sábado, 11 de julho de 2009

A IMAGEM DO UNIVERSO (33/n)

BIG BANG OU UNIVERSO ESTACIONÁRIO?

George Lemaître

Constatada a expansão do Universo, pela verificação do contínuo afastamento das galáxias, duas teorias dividiam os cosmólogos na segunda metade do século XX:

(a) Teoria do Big Bang,
concebida pelo belga George Lemaître. Defende que o Universo teve um momento de criação e tem portanto uma idade finita. Uma explosão inicial determinou a expansão.

e

(b) Teoria do Universo Estacionário,
proposta por Fred Hoyle, Hermann Bondi e Thomas Gold, o "Trio de Cambridge". Considera o Universo eterno, embora evolutivo, criando matéria para preencher os espaços entre as galáxias, que se afastam. A expansão decorre de um crescimento espontâneo e contínuo, como o de uma bola de soprar cheia que recebe mais pressão.

Fred Hoyle

Quando perguntavam a Fred Hoyle, como se podia explicar essa criação de matéria, ele respondia:

- O Universo, que pode muito, tem a propriedade de criar um átomo em cada século, no volume correspondente ao do edifício Empire State. Se isso de alguma forma incomodar os defensores do Big Bang, peço-lhes que expliquem o que determinou a explosão primordial e o que havia antes dela.

Foi Fred Hoyle quem cunhou a expressão "Big Bang". Em 1949 houve um debate na BBC entre Gamow, defendendo o átomo primordial de Lemaître, e Fred Hoyle, defendendo o Universo Estacionário. Foi quando Hoyle disse debochadamente:

- Meu adversário defende que o Universo foi criado num Big Bang (Grande Estouro).

O nome pegou, criado
, ironicamente, pelo principal adversário da teoria.

Mais detalhes do Big Bang


George Gamow, infância na Rússia

Pela teoria do Big Bang, tudo começou pela explosão de um ponto extremamente denso e quente, o que fez surgir um Universo em expansão. O físico russo George Gamow e seus assistentes Ralph Alpher e Robert Herman defenderam que a explosão primordial encheu o Universo com uma radiação muito quente (trilhões de graus Celsius, no iniciozinho da expansão do Universo), que acompanha o Universo eternidade adentro. Se fosse possível detectar de algum modo a radiação cósmica de fundo, prevista por Gamow, o Big Bang sairia vitorioso no embate com a teoria do Universo Estacionário.

- Não se vislumbrava, porém, uma maneira de fazer a captura da radiação.


Robert Alpher

Outra contribuição importante à teoria do Big Bang ocorreu na década de 1940, quando o próprio Gamow, Alpher e Hermann conseguiram explicar, no âmbito de uma teoria chamada de nucleossíntese do Big Bang, por que o Universo é composto de 91 % de átomos de hidrogênio e 9 % de átomos de hélio (em massa, 75% de hidrogênio e 25% de hélio), sendo os outro elementos residuais.
Também em apoio do Big Bang, veio depois a Teoria do Universo Inflacionário, de Alan Guth, postulando que, no instante mais inicial do Universo, logo na explosão, uma misteriosa força de antigravidade fez o Universo se expandir de maneira inimaginável, numa velocidade muitas vezes maior do que a da luz.

- Se o Universo visível fosse do tamanho de um átomo, o Universo total seria maior do que o Universo visível.


Ponto fraco da teoria do Big Bang

A Teoria do Big Ban baqueava perante seu ponto fraco: a idade do Universo. A velocidade de afastamento das galáxias fora estabelecida por Hubble em cerca de 171 quilômetros por segundo para cada milhão de anos-luz (558 quilômetros por segundo para cada megaparsec). Aplicando esse valor em direção ao passado, chegava-se, pelos cálculos, à conclusão de que o Universo teria começado sua existência e expansão há cerca de 1,8 bilhão de anos. Uma contradição com a assertiva dos geólogos de que a Terra tem 4,5 bilhões anos e, sobretudo, um argumento decisivo para os que defendiam um Universo eterno e imutável.

- Como pode a Terra ser mais velha que o Universo?

A próxima postagem sobre a Imagem do Universo mostrará como essa polêmica foi resolvida.

sábado, 4 de julho de 2009

A IMAGEM DO UNIVERSO (32/n)

OPOSIÇÃO AO BIG BANG

Em janeiro de 1933, Lemaître apresentou sua teoria do Big Bang a uma plateia de cientistas, nas dependências do Monte Wilson, em Pasadena, na Califórnia. Entre os assistentes estavam Einstein e Edwin Hubble, a saber, o cientista cujas equações previam a expansão do Universo e o astrônomono que comprovou essa expansão com observar o afastamento das galáxias.
Foi então que Einstein, antes defensor do Universo estático, reconheceu sua derrota definitivamente e fez uma homenagem a Lemaître:

- Sua teoria é explicação mais bela que jamais ouvi para a criação.

Um tributo de quem criou as equações da Relatividade a quem soube usá-las melhor que ele, na Cosmologia.

Lemaître e Einstein

Resultado de um exercício de imaginação, a teoria do Big Bang de fato se compatibilizava perfeitamente com a contínua expansão do Universo, apesar de parecer mirabolante e de carecer de provas, o que, sem dúvida, tende a empurrar qualquer teoria científica para o terreno da ficção.
Havia, a favor, a teoria da nucleossíntese do Big Bang. Mas, opondo-se veementemente, uma prova negativa: a constante de Hubble, que exprime a velocidade de afastamento das galáxias, fora estabelecida em cerca de 171 quilômetros por segundo para cada milhão de anos-luz (558 quilômetros por segundo para cada megaparsec). Aplicando-a em direção ao passado, no processo imaginado por Lemaître, chegava-se, pelos cálculos, à conclusão de que, pela teoria do Big Bang, o Universo teria a idade de 1,8 bilhão de anos. Uma contradição com a assertiva dos geólogos de que a Terra tem 4,5 bilhões anos e, sobretudo, com os que defendiam um Universo eterno e imutável.

- Como pode a Terra, que é fiha, ser mais velha que a mãe?, gracejou Christopher Impey, da Universidade do Arizona.

Outro crítico da teoria do Big Bang foi Arthur Eddington, o mais importante astrônomo britânico do século XX:

- Como cientista, não acredito que o Universo tenha começado com uma explosão... isso me deixa desapontado.


Arthur Eddington

Relatividade cinemática e luz cansada

Era natural, portanto, que a teoria do Big Bang fosse contestada e que teorias alternativas surgissem, tentando tomar o seu lugar. Foi o caso da teoria da "relatividade cinemática", do astrofísico britânico Arthur Milne, defendendo que as galáxias mais afastadas naturalmente tinham de ser as mais rápidas e só por isso estavam mais longe, um resultado natural, dispensando qualquer explosão. Outra explicação foi dada pelo físico búlgaro Fritz Zwicky, com sua teoria da "luz cansada", pela qual as galáxias não se moviam. Se havia desvios para o vermelho, é porque a luz ao percorrer grandes distâncias enfrentava a gravidade galática e perdia energia, o que obrigava a esses desvios para o vermelho.

Fritz Zwicky

Eram, porém, teorias inconsistentes e não prosperaram.

Universo Estacionário

Das teorias que se opuseram ao Big Bang, a que conquistou maior número de seguidores foi a teoria do Universo Estacionário, criada pelo chamado "Trio de Cambridge", integrado pelos cientistas Fred Hoyle, Thomas Gold e Hermann Bondi. Os três costumavam se reunir na casa de Bondi para discutir o modelo do Big Bang, quando todos já admitiam que o modelo do Universo eterno e estático não poderia mais prevalecer, depois de constatado que as galáxias se afastam umas das outras com velocidades impressionantes.

Hermann Bondi

Thomas Gold

Chegaram os três à conclusão de que a teoria do Big Bang não era aceitável porque implicava um Universo mais jovem do que as estrelas que nele existem, além do que não solucionava a importante questão de dizer o que existia antes dele.
Foi então que Gold propôs e desenvolveu com os parceiros uma teoria substituta do Big Bang que combinava Universo eterno com Universo em expansão, esta se justificando pela criação, pelo Universo, de matéria adicional para preencher os espaços vazios que cresciam entre as galáxias em fuga.

Fred Hoyle

-
O Universo está sempre se expandindo, mas sua densidade permanece a mesma porque matéria nova vai sendo criada do nada, à razão de um átomo a cada século para cada volume igual ao do edifício Empire State. O Universo é imutável, mas evolutivo.

Para Hoyle, que se tornou o líder do "Trio de Cambridge", não havia essa hipótese de começo com Big Bang, pois, atemporal, o Universo nunca teve começo, nem terá fim.

Comentário

No livro "Big Bang" (Record, 2006), Simon Singh, referindo-se ao surgimento da Teoria do Universo Estacionário, fez o seguinte comentário:

"Agora havia uma escolha clara para os cosmólogos. Eles podiam optar por um Universo do Big Bang, com um momento de criação, uma história finita e um futuro que seria muito diferente do presente. Ou podiam escolher o Universo do Estado Estacionário, com uma criação contínua, uma história eterna e um futuro que seria, na maior parte, igual ao presente."

Essa opção, de fato, dividiu as opiniões na segunda metade do século XX. Qual seria o desfecho?

quarta-feira, 1 de julho de 2009

INTELIGÊNCIA, TEU NOME É MULHER (1/2)

AS DOAÇÕES RECUSADAS

Todo o tempo Cecília esteve sob minha proteção econômica. Eu, que percebia uma elevada remuneração na WED, representava o seu seguro, a cujas coberturas nunca precisou recorrer, pois fez nesses oito anos uma carreira vitoriosa, tanto do ponto de vista profissional como financeiro. Ela percebe as oportunidades e administra seus projetos de forma sempre competente, o que, aliás, explica amplamente por que uma arquiteta interessada em modas decidiu tomar cursos de estatística e de econometria no Department of Business da Universidade do Texas.

Cecília planeja, controla, coordena e comanda tudo, como se fosse um Ford, um Fayol, sei lá. Esforço e muito talento igual a êxito, eis uma lei que justifica muito bem os vencedores do mundo. Em pouco tempo, era natural, passou a ganhar mais do que eu.

Sempre haverei de reconhecer, com exemplos fartos, que Cecília é uma pessoa diferenciada, e ganhar dinheiro com maestria e dedicação é apenas uma das muitas manifestações da sua inteligência superior. Ela prepondera, esta palavra diz tudo, não importa se a causa é grande, influindo na conta bancária ou no destino das pessoas, ou se irrelevante, como na escolha de um guarda-chuva ou na elaboração de uma lista de convidados.
Com muito dinheiro afluindo de ambos os lados, compramos a mansão do Itanhangá e assumimos uma vida de muito conforto material, que incluía carros importados e constantes viagens à Europa. O importante, porém, é que nós nos bastávamos, pois tudo em volta parecia ser, e era, mero complemento na paisagem colorida da nossa existência.

Itanhangá

Cecília sempre terá a minha admiração. Lembro-me, claro, da madrugada inesquecível de Veneza, do colar de Ouro Preto e da vitória do Full Advantage, aquela vez no Jóquei Clube.
Ah, houve também a história dos cobertores, inesquecível... Os que não morreram tentavam salvar suas miudezas, que a correnteza ia arrastando de maneira decidida. As pessoas, se quisessem ajudar, poderiam enviar dinheiro ou levar suprimentos e agasalhos ao depósito da Rua da Constituição, lá no centro da cidade.

- Vamos ajudar essa gente, Carlinhos.



Compramos dez dúzias de cobertores, que, de carro e com algum embaraço no trânsito, levamos à Rua da Constituição. Tivemos uma recepção fria e burocrática, quase grosseira, e fomos instruídos a deixar os cobertores num pátio muito sujo, onde desordenadamente se amontoavam outros donativos. Tudo seria removido para um depósito nos fundos e distribuído aos flagelados, mas a seu tempo.
Um mês depois, superada a urgência da catástrofe, Cecília quis voltar à Rua da Constituição.

- Tenho ordens para abrir o depósito, disse ela ao vigia.

- Abrir o depósito? Ordens de quem?

- Do general Esperantino Tinoco.

Esperantino Tinoco

Lá dentro estavam os nossos cobertores, embrulhados como os deixáramos no dia da tragédia. Por ordem do general Tinoco, nós os resgatamos e os encaminhamos a uma instituição de caridade.

- Não conheço esse general Tinoco, Cecília.

- Nem seria possível conhecê-lo, simplesmente porque ele não existe. Foi a minha maneira de pressionar o vigia.

- Ótima, essa. Por que será que pediram donativos e não os enviaram para as vítimas?

- Esse o ponto. Embolsaram o dinheiro piedoso, esquecendo-se do resto, pois não tinham intenção nenhuma de ajudar ninguém; os suprimentos só entravam na história para dar
credibilidade ao apelo.

- Agora entendo; os outros donativos não lhes interessavam.

- Mas há os chatos, como nós, Carlinhos.

E, entre estes, os espertos, como Cecília.

sábado, 27 de junho de 2009

A IMAGEM DO UNIVERSO (31/n)

BIG BANG E TEORIAS DECORRENTES


- As galáxias estão se afastando!

A percepção de que o Universo estava continuamente se expandindo, comprovada pelas observações do astrônomo Edwin Hubble, levou o físico belga George Lemaître à pergunta inevitável: desde quando?

- Desde o início do Universo, quando todas as galáxias estavam juntas num "átomo primordial"
, concluiu Lemaître.

- Átomo primordial?

-
Se as galáxias estão todas se afastando, então devem ter estado sempre mais próximas à medida que se considera um passado cada vez mais remoto, até que, na origem, estiveram reunidas num volume reduzido, muito denso e muito quente, que seria o volume mínimo e inicial da expansão. Esse volume, de pressão, temperatura e densidade infinitamente elevadas, começou a se expandir, possivelmente a partir de uma explosão.


Passado ------ Futuro

A teoria de Lemaître, a exemplo da de Friedmann, basou-se nas implicações das equações de Einstein e ficou conhecida pelo nome de "Teoria do Big Bang".


Muitos cósmólogos desde então passaram a admitir que o Universo prosseguirá sua expansão indefinidamente, se sua massa não for suficientemente grande para interromper a caminhada; caso contrário, em algum momento, a gravidade começará a predominar e o Universo passará da expansão à contração, de maneira a regressar ao "átomo primordial", num processo a que se costuma chamar de "Big Crunch". Não se conhece a massa total do Universo, mas, se for grande bastante para deter a expansão, a eternidade contemplará cada "Big Bang" sucedido por um " Big Crunch", para dar início a outro "Big Bang", seguido de outro "Big Crunch", e assim sucessivamente, por toda a eternidade.

Acima da linha intermediária: expansão eterna
Abaixo: Um Big Crunch após cada Big Bang


Radiação cósmica de fundo

Um dos que apoiaram Lemaître foi o cientista russo George Gamow (1904-1968), professor da George Washington University. Para além de outros estudos importantes em conexão com a teoria do Big Bang, em 1948 Gamow formulou, com assistência dos físicos Ralph Alpher e Robert Herman, a hipótese de que a explosão primordial postulada por Lemaître encheu o Universo com radiações muito quentes (trilhões de graus Kelvin, no iniciozinho da expansão).

- Essa radiação acompanha o Universo eternidade adentro, disse Gamow, e está atualmente na faixa de micro-ondas. Ela, que existia desde o iniciozinho da expansão, começou a circular quando o Universo deixou de ser opaco, exatamente por causa da expansão, com o surgimento de espaços vazios que permitiam a passagem da luz; quando a radiação começou a circular, o Universo tinha apenas 380 mil anos e sua temperatura já tinha decaído para 3.000 graus Kelvin.

George Gamow

- A radiação expande-se junto com o Universo, permeando-o totalmente, e está atualmente na temperatura de 5 graus Kelvin, conforme meus cálculos, postulou Gamow. Se houver algum meio de detectá-la, ouviríamos hoje um chiado de ondas de rádio vindo de todas as direções do espaço.

A radiação de Gamow e seus colaboradores ficou conhecida como Radiação Cósmica de Fundo em Micro-ondas (RCFM): um sinal eletromagnético, na forma de ruído, que preenche todo o céu.

- Sua existência poderia comprovar a teoria do Big Bang, com papel fundamental na Cosmologia.


Nucleossíntese do Big Bang

Uma ponto a favor da teoria do Big Bang veio ainda em 1948, com Gamow e Alpher conseguindo estimar as temperaturas e as densidades do Universo nos primeiros instantes da expansão, quando toda a matéria era ainda formada por uma colossal sopa de hidrogênio. Temperatura e densidade permitem estudar a nucleossíntese, ou seja, as fusões de elementos para obter elementos mais pesados. A nucleossíntese do Big Bang permitiu a Gamow e Alpher estabelecerem que após cinco minutos do início da expansão 25 % do conteúdo material, inicialmente todo de hidrogênio, converteram-se em hélio, surgindo, ainda, lítio e berílio, em proporções marginais. As percentagens encontradas nos cálculos coincidem com as do Universo real. (Os elementos mais pesados foram gerados muito depois, na nucleossíntese das estrelas e das supernovas, conforme estudos posteriores de Fred Hoyle.)

Universo inflacionário

Outra teoria que mais tarde surgiria alinhada com a do Big Bang, e em decorrência desta, foi a do Universo Inflacionário, do físico Alan Guth, do MIT (Massachusetts Institute of Technology), que dá uma explicação relativa ao iniciozinho do Universo: no primeiro trilionésimo de trilionésimo de trilionésimo de segundo, a contar do início da expansão, ocorreu a inflação do Universo.

- Inflação do Universo?

- Uma misteriosa força de antigravidade fez o Universo se expandir de maneira inimaginável, numa velocidade
muitas vezes maior do que a da luz. A cada tempo de 10 elevado a -37 segundo, o Universo dobrou de tamanho, dobrando algumas centenas de vezes num intervalo de tempo igual a 10 elevado a -35 segundo. Depois, a inflação cessou e o Universo material começou a se expandir normalmente.

- Muito complicado. Pode alguma velocidade ser maior do que a da luz?

- Nenhuma entidade material pode ter velocidade maior que a da luz. No caso, porém, o que se expandiu foi o espaço vazio.


Alan Guth

Imagine um balão que está sendo inflado, cheio de pontos na superfície, que representam as galáxias. Na superfície do balão, desenhe um círculo microscópico - este círculo microscópico representa o Universo visível, ou seja, tudo que podemos ver com os nossos telescópios. Se o Universo visível fosse do tamanho de um átomo, o Universo total seria maior do que o Universo visível.

- Caramba!

- O Universo visível parece plano, seguindo a geometria euclidiana, porque está curvado numa escala gigantesca, da mesma forma que a Terra, redonda, nos parece achatada.

Mera especulação?


O Big Bang mais parecia uma história de ficção do que uma teoria científica. Quem podia saber? Enquanto provas não fossem apresentadas, a teoria ficaria na classificação de "especulação científica", facilitando o surgimento de teorias alternativas, igualmente especulativas, como foi a teoria do Estado Estacionário, que será discutida no decorrer da próxima postagem.

sábado, 20 de junho de 2009

IMAGEM DO UNIVERSO (30/n)

SURGE A TEORIA DO BIG BANG

Einstein lutou contra suas próprias equações, que indicavam a expansão do Universo. Ao fazê-lo, criou a constante cosmológica, um fator de camuflagem que permitia anular a força gravitacional, mas sem excedê-la, de maneira que o Universo deveria permanecer estático, sem grandes aproximações nem grandes afastamentos entre as galáxias.

- Concordo com o Universo estático de Aristóteles e Newton, disse Einstein.

- A solução da constante cosmológica é inviável, retrucou em 1922 o físico russo Alexander Friedmann. Mesmo se
existisse em algum momento, o Universo estático passaria a se expandir ou a se contrair imediatamente, pois a Relatividade Geral indica o Universo estático como uma solução instável.

- Neguei minhas próprias equações...

As observações telescópicas de Edwin Hubble, anunciadas em 1929, indicavam que todas as galáxias se afastam umas das outras com velocidades extraordinariamente elevadas, sepultando a hipótese do Universo estático, de Aristóteles, Newton e Einstein. Friedmann estava com a razão.
Em 1931 Einstein visitou o Monte Wilson, em Pasadena, na Califórnia, e examinou todo o material de Hubble, que indicava um desvio sistemático para o vermelho e levava à conclusão de que o Universo realmente se expandia, conforme indicavam suas próprias equações. E em 3 de fevereiro de 1931 reconheceu sua derrota publicamente e, ao fazê-lo, declarou:


- A constante cosmológica foi o maior erro da minha vida.

Big Bang

Para explicar o
Universo em expansão, agora uma tese vitoriosa, surgiram na primeira metade do século XX, para além de outras teorias menos importantes, duas teorias que se excluíam mutuamente:

(1) Teoria do Big Bang (1927) - o Universo foi criado numa explosão, o que explica a sua expansão.

(2) Teoria do Universo Estacionário (1948)
- o Universo sempre existiu, mas cria matéria e se expande.


Alexander Friedmann faleceu em 1925, num estado de delírio, vítima de febre tifóide, sem ver confirmado o seu estudo genial, que até hoje serve de referência para os cosmólogos. Tinha apenas 37 anos. Seus trabalhos tiveram pouca repercussão, tanto que em 1927, sem saber dos mesmos, o físico e padre belga Georges Lemaître, ainda antes da publicação das observações de Edwin Hubble, apresentou um trabalho que também descartava a constante cosmológica e chegava à mesma conclusão de Friedmann: o Universo está em expansão.
Lemaître (1894-1966) nasceu em Charleroi, na Bélgica, estudando engenharia e física na Universidade de Louvain, depois do que ordenou-se padre no seminário de Maline. Como físico, Lemaître estagiou em Cambridge, antes de ser professor na Universidade de Louvain. Fez duas carreiras paralelas, como físico e padre.

- Existem dois meios de alcançar a verdade, costumava dizer. Eu decidi seguir ambos.


Lemaître e Einstein

Seus estudos cosmológicos também partiram das equações de Einstein e foram mais longe que os de Friedmann, intuindo que o Universo iniciou sua expansão a partir do que chamou de um "ovo cósmico" ou “átomo primordial”, supercompactado, que explodiu e evoluiu para o Universo atual.

Físico, em vez de matemático, que era o caso de Friedmann, Lemaître tinha familiaridade com o decaimento radioativo, um processo pelo qual átomos de núcleos pesados, como o urânio, partem-se em átomos menores, liberando partículas, radiação e energia. Por analogia, propôs a hipótese de que o mesmo acontecera com o "átomo primordial", que teria se quebrado em átomos menores, que, por sua vez, foram se quebrando sucessivamente até chegar aos átomos atuais.

-
Estamos cumprindo uma expansão causada pela explosão do "átomo primordial", num passado muito remoto. A evolução do mundo se compara a um espetáculo de fogos de artifício que acabou de terminar; uns poucos fragmentos vermelhos, cinzas e fumaça. Nós, que chegamos muito mais tarde, o que podemos fazer é imaginar como foi o esplendor da criação!


Recuando no tempo (para a esquerda)

- Pode explicar por que pensa assim?

-
Não está o Universo se expandindo continuamente? Então as galáxias:

- amanhã estarão mais distantes de nós;
- ontem, claro, estavam mais próximas;
- mais próximas ainda, no ano passado;
- no início todas estavam juntas, e nós, lá dentro.

Em outras palavras, um relógio que andasse para atrás veria o Universo diminuindo progressivamente de tamanho. Se recuarmos a um tempo suficientemente remoto, é lógico que todo o espaço deve ter estado compactado num volume muito pequeno, com pressão, temperatura e densidade inimaginavelmente elevadas.

Brian Green

No seu livro "O Universo Elegante", o físico Brian Green assim explica o Big Bang:

"Se o tecido do Universo está se estirando, o que vai sempre aumentando as distâncias entre as galáxias que acompanham o fluxo cósmico, podemos imaginar o caminho inverso dessa progressão, recuando no tempo para aprender sobre a origem do Universo. Caminhando para trás, o tecido do espaço se encolhe e as galáxias se aproximam cada vez mais umas das outras. O encolhimento do Universo faz com que as galáxias se comprimam e, tal como em uma panela de pressão, a temperatura aumenta extraordinariamente, as estrelas se desintegram e se forma um plasma superaquecido, composto pelos constituintes elementares da matéria. (...) À medida que se retrocede ainda mais no tempo, a totalidade do cosmos reduz-se ao tamanho de uma laranja, de um limão, de uma ervilha, de um grão de areia, restringindo-se sempre a volumes cada vez menores. Extrapolando esse percurso até o "começo", o Universo se reduziria a um ponto, no qual toda a matéria e toda energia estariam
contidas, a uma densidade e temperatura inimagináveis. (...) O Big Bang irrompeu dessa mistura volátil e espargiu as sementes do Universo em que vivemos."

Big Bang: a panela explodiu.

Essa a teoria do Big Bang, a primeira que surgiu no vácuo deixado pelo destronado Universo estático de Aristóteles, Newton e Einstein.

- A teoria parece mirabolante, mas estaria correta?

- Ninguém estava em condição de garantir nada, naquele ano de 1927.

- Na ciência as teorias têm de ser testadas e provadas, sob pena de descambarem para a poesia.

Então, vale a pena continuar a viagem, para ver como a coisa se resolveu...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

DEVANEIOS DE UM ESPECULADOR

Quem é Al Pacino?

Sou um vitorioso de Wall Street. Ninguém entende mais do que eu de ações e de Índice Filadélfia de Semicondutores, nem de Nasdaq, mercado futuro, margens, opções e derivativos. Adivinhei que a Cisco e a Juniper iriam dar a grande virada e por isso, só por isso, acabo de ganhar doze milhões e trezentos e dezessete mil dólares, em menos de 24 horas. Em menos de 24 horas, senhoras e senhores!

- Show me the money! Show me the real money!


Saio da Bolsa de Nova York e caminho, quase no automático, até o 696 da Madison Square, o restaurante Nello. Gostaria de ver a cara da Glorinha, se me visse agora, ela que me trocou pelo otorrinolaringologista. Acomodo-me na mesa mais discreta e peço ao maître que ofereça vinho e destilados aos demais clientes do restaurante. Gosto de sentir a alegria inocente do povo.

- Oferecer, como?

- Ofereça, senhor, ofereça.

- Até para Al Pacino?, indaga-me o maître, apreensivamente, mas cheio de curiosidade.

- Não sei quem é Al Pacino, respondo, mas pode servir à vontade.

Os clientes percebem que sou um ganhador. Dinheiro para esse cara é artigo abundante, como areia na praia. Caminhões e caminhões de areia, da grossa. Enquanto uns optam pelo Lafite Rothschild 1982, outros pedem o Chateau Margaux 1995. Será que a Glorinha toma vinhos, assim, de responsabilidade?

- São vinhos de mais de mil dólares a garrafa, observa o maître.

- Sirva a dezessete graus Celsius, por favor.

-Dezessete graus Celsius?

- Sim, equivalentes a pouco mais de 62 graus Fahrenheit.

Todos me olham perplexos e agradecidos, mas não lhes dou atenção.

- E para o senhor?

- Peito de frango grelhado, legumes na água e sal e uma garrafa de água mineral, sem gás. De sobremesa, uma fatia de mamão bem maduro. Sim, papaia, sim, sim.

Terminada a refeição, assino um cheque em branco.

- Preencha-o no valor da conta, acrescentando-lhe uma gorjeta de vinte mil dólares.

- Vinte mil dólares? Nem o Rockfeller dá gorjetas assim...

- Rockfeller, só conheci um, o John, que tinha o péssimo hábito de discutir a conta do almoço com o garçom.
O problema dele foi a Lei Shermann. Pobre John...

- Sim, senhor.

- Tenho a lei a meu lado e não me humilho com ridicularias.

Antes de sair, sou efusivamente cumprimentado por Alberto de Mônaco, que é ruim de mulher e sempre paquera por aqui, e dou um autógrafo para Julia Roberts, que, se não me engano, faz tudo por dinheiro. Menos beijar na boca...
Isso aqui já foi mais discreto. É sempre assim... a populaça vai se assenhoreando de tudo, de modo que é inútil e até despiciendo exigir discrição e privacidade.

Ornitorrincolaringologista

- Se tivesse me trocado por um aspirante a oficial, vá lá, mas um otorrinolaringologista!

quarta-feira, 10 de junho de 2009

DENTRO E FORA, COMO PODE?

Paradoxo de Creta

Lado leste de Creta

No século VI a. C., o cretense Epimênides fez uma declaração, conhecida como "paradoxo de Creta" ou "paradoxo do mentiroso":

- Todos os cretenses são mentirosos.

Essa afirmação consta da Bíblia, Novo Testamento, Epístola a Tito, 1:12. A declaração é verdadeira ou falsa? Sendo Epimênides, ele próprio, um cretense, não se pode responder nem sim nem não, pois, sendo verdade o que disse, a afirmação é falsa. Se o que disse for mentira, a afirmação é igualmente falsa.

- Os que lerem a Epístola não têm como saber, pois estarão diante de uma questão paradoxal e indecídivel.


Epimênides

- Os cretenses são mentirosos.

Eubúlides de Mileto viveu no século IV a. C. e era rival e desafeto de Aristóteles, cujos silogismos ridicularizou publicamente. É de Eubúlides uma formulação com resultado tão paradoxal como o da afirmação de Epimênides:

- Um homem diz que está a mentir. O que ele diz é verdade?


Se for verdade o que diz, a mensagem é falsa. Se for mentira, a mensagem também é falsa.

- Impossível responder
.

Groucho Marx

Muitos consideram uma variante do mesmo paradoxo a famosa declaração do comediante Groucho Marx, explicando sua exigência e dificuldade para associar-se a um clube:

- Jamais pertencerei a um clube que tenha o descuidado de aceitar-me como sócio.


A provocação de Churchill

Winston Churchill certa vez dirigiu a um desafeto a seguinte pergunta:

- Você ainda tem o hábito de roubar?

Churchill

O pobre adversário não pôde responder nem sim, nem não, pois por qualquer escolha estaria admitindo sua desonestidade.

Consequência das afirmações indecidíveis


Gödel

Em 1931 o matemático checo Kurt Gödel, tomando por base os paradoxos de indecidibilidade, que em conjunto são chamados de Paradoxo de Russell, demonstrou que muitas afirmações matemáticas verdadeiras não são passíveis de ser provadas; são as chamadas proposições indecidíveis ou não demonstráveis. A demonstração de Gödel derrubou a teoria, sustentada pelo eminente matemático alemão David Hilbert, de que toda verdade matemática pode ser provada a partir de axiomas básicos.

Christian Goldbach

Há, pois, verdades matemáticas que nunca serão provadas, e este pode ser o caso da Conjectura de Goldbach: "todo número par, a partir de quatro, pode ser reduzido à soma de dois primos". Exemplos:

20 = 7 + 13

80 = 19 + 61

120 = 11 + 109
Carta de Goldbach a Euler, propondo a conjectura

A conjectura foi proposta por Christian Goldbach a Euler em 1742. Nunca foi encontrada nenhuma exceção para a mesma, mas ninguém conseguiu prová-la. Resposta de Euler:

- Acho que você está certo... Os números pares são infinitos, e só uma prova transformará essa "conjectura" em " teorema". Mas não sei como fazer a demonstração.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

FUI AO TEXAS E VOLTEI CASADO

Uma primavera universitária

Universidade do Texas, em Austin

Era a nossa primeira aula na Universidade do Texas. O professor Burford, comentando o teste de suficiência, revelou que dois alunos haviam se confundido na interpretação da terceira questão. Pelo mesmo e prosaico motivo: dificuldades com o idioma inglês. Ambos brasileiros, ambos recém-chegados a Austin, esta cidade generosa que acolhe tantos estudantes estrangeiros.

- Um deles é este aqui, disse Burford, apoiando a mão sobre meu ombro, e ele se chama Carlos Auvergne de Carvalho. The quick brown fox jumps over the lazy dog e, não obstante, o senhor não soube o que eu quis dizer com "dummy variable". Veja só!

Um vexame que nem cheguei a padecer, pois o professor, deslocando-se para o outro lado da sala, apontou para a bela jovem de saia negra e casaco cinza. Foi naquele momento que a vi pela primeira vez.

- Cecília, Cecília Lafayette de Castro.

Cecília

O aplauso de toda a turma era uma demonstração de solidariedade, que ela agradecia cheia de modéstia, mas com sorriso cativante. Um tributo à sua extraordinária beleza, pois, se assim não fosse, teriam me aplaudido também, por que não?
Importante é que eu já não estava só naquele mundo estrangeiro, cujo sotaque eu decifrava com dificuldade e ouvido incompetente. No Union's, o restaurante do campus universitário, ela me explicou que era arquiteta por formação, mas tinha a ambição de ser estilista.


- The quick brown fox jumps over the lazy dog, o que é isso?

- A ligeira raposa marrom pula sobre o cão preguiçoso. É uma frase que contém todas as letras do alfabeto inglês, usadas nos testes relacionados com as máquinas de telégrafo. Essa frase faz parte do show do Burford, que viu em nós, estrangeiros, o pretexto para dizer que o inglês se espalha galhardamente por aí, em todas as bibliotecas do mundo, usando não mais que escassas 26 letras. Daí a estranheza com alunos graduados que não sabem o que é dummy variable. Já pensou na tragédia que será alguém morrer sem saber o significado de dummy variable?

- Ou seja, isso de não saber inglês é pura negligência... Devemos reconhecer, todavia, que ele foi atencioso conosco, pois, seja como for, fomos apresentados à turma.

- Sem dúvida... Mas, voltando à raposa, será que ele sabe português? São apenas 23 letras, se não estou enganada.

- Apenas 23, sim, mas suficientes para escrever os Lusíadas.

- E as crônicas do Rubem Braga...

- Mudando de assunto, Cecília, por que uma estilista tem de estudar estatística?

Curva normal, de Gauss

- Porque trabalha com moda.

- Um trocadilho?

- Onde você acha que os estatísticos foram buscar sua noção de moda? A moda, a das roupas, tem tudo a ver com amostragem, média, mediana, momentos, desvio padrão...

- É, basta ter uma distribuição de freqüências.

- E você, por que está aqui, na Universidade do Texas?

- Bem, sou engenheiro recém-formado e cumpro um treinamento de três meses, a serviço da WED.

- WED?

- Sim, W-E-D, Western Energy Development.

Cecília e eu decidimos estudar juntos e, entre histogramas, regressões e números-índices, tive a percepção de que estávamos construindo uma parceria vitoriosa, que iria para além de uma primavera universitária no Texas. Acertei, pois logo estávamos namorando, e morando juntos, perfeitamente integrados um ao outro. Terminado o curso, visitamos Nova Orleans, San Francisco e Nova York, antes de voltar para o Rio de Janeiro.

- Se você quiser, Cecília, podemos duas coisas.

- Acho que podemos mais do que duas coisas, Carlinhos.

- Sim, mas quero me referir a duas delas, muito específicas e fundamentais. A primeira é estabelecer um binômio para nós, lealdade e generosidade.

- Muito justo e pertinente. E a outra?

- É a gente se casar.

Ela topou, que esse era também o seu desejo.

- Mas, quando?

- Agora, que a burocracia virá depois.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

ACORDO ORTOGRÁFICO

Confusão

O Acordo Ortográfico parece que vai exigir mais trabalho do que imaginado inicialmente, pois
, para dirimir dúvidas quanto ao uso do hífen, teremos de ir frequentemente ao dicionário. Pelo andar da carruagem, nem os especialistas (ortógrafos? lexicógrafos?) parecem estar se entendendo sobre as novas regras, apontando várias lacunas, contradições e inconsistências no texto acordado. Exegetas experimentados nas questões do idioma haverão de decifrar se devemos escrever "jogo treino" ou "jogo-treino", "francoatirador", "franco atirador" ou "franco-atirador", "lava rápido", "lavarrápido" ou "lava-rápido". Em tempo, "mega-sena" ou "megassena", "bem mandado" ou "bem-mandado"?

- Água-de-coco ou água de coco?

- Em que as pessoas devem fundamentar-se nessa questão do hífen?

- Na Base XV do Acordo, que tem a seguinte redação:

"Emprega-se o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido. Exemplos: conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva.
Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se aglutinadamente: girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedismo, etc.
"

"Pontapé", mas "finca-pé"

- Não entendi, mas gostei muito do "etc", no final... Acho até que o texto faz confusão entre justaposição e aglutinação, sei lá. Mais que isso, tenho para mim que as expressões "certos compostos" e "em certa medida" devem ajudar muito o entendimento dos que estiverem entendendo o resto. Mas, vem cá,"finca-pé" e "mandachuva" seguem regras diferentes de hifenação? Outra coisa: pela regra não devia ser "justa-posição", em lugar de "justaposição"?

- Para transitar com segurança nessa questão, o usuário do idioma deverá verificar, em cada caso, se está diante de um encadeamento vocabular ou de uma palavra composta
. Feita a verificação, saberá grafar corretamente:

"paraquedas", mas "para-choque";

"guarda-chuva", mas "mandachuva";

"Porto Alegre", mas "porto-alegrense".


- É assim, é?

- Distinguir sempre se não se trata de unidade fraseológica constitutiva de lexia nominalizada.

- Caramba!

No restaurante

Bife malpassado, sem hífen

- Garçom, este bife está malpassado?

- Não senhor, está bem-passado, com hífen.


Na loja de perfumes

Águas-de-colônias, cheias de hífens

- Vocês têm água de cheiro?

- Não, pois não vendemos nada que não seja hifenado. Temos água-de-colônia.


Não e quase
Sistema não linear

- Usa-se o hífen depois de "não" e "quase", quando atuando como prefixos, como em "equações não lineares" e "quase arquiteto"?

- Não.


- Não, mesmo?

- Bem, quando houver necessidade de ênfase estilística, pode-se usar o hífen nestes e em todos os outros casos nos quais o uso permitir. Entendeu?

- Não, não entendi.
- Acho que sou quase-burro, com muita ênfase.

Uma tentativa nos Estados Unidos

Uma reformulação ortográfica implica, no ato mesmo da sua imposição, a maculação irreversível de todas as bibliotecas construídas de acordo com as regras anteriores da língua, com graves consequências econômicas, e só por isso haveria de ser um recurso extremo e de caráter definitivo. Essa a razão pela qual um acordo desse tipo vem sendo recusado, desde muitos séculos, pelos países de língua inglesa e de língua francesa, para citar duas das línguas mais importantes e, não obstante, mais cheias de problemas.
Nem o presidente Theodore Roosevelt, com sua autoridade de intelectual e líder carismático, conseguiu bancar uma reforma desse tipo nos Estados Unidos. Uma comissão chamada de Simplified Spelling Board (da qual fazia parte Mark Twain) organizou uma lista de 300 palavras inglesas que deveriam ser imediatamente escritas de maneira simplificada, recomendando que outras modificações fossem introduzidas no decorrer do tempo. Essa iniciativa desonerava a assoberbadíssima língua inglesa, e alguns aceitaram a lista imediatamente, até mesmo algumas escolas.

- "Enough" seria substituída por "enuf", "phantasy" por "fantasy", "night" por "nite", "although" por "altho", "catalogue" por "catalog", e assim por diante.

O maior entusiasta da simplificação foi Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos, que enviou uma ordem ao United States Government Printing Office (Departamento de Imprensa do Governo), em 27 de agosto de 1906, determinando que os documentos oficiais passassem a adotar a lista das 300 palavras modificadas.


Rondon, amigo de Theodore Roosevelt

Houve, porém, forte reação popular, pois os que aceitavam a simplificação eram na verdade minoria. Os jornais passaram a fazer piadas sobre a reforma, que foi rejeitada pelo Congresso em 13 de dezembro de 1906 e a seguir pela Suprema Corte dos Estados Unidos.