História dizia era "Tutancamôn", e não "Tutancâmon".

- Estamos reconstituindo a verdadeira face de Tutancâmon, que não tinha os lábios grossos e o rosto triangular sugerido pela máscara mortuária que se encontra reproduzida nos livros de História. Na verdade seus lábios eram finos, dentro de um rosto largo, que, além do mais, se caracterizava por sobrancelhas grossas e olhos pequenos.

- A reconstituição facial de uma pessoa que morreu há tanto tempo há de ser muito complicada, observei, fazendo força para não ficar calado todo o tempo.

- Morreu há 34 séculos. Posso dizer que envolve técnicas de raios X, processos e efeitos especiais e programas de computador, capazes de compatibilizar a face que se quer reconstituir com os ossos do crânio encontrados no sarcófago.

- Muito interessante.

Centenas de preciosidades no túmulo

- Suspeita-se que tenha recebido um violento golpe na cervical enquanto dormia. A ferida não lhe causou a morte de imediato, e sua agonia se prolongou durante dois meses de terrível sofrimento.

- Onde você entra, nessa história, como egiptóloga?


- Tudo que faço é colaborar com informações históricas, pois não sou habilitada nessas técnicas de reconstituição facial. Por exemplo, houve certa vez uma discussão sobre a idade com que morreu Tutancâmon, e fui chamada a dar a minha opinião.

- Com que idade ele morreu?

- Para mim, morreu quando tinha 18 anos, mas esse não é um ponto completamente decidido. Subiu ao trono com nove anos, sendo conhecido como o faraó-menino.

- Os egípicios eram precoces...

- Eram, de fato. Cleópatra chegou ao poder com apenas 18 anos. Isso cerca de 1.400 anos depois de Tutancâmon .

- Só sei que Cleópatra gostava de seduzir imperadores romanos, como César e Marco Antônio. Mais não sei dizer, nem vi aqueles filmes apoteóticos...

Elisabeth Taylor

- Cleópatra foi muito mais do que uma colecionadora de maridos ou uma mulher sedutora num filme do Cecil B. de Mile.
Para além de se destacar pela sua beleza, falava vários idiomas e patrocinava as artes e as ciências. Lembre-se de que governava o Egito a partir de Alexandria, capital cultural da Antiguidade...

- Portanto, uma senhora rainha.

- Ela era filha de tios, veja você.


- Filha de tios? Pode isso?

- Cleópatra era filha de Ptolomeu Aulete e Cleópatra Trifena, que eram irmãos. Ptolomeu Aulete era pai de Cleópatra, mas seu tio, por parte de mãe; Cleópatra Trifena era sua mãe, mas também tia, por parte de pai. Filha dos tios, portanto.

- Assim não vale!

- Vale, sim, pois ela própria se casou com dois de seus irmãos mais jovens. Um de cada vez, bem entendido.

- Uma promiscuidade familiar.

- E real.

Vivien Leigh (1945)

Ela, culta e bonita,
egiptóloga, veja só! E eu, idiota que sou, pagando o preço de não poder contribuir para o assunto e, mais ainda, concorrendo decisivamente para a banalização dos diálogos: “muito interessante”, “os egípcios eram precoces” "uma senhora rainha" e “com que idade ele morreu?”

-
Os filmes do Cecil B. de Mile, a minha eterna subcultura!


May!