quarta-feira, 16 de setembro de 2009

QUATRO POETAS DE NOME MANUEL

IDENTIFIQUE O MANUEL PELOS VERSOS


Manuel I

Para entender a poesia nós temos dois caminhos:
O da sensibilidade, que é o entendimento do corpo,
E o da inteligência, que é o entendimento do espírito.
Eu escrevo com o corpo;
Poesia não é para compreender, mas para incorporar.


Manuel II

- Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!


Manuel III

Íamos viver toda a vida juntos.
Íamos morrer toda a morte juntos.
Não sei se sabes o que significa a palavra adeus.
Adeus quer dizer já não olhar-se nunca mais,
Viver entre outras gentes,
Rir-se de outras coisas,
Morrer-se de outras penas.
Adeus é separar-se, entende?
Separar-se, esquecendo a juventude, como traje inútil.
Adeus.


Manuel IV

- Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fanático corria:
Outro Aretino fui... A santidade
Manchei! Oh!, se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!


Confira


I: Manoel de Barros


II: Manuel Bandeira


III: Manuel Scorza


IV: Manuel Maria Barbosa du Bocage

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Já beócio não sou!

Gorki e Camus

Foi do Museu que May me ligou.

May

- Quero convidá-lo para ver uma peça.

- Peça, sobre o quê? Quando?

- "Pequenos Burgueses", de Máximo Gorki, hoje à noite. Sobre os Bessemenovs, uma família russa em decadência.

- Mas...

- Nem pense em recusar, pois já adquiri os ingressos.

Pequenos burgueses

Máximo Gorki

May, ao volante, tomou o rumo do Teatro Villa-Lobos. Foi durante o percurso que ela me explicou que Máximo Gorki teve uma vida miserável, trabalhando como lavador de pratos, pescador, vendedor de frutas, muitas vezes sobrevivendo até como vagabundo. Chegou a tentar o suicídio, no desespero de quem se sente perdido, no meio de muita gente corrupta e miserável. Ele se consagrou, porém, ao escrever os "Pequenos Burgueses", pois a decadência dos Bessemenovs, com todas as suas contradições, era uma amostra do que acontecia na Rússia que antecedeu a Revolução Comunista.
Tudo foi, para mim, um alumbramento:
o teatro, o ambiente, o ritual. E a peça, não sei se tinha visto alguma assim densa e interessante. Um pai arbitrário, uma filha deprimida, um filho pretensioso e Nill, o trombeta de Deus! Era a classe média assoberbada pelo tédio, numa sociedade em plena e decidida decomposição.

Modelo idiota

Saí do teatro ainda mais convencido de que era necessário introduzir o viés da cultura em minha vida, jogando na lata do lixo aquele modelo idiota em que eu só pensava em integrais, vetores, transformadas de Laplace, eletricidade e mecânica. Nesse processo de ruminar minha inferioridade, lembrei-me de Charles Percy Snow, o intelectual inglês para o qual poucos cientistas leem Charles Dickens ou uma peça de Shakespeare, e poucos artistas conhecem o Segundo Princípio da Termodinâmica.

- Assim, concluía Snow, fica muito difícil resolver os problemas do mundo.

- Fica mesmo, concordo, aqui do meu cantinho. Não que eu me considere um cientista na acepção integral da palavra, mas não posso continuar sendo um analfabeto cultural em plena cidade do Rio de Janeiro.

O estrangeiro

Uma semana depois May ligou-me novamente, sempre assumindo as iniciativas.

- Já tenho os ingressos.

- Mas qual o filme?

- Isso também é importante. "O Estrangeiro", baseado num romance de Albert Camus.

- Albert Camus?

Ora, pois. O senhor Meursault decide ir ao enterro da mãe, cuja idade desconhece. Sei lá, sessenta anos. Encontra-se depois com Marie Cardona e vê um filme de Fernandel; Mersault relaciona-se com um vizinho, Salamano, que tem um cachorro nojento; e com outro, Raymond Sintès, que é cafetão e tem o hábito de espancar a mulher até o sangramento.
No domingo, Meursault, Marie Cardona e Raymond vão para a casa de praia de Masson, um amigo de Raymond. Dois árabes atacam Raymond na praia, pois querem vingar-se da surra que ele deu na prostituta. São repelidos por Raymond e Masson, que, a seguir, voltam para casa.
Meursault passeia pela praia sozinho e avista um dos árabes, que exibe a faca, mas sem nenhuma atitude agressiva. Era só Meursault voltar também para casa, e tudo estaria terminado. Mas havia o sol na cara. Mersault atira, e o árabe tomba, fulminado. Depois atira mais quatro vezes contra o corpo inerte do homem caído.
O advogado, o juiz e o promotor tentam entender o gesto de Mersault, que, de fato, nunca se arrepende de nada porque é dominado pelo que vai acontecer.


- Foi o sol...

- Eu matei o árabe por causa do sol.

O capelão insiste em falar com o senhor Meursault, pois precisa conquistar sua alma de condenado à morte.

- Deus irá ajudá-lo, Meursault.

- Não quero que ninguém me ajude, e falta-me tempo para me interessar pelo que não me interessa.

Indiferença perante a vida. desdém por todas as circunstâncias. Uma obra de Camus, mostrando, numa reflexão sobre o absurdo, um homem que se estranha, estrangeiro de si próprio.

- Muito esquisito.

- Bota esquisito nisso, Carlinhos.

Minha opção

Ana Netrebko, uma Traviata

Dar mais atenção aos cadernos internos do jornal,

ler Proust, a Divina Comédia e o Dom Quixote,


ir ao Municipal,

ser capaz de reconhecer uma ária da Traviata ou uma sonata de Beethoven,

aprender Francês, que isso de só saber Inglês já está ficando ridículo, e
jogar bridge.

Ilíada, Finnegans Wake,

mitologia grega e escandinava,

Noberto Bobbio, Kierkegaard e Condillac.

E, claro, vinhos, filosofia e economia política.

Ficar atento às oportunidades culturais.

Manuel Maria Barbosa du Bocaje

E gritar, como um Bocage desvairado do Baixo Leblon:

- Gente ímpia, rasgai os meus versos e crede na eternidade, que já beócio não sou!

Ou não estarei à altura da May.

sábado, 5 de setembro de 2009

IMAGEM DO UNIVERSO (39/n)

BURACOS NEGROS

O corpo não cai se sua velocidade for
maior que a de escape (ramo superior)


Se um corpo for lançado para o alto, com velocidade de lançamento não superior a 11,2 quilômetros por segundo, o progresso do seu movimento é obstruído pelo campo gravitacional da Terra e o corpo cai sobre a superfície da mesma. Se superior a 11,2 km/s, o corpo escapa à ação gravitacional da Terra e a esta não volta mais. Todos os objetos na Terra sujeitam-se à mesma velocidade de escape de 11,2 km/s, independentemente de sua massa, seja esta de um quilograma ou de uma tonelada.
A velocidade de escape depende da massa e do campo gravitacional do corpo celeste e da distância do objeto a ser lançado ao centro de gravidade do referido corpo celeste.

- A velocidade de escape da da Lua é de de 2,4 km/s, a de Júpiter, de 61 km/s, e a do Sol, de 620 km/s.


Nem a luz


Chama-se de "buraco negro" ao corpo celeste cuja velocidade de escape é igual à velocidade da luz; como nada pode superar a velocidade da luz, segue-se que nada escapa do buraco negro, nem mesmo a própria luz. Torna-se impossível ver um astro desse tipo, pois sua luz não nos alcança, o que explica o nome que lhe foi atribuído.

- Os buracos negros são consumidores de informações.

Os buracos negros podem ter vários tamanhos. Alguns, nos centros das galáxias, teriam se formado pelo colapso do núcleo galático e podem pesar bilhões de massas solares. São buracos negros supermaciços. Há também buracos negros estelares, que resultam da última etapa da evolução das estrelas, sempre que sua massa for suficientemente elevada (superior a duas massas solares), na sua evolução para gigantes vermelhas e supernovas. As estrelas de nêutrons resultam das supernovas e, ao fim e ao cabo, transformam-se em buracos negros.

Estrelas de nêutrons

Os buracos negros foram previstos pelo astrônomo inglês John Michell (1724-1793), em 1793, numa suposição baseada na lei da gravitação de Newton. Em 1795, Pierre-Simon de Laplace (1749-1827), em seu livro de divulgação "Exposição do Sistema do Mundo" manifestou a convicção de que a gravidade atua sobre a luz, da mesma forma que atua sobre os outros corpos. Eis o que escreveu Laplace:

" Uma estrela brilhante que tenha densidade igual à da Terra e um diâmetro equivalente a 250 vezes o diâmetro do Sol, por causa de sua gravidade, não permite que os raios de sua luz viajem para nos alcançar; é muito possível que os corpos celestes mais brilhantes do Universo nos sejam totalmente invisíveis."

Laplace

Laplace acertou na mosca, ele que era muito bom matemático. Pois a estrela brilhante do seu exemplo teria uma velocidade de escape igual a 27 mil vezes a velocidade de escape da Terra, isto é, v. e. = 27.000 x 11,2 = 302, 4 mil k/s (maior que a velocidade da luz).

Karl Schwarzschild

Foi, entretanto, o alemão Karl Schwarzschild (1873-1916) quem construiu a solução matemática do buraco negro, com base na relatividade de Einstein. Pelas suas equações, apresentadas em 1915, nada impede que o buraco negro continue a contrair-se até sua implosão em um ponto no centro do buraco negro. A esse ponto de infinita pressão, densidade e curvatura do espaço-tempo chama-se de "singularidade".

Perplexidade


- Honorificabilitudinitatibus...

A mistura impossível de Relatividade e Física Quântica
Recua no tempo e converge para o Big Bang,
O qual tudo acomoda, constrangendo todas as teorias.
Trata-se, como dizem, de uma singularidade,
De muita gravidade e pouca conversa,
Onde o espaço, envergonhado, põe-se a ferver,
E as hipotenusas ficam abraçadinhas com seus catetos.
Avassalado pelo espetáculo soberano da Natureza,
Não vislumbro a Nebulosa de Andrômeda,
Odeio a precessão dos equinócios
E tudo que sei é a Segunda Lei de Newton.
Desentendo com muita competência o grande,
o pequeno
e o veloz,
Mas tenho pena e medo dos buracos negros,
Que tudo sabem, mas não dizem.
Já me alertaram, porém, que nada se perde,
Nada se cria, tudo se transforma.
Dizer o quê? Honorificabilitudinitatibus...
Confesso, afinal e muito tristemente,
Que sou culpado, muito culpado, de não ter nascido Deus.


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

PALAVRAS IMORTAIS

PELA FRASE, DESCUBRA O PERSONAGEM


(1)

- Aos vencedores, as batatas.

(2)

- Eu poderia estar encerrado numa casca de noz e ainda assim
considerar-me rei do espaço infinito, se a mim não me coubessem tantos pesadelos.


(3)

- Cada qual cuide do seu enterro, impossível não há.

(4)

- Melhor me fica, a mim, uma foice na mão que um cetro de governador.


(5)

- Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!

(6)

- Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

(7)

- Quem é a bola?


(8)

- Se querer fosse poder, as choupanas se tornariam mansões
e as capelas, catedrais exuberantes.

(9)

- Não tem dúvida, não tem dúvida, estou na idade da razão.


(10)


- Maiores são os poderes do povo!


Confira aqui:

(1) "Quincas Borba" (em "Quincas Borba", de Machado de Assis)

(2) "Hamlet" (em "Hamlet, o Príncipe da Dinamarca", de Shakespeare)

(3) "Quincas Berro Dágua" (em "Velhos Marinheiros", de Jorge Amado).

(4) "Sancho Panza" (em "Dom Quixote De La Mancha", de Cervantes).

(5) "Ricardo III" (em "A Tragédia de Ricardo III", de Shakespeare)

(6) "Brás Cubas" (em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis)

(7)"Grã-fina das Narinas de Cadáver" (em "Panorama das Chuteiras Imortais", de Nélson Rodrigues)

(8) "Portia" (em "Mercador de Veneza", de Shakespeare)

(9) "Mathieu" (em "A Idade da Razão", de Sartre)

(10) "Corisco" (em "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha)


sábado, 29 de agosto de 2009

A IMAGEM DO UNIVERSO (parte 38/n)

Sobre galáxias e estrelas

Uma galáxia é um ajuntamento de estrelas, gás e poeira, que se unem por ação da gravidade. Sabe-se hoje que a parte visível do Universo comporta cerca de 100 bilhões de galáxias, cada uma contendo em média cerca de 100 bilhões de estrelas. Somando tudo, são 10 bilhões de trilhões de estrelas! Com o impressionante detalhe de que as estrelas guardam entre si distâncias extraordinariamente elevadas: a estrela mais próxima do Sol, a estrela Alfa, da constelação de Centauro, dele dista 4,2 anos-luz (cerca de 40 trilhões de quilômetros!).

Constelação de Centauro

- Se não existir vida fora da Terra, então o Universo será um grande desperdício de espaço (...), costumava dizer Carl Sagan.

As galáxias têm variados aspectos, mas Edwin Hubble classificou-as segundo três tipos: galáxias elípticas, galáxias espirais e galáxias irregulares.
Nossa galáxia, a Via Láctea, é uma galáxia espiral, de diâmetro igual a 100 mil anos-luz e espessura de 16 mil anos-luz, contendo entre 200 e 400 bilhões de estrelas. O Sol, uma delas, é a estrela que comanda nosso sistema solar, o qual, como um todo, desloca-se no espaço a uma velocidade de 16 quilômetros por segundo, em direção a Vega, a estrela mais brilhante da constelação de Lira. O diâmetro do Sol é mais de um milhão de vezes o diâmetro da Terra, sua massa é maior que 330 mil vezes a massa da Terra, e dele distamos cerca de 150 milhões de quilômetros. Sua luz demora mais de oito minutos para chegar até nós e é tão intensa que não nos deixa ver os outros astros durante o dia. O telescópio com que os cientistas estudam o Sol tem um filtro especial para proteger sua visão.

Via Láctea

Galáxia elíptica

Galáxia irregular

O que ocorre nas estrelas?

Uma estrela se forma quando uma gigantesca nuvem de gás hidrogênio começa a ser comprimida por ação da gravidade. A força da gravidade aquece o gás gradativamente, fazendo com que a energia gravitacional seja convertida em aceleração do movimento dos átomos de hidrogênio, ou seja, em energia cinética. Cada hidrogênio, no seu núcleo, tem apenas um próton, cuja carga positiva repele os prótons dos outros hidrogênios. Desse modo, inicialmente os prótons conseguem ficar separados, numa luta vitoriosa da sua energia eletromagnética contra a energia gravitacional.
Entretanto, quando, por ação da gravidade, a temperatura supera dez milhões de graus absolutos (graus Kelvin), a energia cinética dos prótons passa a sobrepujar a sua repulsão eletrostática, tendo como consequência que os prótons começam a se chocar uns com os outros. No choque, os núcleos de hidrogênio fundem-se em hélio, liberando uma enorme quantidade de energia
, pois o próton do hidrogênio pesa mais que o próton do hélio, havendo uma sobra de massa (cerca de 0,7% do hidrogênio fundido), que se converte em energia nos termos da fórmula de Einstein (e = mc2). Essa energia preserva a estrela, pois contrabalança a atração gravitacional, que tende a puxar a estrela da sua periferia para o centro, e dela se originam o calor e a luz emitidos pela estrela.

- Uma estrela é uma cozinha nuclear, que queima hidrogênio
para sobreviver, resultando dessa queima uma cinza nuclear na forma de hélio refugado.

Com o decorrer de bilhões de anos, os átomos de hidrogênio vão sendo consumidos, sempre acumulando mais hélio, até que a fusão de hidrogênio cessa e a a cozinha nuclear para de funcionar. Não há mais a sobra de massa resultante da fusão nuclear, nem, portanto, energia para contrabalançar a gravidade, e esta tende a esmagar a estrela.

Gigante vermelha

Gigante vermelha

Mas a temperatura da estrela assim comprimida se eleva a tal ponto que a estrela adquire a capacidade de queimar o próprio hélio, convertendo-o em outros elementos, como carbono e lítio. A estrela diminui muito o seu tamanho, mas sua temperatura torna-se muito mais elevada e sua atmosfera se expande de forma extraordinária. Nesse ponto a estrela deixa de ser uma estrela amarela normal e passa a ser uma "gigante vermelha". É o que acontecerá com o Sol, daqui a cinco bilhões de anos, quando nesse processo sua atmosfera ultrapassará a órbita de Marte.

- Gigante vermelha é uma estrela queimando hélio.

Anã branca

Anã branca

Quando o hélio é todo queimado, a cozinha nuclear novamente para de funcionar, a gravidade volta a predominar, obrigando a gigante vermelha a encolher-se numa "anã branca", que pode ter um tamanho menor que um décimo de milésimo de seu tamanho original, embora preserve praticamente toda a massa original da estrela. Uma anã branca é o núcleo que resta da estrela depois que ela ejeta as suas camadas exteriores. Se a estrela original for pequena, sua anã branca será um pequeno astro moribundo cuja gravidade não segura os gases da periferia, que se espalham.

- Anã branca é o produto final de uma estrela que não tem
massa suficiente para transformar-se numa supernova.

Supernova

Supernova: uma estrela explodindo

Há, porém, o caso de estrelas muito pesadas (algumas vezes mais pesadas que o Sol), que podem continuar fundindo elementos que resultaram da fusão do hélio, numa luta desesperada contra a gravidade, resultando no processo elementos cada vez mais pesados, até chegar à produção de ferro. Quando se alcança esse estágio, em poucas horas o núcleo é transformado em ferro, a energia da estrela é sugada, a pressão cai e as camadas externas começam a despencar em direção ao centro da estrela. Vão de encontro ao núcleo sólido de ferro, onde quicam e são ejetadas para o espaço sideral a altas velocidades, numa explosão que se chama de "supernova". A explosão pode expulsar para o espaço até 9/10 da matéria de uma estrela, num processo em que os elétrons colapsam com o núcleo, chocando-se com os prótons e originando nêutrons.

- A supernova é, pois, a explosão catastrófica de uma estrela que exauriu seu combustível nuclear.

Estrela de nêutrons (Pulsar)

Pulsar

Durante algum tempo, a supernova se apresentará com um brilho superior ao de uma galáxia de cem bilhões de estrelas. Com a energia da explosão da supernova, e no calor e pressão da mesma, são produzidos todos os elementos mais pesados que o ferro, que são lançados no espaço juntos com os escombros da explosão.
Os gases liberados no espaço dão origem a uma nova nebulosa (na qual poderão surgir novas
estrelas).
Ao fim e ao cabo, a supernova se transforma numa estrela de nêutrons, totalmente morta, girando e emitindo radiação, como se fosse um farol dentro do Universo, por isso às vezes chamada de "estrela que pisca" ou "pulsar"(nome que se originou da expressão "pulsating radio sources").

-Uma estrela de nêutrons, que resulta portanto do colapso de uma estrela que passou pelo estágio de supernova, tem uma área equivalente à da cidade de Campinas, mas com uma densidade tão grande que uma colher de chá de sua matéria pode pesar um bilhão de toneladas.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

SOU UM ANALFABETO CONTUMAZ

Pelo calçadão do Leblon

Sei apenas que preciso estudar mais, porque essa coisa de só saber Física inferioriza e dificulta minha vida perante as pessoas. Meu só caminho é padecer sobre os livros, de todos os assuntos, devorando-os, em vez de ficar prevaricando ou malbaratando meu ócio por aí.

May e eu

Foi o que pensei quando conheci
May, e decidimos caminhar pelo calçadão do Leblon. Ela é egiptóloga, eu que nem desconfiava da existência dessa atividade.

- E você, Carlinhos, qual a sua profissão?

- Engenheiro malsucedido, pois abandonei o ofício e decidi fazer um doutorado de Física. Engenharia é profissão corriqueira e até meio óbvia. Mas, egiptóloga, que faz exatamente uma egiptóloga?

- Bem, atualmente estou envolvida num projeto internacional relacionado com o faraó Tutancâmon, do século XIV a. C., coordenado pelo Museu de Ciência de Londres. Sua tumba, descoberta em 1922, em Tebas, no Vale dos Reis, continha uma quantidade extraordinária de joias e é considerada um dos maiores tesouros arqueológicos de todos os tempos.


- Museu de Ciência, lá em Londres?

Tutancâmon

Perguntei o que ela já me informara, nada menos edificante. Fazer o quê, dizer o quê? Tinha até me esquecido que existiu alguém chamado Tutancâmon, e essa palavra não escutava havia bem uns vinte anos. E, se me lembro, o que o meu professor de História dizia era "Tutancamôn", e não "Tutancâmon".

- Estamos reconstituindo a verdadeira face de Tutancâmon, que não tinha os lábios grossos e o rosto triangular sugerido pela máscara mortuária que se encontra reproduzida nos livros de História. Na verdade seus lábios eram finos, dentro de um rosto largo, que, além do mais, se caracterizava por sobrancelhas grossas e olhos pequenos.

- A reconstituição facial de uma pessoa que morreu há tanto tempo há de ser muito complicada, observei, fazendo força para não ficar calado todo o tempo.

- Morreu há 34 séculos. Posso dizer que envolve técnicas de raios X, processos e efeitos especiais e programas de computador, capazes de compatibilizar a face que se quer reconstituir com os ossos do crânio encontrados no sarcófago.

- Muito interessante.

Centenas de preciosidades no túmulo

- Suspeita-se que tenha recebido um violento golpe na cervical enquanto dormia. A ferida não lhe causou a morte de imediato, e sua agonia se prolongou durante dois meses de terrível sofrimento.

- Onde você entra, nessa história, como egiptóloga?


- Tudo que faço é colaborar com informações históricas, pois não sou habilitada nessas técnicas de reconstituição facial. Por exemplo, houve certa vez uma discussão sobre a idade com que morreu Tutancâmon, e fui chamada a dar a minha opinião.

- Com que idade ele morreu?

- Para mim, morreu quando tinha 18 anos, mas esse não é um ponto completamente decidido. Subiu ao trono com nove anos, sendo conhecido como o faraó-menino.

- Os egípicios eram precoces...

- Eram, de fato. Cleópatra chegou ao poder com apenas 18 anos. Isso cerca de 1.400 anos depois de Tutancâmon .

- Só sei que Cleópatra gostava de seduzir imperadores romanos, como César e Marco Antônio. Mais não sei dizer, nem vi aqueles filmes apoteóticos...

Elisabeth Taylor

- Cleópatra foi muito mais do que uma colecionadora de maridos ou uma mulher sedutora num filme do Cecil B. de Mile.
Para além de se destacar pela sua beleza, falava vários idiomas e patrocinava as artes e as ciências. Lembre-se de que governava o Egito a partir de Alexandria, capital cultural da Antiguidade...

- Portanto, uma senhora rainha.

- Ela era filha de tios, veja você.


- Filha de tios? Pode isso?

- Cleópatra era filha de Ptolomeu Aulete e Cleópatra Trifena, que eram irmãos. Ptolomeu Aulete era pai de Cleópatra, mas seu tio, por parte de mãe; Cleópatra Trifena era sua mãe, mas também tia, por parte de pai. Filha dos tios, portanto.

- Assim não vale!

- Vale, sim, pois ela própria se casou com dois de seus irmãos mais jovens. Um de cada vez, bem entendido.

- Uma promiscuidade familiar.

- E real.

Vivien Leigh (1945)

Ela, culta e bonita,
egiptóloga, veja só! E eu, idiota que sou, pagando o preço de não poder contribuir para o assunto e, mais ainda, concorrendo decisivamente para a banalização dos diálogos: “muito interessante”, “os egípcios eram precoces” "uma senhora rainha" e “com que idade ele morreu?”

-
Os filmes do Cecil B. de Mile, a minha eterna subcultura!


May!

sábado, 15 de agosto de 2009

A IMAGEM DO UNIVERSO (36/n)

O que falta explicar

A teoria do Big Bang faz uma descrição coerente da evolução do Universo, não restando nenhuma dúvida de que este teve um início quente e denso, começando sua carreira a partir de um volume infinitesimal, ou seja, a partir de um ponto.


- E as leis da Física, como ficam? Se matéria atrai matéria, como justificar a explosão?

- Esse ponto absoluto, quase metafórico, caracteriza o que os cientistas chamam de singularidade, um estado de gravitação infinita, onde falham as leis físicas conhecidas, incluindo a própria teoria da Relatividade. É bom saber que, no mundo do infinitamente pequeno, além de não valer a teoria da Relatividade, não vale o determinismo, não vale a nossa lógica, não vale sequer a nossa capacidade de observação. Desse modo, a singularidade está a exigir a criação de uma teoria da gravitação quântica, o que, alás, mobiliza hoje centenas de físicos e cosmólogos de todo o mundo.

- Falta isso, é?


Via Láctea

- Há cem anos não sabíamos se havia outra galáxia, para além da Via Láctea; hoje sabemos que há pelo menos 100 bilhões de galáxias; achávamos que o Universo era estático e descobrimos que está em expansão; era tido como infinito e em verdade iniciou-se de um ponto absoluto há 13,7 bilhões de anos. Ou seja, a ciência progride em direção à verdade, em aproximações sucessivas, com ensaios e erros, não sendo impossível que venha a ser encontrada uma teoria da unificação que explique a singularidade do Big Bang.

- Duvido.


Duvidar da ciência pode não ser bom...

Lord Kelvin (1824-1907), nascido William Thomson, era um físico irlandês muito influente do século XIX, a ponto de ter recebido inúmeras homenagens oficiais na Inglaterra e de ter sido sepultado ao lado de Newton, na Abadia de Westminster. Uma honra que mereceu por mais de 300 trabalhos e importantes contribuições em praticamente todas as áreas da Física.

Lord Kelvin (William Thomson)

Kelvin ficou mais conhecido por seu trabalho em Termodinâmica. Antes o cientista Jacques Charles chegara, por seus cálculos e experiências, à conclusão de que todos os gases teriam volume igual a zero à temperatura de -273 graus Celsius. Kelvin percebeu, porém, que não era o volume da matéria que se anulava nessa temperatura e, sim, a energia cinética de suas moléculas. Concluiu que - 273 graus Celsius era a temperatura mais baixa possível e chamou-a de "zero absoluto". A partir dessa noção, propôs uma nova escala de temperaturas, que posteriormente recebeu o nome de escala Kelvin, com valores sempre iguais aos da escala de Celsius, acrescidos de 273. As chamadas temperaturas absolutas. A escala Kelvin permite maior simplicidade nas expressões matemáticas das relações entre grandezas termodinâmicas.

Escala de Celsius X Escala Kelvin (= temperatura absoluta)

Em famosa carta de 27 de abril de 1900, Lord Kelvin declarou oficialmente que a Física já descobrira praticamente tudo que havia para descobrir no Universo e que os físicos estariam daquela data em diante condenados a revisar o que já se fizera anteriormente.

- Pouco modesto...

- Pois é...

Falecido pouco depois, não teve o dissabor de ver o quanto tudo mudou em termos de conhecimentos físicos, com o advento da Física Quântica, da Relatividade Especial, da Relatividade Geral, do Modelo do Big Bang e a consequente nova Cosmologia.


- Duvidar da ciência pode não ser bom...


Ruim de Opiniões

Aliás, Lord Kelvin ficou famoso por suas gafes e previsões equivocadas. São dele as seguintes pérolas do ceticismo malsucedido, registradas na história da evolução científica e das invenções tecnológicas:

"Átomos não existem."


"Radioatividade é bobagem."


"O rádio não tem futuro."


"Os aviões são impossíveis, porque mais pesados que o ar."


"Os raios X vão se revelar um embuste."


"A Teoria da Evolução, de Darwin, é incompatível com a pouca idade da Terra."




quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Protocolo de Montreal

Salvando a camada de ozônio


Circundando a Terra a uma altitude que varia entre 15 e 40 quilômetros, a camada de ozônio atua como um escudo que nos protege da luz ultravioleta do Sol. Se houver uma deterioração importante dessa camada, os raios ultravioletas destruirão o nosso sistema imunológico e, pois, a capacidade que temos de lutar contra as doenças. Provocarão, além disso, câncer de pele nas pessoas de pele clara, e somente nestas, pois as pessoas de pele escura têm um suprimento abundante de melanina, que as protege dos seus efeitos. Para aumentar o problema, essas radiações solares atacam e destroem o fitoplancto marinho, que é a base da cadeia alimentar que mantém a vida nos mares, e arruínam as plantas terrestres e as colheitas, para além de outros males, cujas consequências nem conhecemos em sua plenitude.

A razão do buraco na camada de ozônio

F. Sherwood Rowland

F. Sherwood Rowland e Mario Molina, professores da Universidade da Califórnia, provaram em seu laboratório, em 1974, que a camada de ozônio estava sendo seriamente danificada por causa do uso industrial do clorofluorcarboneto, o que, aliás, lhes rendeu o Prêmio Nobel de Química, de 1995. De fato, desde a década de 1970, os clorofluorcarbonetos, ou simplesmente CFCs, compostos artificiais inventados nos laboratórios dos Estados Unidos e da Alemanha, constituídos de carbonos ligados a átomos de cloro e de flúor, tornaram-se o principal fluido ativo dos refrigeradores e dos aparelhos de ar condicionado, em substituição à amônia e ao dióxido de enxofre, e preponderaram na indústria microeletrônica e na fabricação de espumas, produtos de limpeza, aerossóis e solventes químicos.

Mario Molina

Quando esses produtos são consumidos e as geladeiras e condicionadores de ar são postos a funcionar, o clorofluorcarboneto liberta-se para a atmosfera, espalhando-se ao redor do planeta. Um gás praticamente inerte, que, entretanto, tem grande capacidade de destruir o ozônio, sem ser destruído. Cada átomo de cloro liberado na estratosfera pode remover 100 mil moléculas de ozônio, antes de regressar à superfície da Terra, na forma de cloreto de hidrogênio. O buraco na camada de ozônio diminui durante o inverno, mas aumenta na primavera, sobretudo na Antártica e, de maneira menos importante, no Pólo Norte.

Protocolo de Montreal, a solução

Montreal

A própria indústria, a princípio relutante, teve de reconhecer a gravidade do seu produto, cujos efeitos maléficos podem perdurar por algumas dezenas de anos. Em 1978 o uso dos CFCs em aerossóis foi proibido nos Estados Unidos, Canadá, Noruega e Suécia, e algumas indústrias importantes começaram a desmobilizar suas fábricas de CFC, a partir da década de 1980. O primeiro acordo global foi alcançado pelo Protocolo de Montreal, de 1987, pelo qual 150 nações se comprometeram a reduzir o uso dos CFCs à metade, até o ano de 2000. Duas revisões desse acordo foram acertadas, em Londres e Copenhague, a última das quais em 1992, ficando estabelecido que todas as nações importantes do mundo se empenharão em reduzir a zero, até 2030, a produção de CFCs e de outros halocarbonetos, de propriedades semelhantes. Desde 1995 não se produz mais o CFC em escala industrial, limitando-se a uma produção marginal, para fins médicos.


A conseqüência é que já se observa uma redução sensível no buraco de ozônio sobre a Antártica, sendo esperada a total regeneração da camada até o ano de 2050.