domingo, 2 de novembro de 2008

A IMAGEM DO UNIVERSO (2/n)

Hesíodo

Hesíodo (770 - 700 a. C.), poeta que viveu na Beócia, região situada no centro da Grécia, passou a maior parte da vida em Ascra, a aldeia natal. Segundo seus próprios relatos, depois da morte do pai, seu irmão Perses corrompeu os juízes locais e apoderou-se da maior parte da herança que a ambos correspondia. Por esse motivo, em suas obras sempre exaltou a justiça, cuja guarda atribui a Zeus. Diferentemente de Homero, não se ocupou das esplêndidas façanhas dos heróis gregos, mas sua obra constituiu um dos pilares sobre os quais se edificou a identidade helênica.
Ficou conhecido por dois trabalhos, de caráter didático:

- Trabalhos e Dias, um poema destinado às comunidades gregas de agricultores, em que ressaltava a necessidade do trabalho duro e honesto e estabelecia normas para a agricultura e para a educação dos filhos.

-
Teogonia ou Gênese dos Deuses, um poema místico, relato da história dos deuses da mitologia grega pré-homérica.

Hesíodo

Trabalhos e Dias

Nessa obra Hesíodo trata de temas terrenos, mostrando uma utilização prática para as informações colhidas na observação do céu. Estava-se já em plena “revolução neolítica”, que se caracterizou pelo surgimento da agricultura e, pois, da necessidade de prever as melhores épocas de plantios e de colheitas, programar as festas religiosas e estabelecer os melhores períodos para a navegação. Por isso, sem ainda ter chegado à ciência, o homem já olhava para o céu e até sabia sobre o “movimento” das estrelas e suas posições ao longo do ano. De fato, Hesíodo mostra aos agricultores como deveriam se organizar tomando por base os acontecimentos do céu:

"Ao despertar das Plêiades, filhas de Atlas,
dai início à colheita e, quando se recolherem, à semeadura.

Ordenai a vossos escravos que, tão logo surja
a força de Órion,
pisem, em círculos,
o trigo sagrado de Demeter, em local arejado e eira redonda.
Quando Órion e Sírius alcançarem o meio do céu
e a Aurora dos dedos de rosa enxergar Arturus,
colhe então os cachos de uva e faça a sua provisão."
.
Os pontos de orientação do agricultor são as estrelas mais brilhantes, como as Plêiades, Arturus e Sirius:

Plêiades

Plêiades

As Plêiades ("Sete Irmãs") são um aglomerado estelar da constelação de Touro; seu levantar matinal ocorre em maio, início da estação quente e propícia à navegação (para Hesíodo, a época de colher); seu ocaso matinal, em novembro, coincide com o início do inverno e das tempestades no Mediterrâneo (época de semear).

Arturus

Arturus (Alpha Boötis)

Arturus é uma estrela dupla de primeira grandeza, situada na constelação do Boieiro, no prolongamento da cauda da Ursa Maior. Arturus é a quarta estrela mais brilhante do céu e é tão luminosa que se distingue por sua cor alaranjada. Os gregos identificavam-na com o filho da deusa Demeter, o qual passou à mitologia romana com o nome de Ceres - não por acaso a divindade dos produtos da terra, especialmente o trigo. De "Ceres", vem a palavra "cereal".

Sirius
Sirius, estrela da constelação do Cão Maior, a somente 8,7 anos-luz da Terra (82,3 trilhões de quilômetros), emite 23 vezes mais luz do que o Sol e é 1,8 vezes maior do que este. É a estrela mais brilhante do céu. No antigo Egito, Sirius era venerada e associada à Deusa Sothis, ou Isis Sotis, e ao Deus Hermes Thot. Seu aparecimento no céu coincidia com o momento da cheia do rio Nilo, no auge do verão, implicando fertilidade às terras inundadas e trazendo prosperidade. Na antiga Roma, cachorros eram sacrificados em nome de Sirius.

Teogonia

A concepção de Hesíodo sobre a origem dos deuses mistura fatos da observação (noite, tempo, sombra, luz, terra, céu, mar, montanhas) com suas idéias mitológicas.

Hemera

No início era o Caos, depois vieram a Terra e o Amor. A sombra originou-se do Caos, e da sombra nasceram Érebo, a personificação da escuridão, e sua irmã gêmea Nix, a personificação da noite. Érebo desposou Nix, gerando a luz celestial (o Éter) e o dia (Hemera).
A Terra (ou Gaia, ou Géia)
dará nascimento às montanhas, ao mar e ao céu (Urano), com o qual se acasalou para procriar os titãs, entre os quais Cronos e Réia.

"A Terra deu à luz Urano, o céu estrelado, para que ele pudesse cobri-la completamente e ser uma morada firme e permanente para todos os deuses. Gerou depois as montanhas, cujos vales são moradas favoritas das deusas, as ninfas. Gerou também aquele mar desolado, encapelado, o Ponto Euxino, tudo sem Eros, sem acasalamento."

Cronos insurgiu-se contra Urano, derrotou-o e governou o Universo, até ser destronado pelo filho Zeus, que fundou o panteão helênico clássico.


A importância de olhar o céu

"Ter uma idéia acerca da Terra, mesmo de forma mítica, já implica certo grau de abstração. Para elaborar tais representações, os homens acumularam, desde os tempos mais remotos, observações sobre os grandes fenômenos astronômicos: a trajetória do Sol, as fases da Lua, a rotação do céu noturno... já que esses eventos estão indissoluvelmente ligados ao seu cotidiano e à sua necessidade, progressivamente afirmada, de se orientar no tempo e no espaço."
(Arkan Simaan e Joëlle Fontaine, em "A Imagem do Mundo, dos Babilônios a Newton", Companhia das Letras, 2003)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O AMANTE DE RITA HAYWORTH

Um jantar no Humphrey's

Guido Salvatore mudara-se para os Estados Unidos havia mais de meio século e estava agora no Brasil para ver os parentes em São Paulo e “despedir-se dos amigos”. Amigo do velho Pastascciuta, quis conhecer Estevinho e convidou-o para um jantar no Humphrey's. Ao fim e ao cabo, acabou sendo um programa divertido. Pois, dos aperitivos à sobremesa, foram histórias que deixaram Estevinho impressionado.

Os maridos de Rita Hayworth

Guido começou nos Estados Unidos como mecânico de automóveis, passando depois para o ramo de barcos. Montou, com o progresso das suas atividades, um próspero negócio de compra e venda de iates, com filiais em oito cidades da Califórnia.

Importante, porém, é sua história com Rita hayworth, a quem foi apresentado numa festa em San Francisco, no ano de 1955, logo depois que ela se separou do cantor Dick Haymes.

- Dick Haymes foi o seu quarto marido. Antes fora casada, sucessivamente, com Edward Judson, por seis anos, com Orson Welles, com o qual viveu cinco anos, e, após, com o príncipe paquistanês Ali Khan, um louco casamento de quatro anos, que lhe deu a filha Yasmin. Em 1953, casou-se com o cantor Dick Haymes e com ele viveu até 1955.

- Ela também teve uma filha com Orson Welles, não teve?

- Rebecca Welles,
que então tinha apenas dez anos, ela que se tornou minha amiga por toda a vida. Fui padrinho do seu casamento, com o escultor Perry Moede, em 1970.

- Em 1955, quando você a conheceu, Rita já era uma atriz veterana. "Sangue e Areia", "Gilda", "Madame Shangai", "Salomé"...

- No entanto, Rita tinha então 37 anos e eu, apenas 28. Começamos um namoro que se tornou muito sério, uma paixão incontida.

Um mitômano acredita nas próprias mentiras, pensou Estevinho. Mas é divertido conhecer as construções e torneios que faz para coonestar-se, a si próprio, e não deixar a mentira ruir.

- Você e a Rita andavam juntos em público?

- Não, que isso era complicado. Era muito preocupada com o que se publicava a seu respeito e estava traumatizada com os quatro casamentos fracassados. Tinha arrepios quando se lembrava de Edward Judson. Não sei, mas houvera, vinte anos antes, um problema meio nebuloso envolvendo Edward Judson e o diretor do filme “Old Louisiana”, que se chamava Irving. Naquele ano de 1937, Rita Hayworth ainda era Rita Cansino.


- Alguma coisa muito grave...


- Não subestime a falta de escrúpulos do Judson, dizia-me ela. Mas nunca me explicou o que realmente aconteceu.


Paixão avassaladora
- Você pensou em casar-se com ela?

-
Eu nutria por ela uma paixão avassaladora.“Você está apaixonado pela Gilda”, dizia-me ela, com aquele olhar triste e enviesado. Chegamos a pensar numa união mais séria, mas acabamos desistindo. No total, ficamos juntos dois anos. Rompemos em 1957, pouco antes de ela conhecer James Hill, seu último marido. Lembro-me de que nos afastamos quando participava de "Separate Tables", um filme com David Niven, Deborah Kerr e Burt Lancaster, do diretor Delbert Mann, o mesmo que anteriormente havia filmado "Marty", premiado com a Palma de Ouro, em Cannes, e com o Oscar de melhor diretor, em Hollywood.

- I love you too, Guido...

- Você nunca mais a viu?

- Nós nos falávamos pelo telefone. Depois disso só a vi pessoalmente na formatura da Rebecca, na universidade de Puget Sound, na cidade de Tacoma, e depois, claro, no casamento da Rebecca. A Rita morreu em 1987, vítima do mal de Alzheimer.

- E a Rebecca?

- Morreu recentemente, em 2004, com apenas 60 anos. Uma pena. Tive pouca intimidade com Yasmin Aga Khan, a outra filha, mas sei que se dedica à filantropia, arrecadando fundos para as pessoas portadoras do mal de Alzheimer.

- A doença que vitimou a mãe.


Muito divertida

- Estevinho, você acreditou nessa história?

- Claro que não. Mas, convenhamos, é muito divertida.


sábado, 25 de outubro de 2008

A IMAGEM DO UNIVERSO (1/n)

REPRESENTAÇÕES DO UNIVERSO

Preocupado em saber sobre sua origem, condição e destino, o homem sempre especulou sobre a imagem do Universo. A esse fim, os estudos astronômicos eram já notáveis no âmbito
das grandes civilizações do Crescente Fértil, incluindo o Egito e a Mesopotâmia, três mil anos antes de Cristo, passando depois pelos gregos e tomando grande impulso com as descobertas revolucionárias de Copérnico, Galileu, Kepler e Newton. Até que se chegou à concepção de que o Universo teve um início compacto, quente e denso e expande-se há mais de dez bilhões de anos.
Eis um passeio que vale a pena fazer, desde as concepções babilônicas, em que o Universo tinha três andares, como nesta postagem, até o contemporâneo conceito do Big Bang, que detonou o "Átomo Primordial" e permitiu a formação das estrelas, planetas, quasares e buracos negros.

Johannes Kepler (1571-1630)

Muitos historiadores defendem que há uma estreita correlação entre a imagem que uma sociedade faz de si mesma e a que ela confere ao Universo, o qual, nas concepções mais antigas, era limitado à Terra, planetas e seus satélites e às estrelas visíveis, como no modelo proposto por Aristóteles, com a Terra no centro do Universo, que prevaleceu durante quase vinte séculos.
Depois, mesmo antes de Newton, o Universo tornou-se infinito, tanto quanto o espaço e o tempo.

- Oh, Deus! Eu poderia estar encerrado numa casca de noz e, ainda assim, considerar-me rei do espaço infinito, se a mim não me coubessem tantos pesadelos.
("Hamlet", Cena II, Ato II)

Na concepção atual, a do Big Bang, o Universo é considerado finito, não obstante suas proporções inimagináveis, com 10 bilhões de trilhões de estrelas, distribuídas em cerca de cem bilhões de galáxias. Nossa intenção é fazer um exame de algumas das concepções e representações do nosso mundo, num trabalho de compilação destituído de rigor científico, numa série de postagens semanais.

Os astrônomos da Mesopotâmia

Mesopotâmia

São chamadas de civilizações do Crescente Fértil aquelas da Antigüidade que se desenvolveram nas regiões atravessadas pelos grandes rios do Oriente (Nilo, o Tigre e o Eufrates), que levam abundância e riqueza para o meio do deserto, com destaque para a Mesopotâmia, sucessivamente habitada pelos sumerianos, acádios, babilônios, assírios, elamitas e finalmente pelos cadeus ou novos babilônios. Eram impérios centralizados, com reis que se confundiam com deuses e eram assessorados por sacerdotes, que monopolizavam todo o conhecimento.
Alguns sacerdotes babilônios eram astrônomos, encarregados de organizar o calendário para orientar as tarefas agrícolas e estabelecer as datas das festas religiosas - ao inventar a agricultura, o homem passou a ter a necessidade de plantar e colher nos momentos adequados. O calendário do céu, as fases da lua, a posição dos astros, as estações e a variação dos dias e das noites, tudo passava a ser fundamental para a vida das pessoas.
Tornando-se cada vez mais competentes, os sacerdotes-astrônomos eram capazes de antecipar as posições do Sol e da Lua e de fazer previsões de eclipses. Deles é que veio a descrição do céu que predominou durante muito tempo e a concepção de que o mundo era pequeno, fabuloso, dominado pelos deuses que se manifestavam mediante fenômenos naturais e no qual o homem desempenhava um papel central.


Torre de Babel (Pieter Bruegel)

Eles colhiam suas observações de observatórios conhecidos como zigurates, que eram torres quadradas de sete andares. Costuma-se explicar os sete andares das torres pela correlação com o número de "astros errantes" (planetas) então conhecidos: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno. O mais famoso zigurate foi a Torre de Babel, construída na cidade de Babilônia, o centro cultural da Mesopotâmia. Para a Bíblia, a Torre de Babel era o símbolo da presunção humana, no seu delírio de alcançar o céu.

Astrologia


E no céu havia ainda o espetáculo mítico e a imagem da imortalidade. Um subproduto desse conhecimento astronômico foi, com efeito, a edificação de um fantástico esquema de astrologia, pois se acreditava que os astros controlassem os destinos humanos. Notáveis eram os astrólogos caldeus, com predições que se referiam apenas à coletividade e ao rei, pois não se ocupavam, como atualmente, do destino dos indivíduos em função de sua data de nascimento. Foram os sacerdotes babilônios que fizeram o inventário das constelações do zodíaco, com sua divisão em doze signos, de trinta graus cada um, que serviam como referência para acompanhar a progressão dos planetas ao longo do ano.

A Imagem do Mundo para os Babilônios

Ter uma concepção acerca do Universo, mesmo de forma rudimentar, implica construir um modelo a partir da observação, acumulando informações sobre a trajetória do Sol, as fases da lua, a rotação de céu noturno, a mudança do clima, eventos que estão ligados ao cotidiano das pessoas e as orientam no espaço e no tempo.
Nem importa que as informações se misturem aos mitos - o modelo de uma época é o que se pôde elaborar nessa época.
A concepção dos babilônios sobre o mundo foi uma das mais importantes formulações da Antigüidade sobre o Universo, tendo por núcleo uma caixa, cujo fundo era a Terra. A Babilônia situava-se no centro da Terra, que era como um disco plano flutuando sobre o oceano, além do qual se seguiam montanhas celestes, que suportavam o Céu.

Deus Anu

Acima da Terra, estava o Céu, onde residia o grande deus Anu, e, embaixo, os infernos. Essa disposição vertical, em três andares, reflete a hierarquização dos personagens: o deus acima dos homens e estes, acima dos condenados.
(continua)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A HISTÓRIA DE UM TESTE (3/3)

SACAÇÕES RECIPROCADAS

Ingrid
acudiu-me com a notícia boa, e eu nem me lembrava do teste.

- Você a
rrebentou!

- Minha preferência e opinião foram aprovadas?

- O departamento de pessoal, o Depes, viu cultura assentada na frase preferida e
uma formulação extraordinária na questão opinativa.

- Formulação extraordinária, como assim?

- Ninguém contrapôs Fernando Pessoa a Einstein, antes de você.

- Mas eu não contrapus...


- Contrapôs, sim, com toda a propriedade. O DI...


- DI?


- Departamento de Inteligência. O DI deu um parecer reconhecendo que você tem toda a razão, pois o Livro do Desassossego e a Teoria da Relatividade constituem as duas sacações reciprocadas mais importantes do século XX.


- Sacações reciprocadas?

- Sim, Frank. O Livro do Desassossego é o contraponto literário da Teoria da Relatividade. Veja só esta passagem do Pessoa: " tudo que é alto passa alto e passa; tudo que é de apetecer está longe e passa longe". Não tem cara de relatividade poética e de poesia relativística?

Há muita coisa errada nesssa avaliação, que extrapola perigosamente todos os limites razoáveis. Não posso deixar prosperar esse julgamento incompetente, que me supervaloriza, pois adiante me cobrarão por isso.

- Não sei se o DI está de gozação, ou se falando sério. Apenas disse despretensiosamente, e sob a pressão de parecer que tinha uma opinião, que Fernando Pessoa e Albert Einstein eram grandes pensadores, mas não me ocorreu sugerir nenhum contraponto à Teoria da Relatividade, muito menos um contraponto literário. Não tenho capacidade, nem embocadura, nem aptidão, para fazer correlações dessa magnitude. A bem da verdade, nunca ouvi falar em sacações reciprocadas.

- Ora, Frank...

- Se há sacação reciprocada entre Einstein e Pessoa, trata-se de um caso típico de serendipidade, exatamente como nas descobertas da penicilina e do viagra.

- Serendipidade, qual nada, mérito seu. Não seja assim modesto. Outra coisa: quem é Zé?

Houve por aí o Zé da Zilda, o Zé Alencar e o Zé de Alencar, o Zé de Anchieta, o Zequinha de Abreu, tanto quanto o Zé de Abreu, o Zé do Patrocínio, o Zé Maria lateral, o Zé Kéti, o Zé Bonifácio de Andrada e Silva, o Zé Boquinha, o Zequinha Sarney, o Zé Trindade, o Zé de Arimatéia, o Zé Bové, a Maria José, Zeca Pagodinho e Zeca Camargo, Zé de Habsburgo, Paulo José, São José e inúmeros outros Zés, notórios e qualificados. Quem vai se interessar por um Zé que foi somente Zé? O melhor é dizer que o Zé é um modelo, um protótipo, encerrando o assunto sem maiores tergiversações.

Zé do Caixão

- Ingrid, é melhor esquecer o Zé.

- Esquecer?

- Esquecer, pois o Zé é um arquétipo, não um indivíduo em particular. Quis apenas fazer uma modesta homenagem aos homens inteligentes, grandes pensadores, que atravessam a existência no mais puro anonimato e perdem-se na primeira esquina do tempo. Ou, por outra, foi uma maneira de manifestar que houve numerosos grandes pensadores e que nomear três, sobre arriscado, não deixa de ser uma temeridade e, mais que isso, uma injustiça com milhares de pessoas extraordinárias cujos nomes simplesmente desconhecemos.

- Sem dúvida.
- Aquele pedaço de osso...

- É impossível saber qual pessoa pensou mais, não é óbvio? Como ter certeza de que não pensou mais o homem primitivo que primeiro pôs-se de pé ou aquele que usou pela primeira vez um pedaço de osso para defender-se? Ou o que percebeu a conveniência de usar o pedaço de osso como alavanca, para remover obstáculos e levantar pesos? E o outro, na imensidão do passado, que inventou a roda, combinando-a com a alavanca para formar o veículo, ou seja, a máquina de transportar? Como descartar os homens que inventaram o papel, a máquina a vapor, o guarda-chuva, os números indo-arábicos e o zero, a luz elétrica, o automóvel, a regra de Chió, o avião, o rádio, a bola de bilhar, o crivo de Eratóstenes, a semana inglesa, o computador, a curva de Gauss, o pedal da bicicleta, a televisão, o cordão dos sapatos, o teorema de Tales e o quadro-negro?

- Pode me chamar de Zé...

- E então?

- Digamos que o "Zé" é o meu genérico; toda vez que me ocorrer um grande pensador da humanidade, dele direi que é um ótimo Zé, eximindo-me do remorso de tê-lo omitido no teste da Maria Moretson.

.- Se Platão vier com alguma reclamação...

- Reclamação justa e pertinente. Eu lhe diria: não o esqueci de forma alguma, senhor Platão, pois você é o Zé, cuspido e escarrado.

- Zé Genérico, sim, senhor, você é muito prevenido!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A HISTÓRIA DE UM TESTE (1/3)

Exibir-me ou soçobrar

Estou no empreendimento, a desfrutar de todas as mordomias, por obra e favor da minha namorada, Ingrid Saint-Louis de Grevi. Em dois meses, ninguém exigiu nada de mim, tendo bastado minha presença e disponibilidade para o amor. Daí a surpresa, e desorientação, quando Ingrid me informou que eu teria de comparecer à sala de convenções, exatamente agora, para uma entrevista com Maria Moretson.

- Acho que você será submetido a um teste, por determinação do conselho de diretores.

-
Teste, como teste? Conselho de diretores? Sobre o quê?

- Não sei, mas você vai se sair bem, tenho certeza. É só caprichar...

-
Caprichar, como, se nem sei de que assunto se trata? Eu lhe disse, Ingrid, não sei se você se lembra, que fui reprovado no vestibular. Além de não ser nenhuma sumidade, sempre me dei muito mal nas provas.

- Teste? Que teste?

Dirijo-me à sala de convenções arrastando-me lentamente.
Condenado a exibir-me, sem nenhuma preparação ou confiança, mais uma vez vou cumprir o meu papel de perdedor inarredável. Pois o que faz uma pessoa numa prova? Exibe-se, e quem se exibe melhor tira nota maior.
Tudo ia tão bem. Entrou areia... A porta do barraco era sem trinco; você partiu de madrugada, não me disse nada, isso não se faz; eu sei que vou te amar, por toda a minha vida, vou te amar; boemia, aqui me tens de regresso e suplicante te peço a minha nova inscrição; eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar; se você não me queria, não devia me procurar; perdão foi feito para a gente pedir; caminhemos, talvez nos vejamos depois; eu não mereço a comida que você pagou para mim; interesseira, não amas ninguém; tinha cá para mim que, agora sim, eu vivia, enfim, um grande amor, mentira!

Teoria da Evolução

Charles Darwin
Exibir-me ou soçobrar, eis a questão...
Discuta a teoria da evolução, esse o tema da prova, e o Sidrônio, que desconhecia completamente o assunto, teceu vastas considerações sobre a palavra "evolução" e suas conotações. Citou Malthus, Jéan Renoir e Fernão de Magalhães, incluiu no arrazoado inconseqüente as façanhas carolíngias de Pepino o Breve, explicou como Demóstenes superou suas deficiências de orador, evoluindo de maneira importante, analisou a diferença entre academia e ateneu, outra evolução, e dissertou longamente sobre a esfera de Schwarzschild e as geometrias não-euclidianas, pois em tudo está presente a evolução, tanto que até as Escolas de Samba evoluem! Charles Darwin, um evolucionário de primeira linha, que seria dele e da Origem das Espécies, se não tivesse evoluído, e muito, nas longas e tediosas horas a bordo do Beagle?
Páginas e páginas de boas incongruências seguiu produzindo o Sidrônio, sandices e inutilidades, e tantas eram que o adequado seria atribuir-lhe um zero acachapante e definitivo.
Qual foi a sua nota, com efeito? Oito e meio, conceito A, pois o Sidrônio sempre foi um exibido competente.
Ele sabia, como ninguém, que o importante é ir ao infinito, gozando cada palavra, subjugando-a, para suprir a ausência de conhecimento e impor o continente sem nenhum conteúdo.


Vieira

Quem me dera ser o Sidrônio, uma vez que fosse...
Perguntam-me sobre os Sermões, de Antônio Vieira, que hei de fazer? Deixar correr a pena com desembaraço e falar sobre paz, amizade, amor, fraternidade, lealdade, generosidade, caridade, esperança e fé, muita fé, essas coisas que cultivamos nos discursos, apenas neles, e que nos emocionam até as últimas lágrimas. E, na seqüência, afirmar categoricamente que ninguém pode duvidar de que Vieira, talvez o maior escritor português do século XVII, tenha sempre se pautado pelos melhores valores, na luta insana pela plenitude e eternidade do homem. Quem persistir na dúvida que leia os Sermões, pois, sobre razões sólidas e decisivas, desfrutará do estilo colorido, inconsútil, coerente e vigoroso, a inconfundível marca do mestre Vieira...


Antônio Vieira

Inconsútil? Não, não, retiro esse "inconsútil" pretensioso e sem sentido, pois todo mundo irá perceber que nunca li nada de Vieira.
Eu conseguiria talvez um sete, quem sabe um sete, vírgula quatro?


Estrepei-me

Um Bonde Chamado Desejo

Mas a coisa não é rotunda assim. Infelizmente vão exigir de mim respostas desimportantes sobre coisas objetivas, ou melhor, respostas objetivas sobre coisas desimportantes, como o papa que em boa hora instituiu a missa do galo, a origem dos vertebrados, os anos de Margareth Tatcher no poder, em que cidade existiu um streetcar chamado Desejo, a cor da ametista, a importância dos capacitores nas instalações industriais, a deusa à qual foi dedicado o Paternon, a capital da Carolina do Norte, além de questões sobre equações trigonométricas, estátuas de Dorífero, econometria, línguas faladas em Vaduz, que é capital do Liechtenstein, teorema das forças vivas e os conjuntos transfinitos do matemático alemão George Cantor, o qual, pelo que sei e depreendo, não cantava em conjunto nenhum.
Você sabe o que é quiáltera?
Como se chama o estreito que liga o Mar Egeu ao Mar de Mármara?

Ah, Mogadíscio é capital de qual país africano?

Não sei nada disso, ou, para dizer numa palavra tudo, estrepei-me. Estrepei-me!
(continua)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

NEGOCIAR E VENCER

A GAROTA DA VITRINE

- Negociar, sim, mas este livro aqui é um tratado de cinismo, disse Ferdinando Olivares.

- Lendo sobre negociações até nos momentos de lazer, i
sso é que é deformação profissional.

- Não é para menos. Na nossa vida particular e doméstica, negociamos a cada instante, seja para comprar um apartamento, discutir um empréstimo, escolher um programa, um restaurante ou nosso lugar no avião. Negociamos nosso trajeto, com o motorista de táxi, e o mês das férias, com o nosso chefe. No lado profissional, a necessidade de negociar é ainda maior, seja nas aquisições de materiais, nas reuniões com outros profissionais, nas tratativas com os clientes e prestadores de serviços ou nas discussões de contratos.

- E esse livro?

- "Negociar e Vencer”
, de Nicolau Júnior. Não é curioso, Roberta?

- Como assim, curioso?

- Maquiavel era também Nicolau, só isso... Pois o livro ensina que negociar é manipular e enganar a outra parte. Não agüentei prosseguir, depois de dois capítulos. O primeiro trata dos “aforismos do negociador”, invocando até Sun Tzu, e o segundo, da “arte de refutar” com frases feitas e muito cinismo. Um autêntico manual para jogador de pôquer, que serve também para discutir futebol e para as provocações entre parlamentares. Quer ver?

Ai dos vencidos!

Aforismos do negociador, por Nicolau Júnior

Uns fazem as coisas acontecerem, mas para quase todos as coisas simplesmente acontecem.

Use seus pontos fortes contra os pontos fracos do adversário.

Ai dos vencidos!, disse o general Breno aos romanos, que reclamavam dos ônus de guerra.

Saiba a hora em que deve cantarolar.

O outro é o outro, e nunca se sabe do que é capaz.

Comece fazendo afirmações amenas e, se for censurar ou criticar, faça-o indiretamente.

Chegando a um impasse, mude; depois de mudar, triunfe.

Improvável é infinitamente menos que impossível.

Mentir, só se necessário.

Onde há vontade forte, não há dificuldades intransponíveis.

Fins nobres justificam meios heterodoxos e às vezes os consagram.

Cinco caminhos de Sun Tzu
Sun Tzu
(1) Toda arte militar baseia-se no ardil.

(2) Quando capaz, finge incapacidade.

(3) Quando perto, dá mostras de que estás longe; quando longe, de que estás perto.

(4)
Quando o inimigo for forte, evita-o.

(5)
Prepara uma isca para o inimigo, a fim de ludibriá-lo, e fisga-o.

A arte de refutar, por Nicolau Júnior

Se você quiser refutar o oponente, diga de:

uma tese, que é obscura;
uma na
rração, que é desinteressante;
uma descrição, que a ordem seguida é ilógica;
uma classificação, que há excesso de divisões e de quadros sinóticos;
uma analogia, que é muito sugestiva, mas inconsistente;
uma indução, que se trata de uma generalização audaciosa, mas indevida;
uma dedução, que contradiz todas as leis da inteligência;
uma racionalização, que deforma a realidade;

uma hipótese, que, com tantos “ses”, meteríamos o Himalaia numa lata de salsicha.
-Numa lata de salsicha!

Se o oponente apresentou fatos, refute-os com uma das pérolas a seguir:

esses fatos são atípicos;
esses fatos não são claros;
esses fatos são muito antigos;

esses fatos são muito recentes;
esses fatos não dão a idéia do conjunto;
esses fatos não dão idéia das partes;
esses fatos não têm relação de causa e efeito;

esses fatos apontam para os efeitos, mas não dizem sobre a causa;
esses fatos revelam as causas, mas os efeitos não são claros;
esses fatos são muito escassos;
esses fatos são superabundantes;
falta saber como esses fatos foram apurados, ou seja, falta tudo;
ora, os fatos!
- E os fatos que você ignorou ?

O caminho da competência

- Qual, então, a alternativa à manipulação, se temos de viver negociando em todos os momentos?

- A competência. O negociador deve saber
tudo sobre o assunto que está sendo negociado, não decidindo nada sem ter todas as informações relevantes. Por exemplo, é arriscado comprar um apartamento sem saber os preços de mercado, como arriscado e desnecessário ficar improvisando soluções para questões para as quais há cláusulas contratuais "de mercado", resolvidas em contratos anteriores. Competência se obtém com informação.

- Um trabalho a mais, esse de ser competente para negociar.

Maquiavel

- O preço que se paga para não ser enganado. Fundamental é conhecer todas as implicações da negociação, como especificações, prazos, condições de pagamento, taxas de juros, garantias e outras questões envolvidas. Tentar encontrar uma solução equânime, com base nos preços de mercado e nas cláusulas de mercado, não aceitando condições sem estudá-las, nem prazos enganosamente curtos ("phony deadlines") para decidir sobre os assuntos da negociação. A competência pressupõe rigorosa preparação por parte do negociador: ninguém deve sentar-se à mesa como o sabichão que decide tudo de sopetão, ex-abrupto, pois as soluções contratuais nunca podem ser improvisadas.

- A não ser pelas vítimas do Nicolau Júnior.

Roberta e Ferdinando


- Você entendeu a questão. Vamos ver o filme da Claire Danes?

- Prefiro o do Antonio Banderas.

- O filme que estou sugerindo baseou-se num conto do Steve Martin e é protagonizado por Claire Danes, por Jason Schwartzman e pelo próprio Steve Martin. Dirigido por Anand Tucker, o tailandês que fez "Hilary e Jackie". Só escolhi esse filme porque você gostou muito do Steve Martin em "Cliente morto não paga" e "Os safados", lembra-se?

- Tudo bem, vamos ver a Claire Danes.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

TEORIA E PRÁTICA

O problema

Imagine você discutindo o negócio da sua vida. No lado antagônico da mesa, representa a outra parte um hábil e qualificado negociador internacional, Alexander O. Tracy, que estudou no MIT, foi empresário do Frank Sinatra, negociou a libertação dos prisioneiros no Iraque e ganha, da Sunshine, 79 mil dólares por mês, fora os bônus de balanço, que multiplicam muito sua remuneração nominal.

Alexander O. Tracy

Sem nenhum prefácio, O. Tracy deixa claro para você que a Sunshine Corporation não aceita menos de 53 por cento da receita bruta, conforme circular em suas mãos, tendo em vista os problemas com os contratos de “subprime”, a alta da taxa de juros na China, a situação do Oriente Médio, tão instável, e a escalada dos preços internacionais dos aços planos. Mr. Tracy precisa fechar o negócio com urgência, pois viajará no dia seguinte para Nova York, onde tem um encontro social com Alberto de Mônaco e um contrato a discutir com o presidente da FIFA.

- Há, no logaritmo do aço, muita característica e pouca mantissa. Seu preço subiu 175 por cento, de dezembro de 2005 a dezembro de 2007, sem contar as oscilações do câmbio. E como ficam as pesquisas, a capacidade de investimento e o "dividend yield" dos nossos acionistas?

- Tudo bem, não se pode esquecer dos logaritmos. Mas tem de ser 53 por cento?

- Já se fala em 74 por cento, nas futuras "joint-ventures", se não for mais!


Que devo fazer?, perguntará você, que tem a responsabilidade de conceder 30 por cento da receita bruta, não mais.

Na teoria

"Que devo fazer?" é uma excelente pergunta, o que mostra que você está no caminho certo, mas saiba, desde já, que negociar é a arte de acertar um negócio com competência.

- Entendo, competência...

Karl Friedrich Gauss
- Competência, sim, preparo, poligrafia. Você é capaz de enunciar os postulados de Euclides? Calcular a esperança matemática dos projetos de risco? Redigir em alemão e iídiche, discorrer sobre os Grandes Lagos e as ilhas de Kiribati e traçar isópacas? Sabe de cor os afluentes da margem esquerda do Rio Solimões, os teoremas de Green, Stokes e Gauss, distingue kwanza de metical, sabe programar em linguagem de máquina e está suficientemente habilitado para dar uma aula dentro de cinco minutos sobre as três conjugações do latim vulgar na Península Ibérica?

- Bem...

- Se, de fato, sabe todas essas coisas, meus parabéns. Calma, todavia, pois, além de competente, você tem de ser flexível, criativo, educado e seguro de si. Por quê? Não se esqueça que do outro lado da mesa está Mr. O. Tracy, ou seja, alguém com uma competência equivalente à sua, e o encontro de competências pode gerar um impasse inconveniente.
Inconvenientíssimo!

- Ele diz 53 por cento, e eu contraproponho 30 por cento, mas com toda a educação.

- Para superar o impasse, você terá de mostrar flexibilidade, criatividade e controle psicológico. Não ceder mais que o necessário, nem frustrar o negócio, pois é essencial preservar tanto o contrato quanto o interesse da parte que você representa, sem melindrar a Sunshine, nem Mr. O. Tracy, que, além de tudo, é um profissional respeitável. Saber negociar é, pois, fundamental: se um raio cair na sua cabeça, esteja certo de que não negociou adequadamente o seu lugar na chuva...Entendeu?
Na cabeça...
- Creio que sim.

- Ótimo, pois será chamado a negociar daqui a alguns dias.


Na prática

Quando tocou a vez do quinto postulado, declarei que por um ponto do plano fora de uma reta pode-se traçar uma paralela a essa reta, e somente uma.


- Como assim?, estranhou Mr. Henry Power. Por um ponto exterior a uma reta, não podemos traçar nenhuma paralela a esta reta, na geometria de Riemann, ou podemos traçar uma infinidade de paralelas a essa reta, na geometria de Lobachevski.

Cachimbo de Mr. Power

Quanto aos afluentes do Solimões, eu sabia o Javari, o Jutaí, o Juruá, o Purus e o Japurá.

- Você se esqueceu do Içá, disse-me Mr. Power.
Elsa Martinelli
Foi então que pensei: estou num filme do Godard ou num enredo do Jorge Luís Borges, quem sabe num safári com a Elsa Martinelli, e não numa roda de negociação. Além disso, nada sei sobre o teorema de Green, e esse cara vai me impingir 53 por cento, ao perceber que sou um otário, de uniforme e carteirinha. Ora se vai. Fui me levantando, meio sem graça, escafedendo-me porta afora.

- Adeus, para nunca mais, que preciso me recolher ao futuro. Good afternoon.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

FRACASSOS INAUGURAIS

No vestibular

Há anfibologia na oração “Lisandra conversou com o general no seu escritório”? Que construção latina está presente na frase “Sócrates deixou-se envenenar”? Houve justaposição em “justaposição”? Qual a função de “como” e “se” em “veja como o tempo voa” e “não sei se está chovendo”? Qual o plural de viés? O mal-humorado está de mau humor, e o malcriado faz má-criação, como pode? Construa uma oração que contenha silepses simultâneas de gênero, número e pessoa, e outra, na qual figurem as palavras pateta, patética e peripatética. Por que a palavra extra-oficial tem hífen, e extraordinário, não?

Silepses simultâneas?

Esse exame abateu-me de forma definitiva. Por quem me tivestes, gente ímpia, se eu era apenas um candidato a estudar as leis do meu país? Como saber como e se, se não sei como? Que justaposição pode haver em "justaposição"? E você, Lisandra, que fazia no escritório com o general? Jamais pensei que você capaz de uma anfibologia, ora veja, você e o general, anfibologia, impunemente, não importa de quem seja o escritório! Construção latina, só faltava essa, construção latina!

- Patética, pateta, peripatética?

- “A morte trágica é patética, caro pateta, disse Epaminondas, caminhando, peripatético, pelo necrotério”, essa a construção do aluno que obteve a primeira colocação no vestibular, o mesmo que, na questão das silepses, afirmou que “a gente somos brasileiros”. Eu, hein?


Com Nabucodonosor


Depois do fiasco vestibular, no desespero e a custa de vigílias intermináveis, escrevi uma peça de teatro, a qual, todavia, ninguém se dispunha a ler, pois todos andavam ocupados, ou não entendiam nada de teatro, muito menos de poderosos na hora da agonia. Meu reino, todo o meu reino, passou a ser oferecido por um escasso leitor de qualquer procedência e qualificação.

Nabucodonosor

À porta da escola de teatro, consegui finalmente aliciar uma alma caridosa, não sei se professor ou se aluno, mas vestido de Nabucodonosor, que a custo aceitou ler a obra que faria a minha redenção. Quarenta minutos, em pé, esperando nervosamente por um “genial”, um “muito bom!” ou, pelo menos, alguma coisa como “você leva muito jeito para a coisa”. O veredicto do Nabucodonosor encerrou, porém, minha carreira de dramaturgo.

- Sinto muito, mas esta peça, sobre a última hora de um soberano moribundo, foi escrita por Ionesco.

Eugène Ionesco
- Escrita por Ionesco?

- Sim, quatro décadas atrás.

Sou culpado de outros, muito apressadinhos, redigirem, antes, tudo que tenho para redigir agora. Donde se conclui gloriosamente que não sou capaz de criações, mas de descobertas.


- Ionesco, mas quem é Ionesco?

- Se você não sabe de Ionesco, é melhor desistir do teatro, sentenciou o único leitor que tive na vida, grave e irritado dentro de suas vestes coloridas.

Lamentei o azar, mas segui à risca o conselho do Nabucodonosor, pois, teatro, nunca mais.

No futebol

Tentei depois a carreira de árbitro de futebol, ingressando numa escola de treinamento da federação de esportes do Rio de Janeiro. A mim me pareceu que o árbitro era um homem só, alinhado exatamente com os meus fundamentos pessoais. Cheguei, porém, à vasta conclusão de que o futebol é incompatível com as próprias regras. Não sou nenhum Heisenberg, mas criei o princípio da indeterminação das quatros linhas:

Ou o árbitro aplica as regras ou o jogo fluirá com normalidade.

Indeterminação

Quando enunciei o princípio, apesar de toda a sua objetividade e clareza, ninguém foi capaz de entendê-lo. Ora, direis, e direis muito bem. Resultado: fui sumariamente desligado da escola de treinamento de juízes de futebol. Posso imaginar o que aconteceria se, na ocasião, a mim me coubesse o privilégio de explicar o verdadeiro princípio da indeterminação, o da física quântica: além de demitido, eu teria sido internado num hospício!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

MÚSICA, GEOMETRIA E FOME

Música

Pitágoras, que nasceu entre 571 a. C. e 570 a. C. e morreu provavelmente em 497 a.C., defendia que as distâncias planetárias correspondem à música que os planetas tocam por meio de suas liras, sendo certo que, entre a Terra e a Lua, há um intervalo musical de um tom; entre Júpiter e Saturno, de um semitom, e assim por diante. Os homens, salvo o próprio Pitágoras, não podiam ouvir a música dos astros, por estarem imersos dentro dela.

- O universo é uma orquestra...

Pitágoras
Geometria

A idéia da música planetária iria renascer, mais de vinte séculos depois, com Johannes Kepler (1571-1630), que, a princípio, quis encontrar a perfeição geométrica do Universo, não sua perfeição musical. Seus cálculos matemáticos pretendiam mostrar que os seis planetas então conhecidos (Urano, Netuno e Plutão eram desconhecidos naquele início do século XVII) guardavam intervalos correspondentes aos cinco sólidos platônicos (sólidos perfeitos, cujas faces são iguais), a saber, tetraedro ou pirâmide, constituído de quatro triângulos equiláteros; cubo, de quatro quadrados; octaedro, de oito triângulos equiláteros; dodecaedro, de doze pentágonos; e icosaedro, de vinte triângulos equiláteros.

Johannes Kepler

Kepler passou vários anos fazendo contas, sem êxito, mas nesse processo exaustivo, e num caso típico de serendipidade, descobriu as três leis de Kepler, fundamentais para a astronomia:

Primeira Lei de Kepler: o planeta em órbita em torno do Sol descreve uma elipse em que o Sol ocupa um dos focos;

Segunda Lei de Kepler: a linha que liga o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais;

Terceira lei de Kepler:os quadrados dos períodos de revolução dos planetas são proporcionais aos cubos dos eixos máximos de suas órbitas.

Primeira e Segundas Leis de Kepler
A reação

Antes disso, desde Platão, considerava-se que os planetas descreviam órbitas circulares, dentro da premissa de que "Deus só faz coisas perfeitas". Para contornar as discrepâncias entre os círculos e as órbitas reais, os astrônomos até então recorriam aos epiciclos, círculos subsidiários, hipotéticos, que os planetas percorriam no decurso de seu trajeto pelo círculo principal. Copérnico, que colocou o Sol no centro do sistema planetário e fez a terra girar em torno dele, não abandonara a idéia do círculo. Daí a reação de perplexidade e indignação suscitada pela Primeira Lei de Kepler. Em 11 de outubro de 1605, o clérigo e astrônomo David Fabricius escreveu uma carta para Kepler, com a seguinte recomendação:

"Com tuas elipses, aboliste os círculos e a uniformidade dos movimentos, o que me parece cada vez mais absurdo sempre que penso nesse assunto. Seria muito melhor se pudesses ao menos preservar a órbita circular perfeita e justificar tua elipse com um pequeno epiciclo."

Fome

Após suas descobertas revolucionárias, Kepler escreveu a "Harmonia do Mundo", uma obra abrangente, com temas sobre geometria, música, astronomia e astrologia. E nela retomou a concepção pitagórica de harmonia musical no Universo, os planetas ressoando com a música das esferas, de acordo com suas distâncias ao Sol, numa sinfonia em que a Terra emitia as notas fá e mi.

Em 1618 teve início a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), um conflito religioso que envolveu profundamente a Alemanha, e, para ironizar a situação, Kepler escreveu:

"A Terra está cantando mi, fá, mi, donde se conclui que nosso principal problema é a fome."

As palavras "fá" e "mi" se juntam na palavra latina "fames", de modo que "mi, fá, mi" valeria por "mim tem fome", essa a opinião de Kepler sobre a verdadeira questão do nosso planeta.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

LIÇÕES DE SABEDORIA

Na alfaiataria

Numa cidadezinha distante, nas bandas mineiras de eu menino, havia um alfaiate, o Zé, que gostava de comentar sobre religião, ciência e filosofia.
Muitos freqüentavam a alfaiataria só para ouvir suas dissertações bem-humoradas e eruditas. Não sei explicar como adquiriu tanta cultura, num ambiente em que os temas raramente ultrapassavam o futebol e os concursos de beleza. Alguns diziam, com malícia, que passava as noites acordado, estudando o que iria comentar de dia. Pode ser, mas o Zé era muito bom no improviso, fazendo digressões sobre questões pontuais e inesperadas, que sempre surgiam no meio de uma conversa qualquer.

Voltaire, François Marie Arouet de

Tema complicado, se ciência ou filosofia, era exatamente com ele. Mito da caverna e mito da linha dividida, que chamava de "as alegorias de Platão", evolução das espécies e seleção das variações vantajosas, o espaço-tempo de Einstein, as geometrias de János Bolyai e Lobachevsky, espirais gnômicas, tempo de Planck, a importância do Código de Napoleão, Avicena, Isaac Newton Faz-Tudo... Ah, a universalidade de Voltaire, cujo nome o Zé só mencionava por extenso, François Marie Arouet de Voltaire, a seu juízo o mais brilhante e divertido conversador de todos os tempos e o mais prolífico de todos os escritores, com uma impressionante obra de trinta mil páginas. Trinta mil páginas! E ainda tinha tempo para conversar!

Hidropsia
Empédocles
Heráclito
Jamais me esquecerei das histórias engraçadas sobre personagens históricas, que ele contava sacudindo a tesoura, como a do pretensioso Empédocles de Agrigento (“tudo é formado de água, ar, terra e fogo”), que, para provar sua imortalidade, atirou-se do Etna, desaparecendo cratera adentro; ou a do irritado Heráclito de Eféso (“a natureza ama esconder-se”), que só se alimentava de ervas e um dia enterrou-se no esterco, até o pescoço, para curar-se de uma hidropsia, esclarecendo o Zé, com toda a autoridade, que a hidropsia é uma retenção patológica de água na cavidade abdominal. Ali Heráclito permaneceu resignadamente até a morte, “pois os médicos são ignorantes e não conseguem promover uma seca após uma inundação”.

- Morreu na merda, arrematava divertidamente o Zé.

- E a história de Hipassus?

- Hipassus cometeu o crime de divulgar a existência dos números irracionais, um segredo pitagórico, e foi atirado ao mar pelos seus colegas da Escola de Pitágoras. Numa outra versão, mais amena, Hipassus foi apenas expulso da comunidade, mas Pitágoras fez erigir um sepulcro com o seu nome.

Assertividade

Lembro-me também da insistência do Zé sobre a importância de ser assertivo.

- O bobo passa por sábio , se falar pouco, mas com estilo e assertividade. Com assertividade, não importa o assunto. Não importa mesmo!

Seus exemplos prediletos de assertividade estavam na história e na literatura:

Álvares de Azevedo

Lamentando: Que fatalidade, meu pai!

Hesitando: Ser ou não ser, eis a questão.

Fulgurando: O estado sou eu.

Deduzindo: Penso, logo existo.

Triunfando: Vim, vi e venci.

Osório

Morrendo: Quero morrer no meu posto!

Seduzindo: Do alto destas pirâmides quarenta séculos vos contemplam.

Liderando: Sigam-me os que forem brasileiros!

Negociando: Meu reino por um cavalo!

José do Patrocínio

Metamoforizando: Deus me deu sangue de Otelo para ter ciúme da minha pátria.

O que restou do Zé

Zé de Alencar
O Zé,
perdido no interior do Brasil, reunia platéias sem saber cantar nem jogar futebol, contava histórias sobre a inteligência humana e sabia mostrar o lado fascinante da cultura. Houve por aí o Zé da Zilda, Zé de Anchieta, Zé Alencar e Zé de Alencar, Zé Kéti, Zequinha e Zé de Abreu, Zé do Patrocínio, Super Zé Maria, Zé Bonifácio de Andrada e Silva, Zé Boquinha, Zequinha Sarney, Zé de Arimatéia, Zé Bové, Zeca Pagodinho e Zeca Camargo, Zé de Habsburgo, Paulo José, São José, Maria José e inúmeros outros Zés, qualificados e bem-sucedidos.
Mas do Zé, que é some
nte Zé, o que ficou foi
uma vaga lembrança.