sábado, 15 de novembro de 2008

IMAGEM DO UNIVERSO (4/n)

O elemento primordial


- Água, ar ou ápeiron?

Anaximandro, discípulo de Tales, concordou com a idéia do elemento primordial e indicou-o como sendo o ápeiron (= "sem limite"): uma substância indefinida, distinta e caótica, susceptível a infinitas divisões provocadas pelas alternâncias entre quente e frio. Tudo, enfim, seria ápeiron.
Anaxímedes, outro discípulo de Tales, descartou a água e o ápeiron e para elemento primordial escolheu o ar, que tudo podia gerar mediante processos de rarefação e condensação.
Ou seja, nem mesmo os discípulos milésios aceitaram a idéia do mestre de que tudo era água: estabelecido o contraditório, inaugurava-se desse modo o processo científico, que se caracteriza pelas hipóteses sucessivamente formuladas e... substituídas.

Heráclito de Éfeso
Heráclito

A discussão não ficou restrita a Mileto, pois logo se alastrou para as outras ilhas do mar Egeu e para o restante do mundo grego.
Heráclito (cerca de 540-480 a. C.), natural de Éfeso, era um brilhante e mau-humorado filósofo, que vivia em completo isolamento. Em permanente oposição à sociedade, muitas vezes a provocava, como num de seus famosos aforismos:

"Um só homem vale por dez mil, se for o melhor."

Tendo contraído hidropisia, uma acumulação de líquido aquoso nas cavidades do corpo, aos médicos perguntou se seriam capazes de "produzir uma seca depois de uma tempestade". Como ninguém entendeu a metáfora, Heráclito escolheu a curiosa terapia de enterrar-se no esterco até o pescoço, deixando-se permanecer, assim, até a morte.
Outros aforismos de Heráclito:

"Tudo flui e nada permanece."

"Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio."

"A Natureza ama esconder-se."

Templo de Artemis, em Éfeso

Os gregos, sem dúvida, são chegados à discussão. Heráclito aceitou a idéia de Tales sobre a existência de um elemento primordial. Para ele, entretanto, o princípio gerador da realidade é o fogo. Todas as coisas são permutas de fogo, dizia. Na sua argumentação, o fogo, capaz de transformar uma coisa em outra, era o elemento primordial e homogeneizador, comparando-se com o dinheiro, na capacidade deste de trocar-se por qualquer mercadoria.

Empédocles de Agrigento

Empédocles de Agrigento (cerca de 490-435 a. C.) foi autor de uma alentada obra de cinco mil versos, poetando sobre idéias abundantes, entre as quais uma bizarra teoria da evolução. Animais experimentais, a assumirem todas as configurações, testando-se com rabo, chifres, asas e escamas, como quem experimenta camisas ou sapatos, até adquirir seu estágio atual.
Empédocles defendia a transmigração das almas e dizia-se capaz de ressuscitar os mortos, de influenciar os ventos e de provocar chuvas.
Querendo demonstrar sua divindade, Empédocles atirou-se na cratera do Etna e foi tragado por suas lavas.

Sua maior contribuição na discussão sobre o arché foi a concepção de que o mundo seria composto, não de um único elemento primordial, mas de quatro, terra, água, fogo e ar, conforme se resume nos seus versos:

“Tudo retornará aos seus elementos de origem:
Nossos corpos, à terra,
Nosso sangue, à água,
O calor, ao fogo,
E nossa respiração, ao ar.”

Empédocles

O que une e desune os quatro elementos, afirma Empédocles, são dois princípios: atração e repulsão ( o “amor” e o “ódio”).
O predomínio de uma ou outra força explica o estágio de desenvolvimento do Universo.
Os quatro elementos e os dois princípios são eternos e imutáveis, mas as substâncias formadas por eles são cambiáveis e pouco duradouras. Disse ele em versos:

“...algumas vezes, do múltiplo configura-se um único ser;
em outras, ao contrário, divide-se o uno na multiplicidade...”



Demócrito de Abdera
Demócrito

Demócrito de Abdera (cerca de 460 - 360 a.C.), que, além de filósofo, conhecia matemática, astronomia, geometria, geografia, meteorologia, história, linguística e música, adotou como elemento primordial uma partícula invisível e indivisível, que propôs fosse chamada de átomo, que para ele existe em grande quantidade no espaço vazio infinito.

- Tudo que existe são átomos e vazio.

Muitos atribuem essa concepção do átomo a Leucipo, seu mestre, mas é certo que Demócrito foi responsável pelo detalhamento da teoria e por sua divulgação.

Para Demócrito, os átomos são infinitos, indivisíveis
, eternos e, sendo embora todos iguais em qualidade, diferentes quanto à forma, ordem e posição. Toda e qualquer substância é feita de uma combinação de átomos.
A teoria de Leucipo e Demócrito, exceto pela palavra "átomo", tem pouco a ver com a moderna concepção atômica desenvolvida a partir de Dalton (1803), Thompson (1898), Rutherford (1911), Bohr (1913), Chedwick (1932) e Gell-Mann (1961), segundo a qual o átomo não é indivisível, mas formado por prótons, nêutrons e elétrons, que são partículas subatômicas.
Por sua vez, os prótons e os nêutrons também não são indivisíveis, mas formados por quarks, que se distribuem segundo seis "sabores": up, down, charm, strange, top e bottom.


Próton: dois quarks "up" e um quark "down"

Existem 92 átomos diferentes, correspondendo aos 92 elementos encontrados na natureza.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Walt Whitman

Os temas de Walt Whitman, um dos grandes da poesia americana, são a natureza, a democracia, a sensualidade e um "eu profundo", capaz de se identificar com todas as coisas. Sua obra mais importante é uma coleção de poemas a que deu o título de "Leaves of Grass" ("Folhas de Relva"), da qual faz parte a poesia "Poet of the Body and Poet of the Soul".


Poet of the Body and Poet of the Soul


Poeta do Corpo e Poeta da Alma

Whitman

I am the poet of the Body and I am the poet of the Soul,
The pleasures of heaven are with me and the pains of hell are with me,
The first I graft and increase upon myself, the latter I translate into new tongue.

Sou o poeta do Corpo e sou o poeta da Alma.
Comigo estão os prazeres do céu e as penas do inferno estão comigo,

Aqueles incorporo e aumento dentro de mim, e estas traduzo em nova linguagem.

I am the poet of the woman the same as the man,
And I say it is as great to be a woman as to be a man,
And I say there is nothing greater than the mother of men.

Sou poeta da mulher tanto quanto do homem,
E quero dizer que é sublime ser mulher quanto é ser homem,
E que nada pode ser maior que a mãe dos homens.

I chant the chant of dilation or pride,
We have had ducking and deprecating about enough,
I show that size is only development.

Eu canto o canto da distensão ou orgulho,
E, porque já tivemos suficiente evasão e censura,
Defendo que grandeza é apenas evolução.

Have you outstript the rest? are you the President?
It is a trifle, they will more than arrive there every one, and still pass on.

Você se sobressaiu do resto? você é o Presidente?

Isso é bobagem, pois cada um vai chegar a você, todos eles, e até o ultrapassará.

I am he that walks with the tender and growing night,

I call to the earth and sea half-held by the night.

Eu sou o que caminha pela noite que se expande suavemente,
E invoco a terra e o mar, já meio abraçados pela noite.

Press close bare-bosom'd night--press close magnetic nourishing night!
Night of south winds--night of the large few stars!
Still nodding night--mad naked summer night.

Abraça-me apertado, amiga noite nua - abraça-me apertado, magnética noite nutridora!
Noite de ventos do sul - noite de parcas e grandes estrelas!
Noite ainda vacilante - nua e louca noite de verão.

Smile O voluptuous cool-breath'd earth!
Earth of the slumbering and liquid trees!
Earth of departed sunset--earth of the mountains misty-topt!
Earth of the vitreous pour of the full moon just tinged with blue!
Earth of shine and dark mottling the tide of the river!
Earth of the limpid gray of clouds brighter and clearer for my sake!
Far-swooping elbow'd earth--rich apple-blossom'd earth!
Smile, for your lover comes.

Sorria, ó voluptuosa terra de tão suave respirar!
Terra de árvores belas e sonolentas!
Terra do pôr-do-sol que se findou - terra das montanhas enevoadas!
Terra do fluxo vítreo da lua cheia levemente pintada de azul!
Terra que salpica de claro e de escuro a maré do rio!
Terra do cinza límpido das nuvens mais brilhantes e mais claras, para meu encantamento!
Terra de cotovelos e precipícios - rica terra íntima da maçã!
Sorria, pois seu amante está chegando.

Prodigal, you have given me love--therefore I to you give love!
O unspeakable passionate love.

Generosa, você tem me dado amor - então, a você dou amor!
Ó inexprimível amor feito de paixão.


Walt Whitman (1819-1892)

domingo, 9 de novembro de 2008

A IMAGEM DO UNIVERSO (3/n)

A Revolução dos Milésios

Mileto, hoje pertencente à Turquia, era uma das doze grandes cidades da Jônia, região da Grécia antiga na costa oriental do mar Egeu. Tradicionalmente se admite que o pensamento racional começou quando Tales (cerca de 624-545 a.C.), seu habitante mais ilustre, manifestou para os discípulos que o mundo era algo que a mente humana podia compreender sem apelar para soluções míticas e religiosas. Não por acaso, Tales é considerado o primeiro cientista.

Tales

Para ele, tudo que existe na natureza (physis) se desenvolveu a partir de um elemento primordial (arché), que devia ser identificado na água
, a qual, ao esfriar, torna-se densa e dá origem à terra; ao aquecer-se, muda-se em vapor e ar, que, se resfriados, retornam à superfície da terra sob a forma de chuva. Era a primeira teoria física, pois se baseava na observação e na razão, não apelava para os mitos, podia ser questionada e até substituída.

Toda feita de água

Além de observador da natureza, Tales foi inventor, político, geômetra e astrônomo. Atribui-se a ele a criação, em Mileto, de uma federação de cidades-estados da Ásia Menor, para resistir às invasões dos povos orientais.
Supõe-se que foi essa atuação política que determinou sua inclusão entre os sete sábios da Grécia.

Diogenes Laertius, biógrafo que teria vivido ao tempo do imperador romano Septimius Severus e Caracalla, cujo reino se estendeu de 193 a 211, relatou que, preocupado em olhar para as estrelas, certa vez Tales caiu dentro de um poço.
De Plutarco, filósofo e prosador grego que no século I escreveu um livro de biografias intitulado Vidas Paralelas, veio a informação de que Tales foi capaz de prever uma abundante safra de azeitonas, graças aos seus conhecimentos astronômicos e meteorológicos, provavelmente aprendidos com os babilônios. Homem de negócios experiente e astucioso, teria se valido dessa "informação privilegiada", adquirindo todas as prensas de azeite da região e revendendo-as com ágio quando chegou a época da colheita.
Entre as façanhas de Tales, contam-se ainda a elaboração de um almanaque, a introdução nas ilhas gregas da técnica fenícia de navegação orientada pela constelação da Ursa Menor e, segundo o historiador Heródoto, a previsão do eclipse do Sol ocorrida em 28 de maio de 585 a. C., o qual fez encerrar uma batalha entre lídios e medas, que já durava cinco anos.


Teorema de Tales

"Toda paralela a um dos lados de um triângulo forma com os outros dois um triângulo semelhante ao primeiro."

Sete Sábios da Grécia


A lista dos sete sábios da Grécia assumiu sua composição definitiva ao tempo de Platão:

Tales de Mileto,
Periandro de Corinto,
Pítaco de Mitilene,
Bias de Priene,
Cleóbulo de Lindos,
Sólon de Atenas e

Quílon de Esparta.

Todos viveram no sexto século antes de Cristo, num momento de reorganização das cidades, graves perturbações e resistências heróicas às invasões estrangeiras, destacando-se não somente por sua sabedoria, mas também pela liderança política e grande capacidade administrativa.

Apolo

Conta a lenda que os pescadores de Mileto certa vez encontraram um vaso sagrado nas águas do Mar Egeu. Não havendo acordo sobre o destino que deveriam dar à peça, decidiram consultar a respeito o deus Apolo, no Oráculo de Delfos. A resposta de Apolo, transmitida pelas pitonisas em transe, mandava entregar o vaso ao mais sábio dos homens. O escolhido foi Tales, que, não se considerando o mais sábio, enviou-o a Periandro, que, pelo mesmo motivo, passou a oferta adiante. E assim o vaso foi mudando de mãos, transitando pelos sete sábios. O último deles, Sólon, encerrou a questão, ofertando-o a Apolo, "o mais sábio dos deuses".

Anaximandro e Anaxímenes


Anaximandro (cerca de 610 - 547 a. C.) e Anaxímedes (cerca de 596 - 525 a. C.), discípulos de Tales, deram sustentação à idéia de que tudo tem um princípio comum, embora Anaximandro tenha considerado como elemento primordial não a água, mas o ápeiron (o infinito, o ilimitado), e Anaxímedes, divergindo de ambos, tenha sustentado que o princípio primordial seria o ar.
Era a formulação e substituição de hipóteses, tão comum nos desenvolvimentos científicos.

Anaximandro
Anaxímenes
Aritstóteles, conforme expõe em sua Metafísica, considerou Tales e seus discípulos milésios Anaximandro e Anaxímenes também como os primeiros filósofos, pelo motivo de que procuravam explicações sem apelar à religião ou a fatos sobrenaturais. As doutrinas milésias constituem a primeira e mais rudimentar formulação de monismo, que assim se chamam as filosofias que atribuem um fundamento único para a realidade multiforme.
Mais tarde,
contrariando os milésios, para os quais o princípio primordial era um elemento natural, Heráclito de Éfeso (cerca de 540-480 a. C.) identificou o arché com o “fogo” e Pitágoras (cerca de 570-500 a. C.), com o ‘número”.
O termo "arché"também foi usado por Platão e Aristóteles, com o significado genérico de “matéria”.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

MITÔMANOS

Meu amigo García Márquez

Não é pelas circunstâncias que o mitômano se deixa apanhar.
Estevinho recordava-se do Osric, advogado que se dizia amigo de Gabriel García Márquez.


Gabito

- Conheci Gabriel García Márquez em Nova York, em 1962. Reunia-me com ele e sua mulher, a Mercedes, nos bares do Central Parque, onde bebíamos uísque com soda e conversávamos sobre literatura. Naqueles tempos, Gabito, era assim que o chamávamos, estava muito entusiasmado com a carreira do romance “Ninguém Escreve ao Coronel” e certa vez me mostrou os originais da primeira parte dos “Cem Anos de Solidão”.

Um dia Estevinho decidiu conferir, na Biblioteca Nacional.
Na mosca, pois García Márquez, de fato, é tratado pelo amigos como Gabito, morava em Nova York em 1962 e publicou “Ninguém Escreve ao Coronel” em 1961.

A História me absolverá

Relatado a Estevinho pelo Comodoro Osmar Vilhena, havia também o caso de um jornalista que participou como voluntário da Invasão da Normandia
, na condição de soldado das forças anglo-canadenses. Ele, o jornalista, contava a façanha emocionadamente, mostrando a cicatriz da perna, tributo que pagava pela aventura. Seu desembarque na Normandia se deu na praia de "Sword", no dia 6 de junho de 1944. Ficava comovido e ia às lágrimas quando mencionava o abraço que recebeu do Ike.

- Ike?

- Assim chamávamos o Eisenhower.

Dia D, a invasão da Normandia

Não se restringindo à Normandia, o jornalista esteve depois no ataque ao quartel de Moncada, em Cuba, em 1953. O movimento, liderado por Fidel Castro, fracassou porque os guerrilheiros não conheciam a cidade e assaltaram o quartel errado.

Quartel de Moncada, um golpe frustrado

- Erramos o endereço. Fui preso e condenado junto com Fidel Castro, mas anistiado em 1955. A História também me absolverá.

Na mosca, também

A Invasão da Normandia iniciou-se de fato em 6 de junho de 1944, o Dia D, e uma das quatro praias invadidas tinha "Sword" como codinome. E, mais, Fidel Castro liderou o fracassado ataque a Moncada, na cidade de Santiago de Cuba, em 26 de julho de 1953, foi preso e condenado a vinte anos de prisão, tendo sido anistiado em 1955.

- A História me absolverá!

Sabe-se que perante o Tribunal de Exceção do governo de Fulgêncio Batista, por ocasião do julgamento a que foi submetido, Fidel Castro defendeu-se com um longo discurso, encerrado com as seguintes palavras:

- Condenai-me, não importa, a História me absolverá!

Sinatra


Em 1969, Henrique decidiu assistir no Astrodome Houston a um espetáculo em homenagem aos astronautas da Apollo 11. Acomodado na platéia, surpreendeu-se ao ver a seu lado ninguém menos que Frank Sinatra e puxou conversa com o astro:

- Gosto de todas as suas músicas, querido "Old Blue Eyes", mas minha preferida é "My Way".

Frank Sinatra convidou Henrique para subir com ele ao palco. Foi desse modo que Frank Sinatra e o aposentado de Copacabana cantaram "My Way",
em duo, para um entusiasmado público de mais de 200 mil pessoas.

- I did it my way.

Agora, todos os sábados os moradores da Rua Domingos Ferreira são brindados com um show musical espetacular. Ouve-se a voz do cantor Frank Sinatra pelo alto-falante, enquanto, à janela do apartamento, Henrique reconstitui a parceria do Astrodome, cantando paralelamente, a plenos pulmões, a imortal canção "My Way":

I 've loved,
I 've laughed and cried,
I 've had my fill, my share of losing
and now as tears subside
I find it all so amusing
to think I did all that
and may I say not in a shy way.

Oh no, oh no not me
I did it my way.

Sinatra cantou no Astrodome Houston, em homenagem aos astronautas da Lua, no dia 16 de agosto de 1969, apresentando-se juntamente com Dionne Warwick, no âmbito de celebrações triunfalistas comandadas por Richard Nixon.

domingo, 2 de novembro de 2008

A IMAGEM DO UNIVERSO (2/n)

Hesíodo

Hesíodo (770 - 700 a. C.), poeta que viveu na Beócia, região situada no centro da Grécia, passou a maior parte da vida em Ascra, a aldeia natal. Segundo seus próprios relatos, depois da morte do pai, seu irmão Perses corrompeu os juízes locais e apoderou-se da maior parte da herança que a ambos correspondia. Por esse motivo, em suas obras sempre exaltou a justiça, cuja guarda atribui a Zeus. Diferentemente de Homero, não se ocupou das esplêndidas façanhas dos heróis gregos, mas sua obra constituiu um dos pilares sobre os quais se edificou a identidade helênica.
Ficou conhecido por dois trabalhos, de caráter didático:

- Trabalhos e Dias, um poema destinado às comunidades gregas de agricultores, em que ressaltava a necessidade do trabalho duro e honesto e estabelecia normas para a agricultura e para a educação dos filhos.

-
Teogonia ou Gênese dos Deuses, um poema místico, relato da história dos deuses da mitologia grega pré-homérica.

Hesíodo

Trabalhos e Dias

Nessa obra Hesíodo trata de temas terrenos, mostrando uma utilização prática para as informações colhidas na observação do céu. Estava-se já em plena “revolução neolítica”, que se caracterizou pelo surgimento da agricultura e, pois, da necessidade de prever as melhores épocas de plantios e de colheitas, programar as festas religiosas e estabelecer os melhores períodos para a navegação. Por isso, sem ainda ter chegado à ciência, o homem já olhava para o céu e até sabia sobre o “movimento” das estrelas e suas posições ao longo do ano. De fato, Hesíodo mostra aos agricultores como deveriam se organizar tomando por base os acontecimentos do céu:

"Ao despertar das Plêiades, filhas de Atlas,
dai início à colheita e, quando se recolherem, à semeadura.

Ordenai a vossos escravos que, tão logo surja
a força de Órion,
pisem, em círculos,
o trigo sagrado de Demeter, em local arejado e eira redonda.
Quando Órion e Sírius alcançarem o meio do céu
e a Aurora dos dedos de rosa enxergar Arturus,
colhe então os cachos de uva e faça a sua provisão."
.
Os pontos de orientação do agricultor são as estrelas mais brilhantes, como as Plêiades, Arturus e Sirius:

Plêiades

Plêiades

As Plêiades ("Sete Irmãs") são um aglomerado estelar da constelação de Touro; seu levantar matinal ocorre em maio, início da estação quente e propícia à navegação (para Hesíodo, a época de colher); seu ocaso matinal, em novembro, coincide com o início do inverno e das tempestades no Mediterrâneo (época de semear).

Arturus

Arturus (Alpha Boötis)

Arturus é uma estrela dupla de primeira grandeza, situada na constelação do Boieiro, no prolongamento da cauda da Ursa Maior. Arturus é a quarta estrela mais brilhante do céu e é tão luminosa que se distingue por sua cor alaranjada. Os gregos identificavam-na com o filho da deusa Demeter, o qual passou à mitologia romana com o nome de Ceres - não por acaso a divindade dos produtos da terra, especialmente o trigo. De "Ceres", vem a palavra "cereal".

Sirius
Sirius, estrela da constelação do Cão Maior, a somente 8,7 anos-luz da Terra (82,3 trilhões de quilômetros), emite 23 vezes mais luz do que o Sol e é 1,8 vezes maior do que este. É a estrela mais brilhante do céu. No antigo Egito, Sirius era venerada e associada à Deusa Sothis, ou Isis Sotis, e ao Deus Hermes Thot. Seu aparecimento no céu coincidia com o momento da cheia do rio Nilo, no auge do verão, implicando fertilidade às terras inundadas e trazendo prosperidade. Na antiga Roma, cachorros eram sacrificados em nome de Sirius.

Teogonia

A concepção de Hesíodo sobre a origem dos deuses mistura fatos da observação (noite, tempo, sombra, luz, terra, céu, mar, montanhas) com suas idéias mitológicas.

Hemera

No início era o Caos, depois vieram a Terra e o Amor. A sombra originou-se do Caos, e da sombra nasceram Érebo, a personificação da escuridão, e sua irmã gêmea Nix, a personificação da noite. Érebo desposou Nix, gerando a luz celestial (o Éter) e o dia (Hemera).
A Terra (ou Gaia, ou Géia)
dará nascimento às montanhas, ao mar e ao céu (Urano), com o qual se acasalou para procriar os titãs, entre os quais Cronos e Réia.

"A Terra deu à luz Urano, o céu estrelado, para que ele pudesse cobri-la completamente e ser uma morada firme e permanente para todos os deuses. Gerou depois as montanhas, cujos vales são moradas favoritas das deusas, as ninfas. Gerou também aquele mar desolado, encapelado, o Ponto Euxino, tudo sem Eros, sem acasalamento."

Cronos insurgiu-se contra Urano, derrotou-o e governou o Universo, até ser destronado pelo filho Zeus, que fundou o panteão helênico clássico.


A importância de olhar o céu

"Ter uma idéia acerca da Terra, mesmo de forma mítica, já implica certo grau de abstração. Para elaborar tais representações, os homens acumularam, desde os tempos mais remotos, observações sobre os grandes fenômenos astronômicos: a trajetória do Sol, as fases da Lua, a rotação do céu noturno... já que esses eventos estão indissoluvelmente ligados ao seu cotidiano e à sua necessidade, progressivamente afirmada, de se orientar no tempo e no espaço."
(Arkan Simaan e Joëlle Fontaine, em "A Imagem do Mundo, dos Babilônios a Newton", Companhia das Letras, 2003)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O AMANTE DE RITA HAYWORTH

Um jantar no Humphrey's

Guido Salvatore mudara-se para os Estados Unidos havia mais de meio século e estava agora no Brasil para ver os parentes em São Paulo e “despedir-se dos amigos”. Amigo do velho Pastascciuta, quis conhecer Estevinho e convidou-o para um jantar no Humphrey's. Ao fim e ao cabo, acabou sendo um programa divertido. Pois, dos aperitivos à sobremesa, foram histórias que deixaram Estevinho impressionado.

Os maridos de Rita Hayworth

Guido começou nos Estados Unidos como mecânico de automóveis, passando depois para o ramo de barcos. Montou, com o progresso das suas atividades, um próspero negócio de compra e venda de iates, com filiais em oito cidades da Califórnia.

Importante, porém, é sua história com Rita hayworth, a quem foi apresentado numa festa em San Francisco, no ano de 1955, logo depois que ela se separou do cantor Dick Haymes.

- Dick Haymes foi o seu quarto marido. Antes fora casada, sucessivamente, com Edward Judson, por seis anos, com Orson Welles, com o qual viveu cinco anos, e, após, com o príncipe paquistanês Ali Khan, um louco casamento de quatro anos, que lhe deu a filha Yasmin. Em 1953, casou-se com o cantor Dick Haymes e com ele viveu até 1955.

- Ela também teve uma filha com Orson Welles, não teve?

- Rebecca Welles,
que então tinha apenas dez anos, ela que se tornou minha amiga por toda a vida. Fui padrinho do seu casamento, com o escultor Perry Moede, em 1970.

- Em 1955, quando você a conheceu, Rita já era uma atriz veterana. "Sangue e Areia", "Gilda", "Madame Shangai", "Salomé"...

- No entanto, Rita tinha então 37 anos e eu, apenas 28. Começamos um namoro que se tornou muito sério, uma paixão incontida.

Um mitômano acredita nas próprias mentiras, pensou Estevinho. Mas é divertido conhecer as construções e torneios que faz para coonestar-se, a si próprio, e não deixar a mentira ruir.

- Você e a Rita andavam juntos em público?

- Não, que isso era complicado. Era muito preocupada com o que se publicava a seu respeito e estava traumatizada com os quatro casamentos fracassados. Tinha arrepios quando se lembrava de Edward Judson. Não sei, mas houvera, vinte anos antes, um problema meio nebuloso envolvendo Edward Judson e o diretor do filme “Old Louisiana”, que se chamava Irving. Naquele ano de 1937, Rita Hayworth ainda era Rita Cansino.


- Alguma coisa muito grave...


- Não subestime a falta de escrúpulos do Judson, dizia-me ela. Mas nunca me explicou o que realmente aconteceu.


Paixão avassaladora
- Você pensou em casar-se com ela?

-
Eu nutria por ela uma paixão avassaladora.“Você está apaixonado pela Gilda”, dizia-me ela, com aquele olhar triste e enviesado. Chegamos a pensar numa união mais séria, mas acabamos desistindo. No total, ficamos juntos dois anos. Rompemos em 1957, pouco antes de ela conhecer James Hill, seu último marido. Lembro-me de que nos afastamos quando participava de "Separate Tables", um filme com David Niven, Deborah Kerr e Burt Lancaster, do diretor Delbert Mann, o mesmo que anteriormente havia filmado "Marty", premiado com a Palma de Ouro, em Cannes, e com o Oscar de melhor diretor, em Hollywood.

- I love you too, Guido...

- Você nunca mais a viu?

- Nós nos falávamos pelo telefone. Depois disso só a vi pessoalmente na formatura da Rebecca, na universidade de Puget Sound, na cidade de Tacoma, e depois, claro, no casamento da Rebecca. A Rita morreu em 1987, vítima do mal de Alzheimer.

- E a Rebecca?

- Morreu recentemente, em 2004, com apenas 60 anos. Uma pena. Tive pouca intimidade com Yasmin Aga Khan, a outra filha, mas sei que se dedica à filantropia, arrecadando fundos para as pessoas portadoras do mal de Alzheimer.

- A doença que vitimou a mãe.


Muito divertida

- Estevinho, você acreditou nessa história?

- Claro que não. Mas, convenhamos, é muito divertida.


sábado, 25 de outubro de 2008

A IMAGEM DO UNIVERSO (1/n)

REPRESENTAÇÕES DO UNIVERSO

Preocupado em saber sobre sua origem, condição e destino, o homem sempre especulou sobre a imagem do Universo. A esse fim, os estudos astronômicos eram já notáveis no âmbito
das grandes civilizações do Crescente Fértil, incluindo o Egito e a Mesopotâmia, três mil anos antes de Cristo, passando depois pelos gregos e tomando grande impulso com as descobertas revolucionárias de Copérnico, Galileu, Kepler e Newton. Até que se chegou à concepção de que o Universo teve um início compacto, quente e denso e expande-se há mais de dez bilhões de anos.
Eis um passeio que vale a pena fazer, desde as concepções babilônicas, em que o Universo tinha três andares, como nesta postagem, até o contemporâneo conceito do Big Bang, que detonou o "Átomo Primordial" e permitiu a formação das estrelas, planetas, quasares e buracos negros.

Johannes Kepler (1571-1630)

Muitos historiadores defendem que há uma estreita correlação entre a imagem que uma sociedade faz de si mesma e a que ela confere ao Universo, o qual, nas concepções mais antigas, era limitado à Terra, planetas e seus satélites e às estrelas visíveis, como no modelo proposto por Aristóteles, com a Terra no centro do Universo, que prevaleceu durante quase vinte séculos.
Depois, mesmo antes de Newton, o Universo tornou-se infinito, tanto quanto o espaço e o tempo.

- Oh, Deus! Eu poderia estar encerrado numa casca de noz e, ainda assim, considerar-me rei do espaço infinito, se a mim não me coubessem tantos pesadelos.
("Hamlet", Cena II, Ato II)

Na concepção atual, a do Big Bang, o Universo é considerado finito, não obstante suas proporções inimagináveis, com 10 bilhões de trilhões de estrelas, distribuídas em cerca de cem bilhões de galáxias. Nossa intenção é fazer um exame de algumas das concepções e representações do nosso mundo, num trabalho de compilação destituído de rigor científico, numa série de postagens semanais.

Os astrônomos da Mesopotâmia

Mesopotâmia

São chamadas de civilizações do Crescente Fértil aquelas da Antigüidade que se desenvolveram nas regiões atravessadas pelos grandes rios do Oriente (Nilo, o Tigre e o Eufrates), que levam abundância e riqueza para o meio do deserto, com destaque para a Mesopotâmia, sucessivamente habitada pelos sumerianos, acádios, babilônios, assírios, elamitas e finalmente pelos cadeus ou novos babilônios. Eram impérios centralizados, com reis que se confundiam com deuses e eram assessorados por sacerdotes, que monopolizavam todo o conhecimento.
Alguns sacerdotes babilônios eram astrônomos, encarregados de organizar o calendário para orientar as tarefas agrícolas e estabelecer as datas das festas religiosas - ao inventar a agricultura, o homem passou a ter a necessidade de plantar e colher nos momentos adequados. O calendário do céu, as fases da lua, a posição dos astros, as estações e a variação dos dias e das noites, tudo passava a ser fundamental para a vida das pessoas.
Tornando-se cada vez mais competentes, os sacerdotes-astrônomos eram capazes de antecipar as posições do Sol e da Lua e de fazer previsões de eclipses. Deles é que veio a descrição do céu que predominou durante muito tempo e a concepção de que o mundo era pequeno, fabuloso, dominado pelos deuses que se manifestavam mediante fenômenos naturais e no qual o homem desempenhava um papel central.


Torre de Babel (Pieter Bruegel)

Eles colhiam suas observações de observatórios conhecidos como zigurates, que eram torres quadradas de sete andares. Costuma-se explicar os sete andares das torres pela correlação com o número de "astros errantes" (planetas) então conhecidos: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno. O mais famoso zigurate foi a Torre de Babel, construída na cidade de Babilônia, o centro cultural da Mesopotâmia. Para a Bíblia, a Torre de Babel era o símbolo da presunção humana, no seu delírio de alcançar o céu.

Astrologia


E no céu havia ainda o espetáculo mítico e a imagem da imortalidade. Um subproduto desse conhecimento astronômico foi, com efeito, a edificação de um fantástico esquema de astrologia, pois se acreditava que os astros controlassem os destinos humanos. Notáveis eram os astrólogos caldeus, com predições que se referiam apenas à coletividade e ao rei, pois não se ocupavam, como atualmente, do destino dos indivíduos em função de sua data de nascimento. Foram os sacerdotes babilônios que fizeram o inventário das constelações do zodíaco, com sua divisão em doze signos, de trinta graus cada um, que serviam como referência para acompanhar a progressão dos planetas ao longo do ano.

A Imagem do Mundo para os Babilônios

Ter uma concepção acerca do Universo, mesmo de forma rudimentar, implica construir um modelo a partir da observação, acumulando informações sobre a trajetória do Sol, as fases da lua, a rotação de céu noturno, a mudança do clima, eventos que estão ligados ao cotidiano das pessoas e as orientam no espaço e no tempo.
Nem importa que as informações se misturem aos mitos - o modelo de uma época é o que se pôde elaborar nessa época.
A concepção dos babilônios sobre o mundo foi uma das mais importantes formulações da Antigüidade sobre o Universo, tendo por núcleo uma caixa, cujo fundo era a Terra. A Babilônia situava-se no centro da Terra, que era como um disco plano flutuando sobre o oceano, além do qual se seguiam montanhas celestes, que suportavam o Céu.

Deus Anu

Acima da Terra, estava o Céu, onde residia o grande deus Anu, e, embaixo, os infernos. Essa disposição vertical, em três andares, reflete a hierarquização dos personagens: o deus acima dos homens e estes, acima dos condenados.
(continua)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A HISTÓRIA DE UM TESTE (3/3)

SACAÇÕES RECIPROCADAS

Ingrid
acudiu-me com a notícia boa, e eu nem me lembrava do teste.

- Você a
rrebentou!

- Minha preferência e opinião foram aprovadas?

- O departamento de pessoal, o Depes, viu cultura assentada na frase preferida e
uma formulação extraordinária na questão opinativa.

- Formulação extraordinária, como assim?

- Ninguém contrapôs Fernando Pessoa a Einstein, antes de você.

- Mas eu não contrapus...


- Contrapôs, sim, com toda a propriedade. O DI...


- DI?


- Departamento de Inteligência. O DI deu um parecer reconhecendo que você tem toda a razão, pois o Livro do Desassossego e a Teoria da Relatividade constituem as duas sacações reciprocadas mais importantes do século XX.


- Sacações reciprocadas?

- Sim, Frank. O Livro do Desassossego é o contraponto literário da Teoria da Relatividade. Veja só esta passagem do Pessoa: " tudo que é alto passa alto e passa; tudo que é de apetecer está longe e passa longe". Não tem cara de relatividade poética e de poesia relativística?

Há muita coisa errada nesssa avaliação, que extrapola perigosamente todos os limites razoáveis. Não posso deixar prosperar esse julgamento incompetente, que me supervaloriza, pois adiante me cobrarão por isso.

- Não sei se o DI está de gozação, ou se falando sério. Apenas disse despretensiosamente, e sob a pressão de parecer que tinha uma opinião, que Fernando Pessoa e Albert Einstein eram grandes pensadores, mas não me ocorreu sugerir nenhum contraponto à Teoria da Relatividade, muito menos um contraponto literário. Não tenho capacidade, nem embocadura, nem aptidão, para fazer correlações dessa magnitude. A bem da verdade, nunca ouvi falar em sacações reciprocadas.

- Ora, Frank...

- Se há sacação reciprocada entre Einstein e Pessoa, trata-se de um caso típico de serendipidade, exatamente como nas descobertas da penicilina e do viagra.

- Serendipidade, qual nada, mérito seu. Não seja assim modesto. Outra coisa: quem é Zé?

Houve por aí o Zé da Zilda, o Zé Alencar e o Zé de Alencar, o Zé de Anchieta, o Zequinha de Abreu, tanto quanto o Zé de Abreu, o Zé do Patrocínio, o Zé Maria lateral, o Zé Kéti, o Zé Bonifácio de Andrada e Silva, o Zé Boquinha, o Zequinha Sarney, o Zé Trindade, o Zé de Arimatéia, o Zé Bové, a Maria José, Zeca Pagodinho e Zeca Camargo, Zé de Habsburgo, Paulo José, São José e inúmeros outros Zés, notórios e qualificados. Quem vai se interessar por um Zé que foi somente Zé? O melhor é dizer que o Zé é um modelo, um protótipo, encerrando o assunto sem maiores tergiversações.

Zé do Caixão

- Ingrid, é melhor esquecer o Zé.

- Esquecer?

- Esquecer, pois o Zé é um arquétipo, não um indivíduo em particular. Quis apenas fazer uma modesta homenagem aos homens inteligentes, grandes pensadores, que atravessam a existência no mais puro anonimato e perdem-se na primeira esquina do tempo. Ou, por outra, foi uma maneira de manifestar que houve numerosos grandes pensadores e que nomear três, sobre arriscado, não deixa de ser uma temeridade e, mais que isso, uma injustiça com milhares de pessoas extraordinárias cujos nomes simplesmente desconhecemos.

- Sem dúvida.
- Aquele pedaço de osso...

- É impossível saber qual pessoa pensou mais, não é óbvio? Como ter certeza de que não pensou mais o homem primitivo que primeiro pôs-se de pé ou aquele que usou pela primeira vez um pedaço de osso para defender-se? Ou o que percebeu a conveniência de usar o pedaço de osso como alavanca, para remover obstáculos e levantar pesos? E o outro, na imensidão do passado, que inventou a roda, combinando-a com a alavanca para formar o veículo, ou seja, a máquina de transportar? Como descartar os homens que inventaram o papel, a máquina a vapor, o guarda-chuva, os números indo-arábicos e o zero, a luz elétrica, o automóvel, a regra de Chió, o avião, o rádio, a bola de bilhar, o crivo de Eratóstenes, a semana inglesa, o computador, a curva de Gauss, o pedal da bicicleta, a televisão, o cordão dos sapatos, o teorema de Tales e o quadro-negro?

- Pode me chamar de Zé...

- E então?

- Digamos que o "Zé" é o meu genérico; toda vez que me ocorrer um grande pensador da humanidade, dele direi que é um ótimo Zé, eximindo-me do remorso de tê-lo omitido no teste da Maria Moretson.

.- Se Platão vier com alguma reclamação...

- Reclamação justa e pertinente. Eu lhe diria: não o esqueci de forma alguma, senhor Platão, pois você é o Zé, cuspido e escarrado.

- Zé Genérico, sim, senhor, você é muito prevenido!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A HISTÓRIA DE UM TESTE (1/3)

Exibir-me ou soçobrar

Estou no empreendimento, a desfrutar de todas as mordomias, por obra e favor da minha namorada, Ingrid Saint-Louis de Grevi. Em dois meses, ninguém exigiu nada de mim, tendo bastado minha presença e disponibilidade para o amor. Daí a surpresa, e desorientação, quando Ingrid me informou que eu teria de comparecer à sala de convenções, exatamente agora, para uma entrevista com Maria Moretson.

- Acho que você será submetido a um teste, por determinação do conselho de diretores.

-
Teste, como teste? Conselho de diretores? Sobre o quê?

- Não sei, mas você vai se sair bem, tenho certeza. É só caprichar...

-
Caprichar, como, se nem sei de que assunto se trata? Eu lhe disse, Ingrid, não sei se você se lembra, que fui reprovado no vestibular. Além de não ser nenhuma sumidade, sempre me dei muito mal nas provas.

- Teste? Que teste?

Dirijo-me à sala de convenções arrastando-me lentamente.
Condenado a exibir-me, sem nenhuma preparação ou confiança, mais uma vez vou cumprir o meu papel de perdedor inarredável. Pois o que faz uma pessoa numa prova? Exibe-se, e quem se exibe melhor tira nota maior.
Tudo ia tão bem. Entrou areia... A porta do barraco era sem trinco; você partiu de madrugada, não me disse nada, isso não se faz; eu sei que vou te amar, por toda a minha vida, vou te amar; boemia, aqui me tens de regresso e suplicante te peço a minha nova inscrição; eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar; se você não me queria, não devia me procurar; perdão foi feito para a gente pedir; caminhemos, talvez nos vejamos depois; eu não mereço a comida que você pagou para mim; interesseira, não amas ninguém; tinha cá para mim que, agora sim, eu vivia, enfim, um grande amor, mentira!

Teoria da Evolução

Charles Darwin
Exibir-me ou soçobrar, eis a questão...
Discuta a teoria da evolução, esse o tema da prova, e o Sidrônio, que desconhecia completamente o assunto, teceu vastas considerações sobre a palavra "evolução" e suas conotações. Citou Malthus, Jéan Renoir e Fernão de Magalhães, incluiu no arrazoado inconseqüente as façanhas carolíngias de Pepino o Breve, explicou como Demóstenes superou suas deficiências de orador, evoluindo de maneira importante, analisou a diferença entre academia e ateneu, outra evolução, e dissertou longamente sobre a esfera de Schwarzschild e as geometrias não-euclidianas, pois em tudo está presente a evolução, tanto que até as Escolas de Samba evoluem! Charles Darwin, um evolucionário de primeira linha, que seria dele e da Origem das Espécies, se não tivesse evoluído, e muito, nas longas e tediosas horas a bordo do Beagle?
Páginas e páginas de boas incongruências seguiu produzindo o Sidrônio, sandices e inutilidades, e tantas eram que o adequado seria atribuir-lhe um zero acachapante e definitivo.
Qual foi a sua nota, com efeito? Oito e meio, conceito A, pois o Sidrônio sempre foi um exibido competente.
Ele sabia, como ninguém, que o importante é ir ao infinito, gozando cada palavra, subjugando-a, para suprir a ausência de conhecimento e impor o continente sem nenhum conteúdo.


Vieira

Quem me dera ser o Sidrônio, uma vez que fosse...
Perguntam-me sobre os Sermões, de Antônio Vieira, que hei de fazer? Deixar correr a pena com desembaraço e falar sobre paz, amizade, amor, fraternidade, lealdade, generosidade, caridade, esperança e fé, muita fé, essas coisas que cultivamos nos discursos, apenas neles, e que nos emocionam até as últimas lágrimas. E, na seqüência, afirmar categoricamente que ninguém pode duvidar de que Vieira, talvez o maior escritor português do século XVII, tenha sempre se pautado pelos melhores valores, na luta insana pela plenitude e eternidade do homem. Quem persistir na dúvida que leia os Sermões, pois, sobre razões sólidas e decisivas, desfrutará do estilo colorido, inconsútil, coerente e vigoroso, a inconfundível marca do mestre Vieira...


Antônio Vieira

Inconsútil? Não, não, retiro esse "inconsútil" pretensioso e sem sentido, pois todo mundo irá perceber que nunca li nada de Vieira.
Eu conseguiria talvez um sete, quem sabe um sete, vírgula quatro?


Estrepei-me

Um Bonde Chamado Desejo

Mas a coisa não é rotunda assim. Infelizmente vão exigir de mim respostas desimportantes sobre coisas objetivas, ou melhor, respostas objetivas sobre coisas desimportantes, como o papa que em boa hora instituiu a missa do galo, a origem dos vertebrados, os anos de Margareth Tatcher no poder, em que cidade existiu um streetcar chamado Desejo, a cor da ametista, a importância dos capacitores nas instalações industriais, a deusa à qual foi dedicado o Paternon, a capital da Carolina do Norte, além de questões sobre equações trigonométricas, estátuas de Dorífero, econometria, línguas faladas em Vaduz, que é capital do Liechtenstein, teorema das forças vivas e os conjuntos transfinitos do matemático alemão George Cantor, o qual, pelo que sei e depreendo, não cantava em conjunto nenhum.
Você sabe o que é quiáltera?
Como se chama o estreito que liga o Mar Egeu ao Mar de Mármara?

Ah, Mogadíscio é capital de qual país africano?

Não sei nada disso, ou, para dizer numa palavra tudo, estrepei-me. Estrepei-me!
(continua)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

NEGOCIAR E VENCER

A GAROTA DA VITRINE

- Negociar, sim, mas este livro aqui é um tratado de cinismo, disse Ferdinando Olivares.

- Lendo sobre negociações até nos momentos de lazer, i
sso é que é deformação profissional.

- Não é para menos. Na nossa vida particular e doméstica, negociamos a cada instante, seja para comprar um apartamento, discutir um empréstimo, escolher um programa, um restaurante ou nosso lugar no avião. Negociamos nosso trajeto, com o motorista de táxi, e o mês das férias, com o nosso chefe. No lado profissional, a necessidade de negociar é ainda maior, seja nas aquisições de materiais, nas reuniões com outros profissionais, nas tratativas com os clientes e prestadores de serviços ou nas discussões de contratos.

- E esse livro?

- "Negociar e Vencer”
, de Nicolau Júnior. Não é curioso, Roberta?

- Como assim, curioso?

- Maquiavel era também Nicolau, só isso... Pois o livro ensina que negociar é manipular e enganar a outra parte. Não agüentei prosseguir, depois de dois capítulos. O primeiro trata dos “aforismos do negociador”, invocando até Sun Tzu, e o segundo, da “arte de refutar” com frases feitas e muito cinismo. Um autêntico manual para jogador de pôquer, que serve também para discutir futebol e para as provocações entre parlamentares. Quer ver?

Ai dos vencidos!

Aforismos do negociador, por Nicolau Júnior

Uns fazem as coisas acontecerem, mas para quase todos as coisas simplesmente acontecem.

Use seus pontos fortes contra os pontos fracos do adversário.

Ai dos vencidos!, disse o general Breno aos romanos, que reclamavam dos ônus de guerra.

Saiba a hora em que deve cantarolar.

O outro é o outro, e nunca se sabe do que é capaz.

Comece fazendo afirmações amenas e, se for censurar ou criticar, faça-o indiretamente.

Chegando a um impasse, mude; depois de mudar, triunfe.

Improvável é infinitamente menos que impossível.

Mentir, só se necessário.

Onde há vontade forte, não há dificuldades intransponíveis.

Fins nobres justificam meios heterodoxos e às vezes os consagram.

Cinco caminhos de Sun Tzu
Sun Tzu
(1) Toda arte militar baseia-se no ardil.

(2) Quando capaz, finge incapacidade.

(3) Quando perto, dá mostras de que estás longe; quando longe, de que estás perto.

(4)
Quando o inimigo for forte, evita-o.

(5)
Prepara uma isca para o inimigo, a fim de ludibriá-lo, e fisga-o.

A arte de refutar, por Nicolau Júnior

Se você quiser refutar o oponente, diga de:

uma tese, que é obscura;
uma na
rração, que é desinteressante;
uma descrição, que a ordem seguida é ilógica;
uma classificação, que há excesso de divisões e de quadros sinóticos;
uma analogia, que é muito sugestiva, mas inconsistente;
uma indução, que se trata de uma generalização audaciosa, mas indevida;
uma dedução, que contradiz todas as leis da inteligência;
uma racionalização, que deforma a realidade;

uma hipótese, que, com tantos “ses”, meteríamos o Himalaia numa lata de salsicha.
-Numa lata de salsicha!

Se o oponente apresentou fatos, refute-os com uma das pérolas a seguir:

esses fatos são atípicos;
esses fatos não são claros;
esses fatos são muito antigos;

esses fatos são muito recentes;
esses fatos não dão a idéia do conjunto;
esses fatos não dão idéia das partes;
esses fatos não têm relação de causa e efeito;

esses fatos apontam para os efeitos, mas não dizem sobre a causa;
esses fatos revelam as causas, mas os efeitos não são claros;
esses fatos são muito escassos;
esses fatos são superabundantes;
falta saber como esses fatos foram apurados, ou seja, falta tudo;
ora, os fatos!
- E os fatos que você ignorou ?

O caminho da competência

- Qual, então, a alternativa à manipulação, se temos de viver negociando em todos os momentos?

- A competência. O negociador deve saber
tudo sobre o assunto que está sendo negociado, não decidindo nada sem ter todas as informações relevantes. Por exemplo, é arriscado comprar um apartamento sem saber os preços de mercado, como arriscado e desnecessário ficar improvisando soluções para questões para as quais há cláusulas contratuais "de mercado", resolvidas em contratos anteriores. Competência se obtém com informação.

- Um trabalho a mais, esse de ser competente para negociar.

Maquiavel

- O preço que se paga para não ser enganado. Fundamental é conhecer todas as implicações da negociação, como especificações, prazos, condições de pagamento, taxas de juros, garantias e outras questões envolvidas. Tentar encontrar uma solução equânime, com base nos preços de mercado e nas cláusulas de mercado, não aceitando condições sem estudá-las, nem prazos enganosamente curtos ("phony deadlines") para decidir sobre os assuntos da negociação. A competência pressupõe rigorosa preparação por parte do negociador: ninguém deve sentar-se à mesa como o sabichão que decide tudo de sopetão, ex-abrupto, pois as soluções contratuais nunca podem ser improvisadas.

- A não ser pelas vítimas do Nicolau Júnior.

Roberta e Ferdinando


- Você entendeu a questão. Vamos ver o filme da Claire Danes?

- Prefiro o do Antonio Banderas.

- O filme que estou sugerindo baseou-se num conto do Steve Martin e é protagonizado por Claire Danes, por Jason Schwartzman e pelo próprio Steve Martin. Dirigido por Anand Tucker, o tailandês que fez "Hilary e Jackie". Só escolhi esse filme porque você gostou muito do Steve Martin em "Cliente morto não paga" e "Os safados", lembra-se?

- Tudo bem, vamos ver a Claire Danes.