Hipácia (370- 415), filha do professor Theon, da Universidade de Alexandria, foi educada por seu pai para ser uma mulher perfeita.Tornou-se filósofa, matemática e astronôma, para além de ser considerada a maior oradora de seu tempo.
A ela atribui-se a invenção do planisfério, um instrumento usado na Astronomia, e de um hidrômetro, usado na Física. Seu talento para ensinar Astronomia, Filosofia e Matemática atraía admiradores de todo o império romano, tanto pagãos como cristãos. Consta que era constantemente procurada por matemáticos de todo o mundo na busca da solução de problemas que não conseguiam resolver. Obcecada pela Matemática e pelo processo de demonstração lógica, exercia grande influência nos meios filosóficos alexandrinos, tentando unificar o pensamento matemático de Diofante com o neoplatonismo de Plotino.
- Pensar errado é melhor do que não pensar, afirmava Hipácia para seus alunos.A ela assim se referiu Hesíquio, um de seus discípulos: "Hipácia, vestida com o manto dos filósofos, abria caminho pelas ruas de Alexandria, explicando a todos sobre Platão, sobre Aristóteles, sobre todos os filósofos. As autoridades sabiam da sua capacidade e a ela recorriam, com prioridade, para consultar sobre os problemas da administração."
Acredita-se que a obra de Hipácia tenha incluído importantes estudos sobre a Aritmética de Diofante, as Cônicas de Apolônio e o Almagesto, de Cláudio Ptolomeu. Nada, porém, chegou até nós, como consequência da destruição da biblioteca de Alexandria, no ano 642, pelos árabes do General Amr Ibn Al As, que conquistaram o Egito sob o comando do Califa Omar.
Tragédia
A devoção à ciência foi o motivo da trágica morte de Hipácia, pois Cirilo, o patriarca de Alexandria, começou a perseguir os seguidores de Platão, aos quais chamava de “hereges”, e colocou Hipácia no topo da lista de pessoas indesejáveis. Ela representava uma ameaça por defender a Ciência e o Neoplatonismo, para além de ser mulher, e muito bonita, o que exacerbava todos os ânimos e aumentava a intolerância contra ela. Numa época em que se procedia à marginalização das mulheres nas funções do poder, uma pagã assumia o símbolo da sabedoria e concorria com as autoridades religiosas da cidade.
-Como admitir que uma mulher pregasse em suas aulas que o Universo era regido por leis matemáticas?
Insuflados pelo patriarca, fanáticos tresloucados investiram contra a filósofa, no ano de 415, num dos episódios mais lamentáveis da história da humanidade, que foi assim descrito pelo historiador inglês Edward Gibbon:
"Num dia fatal, na estação sagrada de Cuaresma, Hipácia foi arrancada de sua carruagem, despida e arrastada nua para a igreja, onde foi desumanamente massacrada pelas mãos de Pedro, o Leitor, e sua tropa de fanáticos selvagens e impiedosos. A carne foi esfolada de seus ossos com ostras afiadas e seus membros, ainda palpitantes, foram atirados às chamas".
A partir do episódio de Hipácia, Alexandria perderia o seu esplendor e o Ocidente iria mergulhar no obscurantismo e neste permanecer durante muitos séculos.














































