quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

MARIGHELLA, O GUERRILHEIRO POETA

Para além do seu Manual do Guerrilheiro Urbano e de textos políticos diversos, Carlos Marighella deixou também uma obra poética, reunida no livro Rondó da Liberdade. Há nele poemas de muito amor e beleza:

Liberdade

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,

tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te

dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma

que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,

possa feliz, indiferente à dor,

morrer sorrindo a murmurar teu nome.


(São Paulo, Presídio Especial, 1939)


Provas científicas em versos


No ginásio

Em 1929, Marighella, então com 17 anos, desenvolveu em versos uma questão de Física proposta em uma prova do Ginásio da Bahia. Consta que se tratou de ponto sorteado,

-
“Catóptica, leis de reflexão e sua demonstração, espelhos, construções de imagens e equações catópticas” -

o que confere caráter de improviso à referida poesia, da qual são os versos a seguir:

(...)

Doutor, a sério falo, me permita em versos rabiscar a prova escrita.
Espelho é a superfície que produz, quando polida, a reflexão da luz.
Há nos espelhos dois casos a considerar, quando a imagem se formar:

Caso primeiro: um ponto é que se tem; ao segundo, um objeto é que convém.

Seja a figura abaixo que se vê. O espelho seja a linha Beta-Cê.

O ponto F um ponto dado seja.
Como raio incidente, R se veja.
O raio refletido vem depois

E o raio luminoso ao ponto 2.

Foi traçada em seguida uma normal,
O ângulo 1 de incidência a r igual.
No prolongamento, um luminoso raio

Que o refletido encontra de soslaio.

Dois triângulos então o espelho faz,

Retângulos os dois, ambos iguais.
Iguais porque um cateto têm comum,
,
Dois ângulos iguais formando um.

(...)

Na faculdade

É também de Carlos Marighella uma prova em versos, de 1931, na Escola Politécnica da Bahia, desenvolvendo a seguinte questão de Química:

“Propriedades do hidrogênio e sua preparação no laboratório e na indústria”.

Fusão de núcleos de hidrogênio

Dessa prova são os versos a seguir:


(...)

De leveza no peso são capazes
Diversos elementos, vários gases,
O hidrogênio, porém, é um gás que deve
ter destaque por ser o gás mais leve.
Combina-se com vários metaloides,
Com todos, aliás, e os sais aloides
Provêm de ácidos por aquele gás

Formados, reunindo-se aos demais.

(...)

Carlos Marighella (1911 — 1969)

domingo, 22 de fevereiro de 2009

SERENDIPIDADE

Serendipidade

Serendip era um dos nomes da Taprobana, a ilha mencionada por Camões, que também já foi chamada de Ceilão e hoje é conhecida como Sri Lanka. De acordo com um conto oriental, três príncipes de Serendip, nos seus passeios pela ilha, fizeram importantes e inesperadas descobertas, das quais sempre tiravam proveito, graças à sua inteligência e sagacidade.

Essa a inspiração que levou o escritor e político inglês Horace Walpole a sugerir, em 1754, a palavra “serendipity”, para designar descobertas científicas felizes, mas acidentais.
Na serendipidade, aliam-se sorte, para fazer a descoberta inesperada, e competência, para reconhecer sua importância.

Horace Walpole

Exemplos de serendipidade

(1) O escocês Alexander Fleming fazia uma cultura de bactérias patogênicas e sobre esta caiu acidentalmente uma partícula de fungo “Penicillium notatum”, provocando a morte das bactérias. Estava descoberta a penicilina (1928).

Fleming

(2) O engenheiro suíço George de Mestral viu sementes espinhosas em sua calça e teve a ideia de inventar o Velcro (1948).

(3) Os pesquisadores norte-americanos Arno Penzias e Robert Wilson, trabalhando a serviço dos Laboratórios Bell, ao calibrarem a antena gigantesca de um radiotelescópio destinado a ampliar os sinais a serem recebidos da estrela Cassiopeia A, perceberam um estranho ruído, vindo de todas as direções do céu e sempre com a mesma intensidade.
Um ruído sem causa.
Em vão procuraram defeitos em todos os componentes do radiotelescópio e de sua antena, chegando mesmo a se preocupar com as fezes (“material dielétrico branco”) depositadas na antena por um casal de pombos que nela se alojara. Na sequência desses eventos, e com o auxílio dos físicos teóricos da Universidade de Princeton, ficou provado que Penzias e Wilson haviam detectado o ruído do Big Bang, ou seja, o ruído da explosão primordial que deu origem ao Universo.
Esse ruído, que está atualmente na forma de rádio, no espectro conhecido como micro-ondas, acompanha o Universo eternidade adentro e tem o nome de “radiação cósmica de fundo em micro-ondas”(1964).


Penzias e Wilson

(4) O cientista e inventor norte-americano Arthur Fry tentava fabricar uma supercola e obteve, ao contrário, uma cola muito fraca, que só serviu para marcar as páginas do seu livro de hinos. Assim nasceram os adesivos do tipo "post-it" (1974).


(5) O Viagra, desenvolvido nos Estados Unidos para tratamento de problemas cardíacos, apresentou o inesperado efeito colateral de provocar ereções penianas, o que levou o grupo Pfizer a patenteá-lo para uso na disfunção erétil (1996).



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A POESIA FUGIU DO MUNDO

Vazio

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.

AUGUSTO FREDERICO SCHIMIDT (1906-1965)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

PODE ME CHAMAR DE AL PACINO

Preparando a aula

Conhecesse alguma moça da San Martin, uma que fosse, haveria de ser a mais bonita. Supor, então, que ela me perguntou se curto o Al Pacino e o que é Termodinâmica.

-Al Pacino? Muito, muito.

- E Termodinâmica?

- Deixa comigo.

A moça da San Martin

Na última hora, já no táxi, decidi ainda que iria mencionar como morreram
Mayer e Carnot. Se não se mostra o lado humano e doloroso dos físicos, os alunos podem pensar que a ciência se faz num céu de brigadeiro, sem pessoas, sem alma, sem angústia e sem sofrimento. A surgir do nada, como a noite, a chuva, as manhãs de outono, o vento leste, ou pelas artimanhas de alguma máquina, bastando ligá-la na tomada ou alimentá-la de petróleo no posto de gasolina.

Perante a banca

Sabia apenas que o presidente da banca era o Ignácio de Sitter e que havia uma pequena e inesperada plateia. Eram estudantes do curso básico, talvez uns vinte, recolhendo experiências, quem sabe, para quando tocasse a sua vez.
Cheguei ao recinto muito concentrado, mas em todos os rostos só via a moça da San Martin, para a qual
, comprimindo na mão o copo de uísque, eu prometera uma aula de Termodinâmica.

- Eu sou o Al Pacino,
pensei, estou diante da moça da minha vida e vou dar a aula da minha vida.


Cumpri meu roteiro, tantas vezes ensaiado, e com tanta veemência que mais parecia um orador experiente do que um Al Pacino de segunda mão. Lembro-me de ter dito que numa formulação holística, e portanto não-cartesiana, Robert Mayer percebeu que a energia nunca é criada nem destruída, mas transformada de uma para outra forma.

Julius Robert Mayer

- Mayer percebeu, ora, direis, o Primeiro Princípio da Termodinâmica.


Julius Robert Mayer nasceu no distrito de Heilbronn, no estado de Wurttemberg, na Alemanha.
Foi o autor dos estudos que permitiram estabelecer uma equivalência entre trabalho mecânico e calor e quase se matou quando soube que o crédito pelas suas descobertas foi conferido ao físico britânico e fabricante de cerveja James Prescott Joule.
Um boicote devido ao preconceito contra a Naturphilosophie, pois se dizia então, mais do que agora, que os alemães só pensavam na unidade fundamental da natureza, “esse romantismo metafísico de Goethe”.


- Embora médico, Mayer morreu de tuberculose, aos 64 anos.

Também por métodos holísticos, o francês Sadi Carnot descobriu que não é possível a passagem espontânea de calor de um corpo frio para um corpo quente, tanto quanto não é possível a transformação completa de calor em trabalho. Descobriu, como se pode notar, o Segundo Princípio da Termodinâmica.

- O ciclo de Carnot é teórico, reversível, sem atrito.


Nicolas Léonard Sadi Carnot

Sadi Carnot era militar, mas também se dedicava à literatura, à música, à dança, à equitação e à matemática. Como físico, seu objetivo era construir a máquina a vapor de máxima eficiência.
O pai, Lazare Carnot, economista, militar, filósofo e matemático, chamado durante a Revolução Francesa de “Grande Carnot”, foi autor de importantes trabalhos de geometria, estática e dinâmica.

-
Sadi passou a ser hostilizado depois que seu pai foi exilado pela Restauração. Morreu aos 36 anos, vítima de escarlatina e cólera.

Ciclo de Carnot

Atestado de óbito

O que mais impressionou a banca foi, entretanto, meu discurso sobre entropia
. Se em dado momento reconhecermos que a entropia de um sistema isolado não é máxima, podemos afirmar que a entropia era inferior antes desse momento e que será superior no momento posterior. De fato, para além da memória humana, só a entropia permite distinguir entre passado e futuro. O crescimento incessante da entropia se correlaciona com o crescimento incessante do tempo, sendo certo que o Universo assumirá no futuro remoto um assustador estado de homogeneidade térmica, sem nenhuma possibilidade de ordem ou de informação ulteriores.

- Encerro esta aula com a dolorosa assertiva de que o Segundo Princípio da Termodinâmica é o atestado de óbito do Universo, nada havendo mais irreversível, nem mais definitivo.

Aula aprovada


Ignácio de Sitter, Rafael Lemaitre e Maria Hoyle, os professores da banca, reuniram-se na sala do reitor durante 30 minutos, para o veredicto.
Jamais saberão que falei, não para eles, mas para a moça da San Martin, tão bela, tão exuberante!
Os três professores estavam de bom humor e pareceram divertir-se com os temas que suscitei. De Sitter foi logo classificando minha aula como de "Física enriquecida com alguns obituários e muito terrorismo."

- A propósito, alguém pode explicar por que a homogeneidade térmica do Universo é tão assustadora?

- Porque tudo se transformará numa formidável sopa de fótons e neutrinos, tristes, desorientados e sem nenhuma motivação, retrucou Maria Hoyle, salvando-me de oferecer uma resposta.

- Mas ninguém da plateia precisa correr para pegar o avião e fugir deste Universo morituro, porque isso ainda vai demorar alguns bilhões de anos, acrescentou Lemaitre.

- Ora vejam, o Segundo Princípio classificado como um atestado de óbito!


- Que nenhum burocrata exigirá, arrematou De Sitter.

Segundo Princípio

A decisão da banca foi aprovar este humilde Al Pacino. Cinco salários mínimos mensais!
Quem tem uma derivada que a integre, e viva eu cá na Terra sempre alegre!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

A IMAGEM DO UNIVERSO (14/n)

ARISTARCO DE SAMOS

Filolau concebera, no Século V a.C., um sistema cosmológico em que a Terra não era imóvel, nem o centro do mundo, e estaria a "dançar" pelo cosmos, tanto quanto a esfera das fixas e os sete "planetas" (nestes então incluídos o Sol e a Lua), ao redor de um fogo central (que chamou de Héstia).

Tudo gira em torno de Héstia

Depois, um professor da Academia de Platão, Heraclides do Ponto (390 - 322 a.C) apresentou a concepção de um sistema misto, em que Mercúrio e Vênus estariam a girar em torno do Sol, o qual, por seu turno, giraria em torno da Terra, assim como a Lua, Marte, Júpiter e Saturno.
Para Heraclides, além disso, a Terra não estaria parada, pois submetida a um movimento de rotação, girando em torno do seu centro.

Concepção de Heraclides do Ponto

Heraclides foi tido como louco e ganhou o apelido de "Paradoxlog" (qualquer coisa como "forjador de Paradoxos").
Embora equivocadas, as concepções de Filolau e de Heraclides estavam mais próximas da realidade que a de Aristóteles, que veio depois e acabou prevalecendo.
As ideias de Aristóteles sobre o mundo, que na verdade sistematizavam e complementavam as concepções que se estenderam de Pitágoras a Platão, foram aceitas e predominaram por muitos séculos, até o advento do modelo de Copérnico.
Conquanto Aristóteles tivesse geralmente espírito de cientista, sua ideia do Universo tinha mais de imaginação do que de observação e de experimentação.


Depois de Aristóteles


Aristarco

É verdade que, depois de Aristóteles, um habitante de Alexandria, Aristarco de Samos (310 a. C. - 230 a. C.), iria conceber um mundo segundo uma teoria heliocêntrica total (muito mais completa que a de Heraclides do Ponto). Aristarco chegou ao seu modelo porque se dedicou a calcular distâncias, como as que nos separam da Lua e do Sol, utilizando o método da paralaxe, uma de suas criações. Aristarco também acertou quando afirmou que a Terra gira em torno do seu eixo, fazendo uma volta completa em 24 horas.
Seu modelo de Universo recebeu o seguinte comentário de Arquimedes:

- Aristarco faz a hipótese de que as estrelas fixas e o Sol permanecem imóveis; e de que a Terra se move em torno do Sol, descrevendo a circunferência de um círculo.



Aristarco era um filósofo respeitado, mas suas ideias cosmológicas tiveram forte oposição, incluindo-se entre seus detratores o próprio Arquimedes. Tanto que o estoico Cleanto de Assos (331 - 232 a.C), quis abrir contra ele um processo de heresia, numa antecipação do episódio que se repetiria quando o Santo Ofício moveu um processo contra Galileu, no século XVII.
Infelizmente, o modelo de Aristarco foi completamente esquecido, embora estivesse muito próximo do de Nicolau Copérnico, este apresentado quase vinte séculos depois e hoje consagrado como o modelo correto do nosso sistema planetário.

Razões da recusa a Aristarco

Os livros costumam buscar as razões por que os gregos rejeitaram as concepções de Aristarco, que estavam muito mais próximas da verdade do que as de Aristóteles. Algumas delas são apresentadas a seguir:

(a) A ideia de um mundo centrado no Sol parece ridícula, para quem percebe o Sol nascendo e morrendo a cada 24 horas. O Universo com o Sol no centro contrariava decididamente o bom senso. Para Einstein, entretanto, é sempre bom investigar completamente a verdade subjacente, pois muitas vezes o bom senso é "um conjunto de preconceitos adquiridos antes dos 18 anos".

(b) Os gregos admitiam que, se a Terra se movesse, sentiríamos o solo a fugir dos nossos pés, tanto quanto perceberíamos o vento provocado pelo seu deslocamento. Uma pedra lançada verticalmente para cima, no nosso quintal, não cairia no mesmo ponto, mas no quintal do vizinho. Essa ideia equivocada decorria do desconhecimento da física do movimento, mais exatamente do princípio da inércia de Galileu, pelo qual tudo na Terra acompanha o movimento desta. Quando lançada verticalmente para cima, a pedra persevera em seu movimento anterior, incorporando em sua trajetória o movimento da Terra (e em relação a esta cai exatamente no mesmo lugar de onde foi atirada).

Galileu

(c) Aristóteles supunha que a Terra estava no centro do mundo por causa do seu peso. Todos os corpos têm seu lugar natural , afirmava, e o lugar natural dos corpos pesados é um ponto abstrato, que chamou de "centro da Terra".

(d) Pensavam os gregos que, se a Terra se movesse, deveria haver mudanças nas posições das estrelas, alterando-se umas em relação às outras, o que não parecia ocorrer. Sabe-se hoje, ao contrário, que essas mudanças ocorrem realmente, configurando a chamada paralaxe estelar, o que não se percebe por causa das fantásticas distâncias que nos separam das estrelas.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

SOPHIE GERMAIN

"Ele" era Ela

A francesa Sophie Germain (1776 - 1831) tinha extraordinária aptidão para Matemática, mas teve de se passar por homem, com o nome de Antoine-August Le Blanc, para estudar na Escola Politécnica de Paris, que no alvorecer do século XIX ainda era uma academia de ciências reservada para homens.
Numa época em que as mulheres eram proibidas de estudar temas científicos, Sophie lia escondidamente sobre a Física, de Newton, e a Matemática, de Euler, à noite, depois que seus pais se recolhiam para dormir.


Sophie Germain
("Antoine-Auguste Le Blanc")


Seu talento era, entretanto, tão grande que os maiores matemáticos europeus, como o francês Joseph-Louis Lagrange e o alemão Carl Friedrich Gauss, correspondiam-se com esse ""Le Blanc", sem saber que “ele” era ela.
A verdadeira identidade de Monsieur Le Blanc foi descoberta quando Napoleão invadiu a Prússia, em 1806. Pois Sophie Germain enviou uma carta ao general francês que comandou a invasão, pedindo-lhe que Gauss não fosse molestado.

- Por que me poupam?, perguntou o matemático alemão.


- A pedido de uma moça francesa, respondeu o general.


Na sequência desses eventos, descobriu-se a verdadeira identidade de Antoine-August Le Blanc.

Carl Friedrich Gauss
A obra

A correspondência de Sophie com o matemático Adrien-Marie Legendre trouxe uma contribuição
importante para a Teoria dos Números. Ela também se destacou nos estudos da Matemática Pura, da Matemática Aplicada e sobretudo no campo da elasticidade dos materiais, tendo sido a única pessoa a submeter um trabalho no concurso organizado pelo Instituto Francês de Ciências, em 1808, para responder ao seguinte desafio:

“Formular uma teoria matemática para as superfícies elásticas, demonstrando sua compatibilidade com os dados experimentais.”

Uma medalha de ouro, de um quiilograma, era o prêmio do vencedor, mas Sophie recusou-se a comparecer à cerimônia de premiação.

Injustiça

Antes de morrer, Sophie escreveu um ensaio sobre a filosofia da ciência, que foi elogiado pelo filósofo Augusto Comte.
Gauss queria que a francesa recebesse um grau de doutora honoris causa da Universidade de Göttingen, na Alemanha, mas a morte de Sophie Germain, em 1831, impediu que a honra lhe fosse conferida.

Na estrutura da Torre Eiffel foram gravados os nomes de 72 sábios que de algum modo contribuíram para sua construção. Sophie Germain foi ignorada, não obstante seus estudos sobre resistência dos materiais, sem os quais a obra monumental não poderia ter sido erigida.

Pobreza de espírito

Mulher solteira, sem profissão

O atestado de óbito de Sophie Germain registrou que se tratava de “mulher solteira, sem profissão”, em vez de “matemática” ou “cientista”.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

VERSOS RIDÍCULOS

Minha cachorrinha

Confesso que tenho cara de sósia, do tipo trivial e genérico, tantas vezes me confundiram com outras pessoas.

- Você não é aquele jogador do Palmeiras?

- Parabéns pelo seu discurso de domingo!

Aquela noite, todavia, o mal-entendido veio com exagerado fervor e destempero. Saíamos do motel, e a desconhecida, irrompendo do nada, deu um empurrão em May e dirigiu-se a mim de maneira agressiva e irracional.

- Pensa que a coisa vai ficar assim, seu cretino? Me deixando por essa aí? Não adianta tirar a barba, nem o bigode, que eu te reconheço debaixo de qualquer disfarce, mesmo fantasiado de Satanás ou de vice-rei da Catalunha! Eu irei atrás de você até as profundezas do inferno!


De um lado, a mulher equivocada, cheia de fúria e desespero, e, do outro, um homem perplexo e desconcertado, eu, exatamente eu, sem saber o que fazer, nem como reagir.


- Mas, quem é a senhora?

- Não sabe quem sou eu, essa é boa, muito boa! E, além de tudo, me chamando de senhora! Você sempre me chamou de minha cachorrinha, não se lembra não, seu cretino?

- Sou a sua cachorrinha!

Cada vez mais desorientado, naqueles minutos que pareceram uma contundente eternidade, só a custo consegui me desvencilhar da mulher alucinada. Então, a surpresa maior: May, na confusão, havia abandonado o local, desaparecendo misteriosamente.

Julgado e condenado

À perplexidade daquele momento juntou-se a decepção dos dias que se seguiram.
May simplemente recusou-se a atender aos meus telefonemas.
Não sei se doeu mais a separação ou se a lógica absurda na qual se baseou. Semanas a fio vivi uma sensação de impotência, a de um inocente condenado por causa de um lamentável mal-entendido, inerme e inerte diante de um tribunal chamado May, a mulher que eu amava. Que ouviu uma acusação contra mim, de nenhum fundamento, julgou-me e condenou-me, sem sequer conceder-me a generosidade de me ouvir.


Julgando e condenando...

Apesar disso, ou, quem sabe, exatamente por isso, sentia muita falta dela.
Afinal, May não tinha culpa de ignorar minha inocência.
Foram dois meses de angústia. Uma poesia nunca passara pela minha cabeça, pois
não tenho nenhuma afirmação abrangente a fazer, nem para os amigos, nem, sobretudo, para a humanidade. De repente, porém, a mão correu mais que o medo do grotesco e os versos fluíram, arredondilhados e cheios de rimas.

Versos ridículos

Cheguei a ensaiar tudo o que lhe diria.

- Fiz uma poesia para você, os primeiros versos da minha vida:

A banda passa na praça,
Tocando com muita graça.
Passa boi, passa boiada,
Passarinho, passarada.

O aluno estuda e passa,
O filme passa no paço,

E, do pascácio que caça
Com ledo desembaraço,

Não fica nem a carcaça.
A febre, grande ameaça,
Sempre demora, mas passa,

Sem deixar nenhum defeito.
Mas você, aqui no peito,

Agarrada como traça,
Impassante, impassada,

Só você é que não passa.


Você não passa...

Para ir ao Museu e depor-lhe o meu amor, eu teria de enfrentar, e vencer, todas as minhas resistências. O que não consegui, pois, tudo aferido e sopesado, prevaleceu o meu recato.

- Ir ao Museu, de poesia em punho, onde já se viu, ora essa!

Uma decisão acertada, pois tenho horror ao vexame. Mas, convenhamos, os meus versos, como são ridículos os meus versos! Só faltou dizer que a uva se atrasa, mas passa!
Sic transit gloria mundi, ou, dizendo melhor, perdi mais esta, pois não soube mais da May.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A IMAGEM DO UNIVERSO (13/n)

A TRAGÉDIA DE HIPÁCIA DE ALEXANDRIA

Hipácia (370- 415), filha do professor Theon, da Universidade de Alexandria, foi educada por seu pai para ser uma mulher perfeita.Tornou-se filósofa, matemática e astronôma, para além de ser considerada a maior oradora de seu tempo.

A bela Hipácia

A ela atribui-se a invenção do planisfério, um instrumento usado na Astronomia, e de um hidrômetro, usado na Física. Seu talento para ensinar Astronomia, Filosofia e Matemática atraía admiradores de todo o império romano, tanto pagãos como cristãos. Consta que era constantemente procurada por matemáticos de todo o mundo na busca da solução de problemas que não conseguiam resolver. Obcecada pela Matemática e pelo processo de demonstração lógica, exercia grande influência nos meios filosóficos alexandrinos, tentando unificar o pensamento matemático de Diofante com o neoplatonismo de Plotino.

- Pensar errado é melhor do que não pensar, afirmava Hipácia para seus alunos.

A ela assim se referiu Hesíquio, um de seus discípulos: "Hipácia, vestida com o manto dos filósofos, abria caminho pelas ruas de Alexandria, explicando a todos sobre Platão, sobre Aristóteles, sobre todos os filósofos. As autoridades sabiam da sua capacidade e a ela recorriam, com prioridade, para consultar sobre os problemas da administração."

Cônicas

Acredita-se que a obra de Hipácia tenha incluído importantes estudos sobre a Aritmética de Diofante, as Cônicas de Apolônio e o Almagesto, de Cláudio Ptolomeu. Nada, porém, chegou até nós, como consequência da destruição da biblioteca de Alexandria, no ano 642, pelos árabes do General Amr Ibn Al As, que conquistaram o Egito sob o comando do Califa Omar.

Tragédia

A devoção à ciência foi o motivo da trágica morte de Hipácia, pois Cirilo, o patriarca de Alexandria, começou a perseguir os seguidores de Platão, aos quais chamava de “hereges”, e colocou Hipácia no topo da lista de pessoas indesejáveis. Ela representava uma ameaça por defender a Ciência e o Neoplatonismo, para além de ser mulher, e muito bonita, o que exacerbava todos os ânimos e aumentava a intolerância contra ela. Numa época em que se procedia à marginalização das mulheres nas funções do poder, uma pagã assumia o símbolo da sabedoria e concorria com as autoridades religiosas da cidade.

-Como admitir que uma mulher pregasse em suas aulas que o Universo era regido por leis matemáticas?

Insuflados pelo patriarca, fanáticos tresloucados investiram contra a filósofa, no ano de 415, num dos episódios mais lamentáveis da história da humanidade, que foi assim descrito pelo historiador inglês Edward Gibbon:

"Num dia fatal, na estação sagrada de Cuaresma, Hipácia foi arrancada de sua carruagem, despida e arrastada nua para a igreja, onde foi desumanamente massacrada pelas mãos de Pedro, o Leitor, e sua tropa de fanáticos selvagens e impiedosos. A carne foi esfolada de seus ossos com ostras afiadas e seus membros, ainda palpitantes, foram atirados às chamas".

Hipácia (pintura de Charles William Mitchell)

A partir do episódio de Hipácia, Alexandria perderia o seu esplendor e o Ocidente iria mergulhar no obscurantismo e neste permanecer durante muitos séculos.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

A IMAGEM DO UNIVERSO (12/n)

Alexandria

A partir do século terceiro antes de Cristo, a ciência helênica iria deslocar-se de Atenas para Alexandria, onde viveram cientistas importantes na história da imagem que o homem faz do Universo, como Aristarco de Samos, Eratóstenes, Hiparco de Nicéia e Ptolomeu.
Vale mencionar essa história, que começou com a dominação do Egito pelos macedônios no século quarto antes de Cristo, quando Alexandre, então com 21 anos, expulsou os persas que havia dez anos dominava
m o país e coroou-se rei do Egito, na milenar cidade de Mênfis.
Ao visitar logo depois uma vila de pescadores chamada Racótis, na costa do Mediterrâneo, Alexandre examinou seus mananciais de água doce e sua proximidade com o rio Nilo e decidiu construir ali um porto de mar profundo, para servir às atividades tanto de sua armada quanto de sua frota mercante, que fosse parte de uma metrópole que deveria se constituir numa nova e resplandescente capital do Egito.

Alexandre

Era a sua Alexandria.
Lançada a pedra fundamental da cidade em 7 de abril de 331 a. C., Alexandre confiou o seu projeto ao grande arquiteto grego Deinócrates e retomou suas aventuras pelo mundo, falecendo, repentinamente, em 323 a. C.
Seus amigos macedônios e gregos dividiram entre si o mundo que ele conquistara.
O corpo de Alexandre foi resgatado e sepultado em Alexandria, numa luxuosa tumba que recebeu o nome de Soma, por seu sucessor Ptolomeu I Sóter, um macedônio que se coroou rei do Egito em 306 a. C., inaugurando a dinastia dos Ptolomeus. Que se estenderia até 30 a. C., quando Cleópatra, a última dos Ptolomeus, foi derrotada por Otávio, na batalha de Actio, e o Egito passou ao domínio romano.


A Biblioteca


Biblioteca de Alexandria

Ptolomeu I decidiu atrair para Alexandria os intelectuais do mundo grego e aceitou de um destes, Demétrio Falereu, a sugestão de erigir na cidade um centro de cultura semelhante aos que existiam em Atenas, Pérgamo e Cirene e criou um museu e uma biblioteca, que tiveram decisiva importância no progresso da ciência e na preservação do pensamento grego e romano.
Ptolomeu I de pronto adquiriu 500 mil pergaminhos para a nova biblioteca, que se situava no bairro real, próxima do museu, ao lado do qual surgiu uma das primeiras universidades do mundo.

Emissários foram enviados aos centros acadêmicos do Mediterrâneo e do Oriente Médio para comprar, copiar, pedir emprestado ou, se necessário, furtar as obras dos cientistas e literatos. Bibliotecas inteiras foram adquiridas, incluindo boa parte dos livros que pertenceram a Aristóteles; estrangeiros eram revistados e tinham seus livros confiscados, recebendo-os de volta depois de copiados para a biblioteca, de cujo acervo constaram os manuscritos originais de Ésquilo, Eurípedes e Sófocles.
Nela ficaram guardados os rolos de papiro da literatura grega, egpícia, assíria e babilônica.

Os dois primeiros sucessores de Ptolomeu Sóter, a saber, Ptolomeu II Filadelfo e Ptolomeu III Evergeta, ampliaram os investimentos na biblioteca, que chegou a possuir cerca de 700 mil volumes, segundo Aulo Gélio, um gramático latino do século II.

Moradores Ilustres

Euclides

Os sábios emigravam de toda parte para Alexandria, atraídos pela reputação da universidade, mas principalmente para consultar os milhares de livros que a biblioteca colocava à sua disposição. Entre eles, Euclides, natural de Racótis, que, tendo estudado em Atenas com um discípulo de Platão, fundou em Alexandria uma escola de matemática. Por volta de 300 a. C., Euclides escreveu "Os Elementos", o livro-texto mais bem-sucedido da história da humanidade e maior best seller mundial depois da Bíblia, desenvolvendo, pelo método dedutivo e uma criteriosa seleção de postulados, a sua impecável geometria euclidiana. Esse método vitorioso, o de desenvolver teorias a partir de postulados, vem sendo adotado desde então por físicos, como Newton, matemáticos, como Bertrand Russell e Alfred North Whitehead, ou filósofos, como Espinosa.
Outro cientista importante que se transferiu para Alexandria foi Hierófilo de Calcedônia, que revolucionou a medicina com sua técnica de exames post mortem, o primeiro médico que dissecou o olho, seguiu os seios nasais até o torcular herophilie, assim chamado em sua homenagem, e provou que o cérebro era o centro do sistema nervoso, e não o coração, como supusera Aristóteles. Não sem razão, com Hierófilo, Alexandria transformou-se durante séculos num centro mundial de excelência médica.

A lista de moradores ilustres de Alexandria inclui Eratóstenes (276-194 a.C.), que criou um crivo para descobrir números primos, estabeleceu os alicerces da geografia científica e fez medições da circunferência terrestre com extraordinária precisão; Eratóstenes foi o bibliotecário-chefe de Alexandria durante mais de 40 anos, um cargo muito cobiçado pelos intelectuais do mundo antigo.

Plutarco

Vale também mencionar Arquimedes (287 a.C. - 212 a.C.) , o siciliano de Siracusa que foi considerado o maior engenheiro da Antiguidade, famoso por ter corrido pelado pelas ruas de Siracusa, a gritar “eureka!” (“achei!”), depois de descobrir o princípio da física que leva o seu nome: "todo corpo mergulhado num fluido fica inapelavelmente sujeito a um empuxo vertical, de baixo para cima, igual ao peso do fluido deslocado". Dele são também alguns estudos fundamentais da hidrostática, as invenções de dispositivos para levantar pesos, máquinas bélicas, o parafuso d´água, além de estudos sobre a alavanca e o estabelecimento de relações geométricas diversas.
Em Alexandria também viveram Diophante, o pai da álgebra; os poetas Teócrito, Zenódoto e Calímaco; o cientista Aristarco de Samos, que formulou a teoria heliocêntrica do nosso sistema planetário dezoito séculos antes de Copérnico; Apolônio de Perga, o geômetra que estudou as cônicas e criou os termos “elipse”, “parábola” e “hipérbole”; Aristófanes de Bizâncio, o gramático grego que revisou Homero, Píndaro, Hesíodo e outros grandes dramaturgos gregos; Hiparco de Nicéia, que inventou a trigonometria, calculou a duração do ano solar, descobriu a precessão dos equinócios e catalogou 850 estrelas, listando-as por magnitude, longitude e latitude; Cláudio Ptolomeu (que não tinha nenhum parentesco com os Ptolomeus que governavam o Egito), o operador matemático da teoria geocêntrica do nosso sistema planetário, que, equivocada embora, prevaleceu durante 14 séculos; Galeno, o maior médico da Antiguidade, depois de Hipócrates; Plutarco, autor de Vidas Paralelas, a obra que mais influenciou a moderna literatura, até mesmo Shakespeare, e serviu de inspiração para os grandes líderes da Revolução Francesa; Plotino, o expoente do neo-platonismo.

Hipácia, beleza e sabedoria

É justo e pertinente encerrar essa relação de moradores ilustres com Hipácia de Alexandria (370-415 d.C), matemática e filósofa, filha de Theon, que foi cruelmente arrastada pelas ruas da cidade, até a morte, e teve o corpo queimado, por fanáticos religiosos que não aceitavam a independência intelectual da mulher.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

NENHUMAÇÃO RECÍPROCA

TÉDIO

Oito anos são suficientes para qualquer pessoa mudar, do primeiro ao último átomo, inexorável e definitivamente. Pois é, assim foi. Ao fim e ao cabo, Cecília e eu éramos outros, não outros quaisquer e ocasionais, mas outros consumados, consumadíssimos.
Nossas conquistas profissionais e materiais aos poucos passaram a não representar mais que uma higiene, a não nos garantir nenhum prazer nem estabilidade: uma higiene que de certo modo até nos desunia. Além disso, os prazeres da cama vão diminuindo lenta e progressivamente, e tenho para mim que não há comunhão de almas e união estável que não sejam garantidas a golpes de paixão e de volúpia.
Tédio, quem sabe o tédio não seja exatamente isso?

No início, lá atrás, eu queria um filho, mas Cecília me dissuadiu, pois filhos não se compatibilizavam com a dinâmica dos negócios, que sempre se opõem à normalidade da vida familiar. Bastava ver que éramos obrigados a constantes viagens ou a compromissos intermináveis e exaustivos. Recentemente, porém, ela mudou de ideia, e foi a minha vez de vetar a iniciativa. Ela, uma mulher especialmente inteligente, não se deu conta da irresponsabilidade que seria gerar um filho num casamento que definhava, anódino e desaquecido.

- Devemos continuar pensando com calma sobre esse assunto, Cecília. Vivemos num ritmo muito profissional, que teria de se alterar de forma importante antes de introduzir mais alguém no nosso espaço.

Progressão é progressão, e um dia o custo ultrapassa o benefício. Pois é, Cecília me veio com aquela história de Montgomery Clift e Shelley Winters, um amor que teve de fenecer para ensejar outro amor, maior e renovado; eu merecia, assim também, encontrar a minha Elizabeth Taylor, pois a mim não me faltavam os atributos para um merecido lugar ao sol.

Um lugar ao sol

Foi assim, civilizadamente assim, que ela me comunicou que nosso casamento já não lhe interessava. Eu me esquivei de produzir uma ironia, a de lembrar que nessa história do lugar ao sol o personagem de Montgomery Clift terminou sendo arrastado para a cadeira elétrica.
Achei, isto sim, que estava sendo protegido pela sorte, pois separar-me era tudo o que então desejava e, pelo que conheço de mim, se minha tivesse sido a iniciativa, mais um remorso teria para administrar.
Ela ficou com a nossa casa no Itanhangá, o único bem material que tínhamos em comum, e me compensou com dinheiro bastante para um apartamento no Leblon.


- Pode ficar com a minha parte.

- Claro que não, Carlinhos.

Uma derradeira convivência ainda nos tocou, sem nenhuma animosidade ou irritação. Que nem fariam sentido na nossa história, da qual a separação foi apenas um capítulo necessário.
Estranho, porém, foi continuar transitando mais quarenta dias pelos caminhos da casa, pois nenhum cenário permanece neutro, nem impune, em face de um amor exaurido. Até a arte perde o sentido, as cores se esmaecem e, para dizer a verdade, nunca vi a menor graça naquela cortina da sala de visitas, lilás, isso mesmo, lilás, e em momento algum estive de acordo com a moldura que ela escolheu para o Böcklin que arrematamos no leilão da Bartolomeu Mitre.


Arnold Böcklin (auto-retrato)

Não soube mais da Cecília, que alguns meses depois do nosso último contato vendeu a casa do Itanhangá e mudou-se para Paris. Nem mesmo um telefonema ou um protocolar cartão de despedida. Pois um deixou de existir para o outro, aquele estágio na relação entre duas pessoas que, para Otávio Paz, poderia chamar-se de nenhumação.
Ou melhor, nenhumação recíproca, que é a arte de inexistir daqui para lá e de lá para cá...